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sábado, 9 de novembro de 2024

Como Trump venceu


Se me tivessem dito o resultado do colégio eleitoral duas semanas antes da eleição, eu não teria estranhado muito. Afinal, o triunfo de Donald Trump nos sete battleground states era o resultado previsto pelo Real Clear Politics e, até, em alguns momentos pelo modelo de Nate Silver. O que não estava mesmo nas minhas previsões era que Trump vencesse o voto popular (algo que apenas um republicano tinha conseguido nos últimos 30 anos) e por uma margem razoável - 1,5% -, de acordo com as projecções, numa altura em que ainda não estão contados todos os votos. 

Todavia, a sondagem de Ann Selzer no Iowa teve o condão de alterar completamente as minhas previsões. Com essa e outras sondagens no midwest a mostrarem Kamala Harris competitiva em estados que não se esperavam equilibrados, julguei que a democrata estivesse numa posição de vantagem, posição essa ocultada pelas sondagens preocupadas em não errarem novamente no resultado de Trump numa eleição presidencial. Não podia, porém, estar mais errado e, como sabemos agora, no final, o candidato republicano melhorou mesmo os seus resultados de 2016 e venceu Kamala Harris em toda a linha, juntando ainda à sua vitória a reconquista do Senado e, muito provavelmente, à manutenção do controlo da Câmara dos Representantes. 

Conhecendo, agora, os resultados e analisando os dados disponíveis, sabemos que o triunfo de Trump foi de tal maneira dominador que os democratas passarão muito tempo a fazer a autópsia desta corrida para perceberem o que se passou e como foram capazes de perder uma corrida que pelo menos chegou a parecer estar ao seu alcance. 

Em primeiro lugar, Donald Trump, apesar de muitas vezes ter fugido ao guião, foi eficaz na sua mensagem centrada na economia, no controlo da imigração e no reforço das segurança. Na verdade, Trump criou a oferta e a procura, pois apoiou a narrativa de um país com uma economia decadente, com uma imigração descontrolada e com as ruas inseguras e entregues ao crime, e prometeu resolver esses problemas com uma economia mais liberal, o fecho das fronteiras e deportações em massa que devolveriam os criminosos aos seus países de origem. 

Com esta mensagem, Trump atraiu principalmente os homens, nomeadamente os mais jovens e de meia idade, que tendem a tornar-se mais conservadores e a procurarem alguém que personifique um líder forte. Ao mesmo tempo, o republicano também conquistou o apoio de muitos hispânicos, sensíveis a mensagens económicas, pois muitos deles são small business owners, e onde o tema de controlo da imigração já não é contraproducente, pelo contrário, porque já temem que novos imigrantes venham tomar os seus empregos. 

Mas Donald Trump conseguiu melhores resultados com todos os segmento do eleitorado e em todos os pontos do país. O seu apoio nas zonas rurais ainda foi mais esmagador, conseguiu estancar a perda das regiões suburbanas que lhe custaram a eleição de 2020 e melhorou substancialmente nas cidades. Por exemplo, no Bronx, um dos maiores bastiões democratas do país, Trump passou de single digits, há quatro anos, para cerca de um terço dos votos nesta eleição, o que demonstra os inroads que fez mesmo nos locais que lhe eram mais desfavoráveis. 

Um factor chave para a vitória do magnata do imobiliário foi a incapacidade de os democratas conseguirem demonstrar e provar ao eleitorado indeciso que o primeiro mandato de Trump na Casa Branca foi negativo. De facto, os eleitores parecem ter excelentes recordações dos anos da administração Trump, em especial no que à economia diz respeito, e não culpam o actual presidente-eleito pelas centenas de milhares de mortes por covid-19 e pelo colapso económico provocado pela economia. 

Além disso, a normalização de Trump é agora total. Em relação a 2016 e 2020, o republicano tem taxas de favorabilidade bem mais aceitáveis, ainda que em terreno negativo. É evidente que a tentativa de assassinato terá ajudado a suavizar a sua imagem, mas os americanos parecem já ter entranhado completamente o comportamento de Donald Trump, capaz de atitudes completamente inaceitáveis para qualquer outro candidato presidencial no passado e de ataques e insultos sem quaisquer filtros aos seus adversários. Mas, por agora, essa aceitação é apenas um exclusivo de Trump. Veja-se, por exemplo, a reacção de choque e de condenação generalizada quando Joe Biden pareceu apelidar de lixo os apoiantes de Donald Trump.

Por sua vez, também os democratas têm responsabilidades na copiosa derrota que sofreram. Apesar de Kamala Harris ter sido uma candidata competente e de ter batido Trump no único debate presidencial, a verdade é que Joe Biden poderá ter custado a eleição ao seu partido. Se tivesse cumprido a alegada promessa de não se candidatar a um segundo mandato, teriam existido eleições primárias e talvez tivesse surgido um candidato com mais hipóteses de bater Trump e menos ligado à sua administração do que a sua vice-presidente. 

Com a desistência de Biden a poucos meses da eleição, e apenas após pressão de líderes democratas como Nancy Pelosi e Barack Obama, Kamala Harris teve pouco tempo para se preparar e, apesar do entusiasmo que a sua entrada na corrida gerou, não foi capaz de ultrapassar o handicap com que partiu. Se é verdade que fez uma campanha bastante positiva, também não podemos deixar de referir que não foi capaz de se descolar suficientemente da imagem de um Biden muito impopular. Fica na memória, por exemplo, a oportunidade perdida no programa The View, da ABC, quando não conseguiu referir nada que tivesse feito diferente de Joe Biden.  

Estas são pelo menos algumas das razões que voltaram a levar Donald Trump para a Casa Branca, desta vez sem que este pusesse em causa a legitimidade da eleição. Contudo, em 2028, Trump já não estará no boletim de voto e deveremos ter a eleição mais aberta das últimas décadas. Será a primeira eleição sem Trump ou Obama em 20 anos e será muito interessante perceber se os republicanos seguem o legado Trump, ou se voltam a um perfil mais tradicional, e se os democratas mudam de rumo e tentam voltar a ser o partidos dos trabalhadores. Seja como for, tudo isso dependerá de como correrem os próximos quatro anos, novamente com Donald Trump na Casa Branca. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Vitória para Donald Trump

Donald Trump bateu as suas melhores expectativas e conseguiu uma grande vitória que o fará regressar, a 20 de Janeiro do próximo ano, à Casa Branca para um novo mandato como presidente dos Estados Unidos. Ao que tudo indica, Trump venceu os sete battleground states e ameaçou mesmo estados que pareciam seguros para os democratas, como a Virginia ou o Maine. Além disso, terá também ganho o voto popular, algo que o GOP tinha conseguido apenas uma vez (George W. Bush, em 2004), nos últimos 36 anos. A juntar à Casa Branca, o Partido Republicano consegue ainda o controlo do Senado, onde, a esta hora, conta já com 51 assentos, número que deverá crescer à medida que os votos forem contados. Neste momento, a única dúvida diz respeito ao controlo da Câmara dos Representantes, que pode ainda cair para qualquer dos lados. 

A vitória clara de Donald Trump parece ter a economia como razão principal e os homens hispânicos e as mulheres brancas como os dois grupos demográficos fundamentais. A inflação dos últimos anos, que agora já voltou a números normais, terá estado na origem da derrocada dos democratas nos battleground states. Ironicamente, a administração Biden (e, consequentemente, a vice-presidente Kamala Harris) foi castigada nas urnas pelos efeitos secundários da cura que aplicaram à economia norte-americana na consequência da depressão causada pela pandemia da Covid-19. Apesar dos bons indicadores da economia - desemprego historicamente baixo, inflação sob controlo e a bolsa em alta -, os eleitores norte-americanos não esqueceram o trauma dos meses de grande inflação e recordam positivamente o primeiro mandato de Trump no que diz respeito ao seu poder de compra. 

Neste momento, apenas alguns lugares na Câmara dos Representantes separam Donald Trump e o GOP do controlo total do governo federal dos Estados Unidos. Se juntarem as duas câmaras do Congresso à Casa Branca, os republicanos terão controlo do poder executivo e legislativo, além de contarem com uma maioria de juizes conservadores no Supremo Tribunal. A mais alta instância judicial federal pode ainda ficar com um maior pendor conservador, pois é bem possível que os dois juizes conservadores mais velhos optem por se reformar durante o mandato de Trump por forma a ser um republicano a nomear os seus sucessores. Se assim for, e com o Senado em mãos republicanas, nada impedirá Donald Trump de nomear dois juízes conservadores ainda jovens para garantir o controlo conservador do Supremo Tribunal nas próximas décadas. Dessa forma, a revogação da Roe v Wade pode ser apenas o primeiro ponto na agenda conservadora dos juizes de direita do Supreme Court. 

À hora que escrevo, Kamala Harris ainda não concedeu a derrota, mas deverá fazê-lo durante ao dia de hoje. A administração Biden/Harris, ao aceitar a derrota e ao realizar uma pacífica transferência de poder, como foi (quase) sempre norma na história dos Estados Unidos, marcará a diferença relativamente ao comportamento de Trump há quatro anos e começará duro período de oposição a uma administração Trump que promete ser ainda mais radical do que a anterior, com possíveis pesadas consequências para a Ucrânia, para as relações transatlânticas e até para a própria economia dos Estados Unidos, se ideias como a aplicação de tarifas forem para a frente. 

2024 foi um ciclo eleitoral como nenhum outro anterior e revelou-se uma verdadeira montanha-russa de emoções até culminar numa vitória de Donald Trump, de forma até mais fácil do que era previsível. Ao mesmo tempo que este ciclo termina, um novo começa. Em 2028 há mais. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

As previsões finais


Estamos na véspera do grande dia (noite e madrugada) e, por isso, está na altura de passar em revista as últimas previsões. Mais tarde, como não poderia deixar de ser, farei a minha aposta final.

FiveThirtyEight

Hipóteses de vitória: Trump 53% - Harris 46%

Votos eleitorais:  Trump 297 - Harris 241

The Silver Bulletin

Hipóteses de vitória: Trump 50,4% - Harris 49,2% 

Votos eleitorais: Trump 287 - Harris 251 

The Economist

Hipóteses de vitória: Harris 50% - Trump 50%

Votos eleitorais: Harris 270 - Trump 268

Real Clear Politics

Votos eleitorais: Trump 287 - Harris 251 

Larry Sabato's Crystal Ball

Votos eleitorais: Harris 276 - Trump 262

Cook Political Report

Votos eleitorais: Harris 226 - Trump 219 - Toss up 93

Como se vê, o equilíbrio é a nota dominante e se a eleição for, como se prevê, muito renhida e decidida por poucos votos eleitorais, as sondagens e os modelos de previsão terão motivos para cantar vitória. Contudo, se assistirmos a uma surpresa e um dos candidatos ganhar de forma relativamente confortável, então as sondagens terão voltado a falhar e ficarão (ainda mais) debaixo de fogo. Seja como for, já não falta muito para sabermos a resposta a esta questão. 

Closing arguments: Donald Trump

sábado, 2 de novembro de 2024

As campanhas

Estamos mesmo na recta final da campanha presidencial nos Estados Unidos e a indefinição mantém-se sobre quem ocupará a Sala Oval a partir de 20 de Janeiro do próximo ano. Todas as sondagens continuam a mostrar um grande equilíbrio, especialmente nos sete battleground states que decidirão a corrida. Entretanto, decorre voto antecipado e cerca de um terço do eleitorado já terá depositado o seu boletim de voto. Contudo, as campanhas continuam e intensificam a sua mensagem e o seu alcance, tentando, por todos os meios chegar aos (poucos) eleitores indecisos e convencer os seus apoiantes a irem às urnas. 

Kamala Harris conseguiu, neste ciclo eleitoral, deixar cair a imagem de fraca campaigner com que saiu da campanha de 2020 e revelou ser uma boa candidata que animou a base democrata a partir do anúncio da sua candidatura. Sem falhas nem gaffes, apostou numa campanha de vibes, tentando capitalizar o entusiasmo que a sua candidatura suscitou. Apresentou-se como a concorrente challenger e baseou a sua campanha numa mensagem de esperança e mudança - "Yes, we Kam" -, apesar de ser a actual vice-presidente. Esta estratégia não é disparatada, tendo em conta a impopularidade de Joe Biden e o clima anti-incumbência que se tem sentido um pouco por todo o mundo nos últimos tempos. Além disso, concorre contra um antigo presidente, com quase 80 anos, pelo que pode ser que consiga capitalizar com esta estratégia delineada pelo seu staff, composta por um misto de operativos da sua equipa, da de Biden e até de antigos staffers de Barack Obama.

Terá também apostado numa campanha menos centrada em políticas, porque, na verdade, os dois grandes temas que dominam a agenda são favoráveis a Trump e ao GOP - a economia e a imigração. Se sobre esta última é um facto que os democratas, por opção ou por incapacidade, não controlaram o aumento da imigração para os Estados Unidos, já a situação económica é mais uma questão de perceção do que de realidade, visto que a economia americana apresenta indicadores bastante positivos. Seja como for, Kamala Harris e os democratas optaram por centrar as suas atenções nas questões do aborto e da defesa da democracia, com a primeira a ser o seu grande trunfo eleitoral, nomeadamente junto das mulheres mais jovens, que têm reforçado a sua preferência pelos democratas desde a revogação da Roe v Wade.

Estas opções por parte de Harris parecem ter tido alguma repercussões na sua coligação eleitoral. As sondagens têm apontado para uma certa erosão do voto democrata nos negros e nos hispânicos (cada mais suscetíveis a mensagens económicas), mas que pode ser compensado por uma maior percentagem de voto no eleitorado branco, em especial das mulheres e daqueles que têm estudos superiores. No que ao colégio eleitoral diz respeito, isso podem ser más notícias para Kamala no Sul (Georgia) e no Oeste (Nevada e Arizona), mas boas notícias no Midwest (Michigan, Wisconsin e Pennsylvania) e ainda na North Carolina. 

Por sua vez, Donald Trump realizou uma campanha à sua imagem. Ao contrário de Kamala Harris, que contou com inúmeros surrogates, fossem eles do mundo da política (os Obama, os Clinton, ou o próprio Biden) ou do showbusiness (Bruce Springsteen, Oprah, Jennifez Lopez, Beyoncé, etc.), a campanha de Trump foi um one man show, como não podia deixar de ser. Apesar da idade, Donald Trump andou por todo o país e participou em dezenas de eventos e comícios, alguns com várias horas de duração, ainda que, nalguns casos, tenha demonstrado algum cansaço e falta de concentração.

Ao seu jeito, e talvez de forma ainda mais agressiva do que em 2016 e 2020, Trump não perdoou os seus opositores no trilho da campanha e os seus discursos foram, não raras vezes, chorrilhos de insultos, acusações e ameaças para os democratas e para quem o criticou ou, apenas, não o apoiou. Ainda assim, actualmente, e de acordo com as sondagens, Trump já não é tão impopular como nas duas últimas campanhas. Para isso, terá contribuído a tentativa de assassinato a que sobreviveu, que o tornou mais humano aos olhos dos eleitores e o facto de os americanos já se terem habituado ao perfil do candidato republicano. 

Como os eleitores parecem ter boas recordações do mandato de Trump na Casa Branca, associado ao período pré-inflação, o concorrente do GOP aposta forte nesse tema, prometendo reduzir o custo de vida e melhorar a situação económica do país, ainda que faça promessas, como a de aumentar as tarifas de importação, que suscitam muitas dúvidas e possam mesmo ser contraproducentes. Também o controlo da imigração tem estado no centro da sua mensagem de campanha, ou não fosse esse o tema original de Trump que o levou ao topo do Partido Republicano. Porém, desta vez, o anterior build that wall endureceu e transformou-se num discurso bem mais xenófobo e mesmo racista, como ficou patente no recente comício de Trump no Madison Square Garden, em Nova Iorque, onde um comediante afecto ao GOP apelidou Porto Rico de "lixo". 

Apesar de todos os defeitos e excessos de Trump, muitos eleitores parecem continuar a contar com ele para melhorar a sua situação económica. São principalmente eleitores rurais e da classe trabalhadora sem estudos superiores - os blue collar workers. Muitos deles podem nem sequer gostar de Trump, mas acreditam no discurso isolacionista do America First e têm esperança que a América rural e industrial regresse aos seus tempos áureos. 

Por outro lado, Donald Trump tem sido relativamente bem sucedido no apelo ao eleitorado hispânico, que nas últimas décadas era um bastião democrata. Contudo, muitos deles são small business owners e a mensagem económica de Trump soa-lhes de forma favorável. Além disso, cada vez mais são já imigrantes de segunda ou terceira geração, pelo que o discurso pró-imigração dos democratas já não lhes é tão próximo, quando não é, até, contraproducente. 

No fim de contas, ambas as campanhas tiveram uma coisa em comum: falaram principalmente para o seu eleitorado. Numa América totalmente dividida politicamente, esta campanha não serviu para curar feridas ou fazer pontes entre os dois lados da barricada. Porém, daqui a poucos dias, um deles sairá obrigatoriamente vencedor e sabermos, nessa altura, qual das campanhas foi mais eficaz e alcançou o seu objectivo. Mas, até lá, ainda há muitos eleitores para cortejar e, numa corrida tão renhida, todos os votos contam. 

sábado, 19 de outubro de 2024

Vantagem para Trump?


A presente campanha pela presidência dos Estados Unidos tem sido marcada, como tenho dito, por um enorme equilíbrio, à imagem do que aconteceu nas duas últimas corridas pela Casa Branca, em 2016 e 2020. Nos últimos, dias, porém, assistiu-se a um (muito) pequeno movimento nas sondagens em favor de Donald Trump. Apesar de ser uma tendência pouco perceptível, parece-me que é algo mais do que mero ruído estatístico e que o candidato republicano, a pouco mais de duas semanas do dia das eleições, melhorou ligeiramente a sua posição na corrida.

Depois do desastroso debate de Joe Biden e até ao ainda presidente abdicar da candidatura à reeleição a favor da sua vice-presidente, Kamala Harris, Trump parecia lançado para um segundo mandato na Casa Branca, pois eram muitas as dúvidas sobre a capacidade de Biden conseguir cumprir mais quatro anos na presidência. Mas, com Harris, o entusiasmo democrata ressurgiu e a boa prestação da democrata no seu único debate com Trump, bem como a bem sucedida convenção nacional democrata foram dois importantes momentos que catapultaram a actual vice-presidente para bons números nas sondagens e a ter um pequeno favoritismo na corrida.

Contudo, nas últimas duas ou três semanas, a campanha estabilizou e não houve grandes motivos de destaque. Talvez isso tenha levado alguns independentes com maior tendência para votar no GOP a "voltar para casa", depois de terminado o período de "lua de mel" de Kamala Harris. Estamos a falar de uma ínfima percentagem de eleitores e não de um movimento significativo. As sondagens nacionais, por exemplo, mostravam uma vantagem da democrata na casa dos 3%, quando, agora, esse número desceu para cerca de 2%, o que pode ser suficiente para que Trump vença o colégio eleitoral, mesmo saindo derrotado no número total de votos a nível nacional. 

Nos sete battleground states decisivos, Trump tem também mostrado sinais de força e o site Real Clear Politics atribui já vantagem ao candidato republicano em todos eles. Todavia, é preciso ter em atenção que, neste ciclo eleitoral, e especialmente nos dias mais recentes, temos sido inundados por sondagens de empresas de estudos de opinião com ligação ao partido Republicano e que isso tem sempre influência nos números, mesmo que os modelos agregadores de sondagens tenham em consideração esse house effect nos resultados que apresentam. 

Este alegado movimento nas sondagens foi já detectado pelos modelos que tentam prever o resultado da corrida. Tanto o FiveThirtyEight como o SilverBulletin atribuem, à hora que escrevo, um ligeiro favoritismo a Trump, que conta, em ambos os modelos, com uma probabilidade de vitória de 52%, tendo Harris 48% de hipóteses de ganhar a eleição.  

Também as duas campanhas parecem observar, nos seus números e sondagens internos, esta mesma tendência, pelo menos a julgar pela sua estratégia actual. Trump comporta-se como o frontrunner da corrida, a recusar um segundo debate com a sua opositora e dando-se ao luxo de desperdiçar tempo e recursos em eventos em estados que estão fora do seu alcance, como em Nova Iorque e na Califórnia. Por sua vez, Kamala insiste num segundo debate que possa voltar a ser-lhe favorável e mostra-se mais propensa ao risco e tenta alargar o seu universo de eleitores, tendo mesmo dado uma entrevista à conservadora Fox News, procurando uma incursão no eleitorado do seu adversário.

Significa tudo isto que Donald Trump tem agora um momentum decisivo e que a eleição começa a escapar a Kamala Harris? Neste momento, a minha resposta é "não". Ainda que Trump tenha melhorado a sua posição, a verdade é que a corrida continua virtualmente empatada e ter 48% ou 52% de hipóteses não é uma diferença estatisticamente relevante. Assim, o desfecho da disputa pela Casa Branca continua tão incerto como um coin flip. 

sábado, 12 de outubro de 2024

The Issues




















Num panorama político cada vez mais polarizado e onde existem menos indecisos e menos swing voters, os grandes temas das campanhas vão perdendo destaque e importância na corrida eleitoral, mas, ainda assim, existem alguns assuntos que dominam as atenções e são decisivos aquando da escolha do sentido de voto dos eleitores. Importa, por isso, passar em revista os principais temas que têm dominado a campanha pela Casa Branca e que determinarão o vencedor da eleição.

Economia - Como sempre, "it's the economy, stupid" e a economia continua a ser o factor mais importante que os eleitores analisam quando decidem o seu voto. Actualmente, a economia norte-americana está numa situação relativamente positiva, com o desemprego em baixa, a bolsa em alta e o poder de compra a subir ligeiramente. Segundo as tendências, a economia ainda melhorará, ainda que pouco significativamente, até 5 de Novembro.

Posto isto, seria de esperar que Kamala Harris, vice-presidente na actual administração, colheria os louros da boa prestação económica dos Estados Unidos. Contudo, no tema da economia, é Donald Trump que tem levado vantagem junto dos eleitores, principalmente pelo trauma que a alta inflação de 2022 e 2023 deixou na população norte-americana durante o mandato de Biden e porque a maioria dos eleitores tem memória positiva do mandato de Trump no que à economia diz respeito.  

Democracia - A insurreição de 6 de Janeiro de 2021 e a negação da derrota na última eleição por parte de Trump, colocou dúvidas sobre a saúde da democracia dos Estados Unidos da América. Muitos democratas temem que, caso perca, Donald Trump volte a não assumir a derrota e apele à revolta dos seus apoiantes, o que pode originar numa nova onda de violência. Temem ainda que, caso vença, Trump utilize o seu poder presidencial para atacar até acusar judicialmente os seus adversários políticos. 

Por seu lado, grande parte do eleitorado republicano, baseado em informação falsa e totalmente infundada, preocupa-se com uma eventual fraude eleitoral, como votos de imigrantes ilegais, que impeçam a vitória do seu candidato, como alegam, falsamente, ter acontecido há quatro anos. 

Segurança e Imigração - Apesar de serem dois temas claramente distintos, escolhi juntar a segurança e imigração num só tópico dada a clara estratégia da campanha republicana em ligar a imigração a uma alegada sensação de insegurança no país. Para a história dos debates presidenciais americanos ficou já a estapafúrdia frase de Trump "They're eating cats and dogs", alegando que imigrantes do Haiti estariam a raptar e comer animais domésticos numa pequena cidade do Ohio. Apesar dos exageros e da retórica incendiária de Trump, a verdade é que os americanos estão mesmo preocupados com o aumento dos números da imigração e com a situação na fronteira com o México, que continua a ser atravessada por milhares de imigrantes ilegais à procura de uma vida melhor.

Apesar de os Estados Unidos serem, desde a sua fundação, a Terra da Oportunidade e de a Estátua da Liberdade ter uma inscrição que começa com "Give me your tired, your poor", a desconfiança em relação aos que chegam do exterior tem vindo a crescer. E já não são apenas os brancos a defender uma maior restrição à imigração: os afro-americanos e mesmo os hispânicos de segunda ou terceira geração temem uma grande vaga migratória que ameace os seus empregos e mesmo a sua segurança. Por isso, este é um tema onde a mensagem republicana, de fecho de fronteiras e deportação de imigrantes ilegais leva vantagem sobre a posição mais permissiva dos democratas.

Educação e Saúde - Menos presenet do que noutros ciclos eleitorais, os assuntos internos da nação americana, como a educação, a saúde ou a segurança social, têm sido, desta vez, menos falados. Isto acontece, principalmente, porque é menor a diferença entre as posições dos dois grandes partidos. Trump é um populista e não um conservador fiscal e defensor de um small government, como os candidatos republicanos tradicionais, e até já deixou de tentar desmantelar o Obamacare, o sistema de saúde reformado por Barack Obama que, ao longo dos anos, se tornou bastante popular. Como é tradicional, os norte-americanos continuam a confiar mais nos democratas para estes temas, mais relacionados com o welfare state e com os serviços providenciados pelo estado, por isso talvez não seja uma boa notícia para eles que estes assuntos estejam menos presentes na campanha. 

Aborto - Se no tópico anterior falei num assunto caro aos democratas, mas agora menos premente na opinião pública, o aborto pode muito bem ter sido o tema que veio compensar essa perda. A revogação da "Roe v Wade" pelo Supremo Tribunal voltou a trazer o aborto para a linha da frente das campanhas eleitorais norte-americanas. Este tema tem sido bastante "cavalgado" pelos candidatos democratas e essa estratégia teve resultados muito positivos nas eleições intercalares de 2022. Sem uma resposta coerente e eficaz para um assunto onde a posição republicana é altamente impopular, o GOP tem procurado não falar no tema, o que não tem resultado perante a insistência democrata em apostar no aborto como tópico constante no trilho de campanha. Donald Trump tem feito grandes flip flops sobre este tema, o que ainda tem ajudado mais a campanha de Kamala Harris, que aposta forte neste tópico para incentivar o eleitorado feminino (em especial, as jovens) a votar na candidata democrata. 

Política Externa - Deixei para o fim o tema que nos diz mais a nós, não norte-americanos: a política externa dos Estados Unidos. Este ano, a guerra na Ucrânia e o conflito israelo-palestiniano têm dominado as notícias e trazem algumas da mais profundas diferenças entre Kamala Harris e Donald Trump. Se Kamala quer manter e até aumentar o apoio norte-americano à Ucrânia, já Donald Trump, cuja boas relações com Putin são conhecidas, já disse querer cortar o apoio à nação invadida pela Rússia e ajudar a encontrar uma solução imediata para o fim da guerra na Europa Oriental. No que diz respeito à situação no Médio Oriente, o candidato republicano é totalmente pró-israelita enquanto que a democrata tenta um maior equilíbrio entre o apoio a Israel e a procura de uma solução de dois estados para o conflito, apelando à contenção de Israel nas suas acções militares, reflectindo esta posição uma maior divisão do eleitorado democrata à relativamente questão israelo-palestiniana. 

Assim, se Putin e Netanyahu preferirão, obviamente, uma vitória de Donald Trump, já a esmagadora maioria do mundo ocidental torcerá pela vitória de Kamala Harris, até porque o anterior presidente continua a ameaçar com um isolacionismo cada vez mais pronunciado e que poderá minar a coligação política e militar do Ocidente. Porém, para os norte-americanos, em 2024, a política externa continuará a ser muito pouco relevante na hora de escolherem em quem votar, já que serão os assuntos internos, referidos em cima, a revestirem-se de maior importância para a grande decisão de 5 de Novembro.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

O que os números nos dizem


Abri este ciclo de 2024 no Máquina Política a apresentar os battleground states decisivos para a escolha do próximo presidente dos Estados Unidos. Nesse post, salientei que a corrida está empatada e totalmente em aberto, mesmo que hoje tenha saído uma sondagem Reuters/Ipsos nacional que apresenta uma vantagem de sete pontos percentuais para Kamala Harris (47%-40%). Todavia, e tendo em conta todos os estudos de opinião conhecidos, é provável que esta sondagem seja um outlier, ainda que não se possa descurar que este resultado seja a primeira manifestação de uma tendência que venha a ser confirmada mais tarde.

A menos de um mês do dia das eleições, é previsível que não haja grandes alterações no estado da corrida, salvo uma surpresa de Outubro ou se Donald Trump aceitar um novo debate televisivo. Assim, podemos antever que aquilo que as sondagens no dizem hoje é muito representativo dos resultados eleitorais definitivos. Isto, claro, se considerarmos que as sondagens não falharão, como aconteceu em 2016 e em 2020.

Em média, as sondagens têm um desvio de cerca de 4% relativamente ao resultado final. Por isso, e como o consenso dos estudos de opinião é que a corrida se encontra empatada, podemos ainda ter um resultado relativamente desnivelado para qualquer um dos lados, sendo que, a verificar-se tal desvio, será mais provável que aconteça a favor de Trump, cujos resultados foram subvalorizados nas duas anteriores eleições. Porém, com dois ciclos eleitorais para analisarem, e com o fenómeno Trump hoje bem mais consolidado, é natural que as empresas de sondagens tenham conseguido adaptar os seus modelos de forma a preverem com mais exactidão os resultados do nomeado do GOP.

Por outro lado, importa perceber que, por causa do sistema de Colégio Eleitoral, os números nacionais pouco importam para termos uma noção de quem lidera a disputa pela Casa Branca. Como aconteceu em 2016 e 2020, os republicanos contam com uma importante vantagem nos votos eleitorais, porque os democratas "desperdiçam" muitos votos em estados muito populosos (a Califórnia é o melhor exemplo) e porque os republicanos vencem em muitos dos estados mais pequenos, cujo peso no Colégio Eleitoral é desproporcionalmente elevado. Desta forma, calcula-se que Kamala Harris terá de vencer pelo menos por 3% no total dos votos para estar confortável na contagem dos votos eleitorais.

Assim, o mais relevante será seguir os números nos sete estados decisivos, mas como todas as sondagens têm colocado a corrida em todos eles como estando dentro da margem de erro, também não conseguimos, neste momento, retirar grandes ilações a não ser aquela que já fiz: a eleição está empatada e é impossível antecipar um vencedor. Seja como for, deixo em baixo um apanhado das previsões dos vários analistas e modelos de agregação de sondagens, ficando bem demonstrado a total imprevisibilidade da corrida pela presidência norte-americana. 

Nate Silver Bulletin - Harris 55% - Trump 45% (hipóteses de vitória)

FiveThirtyEight - Harris - 53% - Trump 46% (hipóteses de vitória)

Cook Political Report - Harris 226 - Trump 219 (votos eleitorais)

Larry Sabato's Christal Ball - Harris 226 - Trump 219  (votos eleitorais)

Real Clear Politics - Harris 215 - Trump 219 (votos eleitorais)

The Economist - Harris 273 - Trump 265 (votos eleitorais, sem toss ups)

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

The Donald













Em 2016, no início da campanha das primárias presidenciais republicanas, disse, num programa da TSF, que fazia todo o sentido que a candidatura de Donald Trump fosse seguida, como fazia o Huffington Post, nas secções de entretenimento dos media e não nas de política. Não podia ter dito um maior disparate, pois, hoje, oito anos depois, Trump já venceu três nomeações presidenciais pelo GOP e ocupou, durante um mandato, a Sala Oval. Como em 2016 e em 2020, The Donald é novamente o candidato do partido conservador à Casa Branca.

Trump nasceu em 1946, no seio de uma família abastada. O seu pai era um empresário de sucesso no sector do imobiliário e Donald frequentou sempre escolas privadas de Nova Iorque, incluindo a escola militar local. Tirou um degree em Economia, primeiro em Warthon e, depois, na Universidade da Pennsylvania. 

Terminados os estudos, Donald Trump empregou-se na empresa do pai, a Trump Management, e começou uma vida dedicada ao imobiliário. Primeiro, sob a alçada do pai e, mais tarde, de forma independente, o magnata tornou-se um nome incontornável na cena imobiliária de Nova Iorque e dos Estados Unidos. O seu sucesso é alvo de muita polémica e o seu império sofreu muitos altos e baixos, mas é indesmentível que, durante décadas, o nome Trump foi sinónimo de prosperidade e riqueza. 

O seu império, mas também as suas várias polémicas, tanto a nível profissional como pessoal, fizeram dele uma das grandes figuras da vida cor-de-rosa de Nova Iorque. Trump tornou-se um ícone da cultura popular norte-americana e, depois de ganhar fama no imobiliário, apostou forte no show business (quem não se lembra do seu cameo no Home Alone 2?). No início dos anos 2000, lançou o seu próprio reality show, o The Apprentice, que rapidamente se tornou um grande sucesso e duraria até ao seu protagonista chegar à Casa Branca. 

Depois dos negócios e do entretenimento, Trump procurou uma nova arena para brilhar e, naturalmente, virou-se para a política. Registado como republicano, apesar de ter contribuído para vários candidatos democratas - como os Clinton -, nunca se definiu propriamente como conservador. Como em tudo na sua vida, Donald procurava criar controvérsias, trazendo-se a si próprio para as luzes da ribalta. Foi assim, por exemplo, que, em 1988, se auto-proclamou como candidato a vice-presidente de George Bush ou que se tornou uma das principais vozes que acusavam Barack Obama de não ter nascido nos Estados Unidos e, por isso, não ser elegível para a presidência da nação norte-americana. 

Em 2000, chegou a ser candidato às primárias presidenciais do Partido Reformista, apenas para desistir pouco tempo depois. Mas o momento decisivo chegaria em 2011, num célebre jantar dos correspondentes da Casa Branca, em que marcou presença e em que foi alvo das piadas de Barack Obama. Visivelmente incomodado e sentindo-se publicamente humilhado, terá sido nessa ocasião que decidiu concorrer à Casa Branca para se vingar de Obama e dos democratas. Contudo, foi a partir daí que se assumiu definitivamente como republicano e conservador, tendo mesmo participado na CPAC e marcado presença nos primeiros estados a terem primárias. Estava a lançar as sementes que dariam frutos quatro anos mais tarde.

Em 2016, os republicanos tinham de decidir quem seria o seu candidato presidencial num ano em que os democratas deixavam de ter o popular Obama no boletim de voto. Com boas hipóteses de vitória, foram muitos e de nomeada os concorrentes republicanos, como, por exemplo, Jed Bush, Marco Rubio ou Ted Cruz. Todavia, esse ciclo eleitoral foi absolutamente tomado de assalto por Donald Trump, mesmo quando muitos (eu incluído) pensavam que a sua candidatura não era séria, mas apenas uma publicity stunt destinada a aumentar as audiências do seu reality show. 

Ao longo das primárias, foram caindo um a um os vários candidatos "anti-Trump" que se destacavam nas sondagens momentaneamente. No final, a nomeação foi para Donald e essa vitória haveria de transformar radicalmente o Partido Republicano, quiçá para sempre. Trump, com o seu discurso disruptivo e sem filtros, agradou a um grande segmento do eleitorado republicano, tornando-se o herdeiro e grande representante do movimento populista Tea Party. A partir daí, o GOP passou a ser o partido de Trump e os republicanos clássicos tornaram-se uma espécie em vias de extinção. 

Contudo, na eleição geral, Trump era visto como o underdog face à favorita Hillary Clinton. A antiga primeira-dama, senadora e secretária de estado, tinha um currículo impressionante, enorme experiência e contava com o Partido Democrata totalmente do seu lado (apesar de alguns ruidosos apoiantes de Bernie Sanders). Já Donald não tinha qualquer experiência política e era visto com muita desconfiança por parte do establishment republicano. Acossado por escândalos e atrás de Hillary nas sondagens, nem o próprio Trump acreditava na sua eleição. 

Aconteceu, porém, que Hillary Clinton demonstrou ser uma candidata sofrível, tendo cometido muitos erros de palmatória. Além disso, as sondagens subvalorizaram repetidamente as hipóteses de vitória de Donald Trump e os democratas apostaram recursos em estados que não teriam hipóteses de ganhar, descurando locais onde pensavam, erradamente, estar seguros. A poucos dias da eleição, a famosa carta de James Comey terá também sido decisiva e selou a vitória de Trump que se tornou, contra todas as expectativas, o 45º presidente dos Estados Unidos.

O seu mandato presidencial foi marcado, primeiro, pela desregulação, pela quebra de acordos e tratados e internacionais e até pela ameaça da retirada dos Estados Unidos da NATO. A boa prestação da economia norte-americana nos primeiros anos do seu mandato, haveria de ser totalmente revertida pela eclosão da COVID-19. A sua gestão da pandemia foi um verdadeiro desastre e isso poderá ter ditado a sua derrota nas eleições de 2020. Do seu mandato na Casa Branca, ficam ainda para a história os dois processos de impeachment que lhe foram movidos pela maioria democrata na Câmara dos Representantes - primeiro por ter, alegadamente, sugerido trocar favores políticos por armamento numa conversa telefónica com Vladimir Zelenksy e, depois, pelo seu papel na insurreição de 6 de Janeiro de 2021.

Vencido nas urnas por Joe Biden, Trump nunca assumiu a derrota, preferindo esconder-se atrás de teorias completamente infundadas, alegando que venceu a eleição e que esse triunfo lhe foi roubado por uma massiva fraude eleitoral. Assim, Trump evitava a assunção da derrota, algo que seria fatal para alguém que, como ele,  vê o mundo dividido entre vencedores e falhados. A reação violenta dos seus apoiantes haveria de tornar o 6 de Janeiro num dia infame. Na altura, pensou-se que Trump tinha ido longe demais e que estaria acabado para a política. Porém, o seu poder total sobre a sua falange de apoio não esmoreceu e o GOP resignou-se a esquecer o sucedido e a continuar a apoiar o seu líder. Ainda hoje, a maioria dos eleitores republicanos acredita na mentira da eleição roubada, prova de que Trump controla, ainda, o eleitorado e, consequentemente, o partido republicano. 

Agora, em 2024, Donald Trump tenta a reeleição para a Casa Branca. Se contra Joe Biden a vitória parecia certa, já face a Kamala Harris a conversa é outra e o triunfo incerto. Até ao momento, Trump mantém-se igual a ele mesmo, talvez ainda mais irascível e fora de controlo. A tentativa de assassinato a que sobreviveu deu-lhe ainda mais confiança e sente-se, agora, uma figura messiânica destinada a salvar os Estados Unidos. Ou, pelo menos, é isso que gosta de dizer, ao mesmo tempo que vende bíblias, relógios e todo o tipo de parafernália com o seu nome e cara para aumentar a sua riqueza pessoal.

Acossado por vários processos judiciais, tendo já sido declarado culpado num deles, Donald Trump precisa desesperadamente de ser eleito para, pelo menos, adiar a conclusão destes processos e, até, quem sabe, perdoar-se a si próprio através do poder presidencial. Com as sondagens a darem a corrida como empatada, a vitória está em dúvida, mas uma coisa é certa: Trump já entrou para a história como, porventura, a figura mais polarizadora da história dos Estados Unidos. 

sábado, 5 de outubro de 2024

Os sete magníficos

Sim, ainda existem blogues e o Máquina Política é um desses dinossauros que sobrevivem à mudança dos tempos. Bem, pelo menos de quatro em quatro anos.

A exactamente um mês do dia das eleições nos Estados Unidos, o Máquina Política regressa da hibernação para acompanhar a mais importante, interessante e apaixonante eleição política do mundo, na opinião desta maquinista. 

Como não podia deixar de ser, o primeiro post sobre a corrida pela Casa Branca de 2024 é uma espécie de snapshot da disputa pelos 538 votos eleitorais que decidirão quem se sentará na Sala Oval a partir de 20 de Janeiro de 2025: Kamala Harris ou Donald Trump.

À imagem do que tem acontecido nas últimas duas eleições, em que Trump foi o candidato republicano, esta campanha pela presidência norte-americana está a ser marcada pelo equilíbrio e, neste momento, a corrida é um verdadeiro empate, sem que nenhum dos candidatos possa ser considerado favoritos. Se ouvirem ou lerem o contrário, trata-se apenas de wishful thinking, seja de um lado ou de outro.

Por causa do sui generis sistema eleitoral norte-americano, estas eleições serão decididas, como sempre acontece, num punhado de estados, já que em 43 dos 50 estados (sem contar com Washington DC, verdadeiro bastião democrata), o vencedor parece, à partida, mais ou menos decidido, salvo grandes surpresas ou erros de monta das sondagens. Se distribuirmos os votos eleitorais desses estados pelo seu presumível vencedor, percebemos que a vice-presidente Kamala Harris conta já com 226 votos eleitorais bem encaminhados e o ex-presidente Donald Trump tem 219 grandes eleitores relativamente seguros do seu lado. Ou seja, nenhum dos dois candidatos está perto de atingir o número mágico de 270 electoral votes necessários para a vitória. 

Assim sendo, as atenções estão viradas para os sete super swing states deste ciclo eleitoral: Wisconsin, Pennsylvania, Michigan, North Carolina, Georgia, Arizona e Nevada. Em qualquer um dos destes estados, o equilíbrio tem sido a nota dominante, com as sondagens a mostrarem empates técnicos em todos eles. Consequentemente, ambas as campanhas estão a apostar tudo nestes sete estados que decidirão, certamente, o vencedor da eleição presidencial.

Neste momento, e apesar de, segundo as sondagens, as diferenças entre Harris e Trump estarem, em todos estes estados, dentro da margem de erro, diria que, se tivesse de apostar, a candidata democrata terá uma minúscula vantagem no Michigan, no Nevada e no Wisconsin, enquanto Trump estará, por muito pouco, na frente na Georgia e no Arizona. Já na Pennsylvania e na North Carolina, ainda não arriscaria um favorito. 

Está, por isso, ainda tudo por decidir na corrida pela Casa Branca. Com o equilíbrio a ser a nota dominante, o mais provável é termos, de hoje a um mês, uma longa noite pela frente, sendo até provável que não seja a 5 de Novembro que ficaremos a saber quem sucederá a Joe Biden à frente dos destinos dos Estados Unidos da América. 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Os battleground states

Feita a minha previsão para os resultados das eleições norte-americanas, importa clarificar as minhas decisões e fazer um ponto de situação nos battleground states, aqueles onde os eleitores escolherão, na verdade, o próximo presidente dos Estados Unidos.

OS ESTADOS DECISIVOS

Flórida (29 votos eleitorais) - Sendo o derradeiro battleground state, a Florida tem sido, nas últimas décadas, o mais disputado dos estados em corridas presidenciais e, este ano, não é diferente. Com sondagens para todos os gostos, é muito difícil antever o vencedor no sunshine state. Se num primeiro momento, os democratas pareceram levar vantagem no voto antecipado, uma onda posterior de votantes do GOP, veio equilibrar as contas. Neste estado, o voto latino será decisivo, até porque existe um sub-grupo de eleitores, os cubano-americanos, que votam tendencialmente no GOP (ainda que essa tendência venha a esmorecer). Como habitualmente, o condado de Miami-Dade será decisivo, com Biden a ter que conseguir margens junto dos jovens e minorias nos centros urbanos para contrariar a força de Trump junto dos eleitores rurais. Sendo um estado muito envelhecido por ser destino de reforma para muitos idosos, a forma como o presidente geriu a pandemia pode favorecer Biden junto de uma facção do eleitorado que, há quatro anos, preferiu Trump a Hillary Clinton. Contudo, o histórico recente na Florida é favorável ao GOP, pelo que aposto, sem convicção, na sua vitória.

Pennsylvania (20 VE) - Provavelmente, será o tipping point state, ou seja, o estado que dará a vitória a um dos candidatos. Sem a Pennsylvania, Trump não tem chances de ser reeleito, mas, vencendo aqui, passa a ser o favorito à vitória. Para vencer, Joe Biden precisa de uma operação de turnout melhor do que a de Hillary há quatro anos, especialmente junto dos jovens e das minorias. Devido ao voto antecipado, pode demorar alguns dias até conhecermos o vencedor, particularmente se a corrida for muito equilibrada. As sondagens têm dado uma vantagem constante ao democrata, ainda que por uma margem relativamente curta. Aposto numa vitória Biden, já que Trump venceu por uma unha negra em 2016 e , este ano, num clima muito mais negativo para o actual presidente, duvido que consiga aguentar o seu score na Pennsylvania. 

Georgia (16 VE) - Um sonho antigo para os democratas, que já tentaram vencer aqui em 2016, a Georgia parece agora verdadeiramente em jogo. Em 2018, a democrata Stacey Abrams perdeu a corrida para Governador por 1,2% e provou a competitividade democrata no estado. Depois disso, o partido de Biden manteve a sua estrutura intacta e continuou a registar eleitores. Numa eleição mais concorrida, e por isso mais propensa a atrair jovens e eleitores das minorias, o Partido Democrata tem hoje uma grande possibilidade de vencer num estado que lhe foge desde 1992. A crer nas sondagens, a corrida será disputada até ao último voto.

North Carolina (15 VE) - Este é porventura o estado globalmente mais importante da noite, dado que tem corridas competitivas para a eleição do Presidente, de um lugar no Senado e do cargo de Governador do estado. Por isso, muitos milhões de dólares foram gastos, pelos dois lados, nas campanhas da Carolina do Norte. Barack Obama venceu o estado em 2008, mas perdeu-o em 2012. Há quatro anos, Trump voltou a dar a vitória aos republicanos. Sendo um estado com grandes mudanças demográficas, teima em não seguir o caminho que fez a sua vizinha Virginia, rumo ao domínio democrata. Este ano, Joe Biden parece ligeiramente à frente, mas não seria uma surpresa assistir a um triunfo de Donald Trump.

Arizona (11 VE) - Depois de as sondagens terem dado, durante largas semanas, uma vantagem relativamente confortável a Joe Biden no Arizona, os últimos estudos de opinião parecem indicar uma ligeira recuperação do actual presidente. Contudo, os democratas parecem ter já um pé firme no estado e são favoritos à vitória, fruto da sua vantagem em Phoenix, o grande centro urbano do Arizona, e entre os eleitores hispânicos, que representam uma importante fatia do eleitorado. Uma vitória democrata neste estado, poderá ser decisiva, pois permite a Biden um caminho para os 270 votos eleitorais sem precisar dos 20 votos eleitorais da Pennsylvania. 

OS ESTADOS LEANING BIDEN

Michigan (16 VE) e Wisconsin (10 VE) - Juntei estes dois estados, por terem muito em comum. São ambos da zona do midwest, com muitos blue collar works e deram a vitória a Trump, há quatro anos. Além disso, é muito provável que, desta vez, repitam a tendência e apostem no mesmo candidato. Segundo as sondagens, estes dois estados estão relativamente seguros para Joe Biden, que consegue melhores resultados com os eleitores brancos do que aqueles que Clinton alcançou há quatro anos. Em particular no Michigan, com uma forte comunidade afro-americana, a presença de Kamala Harris no ticket democrata pode ajudar a motivar os eleitores negros a comparecer às urnas e a votar democrata. Um triunfo de Trump nestes estados (ou apenas num), ainda que muito improvável, será, certamente, sinal que continuará na Casa Branca. 

New Hampshire (4 VE) e Nevada (5 VE) - Dois estados pequenos, mas que são, por normal, muito importantes nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Ambos são early states nas primárias e ambos deverão atribuir os seus votos eleitorais aos democratas, como tem acontecido desde 2008. Contudo, as semelhanças acabam aí. O New Hampshire é um estado do nordeste, maioritariamente branco e com um eleitorado tendencialmente independente e moderado. Segundo as sondagens, Biden segue confortavelmente para a vitória. Ainda que no Nevada a corrida parece relativamente mais equilibrada, acredito que o eleitorado hispânico e a grande influência dos sindicatos de trabalhadores de casinos, aliados dos democratas, serão suficientes para garantir a vitória de Joe Biden.

OS ESTADOS LEANING TRUMP

Texas (38 VE) - Este será um dos estados mais interessantes de seguir, mais logo. Com uma grande comunidade hispânica e vários centros urbanos em rápido crescimento, o Texas já alguns ciclos eleitorais que vem sendo apontado, erroneamente, como possível battleground state. Parece, porém, que chegou finalmente a vez do The Lone Star State merecer esse título, pois as sondagens indicam uma clara aproximação de Joe Biden. Ainda antes de chegar o dia de hoje, já os texanos tinham batido os anteriores recordes de participação eleitoral, pelo que será muito difícil prever o resultado no Texas com base nos dados de eleições anteriores. A prudência diz-me para esperar uma vitória republicana, mas, se tivesse que apostar numa surpresa, seria no Texas que colocaria as minhas fichas.

Ohio (18 VE) e Iowa (6 VE) - O Ohio tem a fama de votar sempre no candidato que vence a eleição geral, mas poderá muito bem perder o título nesta eleição. Nos últimos anos, o estado tem virado à Direita, fruto do declínio dos seus centros urbanos e do ressentimento de muitos eleitores brancos pelo desaparecimento de postos de trabalho ligados à indústria e à extracção de recursos minerais. Esse ressentimento foi aproveitado por Donald Trump que, com o seu discurso proteccionista, atraiu muitos blue collar workers para as suas fileiras. Este ano, a corrida deverá ser mais apertada do que em 2016, mas Trump parte na frente. O Iowa, um estado predominantemente rural e branco, é terreno favorável para o perfil do Presidente, ainda que tenha perdido popularidade devido à sua gestão da pandemia, pois o Iowa tem sido especialmente fustigado pelo vírus nas últimas semanas. Contudo, se, no final da noite, Donald Trump não tiver vencido estes dois estados, então é porque deixará a Casa Branca em Janeiro de 2021.

E AINDA...

1 VE no Maine e 1 VE no Nebraska - O Maine e o Nebraska quebram o tradicional winner takes all e atribuem os seus votos eleitorais de uma forma mista: 2 votos ao vencedor no estado e 1 voto ao vencedor em cada distrito. Por isso, e apesar de os estados em si não parecerem estar em disputa, um distrito em cada um dos estados pode diferir do resultado do estado como um todo. No Nebraska, Joe Biden parece bem colocado para conquistar o voto eleitoral do 2º distrito do estado, que abrange a cidade de Omaha. No Maine, também no 2º distrito, existe um maior equilíbrio, mas eu atribuo melhores possibilidades para o candidato democrata. São apenas dois votos eleitorais, mas, numa corrida muito equilibrada, podem fazer a diferença.

As minhas apostas

 
















A poucas horas de abrirem as urnas nos Estados Unidos, deixo aqui a minha aposta para o figurino do Colégio Eleitoral depois de se contarem todos os votos. Este foi um exercício especialmente difícil de fazer, tão grande é o número de battleground states com sondagens a mostrarem diferenças entre os dois candidatos dentro da margem de erro. 

Entre eles, o mais difícil de prever foi a Florida, mas dadas as vitórias republicanas neste estado em 2016 e 2018, atribuo favoritismo mínimo a Donald Trump. Mas que isso não descanse os simpatizantes do GOP, já que, em 2012, apostei na vitória de Romney no sunshine state e, em 2016, num triunfo de Hillary Clinton. Por isso, o meu histórico na Florida não é o melhor.

A confirmar-se a minha previsão, Joe Biden será o próximo presidente norte-americano, relegando Trump para a condição de one term President. Com uma margem clara, mas não tão grande como se poderia prever, Biden conseguiria uma coligação alargada de estados do Nordeste, do Sul, do Midwest e do Oeste. 

Maior que a vitória de Biden no Colégio Eleitoral, deverá ser o seu triunfo no total de votos a nível nacional. Nesse campo, que não conta para o apuramento do resultado final, mas é sempre importante para a legitimação do mandato presidencial, Biden poderá mesmo conseguir uma margem de dois dígitos. No mínimo, conseguirá, pelo menos 5/6 pontos percentuais de vantagem. Na minha opinião, a diferença entre os dois concorrentes deverá rondar os 7/8%, o que demonstra bem a actual desvantagem dos democratas no Colégio Eleitoral - em 2008, Barack Obama, com uma margem de 7,2% no voto popular, amealhou 365 votos eleitorais.

















Passemos agora para a disputa pelo Senado, que, nos últimos dias, ganhou um maior equilíbrio fruto de uma ligeira recuperação dos candidatos republicanos em alguns estados. Com muitas corridas equilibradas, foi bastante difícil apresentar um mapa sem toss ups, pelo que este é cenário mapa com muitas interrogações. 

Em primeiro lugar, deixei ficar sem decisão as duas eleições na Georgia, já que ambas deverão obrigar a uma segunda volta. Depois, atribuí triunfos aos democratas no Maine, onde a republicana Susan Collins se tem aguentado, mas continua atrás nas sondagens, na North Carolina, onde o candidato democrata tem surgido constantemente na frente apesar de um escândalo sexual a semanas da eleição, e no Arizona. Para o GOP, ficaram os lugares no Kansas, no Montana, na South Carolina, estados profundamente republicanos, e os assentos no Iowa e no Texas. Nestes dois últimos estados, a minha decisão foi mais difícil: com as sondagens a dizerem que ambas as corridas estão muito equilibradas, favoreci os dois senadores do GOP, pois, tradicionalmente, o estatuto de incumbent confere alguma vantagem.

Com este cenário, os democratas têm vantagem na disputa pelo controlo da câmara alta, pois conseguem metade dos assentos e podem ainda alcançar pelo menos mais um lugar nas corridas da Georgia. Além disso, contarão, a confirmar-se a minha previsão de uma vitória de Joe Biden, com o voto de desempate da vice-presidente Kamala Harris. 

Finalmente, na Câmara dos Representantes, o Partido Democrata deverá reforçar a sua maioria e conquistar mais uma dezena de assentos, podendo esse número variar entre cinco e quinze. Desta forma, os democratas completam o tri-factor, fazendo o pleno nas eleições para a Casa Branca, Senado e Câmara dos Representantes, o que poderá ser fundamental para o sucesso legislativo dos democratas nos próximos dois anos. 

Nota ainda para as eleições para Governador em alguns estados. Sem grandes motivos de interesse a este nível no presente ciclo eleitoral, as corridas mais interessantes estão no Montana, onde o candidato republicano é favorito, e na North Carolina, onde é o democrata que parte com vantagem. 

Terminadas as previsões, importa agora seguir as contagens dos votos e consultar os resultados finais. Para ajudar, apresentarei, mais logo, um resumo dos estados a seguir e os horários dos fechos das urnas em todos os estados. Afinal, este é o dia mais longo do ano e está apenas a começar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

As últimas previsões

É (finalmente) amanhã o grande dia das eleições nos Estados Unidos. Com mais de metade dos votos já submetidos, os restantes eleitores deslocam-se às urnas para escolher os seus governantes e legisladores. A pouco mais de 24 horas do fecho das urnas, é altura de fazer uma última ronda pelas previsões, sendo que a mais importante (a minha) ficará para o dia de amanhã.

FiveThirtyEight

Hipóteses de vitória: Biden 90%; Trump 10%

Votos eleitorais: Biden 351; Trump 187

Real Clear Politics

Votos eleitorais: Biden 335; Trump 203

Cook Political Report

Votos eleitorais: Biden 290; Trump 125; Toss up 123

The Economist

Hipóteses de vitória: Biden 95%; Trump 5%

Votos eleitorais: Biden 351; Trump 187

Electoral Polls

Hipóteses de vitória: Biden 96%; Trump 4%

Votos eleitorais: Biden 335; Trump 203

Larry Sabato's Crystal Ball

Biden 321; Trump 217; 

Como se pode verificar, a vantagem de Joe Biden face a Donald Trump tem sido constante e estabilizou desde o último debate. Se confiarmos nas sondagens, então o ex-vice de Barack Obama será o 45º presidente dos Estados Unidos e substituirá Trump a partir de 20 de Janeiro de 2021. 

Contudo, como costumam dizer os políticos da nossa praça, "sondagens valem o que valem" e temos de esperar pelos resultados oficiais, que podem demorar alguns dias, para saber se, desta vez, os estudos de opinião acertaram ou se temos um novo golpe de teatro, como o que aconteceu em 2016. 


Argumentos finais: Donald Trump

domingo, 1 de novembro de 2020

The Lincoln Project

Hoje em dia, Donald Trump tem controlo total e absoluto sobre o Partido Republicano.  Se nos recordarmos das primárias de 2016, isso pode parecer estranho, pois, na altura, o establishment republicano combateu ferozmente o actual presidente. Nomes como Marco Rubio ou Lindsey Graham, agora 100% alinhados com Trump, eram grandes críticos do mogul de Nova Iorque. Mas, com a vitória nas primárias, Donald Trump conquistou uma enorme popularidade junto das bases republicanas, pelo que, agora, a esmagadora maioria dos políticos eleitos do GOP, usando de um natural instinto de sobrevivência, não ousa desafiar o actual presidente norte-americano.

Existem, porém, raras excepções. John McCain foi o exemplo mais notório, o que lhe valeu um ódio visceral por parte de Trump em resposta. Mais tarde, também o senador Jeff Flake, depois de anunciar que não se candidataria a um novo mandato no Senado, se tornou uma voz dissonante no partido na crítica ao presidente. Mais recentemente, o voto de Mitt Romney a favor da destituição de Trump foi uma rara demonstração de resistência no seio do partido Republicano.

Mas este ciclo eleitoral trouxe um movimento de operativos republicanos que se juntaram para fazer frente a Donald Trump e auxiliarem a candidatura de Joe Biden no objectivo comum da derrota do trumpismo. Constituído por nomes como Steve Schmidt, director da campanha de McCain em 2008, George Conway, advogado e marido da assessora de Trump, Kellyanne Conway, ou Michael Steele, antigo presidente do Partido Republicano, o The Lincoln Project tem feito uma  grande e colorida campanha contra o 45º presidente dos Estados.

Com uma forte operação nas redes sociais, o grupo já conseguiu, por diversas vezes, enervar Donald Trump, ao ponto de este ter atacado com violência, via Twitter, o grupo e os seus mais proeminentes membros. Além disso, o The Lincoln Project tem-se mostrado eficaz em angariar fundos para criar conteúdos e difundir sua própria campanha anti-Trump e pró-Biden. Com um grande conhecimento do eleitorado republicano, o grupo tem criado alguns dos mais eficazes vídeos de campanha, como o que encabeça este post. 

Se Joe Biden vencer, pode muito bem agradecer ao Lincoln Project, pois o grupo de republicanos anti-Trump terá dado uma importante contribuição para o fim de The Donald na Casa Branca. Já o Partido Republicano, se quiser mudar de rumo e cortar com os loucos anos Trump, bem pode olhar para este grupo como motivação e inspiração para se reinventar e voltar a ser "o partido de Lincoln".

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Time is running out

Estamos já na recta final da campanha presidencial norte-americana e a corrida parece ter estabilizado, não havendo grandes novidades nas sondagens. Neste momento, a vantagem de Joe Biden sobre Donald Trump nas sondagens de nível nacional mantém-se nos single digits altos, com alguns estudo de opinião a atingirem ou mesmo a ultrapassarem a dezena de pontos percentuais. Já os números nos battleground states são mais modestos para o candidato democrata, mas, ainda assim, mostram uma diferença sólida e constante a favor de Biden.

De uma forma geral, Joe Biden tem vindo a reforçar a sua posição na rust belt. Nesta zona, o democrata tem surgido com melhores números nos estados onde está obrigado a vencer (Michigan, Winsconsin e Minnesotta) e apenas na Pennsylvania a sua vantagem é relativamente mais reduzida (ainda que ronde os 5%). Já no Ohio, a corrida está mais equilibrada e é um verdadeiro toss up. Contudo, isso até são boas notícias para o antigo vice-presidente, já que este era um estado que chegou a parecer fora do seu alcance. Mais a norte, mas ainda no midwest, o Iowa está cada vez mais equilibrado. Apesar de ser um estado predominantemente rural, o pico de infecções com Covid-19 e a insatisfação dos eleitores para com a gestão da crise pelo governador republicano, tem prejudicado as hipóteses de Trump no hawkeye state.

No Oeste, o Arizona parece cada vez com maior tendência para virar para lado democrata, já que as sondagens têm vindo constantemente a mostrar vantagem para Biden. Com o New Mexico e o Colorado definitivamente no lado azul, Donald Trump aposta no Nevada, onde os estudos de opinião mostram os números a apertar, ainda que, neste estado, exista uma crónica carência de sondagens de qualidade.

Continuando na sunbelt, mas mais a leste, os democratas estão, agora, a apostar forte no Texas e na Georgia, dois antigos bastiões republicanos, obrigando Trump a jogar à defesa, já que, caso perca um destes estados, será obrigado a despedir-se da Casa Branca. Enquanto isso, na Florida, a corrida está totalmente imprevisível. Os primeiros números de votos antecipados mostravam uma grande vantagem democrata, mas, nos últimos dias, uma onda de votos republicanos veio equilibrar a contenda, cujo desfecho deverá ser conhecido ao photo-finish, como é, aliás, habitual no sunshine state.

Mais a norte, na North Carolina, existe um outro toss-up, ainda que as sondagens venham a apresentar vantagem para Biden, ainda que por margens mínimas. Já a Virgínia, outrora um estado seguro para o Partido Republicano virou definitivamente à esquerda e é agora terreno democrata. Subindo ainda mais no mapa, chegamos ao New Hampshire que deverá atribuir os seus quatro votos eleitorais a Joe Biden, segundo indicam as sondagens. 

Finalmente, e falando dos dois estados que não atribuem os seus votos eleitorais através do sistema winner takes all, o candidato democrata deverá amealhar todos os votos eleitorais do Maine e ainda um dos votos eleitorais do Nebraska, a confirmarem-se os dados recolhidos pelas diversas polls que têm vindo a público nos últimos tempos. 

Fazendo esta pequena viagem pelo mapa eleitoral, percebe-se facilmente que Joe Biden se encontra numa posição extremamente favorável para vencer no colégio eleitoral e, assim, ser empossado como o 46º presidente dos Estados Unidos. A Donald Trump, que já não conta com mais debates para poder alterar a narrativa da corrida, cuja campanha está praticamente sem dinheiro no banco e vê o seu opositor gastar várias vezes mais em anúncios televisivos do que a sua campanha, e numa altura em que a pandemia volta a atacar em força, já não resta mais do que esperar por um monumental erro das sondagens, sendo certo que esse erro terá de ser bem superior ao que se registou em 2016. Em resumo, Trump está sem debates, sem dinheiro e sem vacina para poder ultrapassar Joe Biden. E, pior do que isso, está também a ficar sem tempo.

sábado, 24 de outubro de 2020

Depois da tempestade, a bonança























Desde que anunciou a sua candidatura presidencial, Joe Biden foi sempre menosprezado e desvalorizado. Fosse pela sua idade, pela sua propensão a cometer gaffes, pelo seu centrismo ou até pela sua falta de carisma, tudo foi apontado ao antigo senador pelo Delaware. Oriundo de uma família de classe média, sem se ter destacado academicamente e sofrendo de gaguez, ninguém adivinharia que Biden viria a ser Senador durante décadas, vice-presidente durante oito anos e estivesse, agora, muito perto de ascender à presidência. E isto mesmo depois de sofrer as maiores tragédias pessoais imagináveis. Por isso, a história já nos ensinou que Joe Biden é alguém com quem temos de contar.

Mas, além de Biden não ser um candidato tão fraco como alguns possam pensar, é ainda, porventura, o candidato ideal para derrotar Donald Trump. Bem sei que esta não é uma opinião muito consensual, em especial junto daqueles que gostariam de ver alguém mais jovem ou diferente do tradicional candidato presidencial norte-americano - homem, branco, político de carreira. Ainda assim, a meu ver, Joe é um concorrente muito forte para esta eleição presidencial, precisamente por isso mesmo: por ter essas características, é o oposto de Trump, mas, ao mesmo tempo, não tem os anti-corpos que tinha, por exemplo, Hillary Clinton.

Os quatro anos de Donald Trump na Casa Branca romperam com todas as convenções que norteavam o comportamento de um presidente dos Estados Unidos. Trump insulta adversários, rasga acordos, comunica através de irritados tweets, ignora os conselhos dos especialistas e prefere seguir o seu instinto, resiste a condenar organizações de supremacia branca e a dizer que cederá pacificamente o poder. Por tudo isto e muito mais, não admira que o Germano Almeida, especialista português sobre política norte-americana, diga que "isto não é bem um presidente dos Estados Unidos".

Assim sendo, é inevitável que muitos americanos desejem agora um regresso à normalidade. Com Joe Biden, que conhecem há largos anos, essa normalidade é garantida, ainda que Trump teime em dizer que o ex-vice de Barack Obama está refém da ala mais liberal do Partido Democrata. Além disso, a sua personalidade é o perfeito oposto de Trump. Mesmo os seus antigos colegas senadores republicanos não escondem que Joe é uma excelente pessoa, com valores morais e familiares que são sempre muito valorizados por uma grande parte do eleitorado norte-americano. Depois de Donald Trump, ter um presidente que é um nice guy pode ser uma mudança vista com bons olhos por muitos eleitores.

Apesar de estar há muitos anos no centro do panorama político norte-americano, Joe Biden nunca se viu envolvido em escândalos de maior. Apesar das suas conhecidas gaffes e da polémica relacionada com plágios em discursos que acabaram com a sua candidatura presidencial (1988), Biden passou sempre uma imagem de honestidade e de preocupação com a causa pública. As suas políticas moderadas não provocam grandes aflições aos mais conservadores e sempre fez questão de se mostrar como um homem do povo (ia trabalhar de transportes públicos). Por isso, os seus índices de favorabilidade andam no terreno positivo, ao contrário dos de Trump (e dos de Clinton, há quatro anos) e consegue muito melhores resultados junto do eleitorado branco com menor escolaridade e mais velho, o que pode ser determinante para evitar a repetição do desfecho da eleição de 2016.

As características pessoais e políticas de Biden retiram muita capacidade de contra-ataque a Donald Trump. Depois de vencer uma Hillary Clinton rodeada de polémicas - os emails, as milionárias conferências no sector privado, os deplorables, Benghazi, etc. - o actual presidente não tem, desta vez, muitas armas para utilizar contra o seu adversário. Como apontou, e bem, Ricardo Costa, no Expresso da semana passada, o facto de Trump não ter um adjectivo mais negativo do que sleepy para associar a Joe Biden, diz muito da falta de argumentação negativa que possa ser usada para atacar o democrata.

Por tudo isto, não acho surpreendente que, depois de Obama e de Trump, que basearam as suas candidaturas na ideia de mudança, Biden surja agora com um tema de campanha que pode ser visto como o regresso à normalidade após os loucos anos do trumpismo. Ou seja, depois da tempestade Trump, Joe Biden pode representar a bonança. E talvez seja mesmo disso que os Estados Unidos estão a precisar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Empate com sabor a vitória para Biden


Já está. Acabou a série de debates entre os candidatos à presidência e vice-presidência dos Estados Unidos. Em vez dos quatro debates previstos (três entre Donald Trump e Joe Biden e um entre Kamala Harris e Mike Pence), houve apenas três debates, já que o segundo, em formato de town hall foi cancelado depois de o presidente ter acusado positivo para Covid-19. 

O debate de ontem à noite ficou marcado por um clima menos conflituoso do que o frente-a-frente anterior. Foi um Donald Trump bem mais disciplinado o que ontem enfrentou Joe Biden e isso resultou numa discussão mais clara, com mais substância e onde se conseguiu perceber melhor o (muito) que separa os dois candidatos à Casa Branca.

Foi, no fundo, aquilo que se esperava do debate. Depois do chorrilho de críticas que recebeu após a sua prestação anterior e da consequente queda nas sondagens que sofreu, Trump não tinha outra hipótese senão moderar a sua atitude no embate de ontem. As linhas de ataque foram as esperadas, com destaque para a insistência na polémica que envolve Hunter Biden, o filho do concorrente democrata. Ainda que não pareça estar a ter resultados, a estratégia de Donald Trump parece ser replicar o cenário de há quatro anos, quando o caso dos emails de Hillary Clinton terá sido decisivo para a vitória do republicano. Onde Trump terá marcado mais pontos foi nos ataques a Biden por este querer desinvestir na prospecção de combustíveis fósseis (um assunto que pode valer votos importantes em alguns swing states) e quando o caracterizou como um político tradicional.

Por sua vez, Joe Biden, mostrou-se até mais assertivo e enérgico relativamente ao último debate. Talvez pudesse ser mais efectivo nas respostas a ataques de Trump, mas parece que, propositadamente, não quer estar sempre a apontar as sucessivas mentiras do seu opositor, por temer que a repetição se tornasse banal e, por isso, perdesse força. Contudo, foi eficaz a falar em temas que são populares junto do eleitorado como a resposta à pandemia, o Affordable Care Act e a Segurança Social. De qualquer forma, a melhor notícia para o antigo vice de Obama é que não cometeu nenhum erro e passou incólume pela última oportunidade com que o seu opositor contava para mudar o rumo da corrida.

Agora, salvo qualquer acontecimento excepcional, não haverá grandes novidades no que resta da campanha eleitoral. Numa altura em que cerca de um terço dos eleitores já votou, resta aos candidatos cumprir parte final da sua campanha e esperar que os seus argumentos convençam os poucos indecisos que ainda restam. 

Ontem, Donald Trump precisava de uma vitória retumbante para poder sonhar com uma recuperação nas sondagens. Como isso não aconteceu, o caminho está ainda mais aberto para Joe Biden, que tem tudo para se tornar o 46º presidente dos Estados Unidos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A última oportunidade de Trump















Decorre, hoje, na cidade de Nashville, no Tenneessee, o segundo e último debate entre os candidatos presidenciais, Donald Trump e Joe Biden. Depois do primeiro debate, que ficou para a história como um dos mais caóticos e menos civilizados de sempre, e do cancelamento do segundo debate devido ao facto de Trump ter adoecido com Covid-19, o embate de hoje pode ser decisivo para a escolha dos norte-americanos (pelo menos para os que ainda não votaram) relativamente ao futuro ocupante da Casa Branca.

Para Donald Trump, que tem surgido constantemente atrás nas sondagens, pode mesmo ser a última oportunidade que tem para alterar a dinâmica da corrida, que, neste momento, parece muito favorável ao seu opositor. Se no primeiro debate a sua prestação agressiva, com constantes interrupções a Biden, mereceu muitas críticas e o fez perder ainda mais terreno, Trump terá agora de tentar salvar a face. 

É, por isso, de esperar um comportamento bastante diferente por parte do actual inquilino da Casa Branca, talvez mais parecido com o da sua prestação no último debate com Hillary Clinton, em 2016. Na altura, Trump foi relativamente disciplinado, mantendo-se on message na maior parte do tempo, apostando no seu tema principal de combate ao sistema. Além disso, neste debate, o moderador terá a possibilidade de tirar o som aos microfones dos candidatos, pelo que a táctica de tentar destabilizar o adversário que utilizou no último debate será mais difícil de replicar.

É certo que atacará Joe Biden, em particular sobre a polémica que envolve o filho do democrata, Hunter Biden, ainda que este assunto não esteja a ter o sucesso que Trump esperaria, até porque as alegações que o rodeiam são muito duvidosas. Além disso, o nomeado republicano poderá continuar a tentar caracterizar uma presidência Biden como uma perigosa viragem à esquerda para os Estados Unidos. Talvez para tentar esvaziar essa linha de ataque, Joe Biden tomou finalmente posição, ainda que indirectamente sobre uma eventual expansão do Supremo Tribunal, anunciado que, caso eleito, encarregará uma comissão independente de estudar possíveis reformas no sistema judicial.

Por sua vez, Joe Biden terá apenas de jogar à defesa no debate de hoje. Com clara vantagem nas sondagens, o Veep de Obama tem de evitar gaffes e erros não forçados. Se possível, deverá mostrar mais energia e poderá continuar a aposta do primeiro debate em falar directamente ao público, já que a sua empatia natural é umas das suas principais forças. Se passar intocado por este debate, então seu o caminho rumo à presidência estará bem mais facilitado, enquanto que Trump terá de ficar à espera de um acontecimento excepcional e/ou de um monumental erro nas sondagens para se manter na Casa Branca.