domingo, 26 de abril de 2020

Trump a ser (demasiado) Trump

Daqui a pouco mais de meio ano, os norte-americanos terão de escolher o seu presidente, sendo ainda incerta a forma como essa eleição decorrerá, já que o novo coronavírus veio alterar drasticamente a dinâmica social com óbvias implicações nas deslocações em massa aos locais de voto. A própria campanha eleitoral está praticamente parada, sem possibilidade de se realizarem comícios, com as convenções partidárias suspensas e provavelmente a terem de vir a decorrer em moldes muitos diferentes do habitual e com o presumível nomeado democrata, Joe Biden, em isolamento social, na sua residência, limitado a vídeos pouco elaborados e a publicações nas redes sociais.
Numa situação como esta, o palco está inevitavelmente entregue ao presidente, Donald Trump, que tem a vantagem de poder aproveitar o seu cargo para se manter debaixo dos holofotes e evitar um afastamento mediático como acontece com o seu adversário. A vantagem da incumbência na gestão de crises em períodos próximos eleitorais é normalmente bem aproveitada pelos presidentes, como se viu, recentemente, com o papel desempenhado por Barack Obama na resposta ao furacão Sandy, antes das eleições presidenciais de 2012 e que foi vista, por muitos analistas, como fundamental para "descolar" de Mitt Romney nas sondagens.
Donald Trump chegou à Casa Branca através de uma campanha de one man show e sempre contou com o seu carisma e a sua imagem como principal marca para atrair um eleitorado à procura de alguém que os representasse e que não se revia nos políticos tradicionais. A sua elevação desde figura de excêntrico mogul nova-iorquino até ao estatuto de líder do Partido Republicano é muito explicada pelo seu factor novidade e pelo espectáculo que proporcionava qualquer uma das suas aparições públicas, em especial os seus comícios diante de multidões entusiastas e em que falava de improviso, quebrando todos os padrões do que era politicamente correcto (e aceitável). 
Ora, a essência espectacular, imprevisível e disruptiva de Trump fez com que todos os seus eventos fossem seguidas com enorme interesse pelos media, a necessitarem desesperadamente de fontes de audiência (que Trump lhes proporcionava). A CNN, por exemplo, seguia em directo todos os comícios do então nomeado republicano. Donald Trump tinha perfeita noção do interesse que despertava e divertia-se a atrasar as suas entradas em palco apenas para se deliciar com as imagens em directo de um pódio vazio que todas as cadeias noticiosas transmitiam. Com base no seu poder de atracção e na curiosidade que despertou, conseguiu milhares de horas de publicidade grátis em todos os meios de comunicação social norte-americanos (e não só), poupando, assim, dinheiro fundamental que a sua campanha pôde investir, com o sucesso conhecido, em publicidade nas redes sociais.
Foi, por isso, sem grande surpresa que vimos Donald Trump chamar a si a principal responsabilidade na comunicação perante o país sobre o combate que os Estados Unidos estão a desenvolver face à pandemia da Covid-19. Se inicialmente Donald Trump menorizou a ameaça daquilo a que chamava o "vírus chinês" (agora diz que o fez para não criar pânico), durante o mês de Março mudou de estratégia e assumiu a gravidade do problema, começando a realizar briefings diários na sala de imprensa da Casa Branca para relatar ao pormenor todas as facetas da resposta do Estado Federal norte-americano à epidemia do novo coronavírus.
Inicialmente, os números de aprovação do trabalho do presidente subiram ligeiramente e, em especial, a resposta da Administração Trump à crise de saúde pública recebia nota positiva de uma maioria da população. Podia parecer, por isso, que o Presidente estava a sair-se bem em plena pandemia e que, assim, as suas hipóteses de reeleição sairiam fortalecidas desta situação. Contudo, é preciso recordar que, em tempos de crise, é normal o sentimento de rally around the leader e que os números dos líderes políticos costumam subir após provações de nível nacional. Vejam-se, por exemplo, os números estratosféricos de George W. Bush após o 11 de Setembro ou a subida de praticamente todos os índices de aprovação dos principais líderes europeus no auge da luta contra a Covid-19.
Depois, Trump foi Trump e acumulou erros e gaffes sucessivos nas suas conferências de imprensa e os seus números voltaram a descer. Recentemente, a sugestão de se realizarem injecções de desinfectante como uma possível forma de combater o vírus foi a gota de água e obrigou-o a ceder aos conselhos do seu staff e a diminuir a frequência e a duração da sua presença nas conferências de imprensa diárias da Casa Branca. Trump, que, ao contrário de todos os presidentes norte-americanos, nunca se preocupou em estudar de forma aprofundada os dossiers - prefere confiar no seu instinto -, foi posto à prova perante jornalistas experimentados, ficaram à vistas as suas constantes e flagrantes contradições e perdeu em comparação com os governadores estaduais que, maioritariamente, se mostraram mais informados, menos partidários e mais propensos a decidir com base em factos e em conselhos técnicos do que o presidente.
Podemos, por isso, afirmar que podemos, pela primeira vez, ter assistido ao momento em que houve Trump a mais. Ora, como sabemos que o actual ocupante da Casa Branca acredita ser a solução para todos os problemas de comunicação da sua campanha ou administração, este pode ser um momento decisivo para Donald Trump. 
No filme World War Z, ironicamente sobre uma pandemia causada por um vírus, a personagem principal, interpretada por Brad Pitt, descobre que a principal força do vírus (a capacidade de ignorar portadores doentes e fracos) é, também, a principal fraqueza que podem explorar, infectando os sobreviventes com doenças curáveis e, assim, evitando a infecção pelo vírus. Será que a principal força de Trump - a sua omnipresência mediática - também se virá a revelar como a fraqueza que o irá acabar por derrotar?

terça-feira, 14 de abril de 2020

Obama apoia Biden

Barack Obama e Joe Biden mantiveram sempre, ao longo dos seus oito anos em conjunto na Casa Branca, uma excelente relação, tanto pessoal como profissional. A química entre os dois foi evidente e permitiu uma convivência pacífica e sem os atritos que marcaram outras relações entre Presidente e Vice-presidente na história da política norte-americana.
Apesar de Biden ter sido o seu Veep e de serem amigos, Obama não quis nunca ser visto como a intrometer-se na decisão das primárias do seu partido, muito menos a declarar o seu favorecimento a qualquer candidato, nomeadamente ao seu antigo vice. Chegaram mesmo a circular alguns rumores que davam a entender que Obama não via Joe Biden como a pessoa mais indicada para fazer face a Trump e que não estava impressionado com a campanha do antigo senador do Delaware. 
Mas, agora que Joe é o presumível nomeado do Partido Democrata, Obama não tinha por que se manter na rectaguarda e veio, num vídeo divulgado hoje, anunciar publicamente o seu apoio a Biden, deixando um claro contraste para com Donald Trump e apontando para o extenso currículo do seu antigo running mate.
Ao alcançar a nomeação, Joe Biden "liberta", assim, um dos seus mais poderosos trunfos na campanha que se avizinha, pois Barack Obama conta com bons níveis de popularidade entre os norte-americanos, é um orador de excelência e será importante na mobilização do eleitorado democrata, em especial o afro-americano, o que poderá ser decisivo em Novembro. Nessa altura, veremos se o apoio de Obama fez ou não a diferença na luta pela Casa Branca.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

À procura da vice de Biden

No seu último debate com Bernie Sanders, a 15 de Março, Joe Biden anunciou que escolheria uma mulher para sua vice-presidente, pelo que teremos um ticket misto do lado democrata face à dupla WASP formada por Donald Trump e Mike Pence. Esta foi uma excelente manobra política do antigo vice-presidente, pois dominou a narrativa (Bernie Sanders foi atrás e disse que faria o mesmo), recebeu elogios por algo que era inevitável e reduziu drasticamente o leque de opções para a sua decisão, poupando, assim, tempo e recursos a vetar nomes masculinos que nunca seriam escolhidos.
Apesar de a importância dos vice-presidentes variar de administração para administração, consoante o portfolio que é atribuído ao Veep, a escolha de Joe Biden reveste-se de importância acrescida, pois um dos segredos mais mal guardados da sua candidatura é que, caso eleito, Biden apenas governará durante um mandato, abdicando de se recandidatar, em 2024, caso vença a eleição deste ano.
Assim sendo, caso o ticket democrata saia vencedor em Novembro, a vice-presidente de Joe estará, muito provavelmente,  na pole position para as primárias democratas de 2024, partindo de uma excelente posição para suceder ao seu presidente. Assim, e não obstante ainda faltar algum tempo para conhecermos a candidata vice-presidencial democrata, importa começar a pensar nas principais potenciais candidatas a concorrerem em conjunto com Biden. 
Na altura de escolherem o seu vice, os candidatos presidenciais procuram, por norma, figuras que os complementem, que possuam características que supram as suas fraquezas, que expandam o seu apelo eleitoral, seja por atraírem um determinado grupo eleitoral ou por trazerem um vanjatoso home effect num swing state.
Assim, candidatos com menos currículo costumam escolher políticos experientes (exemplos como os de JFK, Bush 43 ou Obama) e concorrentes mais velhos procuram um running mate que transmita juventude e vivacidade (recentemente, tivemos os casos de McCain ou Romney). 
Por outro lado, também acontece que os candidatos procurem escolher vices que sejam de um espectro político-ideológico diferente e que complemente o seu apelo eleitoral. Não admira, por isso, que Trump tenha escolhido Mike Pence, uma figura do establishment republicano e que transmitiu segurança ao eleitorado evangélico, e foi, por isso, essencial para segurar a base do seu partido. 
Na escolha vice-presidencial pode também ser tido em conta o home state do candidato, pois se o escolhido for oriundo de um estado decisivo isso pode dar um ímpeto decisivo para a vitória dos votos eleitorais atribuídos por esse mesmo estado.
Mais recentemente, os candidatos à Casa Branca veem a o género e a raça como factores importantes na escolha do seu parceiro na corrida, de forma a criarem um ticket multifacetado para passarem uma mensagem de inclusão e promoverem o voto da minoria respectiva. Este factor é, por norma, mais importante para os democratas e é o caso específico de Joe Biden.
Já sabemos, por isso, que a nomeada vice-presidencial democrata será uma mulher. Ainda não sabemos, porém, o nome da escolhida, o que não acontecerá antes do Verão. Isso não invalida que se comecem a fazer as primeiras previsões e a CNN apresenta uma lista do top-ten das principais candidatas. Concordo, em geral, com esta lista e em especial com as duas primeiras classificadas, que me parecem, de facto, as mais bem posicionadas para acompanharem Biden no ticket do Partido Democrata.
A Senadora Kamala Harris tem sido apontada, desde que desistiu da sua candidatura à Casa Branca, como a principal favorita ao lugar de Veep de Biden. É jovem, traz já a experiência da corrida deste ano, provou ser competente nos debates televisivos e, acima de tudo, é afro-americana. Ora, se houve coisa que ficou provada nas mais recentes eleições é que os democratas dependem muito da afluência às urnas em grande número dos eleitores afro-americanos. Por isso, a presença de uma negra no ticket democrata seria, sem dúvida, uma excelente motivação para que isso acontecesse.
Por sua vez, Gretchen Whitmer tem vindo a subir nas casas de apostas e é vista, agora, como uma possível nomeada vice-presidencial. A sua resposta à crise da COVID-19 enquanto governadora do estado do Michigan trouxe-a para a ribalta e os ataques constantes de que é alvo por parte de Donald Trump só fizeram subir o seu perfil mediático e a solidariedade democrata. A sua juventude é um bom contraponto aos 77 anos de Biden e a sua nomeação daria uma importante vantagem aos democratas no decisivo Michigan. 
É óbvio que ainda é muito cedo para apontar com certeza a escolhida por Joe Biden,  Contudo, se a escolha tivesse de ser feita hoje, ficaria muito surpreendido se a opção não recaísse numa destas duas mulheres.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

It's Joe!

Bernie Sanders anunciou ontem a suspensão da sua campanha presidencial, deixando Joe Biden com o caminho aberto para a nomeação presidencial. Se já o era de facto, Biden é agora oficialmente o presumptive nominee do Partido Democrata e, salvo um acontecimento excepcional, será o adversário de Donald Trump na eleição geral de Novembro.
Era evidente para todos que Bernie tinha perdido as hipóteses de vitória depois da Super Tuesday e das eleições que se seguiram. Com todo o establishment democrata a cerrar fileiras em torno do seu adversário, o senador independente pelo Vermont viu a sua coligação de eleitores - jovens, liberais e hispânicos - ser insuficiente para conseguir a maioria em qualquer primária. Assim, era uma questão de tempo até Joe Biden selar a nomeação, o que poderia até apenas acontecer na convenção nacional do partido. 
Mas, e como se viu em 2016, Bernie Sanders poderia não querer baixar os braços e manter a sua candidatura até ao fim, de forma a amplificar ao máximo a transmissão da sua mensagem liberal. Só que, desta vez, Bernie optou por atirar a toalha ao chão, provavelmente por dois grandes motivos. Em primeiro lugar, a pandemia da Covid-19 retirou-lhe o palco e a atenção mediática que precisava. Com os comícios cancelados e com os media e a opinião pública totalmente focados na crise epidémica, não tinha meios nem público para a sua mensagem. Em segundo lugar, Sanders não quer repetir o que se passou em 2016 e entende que só um partido unido poderá derrotar Donald Trump. Se há quatro anos se pensava que o nomeado democrata seria o eventual vencedor (as hipóteses de uma vitória de Trump não eram levadas a sério), agora os democratas percebem que é imperioso derrotar o actual ocupante da Casa Branca e, por isso, Sanders não quer correr o risco de ficar para a história como um dos grandes responsáveis por oito anos de uma administração Trump.
Até Novembro, os democratas terão mais de meio ano para unir o partido em redor da candidatura de Joe Biden. E, aí, Bernie Sanders terá um papel importante. Numa primeira fase, vai ter de evitar a debandada dos seus apoiantes, como aconteceu, em grande parte, há quatro anos. Depois, será importante na definição da plataforma eleitoral do partido, pois conquistou um lugar de relevo na posição ideológica democrata e, além disso, o partido terá de ser visto a aplacar ideias do movimento de Sanders para convencer os seus apoiantes a irem em força às urnas, em Novembro.
Bernie Sanders pode não ter conseguido uma campanha com tanto sucesso como a de há quatro anos, mas a sua carreira política só pode ser vista como um enorme triunfo. Até há poucos anos, era visto como uma figura menor, um senador de um pequeno Estado com ideias radicais. Todavia, actualmente, Bernie transformou a sua ideologia num movimento fundamental para a transformação do Partido Democrata num partido mais progressista. As suas ideias deixaram de estar limitadas a uma pequena franja para serem discutidas e aceites no sistema mainstream. Ainda é cedo para dizer, mas é possível que, daqui a algum tempo, se diga que o movimento de Bernie esteve para os democratas como o Tea Party esteve para os republicanos.
Mas, agora, as atenções viram-se para Joe Biden, que terá a responsabilidade de evitar um segundo mandato de Donald Trump, provavelmente o presidente republicano mais odiado de sempre pelos democratas. E é certo que Bernie tudo fará para que seja Biden o 46º presidente dos Estados Unidos.

terça-feira, 17 de março de 2020

O fim da estrada para Bernie Sanders

A pandemia do Covid-19 está a paralisar praticamente o mundo todo (em especial o hemisfério Norte) e os Estados Unidos já não são excepção, desde que a administração Trump fez meia-volta e declarou este corona vírus como uma grande ameaça à saúde pública. 
Naturalmente, numa situação de emergência como esta, até às importantes eleições primárias ficam para segundo plano e podem mesmo ficar numa espécie de stand-by, pelo menos até se ultrapassar a pior fase desta epidemia. 
No passado Sábado, decorreu um debate televisivo entre Joe Biden e Bernie Sanders, os dois últimos candidatos (além da irrelevante Tulsi Gabbard) à nomeação presidencial pelo Partido Democrata. Como não podia deixar de ser, o tema Covid-19 ocupou grande parte da discussão, o que levou, com naturalidade, a que os dois concorrentes esgrimissem argumentos sobre as sua visões para o serviço de saúde norte-americano. Sanders, um defensor acérrimo de um serviço de saúde universal, à europeia, colidiu com a visão mais "americana" de Biden, que apoia um serviço de saúde prestado por privados, reforçando as medidas de regulação e protecção criadas pelo Obamacare.
Além disso e de alguma discussão em torno do historial de voto de Joe Biden, que terá sempre alguma dificuldade em defender o seu perfil moderado no Senado numa época em que os democratas são significativamente mais progressistas do que até há 12 anos, quando Biden abandonou a câmara alta, o debate de Sábado pouco acrescentou. A maior novidade terá sido mesmo o anúncio de Biden de que escolherá uma mulher para sua vice-presidente. Surpreendido pela decisão do seu adversário, Sanders praticamente prometeu fazer o mesmo, pelo teremos um ticket misto do lado democrata.
Hoje mesmo decorrerá uma nova ronda de primárias, ainda que com uma baixa. Com efeito, o governador republicano do Ohio decidiu suspender as primárias no seu Estado, apesar de uma decisão judicial em sentido contrário, por causa do epidemia do Covid-19. Pode parecer uma decisão sensata, mas é sempre preocupante vermos um político a cancelar uma eleição (ainda por cima do partido oposto ao seu) indo contra uma decisão de um tribunal, pondo em causa o sistema de checks and balances da democracia norte-americana. 
Com esta decisão no Ohio, teremos primárias apenas na Florida, Arizona e Illinois e é expectável que Joe Biden vença facilmente os três estados. Depois disso, devemos entrar numa fase de suspensão das primárias, dado que muitos estados já anunciaram o adiamento da sua primária por causa do novo coronavirus. Fica, por isso, muito complicada a candidatura de Sanders, que, depois de hoje, deverá ver a sua distância para Biden em número de delegados alargar-se ainda mais. Para piorar a situação, foi hoje anunciado que foi o antigo VP de Obama a vencer no estado de Washington.
Assim, com a campanha prestes a entrar numa espécie de letargia, Bernie Sanders fica sem estrada para poder esperar por uma espécie de milagre que surgisse no percurso e trouxesse uma enorme reviravolta e o recolocasse na disputa pela nomeação. Nesta altura, não se sabe sequer em que moldes decorrerá a convenção nacional democrata, agendada para Julho. Resta, por isso, esperar para ver o que acontece nos próximos tempos que são, sem dúvida, extraordinários.

sábado, 14 de março de 2020

Xeque-mate

A não ser que algo de muito extraordinário aconteça - e vivemos tempos em que temos de estar preparados para tudo -, Joe Biden será o nomeado presidencial do Partido Democrata e defrontará Donald Trump na eleição geral de Novembro. Apesar de Bernie Sanders ainda se manter na corrida, o resultado final está praticamente definido, tendo em conta a vitoriosa noite de Biden na passada Terça-feira.
Depois das vitórias do ex-vice-presidente na Carolina do Sul e na Super Tuesday, Sanders não tinha motivos para estar optimista e os resultados vieram tornar realidade as previsões mais negras para  campanha do Senador pelo Vermont. Já se sabia que o Sul não era terreno favorável a Bernie, mas a derrota no Mississippi por 65 pontos percentuais foi, no mínimo, embaraçosa e pôs a nu, mais uma vez, as dificuldades de Sanders junto do eleitorado afro-americano. No Missouri, Joe Biden obteve mais uma vitória folgada, demonstrando que conta também com o apoio dos eleitores dos subúrbios e do heartland dos Estados Unidos. Também no Idaho, numa pequena primária que elegia apenas 20 delegados, foi Joe o vencedor, ainda que por uma margem mais curta, mas num estado que, há pouco tempo, parecia seguro para Bernie Sanders.
Contudo, o grande prémio da noite era o Michigan e, aí, num dos principais estados industriais da nação norte-americana, Joe Biden terá dado um verdadeiro tiro no porta-aviões da campanha de Sanders, com uma vitória clara e inequívoca que prova que Bernie, ao contrário de há quatro anos, não conta com uma maioria de apoiantes entre os blue collar workers da zona industrial dos Estados Unidos e que, como em 2016, poderão decidir a eleição geral de Novembro. 
Como fraco prémio de consolação, Sanders conseguiu vencer no Dakota do Norte e está à frente no estado de Washington por 2% dos votos quando ainda faltam contar 5% do total de boletins. O equilíbrio da corrida neste último estado é a prova de que o senador do Vermont está em queda livre, pois será difícil encontrar um estado demograficamente mais favorável à sua candidatura - Washington é um dos Estados com uma população mais jovem, instruída, urbana e liberal da União.
Após estes resultados, não existe mais um percurso viável que se possa vislumbrar e que leve à nomeação de Bernie Sanders. A próxima ronda de primárias é-lhe particularmente desfavorável, dado que os quatro importantes estados (Florida, Ohio, Illinois e Arizona) que vão a votos na próxima terça-feira (se o Covid-19 deixar) devem cair todos para o lado de Biden. Assim, e se as primárias desta semana representaram o "cheque ao rei" para a campanha de Bernie, as próximas eleições deverão significar o "cheque-mate".
Todavia, o senador de 78 anos decidiu manter-se na corrida e participar no debate de Domingo. Com uma fiel e dedicada legião de apoiantes e com dinheiro ainda na conta bancária, Sanders não quererá desistir demasiado cedo de uma corrida que já deu uma grande reviravolta e num ambiente dominado pela incerteza que a crise do Covid-19 veio acentuar. Ainda assim, estará ciente que tem pela frente uma tarefa praticamente impossível e deverá começar a refrear o tom do seu discurso e a reduzir a crispação da campanha, de forma a preparar o seu eventual apoio a Joe Biden. 
Sanders, que desdenha Donald Trump e até tem alguma simpatia pessoal por Biden, não quererá contribuir para a reeleição do actual presidente e terá de evitar o que aconteceu há quatro anos, quando os seus apoiantes se revoltaram contra a nomeada democrata, Hillary Clinton, chegando mesmo a perturbar a convenção nacional do partido. Por isso, os próximos tempos deverão ser de transição, de uma campanha activa para a gradual aproximação e inevitável endorsement a Joe Biden, de forma e unir o Partido Democrata e começar a derrotar Donald Trump.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Trump enfrenta a pandemia

Donald Trump dirigiu-se, ontem, à nação norte-americana para apresentar novas medidas de combate à pandemia provocada pelo Covid-19. Em destaque, esteve a interdição de voos provenientes do Espaço Schengen durante os próximos trinta dias. 
Se há poucos dias o Presidente norte-americano via o surto do coronavírus como uma farsa promovida pelos democratas para minar a economia do país, Trump parece agora ter-se rendido às evidências e aos pedidos das comunidades médicas e científicas para que encarasse esta ameaça com a seriedade e urgência necessárias. 
Contudo, a comunicação do Presidente não ficou isenta de críticas, internas ou externas. No seio do seu país, Trump foi censurado por não ter sido suficientemente claro e objectivo, o que gerou bastante confusão. Por esse motivo, Mike Pence, que lidera a task force de combate à epidemia, teve de vir hoje a público clarificar alguns pontos e desenvolver a explicação sobre as medidas previstas pela administração. Por outro lado, o facto de esta decisão não ter sido previamente discutida e analisada com os parceiros europeus, resultou numa reacção enérgica por parte dos líderes europeus, que acusam Donald Trump de unilateralismo, numa altura em que o perigo da pandemia obriga a uma reposta concertada a nível global. Depois, o facto de o Reino Unido - que não pertence ao Espaço Schengen - ter ficado de fora da interdição, levou a que alguns quadrantes considerassem que Trump está a fazer política e a premiar o brexit, processo que sempre defendeu. 
Independentemente destas questões, a noite de ontem marcou, definitivamente, uma nova fase na forma como a Casa Branca encara esta pandemia. Após muitas semanas a desvalorizar o problema, Trump tem agora noção que o problema é bastante real e que terá um enorme impacto, inclusivamente para a questão da sua reeleição. O seu discurso e as medidas já anunciadas e/ou adoptadas revelam isso mesmo. A campanha de reeleição do Presidente anunciou até o cancelamento de comícios, algo que Trump vinha sempre a negar poder acontecer.
Ainda é cedo para perceber a dimensão da epidemia, no que diz respeito ao número de vítimas, mas é certo que se continuarão a perder vidas e que o presidente dos Estados Unidos é sempre julgado pela forma como reage a uma tragédia. Basta recordar o que o furacão Katrina representou para a presidência de George W. Bush para percebermos que, caso a resposta da administração não seja vista como eficaz e adequada pelo público, Donald Trump poderá ter grandes dificuldades em ser reeleito. Além disso, as consequências inevitáveis e profundas para a economia norte-americana podem retirar ao actual ocupante da Sala Oval aquele que era visto como o seu principal trunfo para Novembro: a pujança económica do país. 
No fim de contas, as consequências político-eleitorais do Covid-19 são insignificantes e irrelevantes quando comparadas com as trágicas perdas de vidas e até com a provável recessão económica que se seguirá à epidemia. Contudo, elas existirão e merecem, também, serem acompanhadas. Haja saúde para o fazer.

terça-feira, 10 de março de 2020

All eyes on Michigan

Depois da Super Tuesday da semana passada, hoje temos uma Mini Tuesday, com seis estados a irem a votos. Mais logo, os eleitores do Idaho, do Michigan, do Mississippi, do Missouri, do Dakota do Norte e de Washington (não confundir com a capital federal) deslocam-se às urnas para eleger os nomeados presidenciais. Como Donald Trump tem a nomeação garantida, interessa o que se passa do lado democrata, numa altura em que restam Joe Biden e Bernie Sanders a disputar a vitória nas primárias democratas.
Renascido na Carolina do Sul e arrasador na Super Tuesday, Biden parece lançado para a nomeação e o 538 de Nate Silver já atribui 99% de possibilidades de triunfo ao antigo vice-presidente. Assim, Bernie Sanders está obrigado a fazer um grande resultado nas corridas de hoje para que a sua candidatura se mantenha viável. Contudo, as atenções estarão principalmente para o Michigan, o maior dos estados em disputa e que entrega mais de um terço - 125 - do s 352 delegados em jogo na noite de hoje.
Há quatro anos, quando Bernie competiu com Hillary Clinton pela nomeação presidencial, o Michigan também era apontado como um estado decisivo. Nessa altura, e quando Hillary surgia com uma enorme vantagem nas sondagens, foi o senador pelo Vermont a surpreender e a levar a melhor no estado dos Grandes Lagos. Essa vitória deu um novo fôlego à candidatura de Bernie e prolongou as primárias democratas que só terminaram na convenção nacional do partido. 
Sanders esperará que a história se repita e que o Michigan troque, uma vez mais, as voltas às sondagens e aos pundits, criando uma nova reviravolta numa corrida que já pareceu estar perto de vencer. Contudo, 2020 não é 2016 e, nesse ano, Hillary Clinton tinha muitos anti-corpos na classe operária branca, algo que já não acontece com Joe Biden. Há quatro anos, a abstenção democrata no Michigan foi elevadíssima, o que contribuiu para o falhanço de todas as sondagens e para a vitória inesperada de Bernie. Este ano, com os democratas motivados para derrotar Trump, isso não deverá acontecer e a forte mobilização do eleitorado de Sanders poderá não ser suficiente.
O Michigan será, então, o maior prémio da noite, mas não será o único. Em segundo lugar, o estado de Washington, com os seus 89 delegados, também será muito importante e Bernie e Joe parecem estar virtualmente empatados no estado norte-americano mais afectado pelo Coronavirus, o que pode baralhar as contas. Mais a sul, no Missouri (68 delegados) e no Mississippi (36), a vitória não deverá fugir a Biden, que conta com grande vantagem entre o eleitorado afro-americano. Por fim, temos os pequenos Idaho (20) e Dakota do Norte (14), pouco relevantes e onde praticamente não existem sondagens, ainda que se tenha de atribuir uma pequena vantagem ao antigo Veep, em especial neste último.
Tudo aponta, por isso, que a noite de hoje será muito importante para a corrida pela nomeação democrata. Se Joe Biden vencer em toda a linha, com vitórias no Michigan e em Washington a juntar aos esperados triunfos nos estados sulistas, tornar-se-á o presumível nomeado e Bernie Sanders começará a ser pressionado para abandonar a favor do seu adversário para unir o partido. Pelo seu lado, o senador do Vermont terá de triunfar, contra todas as probabilidades, pelo menos no Michigan e, de preferência, também em Washington para ainda poder sonhar em defrontar Trump em Novembro. Mais logo, veremos qual dos cenários se concretiza.

sábado, 7 de março de 2020

Bernie can't win?






















Costuma-se dizer que os generais estão sempre preparados para travar a guerra anterior e não a próxima. Mas isso acontece também com os analistas políticos que anteveem a próxima eleição com base nas anteriores. Eu mesmo cometi esse erro há quatro anos quando menosprezei as hipóteses de vitória de Donald Trump. Da mesma forma, este ano, são muitos aqueles que defendem que Bernie Sanders não tem possibilidades de derrotar o actual ocupante da Sala Oval numa eventual disputa pela presidência. Larry Sabato, por exemplo, defende que se for Bernie o nomeado, Trump será favorito à vitória.
Na verdade, a maioria das sondagens até têm tendência para apontar no sentido contrário, pois  nestes estudos de opinião Sanders tem sido, de uma forma geral, o candidato democrata a conseguir melhores resultados num frente-a-frente virtual com Trump. Porém, é preciso ter em consideração que as sondagens relativas à eleição geral têm pouca importância nesta fase e que, mais do que as sondagens nacionais, importa perceber a posição de cada candidato nos battleground states. Basta recordar que, há quatro anos, Hillary Clinton teve mais três milhões de votos do que Donald Trump, mas saiu derrotada devido a alguns milhares de votos nos estados decisivos, em particular no Midwest. 
Assim sendo, parece-me muito cedo para tecer considerações definitivas e absolutas relativamente às hipóteses de qualquer um dos candidatos no resultado final do Colégio Eleitoral. Podemos, contudo, perceber as nuances de cada candidatura e parece-me evidente que a nomeação de Bernie Sanders reduziria o tabuleiro de jogo para os democratas no que diz respeito aos estados em jogo. Em primeiro lugar, o resultado na Florida deixaria de ser um toss up e passaria a estar na coluna dos estados com favoritismo para os republicanos, já que o sunshine state é um dos estados mais envelhecidos do país e o grupo social dos idosos é um daqueles onde Sanders consegue piores resultados. Além disso, com o seu posicionamento ideológico bem mais à esquerda do eleitoral médio norte-americano, o senador pelo Vermont poderia ter piores resultados junto do eleitorado independente, pelo que estados com eleitorados moderados (a Virginia, por exemplo) ou onde os democratas têm conseguido, mais recentemente, aproximar-se dos republicanos, podem ficar numa posição menos favorável para o partido Democrata, casos da Georgia, do Arizona e da Carolina do Norte.
Por outro lado, a nomeação de Sanders poderia reforçar a posição democrata junto dos hispânicos, grupo em que Bernie tem conseguido bons resultados nas primárias. Mas o principal argumento a favor do Senador do Vermont seria a possibilidade de conseguir esvaziar algum do discurso de Trump que mais agradou ao operariado branco do Midwest e que foi o mais prejudicado pela globalização e pela crise económica e, assim, fazer regressar à coluna democrata os estados do Michigan, Pennsylvania e Wisconsin (e, quem sabe, o Iowa). Se o conseguir, ficará muito perto de ser o 46º presidente dos Estados Unidos. 
Em resumo, apesar de ser muito cedo para tecer grandes considerações sobre a corrida pela eleição geral de Novembro, parece-me que existe um caminho para a vitória de Sanders contra Trump. Será, porventura, uma via mais estreita do que aquelas com que contaram Barack Obama e Hillary Clinton, mas isso até poderá nem ser negativo, pois permite uma alocação de recursos mais eficaz, ainda que represente uma espécie de all in, sem direito a plano B.
De qualquer forma, este exercício é meramente teórico, em especial numa altura em que é até pouco provável que seja Bernie Sanders o nomeado presidencial do Partido Democrata - o 538 de Nate Silver atribui-lhe apenas 2% de chances de vitória. Mas o mesmo aconteceu já a Biden, e há muito pouco tempo, por isso o melhor é mesmo esperar para ver se Bernie can win.

quinta-feira, 5 de março de 2020

É oficial: Joe vs Bernie

Confirmou-se o cenário anunciado após os resultados da Super Tuesday: Michael Bloomberg e Elizabeth Warren desistiram e, agora, a corrida está entregue apenas a Joe Biden e Bernie Sanders - um deles será o nomeado democrata para a eleição presidencial de Novembro, ainda que Tusi Gabbard mantenha a sua (irrelevante) candidatura.
Bloomberg apostou todas as suas fichas na série de eleições primárias da passada Terça-feira, mas não colheu frutos dessa estratégia. Entrou tarde na corrida e utilizou uma táctica pouco ortodoxa de evitar os primeiros estados a irem a votos (até porque já não foi a tempo de se inscrever nessas eleições) e realizar uma verdadeira barragem de anúncios televisivos e investir num exército de staffers com que pretendia saturar os mercados dos estados da Super Tuesday com a sua mensagem: Trump só poderia ser derrotado por um moderado, experiente, mas, acima de tudo, por alguém que fez (muito) mais dinheiro no sector privado do que o actual presidente. Contudo, a pálida imagem que transmitiu no único debate televisivo em que participou minou a sua aura de combatividade e invencibilidade com que pretendia derrotar Trump. Depois, o triunfo esmagador de Biden na Carolina do Sul, reabilitou a figura do antigo Veep como um moderado com possibilidades de ser eleito e isso afastou muitos eleitores de Bloomberg. 
Sem surpresa, o multimilionário anunciou a suspensão da sua campanha e endereçou o seu apoio a Joe Biden. Este endorsement não traz qualquer surpresa, pois Bloomberg nunca escondeu que, além do objectivo prioritário de impedir um segundo mandato de Donald Trump, queria também evitar a nomeação de um representante da ala mais liberal do Partido Democrata. Em conjunto com o endorsement de Bloomberg, Biden poderá também contar com o seu apoio financeiro, que será importante para eliminar ou atenuar a vantagem monetária de Bernie Sanders. 
Um dia depois, hoje, foi a vez de Elizabeth Warren anunciar a sua desistência da corrida presidencial. A senadora pelo Massachusetts foi, desde a sua eleição para a câmara alta do Congresso norte-americano em 2012, umas das grandes figuras liberais dos Estados Unidos e era grande a expectativa em torno da sua candidatura. Durante o Outono de 2019, Warren alcançou mesmo o estatuto de frontrunner, surgindo recorrentemente no topo das sondagens, mas foi mais um exemplo de um candidato cujo pico de rendimento surgiu demasiado cedo, começando a perder fulgor pouco antes do caucus do Iowa, em detrimento de Sanders e de Pete Buttigieg. 
Ao comunicar a suspensão da sua campanha, Elizabeth Warren não declarou o apoio a qualquer dos candidatos restantes, mas é ainda possível que o faça, mais logo, quando realizar uma conferência de imprensa que já anunciou. Sanders será sempre o favorito a almejar o endorsement de Warren, mas não é certo que isso aconteça, já que a Senadora do Massachusetts, apesar de se encontrar no espectro mais liberal do Partido Democrata, tem bastantes mais ligações ao establishment democrata do que Sanders, um independente anti-sistema. É, por isso, possível que Warren opte por não apoiar nenhum dos candidatos, sendo menos crível que apoie oficialmente Biden.
A partir de agora, com o campo de candidatos "limpo", veremos verdadeiramente o que valem as candidaturas de Joe Biden e Bernie Sanders. Os resultados das próximas primárias, com destaque para as do Michigan, no dia 10, e da Florida, no dia 17, deverão ser verdadeiramente decisivas para o que resta da disputa pela nomeação. Com base nas últimas sondagens, Joe parece levar alguma vantagem, mas teremos de ver os efeitos das desistências dos últimos dias para termos uma melhor perspectiva sobre o estado da corrida, após assentar todo o pó deixado pela verdadeira tempestade de areia que representou a Super Tuesday.

quarta-feira, 4 de março de 2020

The comeback oldie

Em 1992, Bill Clinton, na altura com 45 anos, ficou conhecido como o "The Comeback Kid", após o seu surpreendente segundo lugar na primária do New Hampshire, quando a sua candidatura à Casa Branca parecia estar já condenada ao fracasso. Ontem, 28 anos depois, Joe Biden, com 78 anos, mostrou estar à altura do epíteto de "Comeback Oldie", ao amealhar uma série de vitórias na famosa e importante Super Tuesday.
Após as desastrosas prestações de Biden nos primeiros estados e a consequente fuga de contribuições financeiras, chegou mesmo a falar-se na sua possível desistência. Contudo, tudo mudou no passado Sábado, quando o ex-Vice-Presidente de Barack Obama triunfou na primária da Carolina do Sul por uma diferença (de 30 pontos percentuais) que nenhuma sondagem previu. Com essa vitória, Biden alcançou, por direito próprio, o estatuto de representante da ala moderada do Partido Democrata e, a partir daí, o establishment democrata começou a cerrar fileiras à sua volta. As desistências de Amy Klobuchar e Pete Buttigieg a seu favor foram os sinais mais visíveis da mudança no momentum da corrida, quando Bernie Sanders parecia bem lançado para a nomeação, após os bons resultados no Iowa, New Hampshire e no Nevada.
Na Super Tuesday deste ano, estavam em jogo 1617 delegados e, à hora a que escrevo estas linhas, falta apenas conhecer o vencedor no Maine (onde Biden leva uma minúscula vantagem), sabendo-se que Joe venceu os estados do Alabama, Arkansas, Massachussetts, Minnesota, Carolina do Norte, Oklahoma, Tennessee e o Texas, tendo, neste momento, cerca de 400 delegados na sua coluna. Por sua vez, Bernie Sanders foi o mais votado na Califórnia, no Colorado, no Utah e no seu home state Vermont, amealhando cerca de 320 delegados.
Michael Bloomberg e Elizabeth Warren tiveram uma noite para esquecer e é provável que desistam nos próximos dias (a campanha do antigo Mayor de Nova Iorque já anunciou estar a avaliar a situação) pois dificilmente terão relevância na disputa. Bloomberg, que sempre disse querer evitar a nomeação de Sanders, deverá anunciar o seu apoio a Biden, enquanto Warren, que pretendia manter-se na corrida até à convenção de Julho, poderá apresentar o seu endorsement ao senador independente pelo Vermont.
Agora, as primárias democratas são definitivamente uma corrida a dois entre Biden e Sanders. De um lado, o establishment democrata, que saiu em força, nos últimos dias, em auxílio de Joe Biden. No seu lado da barricada, o antigo VP conta com os eleitores mais moderados, mais velhos e com os afro-americanos. Do outro lado, com Bernie, vemos os eleitores mais liberais, os mais jovens e os hispânicos. Sem o peso do partido por detrás, mas com uma grande pujança financeira, a campanha de Sanders ainda está na luta. Contudo, depois da noite de ontem, parece claro que Biden é o frontrunner. Além de contar com o momentum  da corrida, as próximas primárias parecem favorecer o antigo senador do Delaware, com destaque para a contenda no grande e importante estado da Florida, com um perfil de eleitorado muito averso a Sanders.
No próximo dia 10, será possível tomar novamente o pulso ao eleitorado democrata, quando decorrer uma espécie de mini Super Tuesday. Será importante seguir as sondagens que forem publicadas e os endorsements que deverão começar a "sair" com mais regularidade. Todavia, o apoio mais esperado, o de Obama, tão cedo não será conhecido e pode mesmo não acontecer até haver um nomeado, sendo certo que, entre o seu Veep e Sanders, o 44º Presidente preferirá sempre o seu antigo braço direito.
Entretanto, na Casa Branca, Donald Trump, entre ataques no Twitter e declarações sobre o corona vírus, vai esperando para ver quem será o seu adversário em Novembro.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Eleições norte-americanas é no Porto Canal

Logo à noite, entre as 22:30 e as 2:30, estarei na emissão especial do Porto Canal, em directo da Universidade Fernando Pessoa, a comentar, e em excelente companhia, a eleição da pessoa mais importante do mundo. Acompanhem!

O controlo do Senado (também) está em jogo

Apesar de receber o grosso das atenções mediáticas, não é apenas a escolha do Presidente que está hoje em jogo nos Estados Unidos. Como acontece de dois em dois anos, há eleições para o Congresso, com todos os 435 lugares da Câmara dos Representantes a irem e votos, bem como um terço dos assentos no Senado (este ano 34 dos 100). Além disso, há ainda outros eleições de nível estadual, com destaque para a escolha do Governador em 12 Estados, assim como vários referendos, como, por exemplo, para a legalização da marijuana em vários Estados.
Dado o seu impacto a nível nacional, são as eleições para o Congresso aquelas que serão seguidas com mais atenção. No que diz respeito à Câmara dos Representantes, tudo indica que o Partido Republicano manterá a sua maioria. Com uma grande vantagem na câmara baixa (247 republicanos face a 188 democratas), conseguida na vitória esmagadora de há dois anos, seria necessária uma hecatombe destronar Paul Ryan do seu cargo de Speaker. Além disso, o redesenho dos distritos eleitorais, realizado após outra grande vitória republicana em 2010, favorece claramente o GOP, pelo que, mesmo que o voto nacional para o Congresso favoreça os democratas por alguns pontos percentuais, isso não será suficiente para dar ao partido de Hillary Clinton o controlo da câmara baixa. No final de contas, os democratas deverão ganhar alguns lugares - o número de assentos que conquistarão aos republicanos pode muito bem depender da dimensão da (eventual) vitória da sua candidata presidencial - mas o Partido Republicano manterá a sua maioria.
Já no Senado, a conversa é outra e o equilíbrio é a nota dominante. Actualmente, o GOP possui 54 dos 100 assentos na câmara alta, contra 44 democratas e 2 independentes (que votam ao lado dos democratas). Todavia, neste ciclo eleitoral 24 dos 34 lugares em jogo são ocupados por republicanos, pelo que os democratas têm muito a ganhar com a eleição de hoje. 

Para chegarem pelo menos a 50 assentos (contando que Hillary vence, podendo Tim Kaine utilizar o voto de desempate atribuído ao Vice-Presidente pela Constituição), os democratas precisam, então de recuperar 4 assentos. Um deles, no Illinois parece garantido, pelo que terão de vencer, pelo menos, três de seis eleições que se encontram equilibradas. No Wisconsin, no Nevada e na Pennsylvania, os candidatos democratas são ligeiramente favoritos, enquanto que no Missouri, no Indiana e na North Carolina as sondagens favorecem os candidatos republicanos. 
Normalmente, nestas eleições "secundárias", o voto é muito afectado pelo que acontece no topo do ticket. Assim sendo, é bem possível que uma vitória robusta de Hillary Clinton ajude a uma vitória dos democratas na maioria, ou mesmo em todas, das corridas, como aconteceu em 2008 ou em 2012, quando ajudados pelos triunfos de Obama, os candidatos democratas ao Senado venceram todas as eleições competitivas. Por outro lado, se Donald Trump vencer ou conseguir um resultado muito próximo de Hillary Clinton, é possível que os republicanos juntem o controlo do Senado ao da Câmara dos Representantes. Ainda assim, parece-me mais plausível que os democratas saiam vencedores na disputa pelo controlo do Senado ou que, pelo menos, consigam os 50 votos necessários para dependerem do (provável) VP Tim Kaine para o desempate.

Guia para a noite eleitoral

Devido à diferença horária entre Portugal e os Estados Unidos, quem quiser seguir a evolução dos resultados das eleições de hoje terá de fazer uma noitada que se prolongará pela madrugada e manhã do dia 9. Contudo, serão certamente muitos os portugueses a acompanhar atentamente os acontecimentos. Assim, e de forma a ajudar estes political junkies que, como eu, ficarão acordados até muito tarde, deixo aqui o horário de fecho, segundo a hora de Lisboa, das urnas em cada Estado (a bold, os Estados competitivos e que decidirão a eleição):

23:00: A maior parte do Indiana, metade do Kentucky;

24:00: A maioria da Florida; Georgia, o resto do Indiana, a outra metade do Kentucky, New Hampshire, South Carolina, Vermont, Virgínia;


00:30: North Carolina, Ohio, West Virginia

01:00: Alabama, Connecticut, Delaware, DC, o resto da Florida, Illinois, Kansas, Maine, Maryland, Massachusetts, a maior parte do Michigan, Mississippi, Missouri, New Jersey, a maior parte do North Dakota, Oklahoma, Pennsylvania, Rhode Island, metade do South Dakota, Tennessee, a maior parte do Texas;

01:30: Arkansas

02:00: New York, Minnesota, a outra metade do South Dakota, Nebraska, no resto do North Dakota, o resto do Michigan, Colorado, Louisiana, New Mexico, o resto do Texas, Arizona, Wisconsin, Wyoming;

03:00: Iowa, a maior parte do Idaho, Utah, Nevada, Montana;

04:00: California, o resto do Idaho, Oregon, Washington; Hawaii;

05:00: A maior parte do Alaska;

06:00: as ilhas ocidentais do Alaska.

Ou seja, se a eleição ficar dependente do Alaska, só saberemos o vencedor amanhã de manhã - e isto se não tivermos recontagens decisivas, como aconteceu em 2000. Contudo, esse cenário e é improvável e deveremos conhecer o vencedor até às 3/4 da manhã de Portugal, ou até antes se as contagens dos votos na Florida forem rápidas e for Hillary Clinton a triunfar no sunshine state. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Mapa eleitoral - a minha previsão

Há quatro anos fui um verdadeiro Nate Silver e acertei no vencedor de 49 dos 50 Estados norte-americanos. Agora, volto a fazer uma previsão, ainda que me pareça que, desta vez, o mapa eleitoral é mais incerto e, como tal, mais difícil de prever. Com algumas dúvidas (principalmente na Florida, North Carolina e New Hampshire), aposto no seguinte mapa:
  
Teremos, assim, se estiver correcto, uma mulher na Casa Branca a partir de 20 de Janeiro de 2017 e Hillary Clinton será a 45ª presidente dos EUA. Quanto ao voto popular, prevejo uma vitória de Hillary por 4%, com 49% dos votos, contra 45% de Donald Trump. O candidato libertário Gary Johnson receberá 4%, falhando assim o seu objectivo (5%). Amanhã (ou na madrugada de Quarta-feira), veremos como me saí neste "totobola".

Os Estados a seguir

Devido ao sistema eleitoral das presidenciais norte-americanas, a corrida decide-se num punhado de Estados, os chamados swing states, ou, como eu prefiro, os battleground states. Com o grande dia a chegar, deixo aqui uma espécie de guia para os Estados que decidirão quem será o 45º presidente dos Estados Unidos.

New Hampshire - O swing state perfeito, sendo um Estado que replica, nos últimos anos, quase a 100%, o voto a nível nacional. Hillary Clinton parecia levar uma vantagem confortável no granite state, mas tem vindo a perder terreno, talvez pela subida nas sondagens do candidato libertário Gary Johnson, cuja votação neste Estado conhecido pelas suas tendências libertárias pode chegar aos 10%. A democrata ainda é a (ligeira) favorita, mas, numa eleição decidida ao milímetro, o New Hampshire pode muito bem vir a atribuir os 4 votos eleitorais decisivos. Toss up.

Pennsylvania - Desde 1992 que a história se repete. Os republicanos sonham sempre com a vitória neste Estado que este ano atribui 18 votos eleitorais, mas, no final, são sempre os democratas que levam a melhor. Em 2016, o GOP volta a apostar numa vitória na Pennsylvania como forma de derrubar a blue wall. Até ao momento, porém, Trump não liderou uma única sondagem e seria uma grande surpresa se ultrapassasse Clinton na noite de amanhã. Como este Estado não tem voto antecipado, o ground game será decisivo e os democratas terão de contar com uma grande afluência às urnas nas grandes cidades (principalmente em Philadelphia) de forma a contrariar a vantagem republicana nos meios suburbanos e rurais. Com a participação afro-americana em queda relativamente há quatro anos, esse poderá ser um problema. Ainda que Hillary seja claramente favorita, este é um Estado a seguir com atenção: se Trump vencer aqui, poderá mesmo estar a caminho da Casa Branca. Leaning Democrat.

Ohio - Este Estado, sempre altamente competitivo e disputado em eleições presidenciais, parece ter virado à direita neste ciclo eleitoral. Com um grande número de eleitores brancos de classe média, em especial de blue collar workers muito afectados pela crise económica de 2008 e pela fuga de empregos de manufactura para países com mão-de-obra mais barata, o Ohio é terreno fértil para o discurso populista de Trump. Assim, depois de ter votado duas vezes em Obama, é bem possível que o buckeye state seja "pintado" a vermelho na noite de amanhã, ainda que, nos últimos dias, as sondagens mostrem uma corrida equilibrada. O GOP parece em vantagem, mas, numa eleição muito renhida, o ground game pode ser decisivo e nisso os democratas são superiores. Toss up.

Michigan - Em 2008, o Michigan esteve na origem de uma polémica no seio da candidatura de John McCain, quando Sarah Palin se pronunciou contra a desistência da campanha neste Estado. Agora, em 2016, o cenário é quase inverso, com os democratas a terem de apostar forte num Estado que parecia decidido a seu favor. Apesar de as sondagens mostrarem uma corrida a apertar (com diferenças que chegam a apenas quatro pontos percentuais), é pouco crível que o Michigan vote em Trump. Porém, com os democratas a enviaram para o grate lake state todos os seus pesos pesados (a própria candidata, Obama e Michelle Obama, Bill Clinton e Joe Biden), tudo indica que os seus números internos estão a preocupar os democratas. Leaning Democrat.

Iowa - Foi este o Estado que catapultou Barack Obama para a Casa Branca, depois da vitória do actual Presidente no caucus do Iowa. Todavia, e apesar de Obama ter vencido aqui em 2008 e 2012, tudo indica que, desta vez, os democratas sairão derrotados, já que Trump tem surgido constantemente na frente das sondagens do hawkeye state. De facto, o Iowa, com uma população quase exclusivamente branca e tradicionalmente rural, é um perfect match para o apelo de Donald Trump que deve amealhar aqui 6 votos eleitorais. Se amanhã o Iowa for equilibrado ou cair para Hillary Clinton, então é porque teremos uma vitória folgada da antiga Secretária de Estado. Leaning Republican.

North Carolina - Outrora um Estado fortemente republicano, a North Carolina é, agora, um verdadeiro swing state, tendo votado Obama em 2008 e em Romney há quatro anos. A forte imigração de jovens com elevada instrução para o Estado, conjugada com uma grande comunidade afro-americana e cada vez mais eleitores hispânicos, tem tornado o Estado cada vez mais democrata. Se Hillary vencer aqui, tem a eleição ganha, por isso este é um Estado obrigatório para Trum - Toss up.

Florida - O sunshine state é, por norma, o prémio mais apetecível nas eleições presidenciais. Com 29 votos eleitorais, a Florida, por si só, garante mais de 1/10 dos votos necessários para se chegar à Casa Branca. Tendo uma população muito heterogénea, fruto da elevada imigração para o Estado, a Florida é sempre um battleground state por excelência e é disputado ao máximo por ambas as partes. Se Hillary conseguir motivar a comunidade hispânica a votar e se conseguir imitar Obama e retirar o voto dos cubano-americanos (tendencialmente republicanos) a Trump, então será a próxima Presidente norte-americana, pois Trump não tem como substituir os votos eleitorais em disputa na Florida. Toss up.

Nevada - As sondagens mostram que o equilíbrio é a nota dominante no Estado dominado por Las Vegas. Contudo, os números do voto antecipado, contam outra história, já que a participação hispânica disparou e pode mesmo acontecer que este eleitorado venha a representar 20% do total, o que, por si só, deverá ser suficiente para Hillary conquistar estes 5 votos eleitorais. Harry Reid, o líder democrata no Senado, que se reforma este ano, montou uma poderosa máquina neste Estado, contando com a preciosa colaboração dos sindicatos dos trabalhadores dos casinos. Com um ground game muito superior, os democratas poder\ao levar vantagem. Leaning Democrat.

Arizona - Estive para não colocar o Arizona como um Estado decisivo, porque, normalmente, uma vitória de um democrata num Estado tradicionalmente republicano significaria um triunfo folgado no Colégio Eleitoral, com este Estado a ser apenas um extra. Todavia, o Arizona é um Estado especial porque a recuperação democrata neste Estado deve-se, quase exclusivamente, ao aumento da população hispânica e ao sucesso do Partido Democrata em registar os elementos desta comunidades como eleitores. Assim, é possível que, num cenário em que Donald Trump vença Estados do Este e do midwest com grandes maiorias brancas, Hillary Clinton alcance, ainda assim, o triunfo, com uma coligação de Estados com forte presença latina como o Colorado, o New Mexico, o Nevada e, claro, o Arizona. Ainda assim, Trump parte em clara vantagem. Leaning Republican. 

Quem quiser aprofundar um pouco mais esta questão, poderá consultar a minha dissertação de mestrado, precisamente sobre os Battleground States of America, disponível aqui.

domingo, 6 de novembro de 2016

Clinton segura a vantagem

A dois dias do dia em que a maioria dos norte-americanos vai depositar o seu voto (milhões já o fizeram através de voto antecipado), Hillary Clinton parece ter estancado a hemorragia e, agora, os seus valores nas sondagens a nível nacional estabilizaram numa vantagem curta mas sólida. Vejamos os números das sondagens publicadas hoje:

ABC/Washington Post - Clinton 48% - Trump 43%

Ipsos/Reuters - Clinton 44% - Trump 40%

UPI/CVOTER - Clinton 49% - Trump 48%

McClatchy/Marist - Clinton 46% - Trump 44%

Politico/Morning Consult - Clinton 45 %- Trump 42%

Nestas sondagens, o melhor que o candidato republicano consegue é ficar a um ponto percentual, com os estudos de opinião mais favoráveis à antiga Secretária de Estado a indicarem uma vantagem de Clinton que pode chegar aos 5%. Em 2012, as sondagens nacionais (na minha opinião, bem menos fiáveis do que as de nível estadual) subestimaram a votação de Obama. Se isso voltar a acontecer, então Hillary poderá ter um triunfo relativamente folgado. Contudo, e como costumam dizer os políticos, a sondagem que interessa só terá lugar na próxima Terça-feira.

Cartoon: os eleitores de 2016

sábado, 5 de novembro de 2016

Os últimos anúncios televisivos

Na recta final da campanha, as candidaturas de Hillary Clinton e Donald Trump divulgaram os seus últimos vídeos de publicidade eleitoral que passarão na internet e nas televisões dos battleground states. Enquanto o candidato do GOP apostou num anúncio negativo, atacando os poderes instalados de Washington e de Wall Street, a nomeada democrata preferiu terminar num tom positivo, apelando aos better angels dos norte-americanos. Dia 8 saberemos quem levou a melhor.

O estado da corrida


Depois do desastroso primeiro debate para Donald Trump e o escândalo gerado pela revelação das suas declarações em open mic sobre a sua relação com o sexo feminino, escrevi aqui que a candidatura do republicano estava perdida e que apenas uma grande surpresa impediria a vitória de Hillary Clinton. Agora, menos de um mês depois e apenas a três dias do dia decisivo, as sondagens voltaram a apertar e Trump parece estar novamente na corrida.
Ainda assim, e na minha opinião, Clinton continua a ser a grande favorita e vejo como muito difícil o triunfo de Donald Trump no voto popular, mas, mais importante ainda, no Colégio Eleitoral. Isto porque Hillary consolidou uma importante firewall de Estados que lhe permitem chegar, como se pode ver no mapa acima, a um número muito próximo dos 270 votos eleitorais necessários para ser eleita como a 45ª Presidente norte-americana. Ao aguentar os Estados tradicionalmente democratas (no Nordeste, na costa Oeste e no Midwest) e ao juntar-lhes os novos bastiões democratas na Virginia, New Mexico e Colorado, que, nos últimos anos viram as alterações demográficas fazerem passar estes Estados definitivamente para a coluna azul, Hillary Clinton fica apenas a dois votos do número mágico.
Ou seja, bastará à nomeada do Partido Democrata vencer qualquer um dos Estados toss-up - New Hampshire, North Carolina, Florida, Ohio, Iowa ou Nevada. E se no Ohio e no Iowa, Trump parece bem posicionado para garantir um triunfo (dois Estados com muitos blue collar workers, um grupo que apoia maioritariamente o candidato republicano), já no Nevada, na North Carolina e no New Hampshire é Hillary quem parte como favorita, estando a Florida num verdadeiro empate técnico. 
É verdade que os republicanos continuam a afirmar que têm hipóteses na Virginia (onde Clinton surgiu na frente de 28 das últimas 30 sondagens), no Colorado (um Estado com muitos jovens, eleitores com altos níveis de instrução e muitos hispânicos), na Pennsylvania (o blue state que é sempre "namorado" pelo GOP) e no Michigan (onde existem muitos blue collar workers, mas onde impera a indústria automóvel, salva pelos democratas), mas qualquer um destes Estados parece-me fora do alcance de Trump - ainda que os democratas pareçam algo preocupados com o Michigan (Clinton agendou mesmo uma visita de última hora a Detroit).
Por sua vez, os democratas também contam com alguns long shots, nomeadamente o Arizona, a Georgia e, em menor medida (e muito mais incerto, por falta de sondagens), o Alaska. Contudo, estas serão apostas de segunda linha para Hillary Clinton, que terá mais a ganhar em apostar as suas fichas nos Estados toss up, onde se decidirá a corrida, caso se confirmem os cenários de uma disputa muito equilibrada.
Curiosamente, não é totalmente descabido que nenhum dos candidatos chegue aos 270 votos eleitorais, num cenário de empate a 269 entre Hillary e Trump (com o republicano a vencer todos os toss up states, mas Hillary a vencer o voto do 2º distrito eleitoral do Maine), ou com o candidato independente Evan McMullin a amealhar a vitória no Utah e a impedir que os principais candidatos alcancem o número mágico de 270 votos. Nesse caso, a decisão passaria para a Câmara dos Representantes, que votaria por Estado e não por Congressista. Quer isto dizer que cada Estado teria um voto, votando de acordo com a maioria da sua delegação. Ou seja, tendo em conta o actual figurino da House, a vitória seria, quase de certeza, atribuída a Donald Trump, caso se confirmasse este cenário possível, mas improvável.