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sábado, 7 de novembro de 2020

President-elect Joe Biden























Como se esperava, Joe Biden foi declarado, esta tarde, como o próximo presidente dos Estados Unidos, sucedendo a Donald Trump na Casa Branca. Até 20 de Janeiro, será o Presidente-elect e Kamala Harris a Vice-President-elect. A CNN foi a primeira cadeia noticiosa a quebrar o impasse e a atribuir a vitória na corrida a Biden, tendo sido seguida, pouca depois, por todas as outras.

Foram longas horas de espera, ainda que logo na manhã de quarta-feira fosse já possível antever um triunfo do democrata. Contudo, com a demora no processo de contagem de votos, apenas hoje, depois de Biden ter reforçado a sua liderança na contagem dos votos da Pennsylvania, as networks arriscaram anunciar a vitória do ex-vice-presidente.

Desfeitas as dúvidas, e com os resultados a serem conhecidos na sua totalidade, já será possível, nos próximos dias, fazer um balanço mais aprofundado à eleição que pôs todo o mundo a seguir a escolha do líder norte-americano durante quatro longos dias. Mas, agora, é altura de dizer simplesmente: Congrats, Mr. President-Elect!

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Os battleground states

Feita a minha previsão para os resultados das eleições norte-americanas, importa clarificar as minhas decisões e fazer um ponto de situação nos battleground states, aqueles onde os eleitores escolherão, na verdade, o próximo presidente dos Estados Unidos.

OS ESTADOS DECISIVOS

Flórida (29 votos eleitorais) - Sendo o derradeiro battleground state, a Florida tem sido, nas últimas décadas, o mais disputado dos estados em corridas presidenciais e, este ano, não é diferente. Com sondagens para todos os gostos, é muito difícil antever o vencedor no sunshine state. Se num primeiro momento, os democratas pareceram levar vantagem no voto antecipado, uma onda posterior de votantes do GOP, veio equilibrar as contas. Neste estado, o voto latino será decisivo, até porque existe um sub-grupo de eleitores, os cubano-americanos, que votam tendencialmente no GOP (ainda que essa tendência venha a esmorecer). Como habitualmente, o condado de Miami-Dade será decisivo, com Biden a ter que conseguir margens junto dos jovens e minorias nos centros urbanos para contrariar a força de Trump junto dos eleitores rurais. Sendo um estado muito envelhecido por ser destino de reforma para muitos idosos, a forma como o presidente geriu a pandemia pode favorecer Biden junto de uma facção do eleitorado que, há quatro anos, preferiu Trump a Hillary Clinton. Contudo, o histórico recente na Florida é favorável ao GOP, pelo que aposto, sem convicção, na sua vitória.

Pennsylvania (20 VE) - Provavelmente, será o tipping point state, ou seja, o estado que dará a vitória a um dos candidatos. Sem a Pennsylvania, Trump não tem chances de ser reeleito, mas, vencendo aqui, passa a ser o favorito à vitória. Para vencer, Joe Biden precisa de uma operação de turnout melhor do que a de Hillary há quatro anos, especialmente junto dos jovens e das minorias. Devido ao voto antecipado, pode demorar alguns dias até conhecermos o vencedor, particularmente se a corrida for muito equilibrada. As sondagens têm dado uma vantagem constante ao democrata, ainda que por uma margem relativamente curta. Aposto numa vitória Biden, já que Trump venceu por uma unha negra em 2016 e , este ano, num clima muito mais negativo para o actual presidente, duvido que consiga aguentar o seu score na Pennsylvania. 

Georgia (16 VE) - Um sonho antigo para os democratas, que já tentaram vencer aqui em 2016, a Georgia parece agora verdadeiramente em jogo. Em 2018, a democrata Stacey Abrams perdeu a corrida para Governador por 1,2% e provou a competitividade democrata no estado. Depois disso, o partido de Biden manteve a sua estrutura intacta e continuou a registar eleitores. Numa eleição mais concorrida, e por isso mais propensa a atrair jovens e eleitores das minorias, o Partido Democrata tem hoje uma grande possibilidade de vencer num estado que lhe foge desde 1992. A crer nas sondagens, a corrida será disputada até ao último voto.

North Carolina (15 VE) - Este é porventura o estado globalmente mais importante da noite, dado que tem corridas competitivas para a eleição do Presidente, de um lugar no Senado e do cargo de Governador do estado. Por isso, muitos milhões de dólares foram gastos, pelos dois lados, nas campanhas da Carolina do Norte. Barack Obama venceu o estado em 2008, mas perdeu-o em 2012. Há quatro anos, Trump voltou a dar a vitória aos republicanos. Sendo um estado com grandes mudanças demográficas, teima em não seguir o caminho que fez a sua vizinha Virginia, rumo ao domínio democrata. Este ano, Joe Biden parece ligeiramente à frente, mas não seria uma surpresa assistir a um triunfo de Donald Trump.

Arizona (11 VE) - Depois de as sondagens terem dado, durante largas semanas, uma vantagem relativamente confortável a Joe Biden no Arizona, os últimos estudos de opinião parecem indicar uma ligeira recuperação do actual presidente. Contudo, os democratas parecem ter já um pé firme no estado e são favoritos à vitória, fruto da sua vantagem em Phoenix, o grande centro urbano do Arizona, e entre os eleitores hispânicos, que representam uma importante fatia do eleitorado. Uma vitória democrata neste estado, poderá ser decisiva, pois permite a Biden um caminho para os 270 votos eleitorais sem precisar dos 20 votos eleitorais da Pennsylvania. 

OS ESTADOS LEANING BIDEN

Michigan (16 VE) e Wisconsin (10 VE) - Juntei estes dois estados, por terem muito em comum. São ambos da zona do midwest, com muitos blue collar works e deram a vitória a Trump, há quatro anos. Além disso, é muito provável que, desta vez, repitam a tendência e apostem no mesmo candidato. Segundo as sondagens, estes dois estados estão relativamente seguros para Joe Biden, que consegue melhores resultados com os eleitores brancos do que aqueles que Clinton alcançou há quatro anos. Em particular no Michigan, com uma forte comunidade afro-americana, a presença de Kamala Harris no ticket democrata pode ajudar a motivar os eleitores negros a comparecer às urnas e a votar democrata. Um triunfo de Trump nestes estados (ou apenas num), ainda que muito improvável, será, certamente, sinal que continuará na Casa Branca. 

New Hampshire (4 VE) e Nevada (5 VE) - Dois estados pequenos, mas que são, por normal, muito importantes nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Ambos são early states nas primárias e ambos deverão atribuir os seus votos eleitorais aos democratas, como tem acontecido desde 2008. Contudo, as semelhanças acabam aí. O New Hampshire é um estado do nordeste, maioritariamente branco e com um eleitorado tendencialmente independente e moderado. Segundo as sondagens, Biden segue confortavelmente para a vitória. Ainda que no Nevada a corrida parece relativamente mais equilibrada, acredito que o eleitorado hispânico e a grande influência dos sindicatos de trabalhadores de casinos, aliados dos democratas, serão suficientes para garantir a vitória de Joe Biden.

OS ESTADOS LEANING TRUMP

Texas (38 VE) - Este será um dos estados mais interessantes de seguir, mais logo. Com uma grande comunidade hispânica e vários centros urbanos em rápido crescimento, o Texas já alguns ciclos eleitorais que vem sendo apontado, erroneamente, como possível battleground state. Parece, porém, que chegou finalmente a vez do The Lone Star State merecer esse título, pois as sondagens indicam uma clara aproximação de Joe Biden. Ainda antes de chegar o dia de hoje, já os texanos tinham batido os anteriores recordes de participação eleitoral, pelo que será muito difícil prever o resultado no Texas com base nos dados de eleições anteriores. A prudência diz-me para esperar uma vitória republicana, mas, se tivesse que apostar numa surpresa, seria no Texas que colocaria as minhas fichas.

Ohio (18 VE) e Iowa (6 VE) - O Ohio tem a fama de votar sempre no candidato que vence a eleição geral, mas poderá muito bem perder o título nesta eleição. Nos últimos anos, o estado tem virado à Direita, fruto do declínio dos seus centros urbanos e do ressentimento de muitos eleitores brancos pelo desaparecimento de postos de trabalho ligados à indústria e à extracção de recursos minerais. Esse ressentimento foi aproveitado por Donald Trump que, com o seu discurso proteccionista, atraiu muitos blue collar workers para as suas fileiras. Este ano, a corrida deverá ser mais apertada do que em 2016, mas Trump parte na frente. O Iowa, um estado predominantemente rural e branco, é terreno favorável para o perfil do Presidente, ainda que tenha perdido popularidade devido à sua gestão da pandemia, pois o Iowa tem sido especialmente fustigado pelo vírus nas últimas semanas. Contudo, se, no final da noite, Donald Trump não tiver vencido estes dois estados, então é porque deixará a Casa Branca em Janeiro de 2021.

E AINDA...

1 VE no Maine e 1 VE no Nebraska - O Maine e o Nebraska quebram o tradicional winner takes all e atribuem os seus votos eleitorais de uma forma mista: 2 votos ao vencedor no estado e 1 voto ao vencedor em cada distrito. Por isso, e apesar de os estados em si não parecerem estar em disputa, um distrito em cada um dos estados pode diferir do resultado do estado como um todo. No Nebraska, Joe Biden parece bem colocado para conquistar o voto eleitoral do 2º distrito do estado, que abrange a cidade de Omaha. No Maine, também no 2º distrito, existe um maior equilíbrio, mas eu atribuo melhores possibilidades para o candidato democrata. São apenas dois votos eleitorais, mas, numa corrida muito equilibrada, podem fazer a diferença.

As minhas apostas

 
















A poucas horas de abrirem as urnas nos Estados Unidos, deixo aqui a minha aposta para o figurino do Colégio Eleitoral depois de se contarem todos os votos. Este foi um exercício especialmente difícil de fazer, tão grande é o número de battleground states com sondagens a mostrarem diferenças entre os dois candidatos dentro da margem de erro. 

Entre eles, o mais difícil de prever foi a Florida, mas dadas as vitórias republicanas neste estado em 2016 e 2018, atribuo favoritismo mínimo a Donald Trump. Mas que isso não descanse os simpatizantes do GOP, já que, em 2012, apostei na vitória de Romney no sunshine state e, em 2016, num triunfo de Hillary Clinton. Por isso, o meu histórico na Florida não é o melhor.

A confirmar-se a minha previsão, Joe Biden será o próximo presidente norte-americano, relegando Trump para a condição de one term President. Com uma margem clara, mas não tão grande como se poderia prever, Biden conseguiria uma coligação alargada de estados do Nordeste, do Sul, do Midwest e do Oeste. 

Maior que a vitória de Biden no Colégio Eleitoral, deverá ser o seu triunfo no total de votos a nível nacional. Nesse campo, que não conta para o apuramento do resultado final, mas é sempre importante para a legitimação do mandato presidencial, Biden poderá mesmo conseguir uma margem de dois dígitos. No mínimo, conseguirá, pelo menos 5/6 pontos percentuais de vantagem. Na minha opinião, a diferença entre os dois concorrentes deverá rondar os 7/8%, o que demonstra bem a actual desvantagem dos democratas no Colégio Eleitoral - em 2008, Barack Obama, com uma margem de 7,2% no voto popular, amealhou 365 votos eleitorais.

















Passemos agora para a disputa pelo Senado, que, nos últimos dias, ganhou um maior equilíbrio fruto de uma ligeira recuperação dos candidatos republicanos em alguns estados. Com muitas corridas equilibradas, foi bastante difícil apresentar um mapa sem toss ups, pelo que este é cenário mapa com muitas interrogações. 

Em primeiro lugar, deixei ficar sem decisão as duas eleições na Georgia, já que ambas deverão obrigar a uma segunda volta. Depois, atribuí triunfos aos democratas no Maine, onde a republicana Susan Collins se tem aguentado, mas continua atrás nas sondagens, na North Carolina, onde o candidato democrata tem surgido constantemente na frente apesar de um escândalo sexual a semanas da eleição, e no Arizona. Para o GOP, ficaram os lugares no Kansas, no Montana, na South Carolina, estados profundamente republicanos, e os assentos no Iowa e no Texas. Nestes dois últimos estados, a minha decisão foi mais difícil: com as sondagens a dizerem que ambas as corridas estão muito equilibradas, favoreci os dois senadores do GOP, pois, tradicionalmente, o estatuto de incumbent confere alguma vantagem.

Com este cenário, os democratas têm vantagem na disputa pelo controlo da câmara alta, pois conseguem metade dos assentos e podem ainda alcançar pelo menos mais um lugar nas corridas da Georgia. Além disso, contarão, a confirmar-se a minha previsão de uma vitória de Joe Biden, com o voto de desempate da vice-presidente Kamala Harris. 

Finalmente, na Câmara dos Representantes, o Partido Democrata deverá reforçar a sua maioria e conquistar mais uma dezena de assentos, podendo esse número variar entre cinco e quinze. Desta forma, os democratas completam o tri-factor, fazendo o pleno nas eleições para a Casa Branca, Senado e Câmara dos Representantes, o que poderá ser fundamental para o sucesso legislativo dos democratas nos próximos dois anos. 

Nota ainda para as eleições para Governador em alguns estados. Sem grandes motivos de interesse a este nível no presente ciclo eleitoral, as corridas mais interessantes estão no Montana, onde o candidato republicano é favorito, e na North Carolina, onde é o democrata que parte com vantagem. 

Terminadas as previsões, importa agora seguir as contagens dos votos e consultar os resultados finais. Para ajudar, apresentarei, mais logo, um resumo dos estados a seguir e os horários dos fechos das urnas em todos os estados. Afinal, este é o dia mais longo do ano e está apenas a começar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

As últimas previsões

É (finalmente) amanhã o grande dia das eleições nos Estados Unidos. Com mais de metade dos votos já submetidos, os restantes eleitores deslocam-se às urnas para escolher os seus governantes e legisladores. A pouco mais de 24 horas do fecho das urnas, é altura de fazer uma última ronda pelas previsões, sendo que a mais importante (a minha) ficará para o dia de amanhã.

FiveThirtyEight

Hipóteses de vitória: Biden 90%; Trump 10%

Votos eleitorais: Biden 351; Trump 187

Real Clear Politics

Votos eleitorais: Biden 335; Trump 203

Cook Political Report

Votos eleitorais: Biden 290; Trump 125; Toss up 123

The Economist

Hipóteses de vitória: Biden 95%; Trump 5%

Votos eleitorais: Biden 351; Trump 187

Electoral Polls

Hipóteses de vitória: Biden 96%; Trump 4%

Votos eleitorais: Biden 335; Trump 203

Larry Sabato's Crystal Ball

Biden 321; Trump 217; 

Como se pode verificar, a vantagem de Joe Biden face a Donald Trump tem sido constante e estabilizou desde o último debate. Se confiarmos nas sondagens, então o ex-vice de Barack Obama será o 45º presidente dos Estados Unidos e substituirá Trump a partir de 20 de Janeiro de 2021. 

Contudo, como costumam dizer os políticos da nossa praça, "sondagens valem o que valem" e temos de esperar pelos resultados oficiais, que podem demorar alguns dias, para saber se, desta vez, os estudos de opinião acertaram ou se temos um novo golpe de teatro, como o que aconteceu em 2016. 


Argumentos finais: Joe Biden

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Time is running out

Estamos já na recta final da campanha presidencial norte-americana e a corrida parece ter estabilizado, não havendo grandes novidades nas sondagens. Neste momento, a vantagem de Joe Biden sobre Donald Trump nas sondagens de nível nacional mantém-se nos single digits altos, com alguns estudo de opinião a atingirem ou mesmo a ultrapassarem a dezena de pontos percentuais. Já os números nos battleground states são mais modestos para o candidato democrata, mas, ainda assim, mostram uma diferença sólida e constante a favor de Biden.

De uma forma geral, Joe Biden tem vindo a reforçar a sua posição na rust belt. Nesta zona, o democrata tem surgido com melhores números nos estados onde está obrigado a vencer (Michigan, Winsconsin e Minnesotta) e apenas na Pennsylvania a sua vantagem é relativamente mais reduzida (ainda que ronde os 5%). Já no Ohio, a corrida está mais equilibrada e é um verdadeiro toss up. Contudo, isso até são boas notícias para o antigo vice-presidente, já que este era um estado que chegou a parecer fora do seu alcance. Mais a norte, mas ainda no midwest, o Iowa está cada vez mais equilibrado. Apesar de ser um estado predominantemente rural, o pico de infecções com Covid-19 e a insatisfação dos eleitores para com a gestão da crise pelo governador republicano, tem prejudicado as hipóteses de Trump no hawkeye state.

No Oeste, o Arizona parece cada vez com maior tendência para virar para lado democrata, já que as sondagens têm vindo constantemente a mostrar vantagem para Biden. Com o New Mexico e o Colorado definitivamente no lado azul, Donald Trump aposta no Nevada, onde os estudos de opinião mostram os números a apertar, ainda que, neste estado, exista uma crónica carência de sondagens de qualidade.

Continuando na sunbelt, mas mais a leste, os democratas estão, agora, a apostar forte no Texas e na Georgia, dois antigos bastiões republicanos, obrigando Trump a jogar à defesa, já que, caso perca um destes estados, será obrigado a despedir-se da Casa Branca. Enquanto isso, na Florida, a corrida está totalmente imprevisível. Os primeiros números de votos antecipados mostravam uma grande vantagem democrata, mas, nos últimos dias, uma onda de votos republicanos veio equilibrar a contenda, cujo desfecho deverá ser conhecido ao photo-finish, como é, aliás, habitual no sunshine state.

Mais a norte, na North Carolina, existe um outro toss-up, ainda que as sondagens venham a apresentar vantagem para Biden, ainda que por margens mínimas. Já a Virgínia, outrora um estado seguro para o Partido Republicano virou definitivamente à esquerda e é agora terreno democrata. Subindo ainda mais no mapa, chegamos ao New Hampshire que deverá atribuir os seus quatro votos eleitorais a Joe Biden, segundo indicam as sondagens. 

Finalmente, e falando dos dois estados que não atribuem os seus votos eleitorais através do sistema winner takes all, o candidato democrata deverá amealhar todos os votos eleitorais do Maine e ainda um dos votos eleitorais do Nebraska, a confirmarem-se os dados recolhidos pelas diversas polls que têm vindo a público nos últimos tempos. 

Fazendo esta pequena viagem pelo mapa eleitoral, percebe-se facilmente que Joe Biden se encontra numa posição extremamente favorável para vencer no colégio eleitoral e, assim, ser empossado como o 46º presidente dos Estados Unidos. A Donald Trump, que já não conta com mais debates para poder alterar a narrativa da corrida, cuja campanha está praticamente sem dinheiro no banco e vê o seu opositor gastar várias vezes mais em anúncios televisivos do que a sua campanha, e numa altura em que a pandemia volta a atacar em força, já não resta mais do que esperar por um monumental erro das sondagens, sendo certo que esse erro terá de ser bem superior ao que se registou em 2016. Em resumo, Trump está sem debates, sem dinheiro e sem vacina para poder ultrapassar Joe Biden. E, pior do que isso, está também a ficar sem tempo.

sábado, 24 de outubro de 2020

Depois da tempestade, a bonança























Desde que anunciou a sua candidatura presidencial, Joe Biden foi sempre menosprezado e desvalorizado. Fosse pela sua idade, pela sua propensão a cometer gaffes, pelo seu centrismo ou até pela sua falta de carisma, tudo foi apontado ao antigo senador pelo Delaware. Oriundo de uma família de classe média, sem se ter destacado academicamente e sofrendo de gaguez, ninguém adivinharia que Biden viria a ser Senador durante décadas, vice-presidente durante oito anos e estivesse, agora, muito perto de ascender à presidência. E isto mesmo depois de sofrer as maiores tragédias pessoais imagináveis. Por isso, a história já nos ensinou que Joe Biden é alguém com quem temos de contar.

Mas, além de Biden não ser um candidato tão fraco como alguns possam pensar, é ainda, porventura, o candidato ideal para derrotar Donald Trump. Bem sei que esta não é uma opinião muito consensual, em especial junto daqueles que gostariam de ver alguém mais jovem ou diferente do tradicional candidato presidencial norte-americano - homem, branco, político de carreira. Ainda assim, a meu ver, Joe é um concorrente muito forte para esta eleição presidencial, precisamente por isso mesmo: por ter essas características, é o oposto de Trump, mas, ao mesmo tempo, não tem os anti-corpos que tinha, por exemplo, Hillary Clinton.

Os quatro anos de Donald Trump na Casa Branca romperam com todas as convenções que norteavam o comportamento de um presidente dos Estados Unidos. Trump insulta adversários, rasga acordos, comunica através de irritados tweets, ignora os conselhos dos especialistas e prefere seguir o seu instinto, resiste a condenar organizações de supremacia branca e a dizer que cederá pacificamente o poder. Por tudo isto e muito mais, não admira que o Germano Almeida, especialista português sobre política norte-americana, diga que "isto não é bem um presidente dos Estados Unidos".

Assim sendo, é inevitável que muitos americanos desejem agora um regresso à normalidade. Com Joe Biden, que conhecem há largos anos, essa normalidade é garantida, ainda que Trump teime em dizer que o ex-vice de Barack Obama está refém da ala mais liberal do Partido Democrata. Além disso, a sua personalidade é o perfeito oposto de Trump. Mesmo os seus antigos colegas senadores republicanos não escondem que Joe é uma excelente pessoa, com valores morais e familiares que são sempre muito valorizados por uma grande parte do eleitorado norte-americano. Depois de Donald Trump, ter um presidente que é um nice guy pode ser uma mudança vista com bons olhos por muitos eleitores.

Apesar de estar há muitos anos no centro do panorama político norte-americano, Joe Biden nunca se viu envolvido em escândalos de maior. Apesar das suas conhecidas gaffes e da polémica relacionada com plágios em discursos que acabaram com a sua candidatura presidencial (1988), Biden passou sempre uma imagem de honestidade e de preocupação com a causa pública. As suas políticas moderadas não provocam grandes aflições aos mais conservadores e sempre fez questão de se mostrar como um homem do povo (ia trabalhar de transportes públicos). Por isso, os seus índices de favorabilidade andam no terreno positivo, ao contrário dos de Trump (e dos de Clinton, há quatro anos) e consegue muito melhores resultados junto do eleitorado branco com menor escolaridade e mais velho, o que pode ser determinante para evitar a repetição do desfecho da eleição de 2016.

As características pessoais e políticas de Biden retiram muita capacidade de contra-ataque a Donald Trump. Depois de vencer uma Hillary Clinton rodeada de polémicas - os emails, as milionárias conferências no sector privado, os deplorables, Benghazi, etc. - o actual presidente não tem, desta vez, muitas armas para utilizar contra o seu adversário. Como apontou, e bem, Ricardo Costa, no Expresso da semana passada, o facto de Trump não ter um adjectivo mais negativo do que sleepy para associar a Joe Biden, diz muito da falta de argumentação negativa que possa ser usada para atacar o democrata.

Por tudo isto, não acho surpreendente que, depois de Obama e de Trump, que basearam as suas candidaturas na ideia de mudança, Biden surja agora com um tema de campanha que pode ser visto como o regresso à normalidade após os loucos anos do trumpismo. Ou seja, depois da tempestade Trump, Joe Biden pode representar a bonança. E talvez seja mesmo disso que os Estados Unidos estão a precisar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Empate com sabor a vitória para Biden


Já está. Acabou a série de debates entre os candidatos à presidência e vice-presidência dos Estados Unidos. Em vez dos quatro debates previstos (três entre Donald Trump e Joe Biden e um entre Kamala Harris e Mike Pence), houve apenas três debates, já que o segundo, em formato de town hall foi cancelado depois de o presidente ter acusado positivo para Covid-19. 

O debate de ontem à noite ficou marcado por um clima menos conflituoso do que o frente-a-frente anterior. Foi um Donald Trump bem mais disciplinado o que ontem enfrentou Joe Biden e isso resultou numa discussão mais clara, com mais substância e onde se conseguiu perceber melhor o (muito) que separa os dois candidatos à Casa Branca.

Foi, no fundo, aquilo que se esperava do debate. Depois do chorrilho de críticas que recebeu após a sua prestação anterior e da consequente queda nas sondagens que sofreu, Trump não tinha outra hipótese senão moderar a sua atitude no embate de ontem. As linhas de ataque foram as esperadas, com destaque para a insistência na polémica que envolve Hunter Biden, o filho do concorrente democrata. Ainda que não pareça estar a ter resultados, a estratégia de Donald Trump parece ser replicar o cenário de há quatro anos, quando o caso dos emails de Hillary Clinton terá sido decisivo para a vitória do republicano. Onde Trump terá marcado mais pontos foi nos ataques a Biden por este querer desinvestir na prospecção de combustíveis fósseis (um assunto que pode valer votos importantes em alguns swing states) e quando o caracterizou como um político tradicional.

Por sua vez, Joe Biden, mostrou-se até mais assertivo e enérgico relativamente ao último debate. Talvez pudesse ser mais efectivo nas respostas a ataques de Trump, mas parece que, propositadamente, não quer estar sempre a apontar as sucessivas mentiras do seu opositor, por temer que a repetição se tornasse banal e, por isso, perdesse força. Contudo, foi eficaz a falar em temas que são populares junto do eleitorado como a resposta à pandemia, o Affordable Care Act e a Segurança Social. De qualquer forma, a melhor notícia para o antigo vice de Obama é que não cometeu nenhum erro e passou incólume pela última oportunidade com que o seu opositor contava para mudar o rumo da corrida.

Agora, salvo qualquer acontecimento excepcional, não haverá grandes novidades no que resta da campanha eleitoral. Numa altura em que cerca de um terço dos eleitores já votou, resta aos candidatos cumprir parte final da sua campanha e esperar que os seus argumentos convençam os poucos indecisos que ainda restam. 

Ontem, Donald Trump precisava de uma vitória retumbante para poder sonhar com uma recuperação nas sondagens. Como isso não aconteceu, o caminho está ainda mais aberto para Joe Biden, que tem tudo para se tornar o 46º presidente dos Estados Unidos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A última oportunidade de Trump















Decorre, hoje, na cidade de Nashville, no Tenneessee, o segundo e último debate entre os candidatos presidenciais, Donald Trump e Joe Biden. Depois do primeiro debate, que ficou para a história como um dos mais caóticos e menos civilizados de sempre, e do cancelamento do segundo debate devido ao facto de Trump ter adoecido com Covid-19, o embate de hoje pode ser decisivo para a escolha dos norte-americanos (pelo menos para os que ainda não votaram) relativamente ao futuro ocupante da Casa Branca.

Para Donald Trump, que tem surgido constantemente atrás nas sondagens, pode mesmo ser a última oportunidade que tem para alterar a dinâmica da corrida, que, neste momento, parece muito favorável ao seu opositor. Se no primeiro debate a sua prestação agressiva, com constantes interrupções a Biden, mereceu muitas críticas e o fez perder ainda mais terreno, Trump terá agora de tentar salvar a face. 

É, por isso, de esperar um comportamento bastante diferente por parte do actual inquilino da Casa Branca, talvez mais parecido com o da sua prestação no último debate com Hillary Clinton, em 2016. Na altura, Trump foi relativamente disciplinado, mantendo-se on message na maior parte do tempo, apostando no seu tema principal de combate ao sistema. Além disso, neste debate, o moderador terá a possibilidade de tirar o som aos microfones dos candidatos, pelo que a táctica de tentar destabilizar o adversário que utilizou no último debate será mais difícil de replicar.

É certo que atacará Joe Biden, em particular sobre a polémica que envolve o filho do democrata, Hunter Biden, ainda que este assunto não esteja a ter o sucesso que Trump esperaria, até porque as alegações que o rodeiam são muito duvidosas. Além disso, o nomeado republicano poderá continuar a tentar caracterizar uma presidência Biden como uma perigosa viragem à esquerda para os Estados Unidos. Talvez para tentar esvaziar essa linha de ataque, Joe Biden tomou finalmente posição, ainda que indirectamente sobre uma eventual expansão do Supremo Tribunal, anunciado que, caso eleito, encarregará uma comissão independente de estudar possíveis reformas no sistema judicial.

Por sua vez, Joe Biden terá apenas de jogar à defesa no debate de hoje. Com clara vantagem nas sondagens, o Veep de Obama tem de evitar gaffes e erros não forçados. Se possível, deverá mostrar mais energia e poderá continuar a aposta do primeiro debate em falar directamente ao público, já que a sua empatia natural é umas das suas principais forças. Se passar intocado por este debate, então seu o caminho rumo à presidência estará bem mais facilitado, enquanto que Trump terá de ficar à espera de um acontecimento excepcional e/ou de um monumental erro nas sondagens para se manter na Casa Branca.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O estado da corrida

A 19 dias do dia das eleições, o mapa eleitoral está cada vez mais definido e, por isso, apresento uma imagem que reflecte a minha opinião sobre o estado da corrida, ao dia de hoje, de acordo com as sondagens nacionais e, principalmente, estaduais.
Como se pode verificar pelos dados do mapa, a tendência é clara: Joe Biden tem tudo para ser o 46º presidente dos Estados Unidos, salvo algum acontecimento excepcional nos poucos dias que faltam ou a uma colossal falha das sondagens. Bem sei que há quatro anos as sondagens falharam de forma copiosa quando se pensava que Hillary Clinton derrotaria, com maior ou menor dificuldade, Donald Trump. Contudo, as sondagens da altura mostravam uma corrida mais equilibrada do que a deste ano e, além disso, tivemos a decisão do FBI em reabrir a investigação aos emails de Hillary Clinton a poucos dias da eleição, o que veio a revelar-se como um verdadeiro game changer na eleição de 2016. Este ano, salvo um novo momento James Comey (curiosamente, Trump voltou, recentemente a trazer o tema à baila), o actual ocupante da Casa Branca deverá ter dificuldades em repetir o upset.
À medida que se aproxima o dia das eleições - ou o última dia das eleições, já que, neste momento, vários milhões de eleitores já depositaram o seu voto - fecha-se a janela de oportunidade para que Trump reduza a desvantagem para Joe Biden e se coloque numa striking distance que lhe permita, com um eventual erro nas sondagens e uma eficaz operação de mobilização de eleitores por parte da máquina republicana, conquistar um novo mandato à frente dos destinos da nação norte-americana.
A favor de Donald Trump joga ainda a sua vantagem no colégio eleitoral, já que Joe Biden deverá ter de vencer por mais de 3% no voto popular para compensar o handicap do sistema eleitoral de que padece actualmente o Partido Democrata. Mas, nesta altura, tal vantagem parece não ser suficiente para evitar que Joe Biden ascenda à presidência. 
Como se pode ver no mapa, o democrata consegue ultrapassar os 270 votos eleitorais necessários para a vitória sem precisar de ganhar nenhum dos estados onde as sondagens mostram maior equilíbrio. Mesmo não vencendo o Arizona, onde Trump triunfou em 2016, Biden seria o próximo presidente dos Estados Unidos, pelo que se afigura como muito difícil o percurso do candidato republicano rumo a um novo mandato na Casa Branca. 
Em 2016, assistimos a uma das maiores surpresas eleitorais de que há memória. Eu próprio dei como certa a vitória de Hillary a poucos dias da eleição desse ano, sem saber que a famosa blue wall democrata estava a ruir de forma praticamente despercebida (apenas no Michigan houve alguns sinais e nas vésperas da eleição), pelo que, desta vez, se impõe maior cautela e ponderação antes de anunciar como decidida uma corrida que, ainda por cima, está rodeado de condições excepcionais. Assim sendo, façamos as nossas apostas, mas esperemos para ver quem conquista a Casa Branca.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Obama apoia Biden

Barack Obama e Joe Biden mantiveram sempre, ao longo dos seus oito anos em conjunto na Casa Branca, uma excelente relação, tanto pessoal como profissional. A química entre os dois foi evidente e permitiu uma convivência pacífica e sem os atritos que marcaram outras relações entre Presidente e Vice-presidente na história da política norte-americana.
Apesar de Biden ter sido o seu Veep e de serem amigos, Obama não quis nunca ser visto como a intrometer-se na decisão das primárias do seu partido, muito menos a declarar o seu favorecimento a qualquer candidato, nomeadamente ao seu antigo vice. Chegaram mesmo a circular alguns rumores que davam a entender que Obama não via Joe Biden como a pessoa mais indicada para fazer face a Trump e que não estava impressionado com a campanha do antigo senador do Delaware. 
Mas, agora que Joe é o presumível nomeado do Partido Democrata, Obama não tinha por que se manter na rectaguarda e veio, num vídeo divulgado hoje, anunciar publicamente o seu apoio a Biden, deixando um claro contraste para com Donald Trump e apontando para o extenso currículo do seu antigo running mate.
Ao alcançar a nomeação, Joe Biden "liberta", assim, um dos seus mais poderosos trunfos na campanha que se avizinha, pois Barack Obama conta com bons níveis de popularidade entre os norte-americanos, é um orador de excelência e será importante na mobilização do eleitorado democrata, em especial o afro-americano, o que poderá ser decisivo em Novembro. Nessa altura, veremos se o apoio de Obama fez ou não a diferença na luta pela Casa Branca.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

À procura da vice de Biden

No seu último debate com Bernie Sanders, a 15 de Março, Joe Biden anunciou que escolheria uma mulher para sua vice-presidente, pelo que teremos um ticket misto do lado democrata face à dupla WASP formada por Donald Trump e Mike Pence. Esta foi uma excelente manobra política do antigo vice-presidente, pois dominou a narrativa (Bernie Sanders foi atrás e disse que faria o mesmo), recebeu elogios por algo que era inevitável e reduziu drasticamente o leque de opções para a sua decisão, poupando, assim, tempo e recursos a vetar nomes masculinos que nunca seriam escolhidos.
Apesar de a importância dos vice-presidentes variar de administração para administração, consoante o portfolio que é atribuído ao Veep, a escolha de Joe Biden reveste-se de importância acrescida, pois um dos segredos mais mal guardados da sua candidatura é que, caso eleito, Biden apenas governará durante um mandato, abdicando de se recandidatar, em 2024, caso vença a eleição deste ano.
Assim sendo, caso o ticket democrata saia vencedor em Novembro, a vice-presidente de Joe estará, muito provavelmente,  na pole position para as primárias democratas de 2024, partindo de uma excelente posição para suceder ao seu presidente. Assim, e não obstante ainda faltar algum tempo para conhecermos a candidata vice-presidencial democrata, importa começar a pensar nas principais potenciais candidatas a concorrerem em conjunto com Biden. 
Na altura de escolherem o seu vice, os candidatos presidenciais procuram, por norma, figuras que os complementem, que possuam características que supram as suas fraquezas, que expandam o seu apelo eleitoral, seja por atraírem um determinado grupo eleitoral ou por trazerem um vanjatoso home effect num swing state.
Assim, candidatos com menos currículo costumam escolher políticos experientes (exemplos como os de JFK, Bush 43 ou Obama) e concorrentes mais velhos procuram um running mate que transmita juventude e vivacidade (recentemente, tivemos os casos de McCain ou Romney). 
Por outro lado, também acontece que os candidatos procurem escolher vices que sejam de um espectro político-ideológico diferente e que complemente o seu apelo eleitoral. Não admira, por isso, que Trump tenha escolhido Mike Pence, uma figura do establishment republicano e que transmitiu segurança ao eleitorado evangélico, e foi, por isso, essencial para segurar a base do seu partido. 
Na escolha vice-presidencial pode também ser tido em conta o home state do candidato, pois se o escolhido for oriundo de um estado decisivo isso pode dar um ímpeto decisivo para a vitória dos votos eleitorais atribuídos por esse mesmo estado.
Mais recentemente, os candidatos à Casa Branca veem a o género e a raça como factores importantes na escolha do seu parceiro na corrida, de forma a criarem um ticket multifacetado para passarem uma mensagem de inclusão e promoverem o voto da minoria respectiva. Este factor é, por norma, mais importante para os democratas e é o caso específico de Joe Biden.
Já sabemos, por isso, que a nomeada vice-presidencial democrata será uma mulher. Ainda não sabemos, porém, o nome da escolhida, o que não acontecerá antes do Verão. Isso não invalida que se comecem a fazer as primeiras previsões e a CNN apresenta uma lista do top-ten das principais candidatas. Concordo, em geral, com esta lista e em especial com as duas primeiras classificadas, que me parecem, de facto, as mais bem posicionadas para acompanharem Biden no ticket do Partido Democrata.
A Senadora Kamala Harris tem sido apontada, desde que desistiu da sua candidatura à Casa Branca, como a principal favorita ao lugar de Veep de Biden. É jovem, traz já a experiência da corrida deste ano, provou ser competente nos debates televisivos e, acima de tudo, é afro-americana. Ora, se houve coisa que ficou provada nas mais recentes eleições é que os democratas dependem muito da afluência às urnas em grande número dos eleitores afro-americanos. Por isso, a presença de uma negra no ticket democrata seria, sem dúvida, uma excelente motivação para que isso acontecesse.
Por sua vez, Gretchen Whitmer tem vindo a subir nas casas de apostas e é vista, agora, como uma possível nomeada vice-presidencial. A sua resposta à crise da COVID-19 enquanto governadora do estado do Michigan trouxe-a para a ribalta e os ataques constantes de que é alvo por parte de Donald Trump só fizeram subir o seu perfil mediático e a solidariedade democrata. A sua juventude é um bom contraponto aos 77 anos de Biden e a sua nomeação daria uma importante vantagem aos democratas no decisivo Michigan. 
É óbvio que ainda é muito cedo para apontar com certeza a escolhida por Joe Biden,  Contudo, se a escolha tivesse de ser feita hoje, ficaria muito surpreendido se a opção não recaísse numa destas duas mulheres.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

It's Joe!

Bernie Sanders anunciou ontem a suspensão da sua campanha presidencial, deixando Joe Biden com o caminho aberto para a nomeação presidencial. Se já o era de facto, Biden é agora oficialmente o presumptive nominee do Partido Democrata e, salvo um acontecimento excepcional, será o adversário de Donald Trump na eleição geral de Novembro.
Era evidente para todos que Bernie tinha perdido as hipóteses de vitória depois da Super Tuesday e das eleições que se seguiram. Com todo o establishment democrata a cerrar fileiras em torno do seu adversário, o senador independente pelo Vermont viu a sua coligação de eleitores - jovens, liberais e hispânicos - ser insuficiente para conseguir a maioria em qualquer primária. Assim, era uma questão de tempo até Joe Biden selar a nomeação, o que poderia até apenas acontecer na convenção nacional do partido. 
Mas, e como se viu em 2016, Bernie Sanders poderia não querer baixar os braços e manter a sua candidatura até ao fim, de forma a amplificar ao máximo a transmissão da sua mensagem liberal. Só que, desta vez, Bernie optou por atirar a toalha ao chão, provavelmente por dois grandes motivos. Em primeiro lugar, a pandemia da Covid-19 retirou-lhe o palco e a atenção mediática que precisava. Com os comícios cancelados e com os media e a opinião pública totalmente focados na crise epidémica, não tinha meios nem público para a sua mensagem. Em segundo lugar, Sanders não quer repetir o que se passou em 2016 e entende que só um partido unido poderá derrotar Donald Trump. Se há quatro anos se pensava que o nomeado democrata seria o eventual vencedor (as hipóteses de uma vitória de Trump não eram levadas a sério), agora os democratas percebem que é imperioso derrotar o actual ocupante da Casa Branca e, por isso, Sanders não quer correr o risco de ficar para a história como um dos grandes responsáveis por oito anos de uma administração Trump.
Até Novembro, os democratas terão mais de meio ano para unir o partido em redor da candidatura de Joe Biden. E, aí, Bernie Sanders terá um papel importante. Numa primeira fase, vai ter de evitar a debandada dos seus apoiantes, como aconteceu, em grande parte, há quatro anos. Depois, será importante na definição da plataforma eleitoral do partido, pois conquistou um lugar de relevo na posição ideológica democrata e, além disso, o partido terá de ser visto a aplacar ideias do movimento de Sanders para convencer os seus apoiantes a irem em força às urnas, em Novembro.
Bernie Sanders pode não ter conseguido uma campanha com tanto sucesso como a de há quatro anos, mas a sua carreira política só pode ser vista como um enorme triunfo. Até há poucos anos, era visto como uma figura menor, um senador de um pequeno Estado com ideias radicais. Todavia, actualmente, Bernie transformou a sua ideologia num movimento fundamental para a transformação do Partido Democrata num partido mais progressista. As suas ideias deixaram de estar limitadas a uma pequena franja para serem discutidas e aceites no sistema mainstream. Ainda é cedo para dizer, mas é possível que, daqui a algum tempo, se diga que o movimento de Bernie esteve para os democratas como o Tea Party esteve para os republicanos.
Mas, agora, as atenções viram-se para Joe Biden, que terá a responsabilidade de evitar um segundo mandato de Donald Trump, provavelmente o presidente republicano mais odiado de sempre pelos democratas. E é certo que Bernie tudo fará para que seja Biden o 46º presidente dos Estados Unidos.

terça-feira, 17 de março de 2020

O fim da estrada para Bernie Sanders

A pandemia do Covid-19 está a paralisar praticamente o mundo todo (em especial o hemisfério Norte) e os Estados Unidos já não são excepção, desde que a administração Trump fez meia-volta e declarou este corona vírus como uma grande ameaça à saúde pública. 
Naturalmente, numa situação de emergência como esta, até às importantes eleições primárias ficam para segundo plano e podem mesmo ficar numa espécie de stand-by, pelo menos até se ultrapassar a pior fase desta epidemia. 
No passado Sábado, decorreu um debate televisivo entre Joe Biden e Bernie Sanders, os dois últimos candidatos (além da irrelevante Tulsi Gabbard) à nomeação presidencial pelo Partido Democrata. Como não podia deixar de ser, o tema Covid-19 ocupou grande parte da discussão, o que levou, com naturalidade, a que os dois concorrentes esgrimissem argumentos sobre as sua visões para o serviço de saúde norte-americano. Sanders, um defensor acérrimo de um serviço de saúde universal, à europeia, colidiu com a visão mais "americana" de Biden, que apoia um serviço de saúde prestado por privados, reforçando as medidas de regulação e protecção criadas pelo Obamacare.
Além disso e de alguma discussão em torno do historial de voto de Joe Biden, que terá sempre alguma dificuldade em defender o seu perfil moderado no Senado numa época em que os democratas são significativamente mais progressistas do que até há 12 anos, quando Biden abandonou a câmara alta, o debate de Sábado pouco acrescentou. A maior novidade terá sido mesmo o anúncio de Biden de que escolherá uma mulher para sua vice-presidente. Surpreendido pela decisão do seu adversário, Sanders praticamente prometeu fazer o mesmo, pelo teremos um ticket misto do lado democrata.
Hoje mesmo decorrerá uma nova ronda de primárias, ainda que com uma baixa. Com efeito, o governador republicano do Ohio decidiu suspender as primárias no seu Estado, apesar de uma decisão judicial em sentido contrário, por causa do epidemia do Covid-19. Pode parecer uma decisão sensata, mas é sempre preocupante vermos um político a cancelar uma eleição (ainda por cima do partido oposto ao seu) indo contra uma decisão de um tribunal, pondo em causa o sistema de checks and balances da democracia norte-americana. 
Com esta decisão no Ohio, teremos primárias apenas na Florida, Arizona e Illinois e é expectável que Joe Biden vença facilmente os três estados. Depois disso, devemos entrar numa fase de suspensão das primárias, dado que muitos estados já anunciaram o adiamento da sua primária por causa do novo coronavirus. Fica, por isso, muito complicada a candidatura de Sanders, que, depois de hoje, deverá ver a sua distância para Biden em número de delegados alargar-se ainda mais. Para piorar a situação, foi hoje anunciado que foi o antigo VP de Obama a vencer no estado de Washington.
Assim, com a campanha prestes a entrar numa espécie de letargia, Bernie Sanders fica sem estrada para poder esperar por uma espécie de milagre que surgisse no percurso e trouxesse uma enorme reviravolta e o recolocasse na disputa pela nomeação. Nesta altura, não se sabe sequer em que moldes decorrerá a convenção nacional democrata, agendada para Julho. Resta, por isso, esperar para ver o que acontece nos próximos tempos que são, sem dúvida, extraordinários.

sábado, 14 de março de 2020

Xeque-mate

A não ser que algo de muito extraordinário aconteça - e vivemos tempos em que temos de estar preparados para tudo -, Joe Biden será o nomeado presidencial do Partido Democrata e defrontará Donald Trump na eleição geral de Novembro. Apesar de Bernie Sanders ainda se manter na corrida, o resultado final está praticamente definido, tendo em conta a vitoriosa noite de Biden na passada Terça-feira.
Depois das vitórias do ex-vice-presidente na Carolina do Sul e na Super Tuesday, Sanders não tinha motivos para estar optimista e os resultados vieram tornar realidade as previsões mais negras para  campanha do Senador pelo Vermont. Já se sabia que o Sul não era terreno favorável a Bernie, mas a derrota no Mississippi por 65 pontos percentuais foi, no mínimo, embaraçosa e pôs a nu, mais uma vez, as dificuldades de Sanders junto do eleitorado afro-americano. No Missouri, Joe Biden obteve mais uma vitória folgada, demonstrando que conta também com o apoio dos eleitores dos subúrbios e do heartland dos Estados Unidos. Também no Idaho, numa pequena primária que elegia apenas 20 delegados, foi Joe o vencedor, ainda que por uma margem mais curta, mas num estado que, há pouco tempo, parecia seguro para Bernie Sanders.
Contudo, o grande prémio da noite era o Michigan e, aí, num dos principais estados industriais da nação norte-americana, Joe Biden terá dado um verdadeiro tiro no porta-aviões da campanha de Sanders, com uma vitória clara e inequívoca que prova que Bernie, ao contrário de há quatro anos, não conta com uma maioria de apoiantes entre os blue collar workers da zona industrial dos Estados Unidos e que, como em 2016, poderão decidir a eleição geral de Novembro. 
Como fraco prémio de consolação, Sanders conseguiu vencer no Dakota do Norte e está à frente no estado de Washington por 2% dos votos quando ainda faltam contar 5% do total de boletins. O equilíbrio da corrida neste último estado é a prova de que o senador do Vermont está em queda livre, pois será difícil encontrar um estado demograficamente mais favorável à sua candidatura - Washington é um dos Estados com uma população mais jovem, instruída, urbana e liberal da União.
Após estes resultados, não existe mais um percurso viável que se possa vislumbrar e que leve à nomeação de Bernie Sanders. A próxima ronda de primárias é-lhe particularmente desfavorável, dado que os quatro importantes estados (Florida, Ohio, Illinois e Arizona) que vão a votos na próxima terça-feira (se o Covid-19 deixar) devem cair todos para o lado de Biden. Assim, e se as primárias desta semana representaram o "cheque ao rei" para a campanha de Bernie, as próximas eleições deverão significar o "cheque-mate".
Todavia, o senador de 78 anos decidiu manter-se na corrida e participar no debate de Domingo. Com uma fiel e dedicada legião de apoiantes e com dinheiro ainda na conta bancária, Sanders não quererá desistir demasiado cedo de uma corrida que já deu uma grande reviravolta e num ambiente dominado pela incerteza que a crise do Covid-19 veio acentuar. Ainda assim, estará ciente que tem pela frente uma tarefa praticamente impossível e deverá começar a refrear o tom do seu discurso e a reduzir a crispação da campanha, de forma a preparar o seu eventual apoio a Joe Biden. 
Sanders, que desdenha Donald Trump e até tem alguma simpatia pessoal por Biden, não quererá contribuir para a reeleição do actual presidente e terá de evitar o que aconteceu há quatro anos, quando os seus apoiantes se revoltaram contra a nomeada democrata, Hillary Clinton, chegando mesmo a perturbar a convenção nacional do partido. Por isso, os próximos tempos deverão ser de transição, de uma campanha activa para a gradual aproximação e inevitável endorsement a Joe Biden, de forma e unir o Partido Democrata e começar a derrotar Donald Trump.

terça-feira, 10 de março de 2020

All eyes on Michigan

Depois da Super Tuesday da semana passada, hoje temos uma Mini Tuesday, com seis estados a irem a votos. Mais logo, os eleitores do Idaho, do Michigan, do Mississippi, do Missouri, do Dakota do Norte e de Washington (não confundir com a capital federal) deslocam-se às urnas para eleger os nomeados presidenciais. Como Donald Trump tem a nomeação garantida, interessa o que se passa do lado democrata, numa altura em que restam Joe Biden e Bernie Sanders a disputar a vitória nas primárias democratas.
Renascido na Carolina do Sul e arrasador na Super Tuesday, Biden parece lançado para a nomeação e o 538 de Nate Silver já atribui 99% de possibilidades de triunfo ao antigo vice-presidente. Assim, Bernie Sanders está obrigado a fazer um grande resultado nas corridas de hoje para que a sua candidatura se mantenha viável. Contudo, as atenções estarão principalmente para o Michigan, o maior dos estados em disputa e que entrega mais de um terço - 125 - do s 352 delegados em jogo na noite de hoje.
Há quatro anos, quando Bernie competiu com Hillary Clinton pela nomeação presidencial, o Michigan também era apontado como um estado decisivo. Nessa altura, e quando Hillary surgia com uma enorme vantagem nas sondagens, foi o senador pelo Vermont a surpreender e a levar a melhor no estado dos Grandes Lagos. Essa vitória deu um novo fôlego à candidatura de Bernie e prolongou as primárias democratas que só terminaram na convenção nacional do partido. 
Sanders esperará que a história se repita e que o Michigan troque, uma vez mais, as voltas às sondagens e aos pundits, criando uma nova reviravolta numa corrida que já pareceu estar perto de vencer. Contudo, 2020 não é 2016 e, nesse ano, Hillary Clinton tinha muitos anti-corpos na classe operária branca, algo que já não acontece com Joe Biden. Há quatro anos, a abstenção democrata no Michigan foi elevadíssima, o que contribuiu para o falhanço de todas as sondagens e para a vitória inesperada de Bernie. Este ano, com os democratas motivados para derrotar Trump, isso não deverá acontecer e a forte mobilização do eleitorado de Sanders poderá não ser suficiente.
O Michigan será, então, o maior prémio da noite, mas não será o único. Em segundo lugar, o estado de Washington, com os seus 89 delegados, também será muito importante e Bernie e Joe parecem estar virtualmente empatados no estado norte-americano mais afectado pelo Coronavirus, o que pode baralhar as contas. Mais a sul, no Missouri (68 delegados) e no Mississippi (36), a vitória não deverá fugir a Biden, que conta com grande vantagem entre o eleitorado afro-americano. Por fim, temos os pequenos Idaho (20) e Dakota do Norte (14), pouco relevantes e onde praticamente não existem sondagens, ainda que se tenha de atribuir uma pequena vantagem ao antigo Veep, em especial neste último.
Tudo aponta, por isso, que a noite de hoje será muito importante para a corrida pela nomeação democrata. Se Joe Biden vencer em toda a linha, com vitórias no Michigan e em Washington a juntar aos esperados triunfos nos estados sulistas, tornar-se-á o presumível nomeado e Bernie Sanders começará a ser pressionado para abandonar a favor do seu adversário para unir o partido. Pelo seu lado, o senador do Vermont terá de triunfar, contra todas as probabilidades, pelo menos no Michigan e, de preferência, também em Washington para ainda poder sonhar em defrontar Trump em Novembro. Mais logo, veremos qual dos cenários se concretiza.

quinta-feira, 5 de março de 2020

É oficial: Joe vs Bernie

Confirmou-se o cenário anunciado após os resultados da Super Tuesday: Michael Bloomberg e Elizabeth Warren desistiram e, agora, a corrida está entregue apenas a Joe Biden e Bernie Sanders - um deles será o nomeado democrata para a eleição presidencial de Novembro, ainda que Tusi Gabbard mantenha a sua (irrelevante) candidatura.
Bloomberg apostou todas as suas fichas na série de eleições primárias da passada Terça-feira, mas não colheu frutos dessa estratégia. Entrou tarde na corrida e utilizou uma táctica pouco ortodoxa de evitar os primeiros estados a irem a votos (até porque já não foi a tempo de se inscrever nessas eleições) e realizar uma verdadeira barragem de anúncios televisivos e investir num exército de staffers com que pretendia saturar os mercados dos estados da Super Tuesday com a sua mensagem: Trump só poderia ser derrotado por um moderado, experiente, mas, acima de tudo, por alguém que fez (muito) mais dinheiro no sector privado do que o actual presidente. Contudo, a pálida imagem que transmitiu no único debate televisivo em que participou minou a sua aura de combatividade e invencibilidade com que pretendia derrotar Trump. Depois, o triunfo esmagador de Biden na Carolina do Sul, reabilitou a figura do antigo Veep como um moderado com possibilidades de ser eleito e isso afastou muitos eleitores de Bloomberg. 
Sem surpresa, o multimilionário anunciou a suspensão da sua campanha e endereçou o seu apoio a Joe Biden. Este endorsement não traz qualquer surpresa, pois Bloomberg nunca escondeu que, além do objectivo prioritário de impedir um segundo mandato de Donald Trump, queria também evitar a nomeação de um representante da ala mais liberal do Partido Democrata. Em conjunto com o endorsement de Bloomberg, Biden poderá também contar com o seu apoio financeiro, que será importante para eliminar ou atenuar a vantagem monetária de Bernie Sanders. 
Um dia depois, hoje, foi a vez de Elizabeth Warren anunciar a sua desistência da corrida presidencial. A senadora pelo Massachusetts foi, desde a sua eleição para a câmara alta do Congresso norte-americano em 2012, umas das grandes figuras liberais dos Estados Unidos e era grande a expectativa em torno da sua candidatura. Durante o Outono de 2019, Warren alcançou mesmo o estatuto de frontrunner, surgindo recorrentemente no topo das sondagens, mas foi mais um exemplo de um candidato cujo pico de rendimento surgiu demasiado cedo, começando a perder fulgor pouco antes do caucus do Iowa, em detrimento de Sanders e de Pete Buttigieg. 
Ao comunicar a suspensão da sua campanha, Elizabeth Warren não declarou o apoio a qualquer dos candidatos restantes, mas é ainda possível que o faça, mais logo, quando realizar uma conferência de imprensa que já anunciou. Sanders será sempre o favorito a almejar o endorsement de Warren, mas não é certo que isso aconteça, já que a Senadora do Massachusetts, apesar de se encontrar no espectro mais liberal do Partido Democrata, tem bastantes mais ligações ao establishment democrata do que Sanders, um independente anti-sistema. É, por isso, possível que Warren opte por não apoiar nenhum dos candidatos, sendo menos crível que apoie oficialmente Biden.
A partir de agora, com o campo de candidatos "limpo", veremos verdadeiramente o que valem as candidaturas de Joe Biden e Bernie Sanders. Os resultados das próximas primárias, com destaque para as do Michigan, no dia 10, e da Florida, no dia 17, deverão ser verdadeiramente decisivas para o que resta da disputa pela nomeação. Com base nas últimas sondagens, Joe parece levar alguma vantagem, mas teremos de ver os efeitos das desistências dos últimos dias para termos uma melhor perspectiva sobre o estado da corrida, após assentar todo o pó deixado pela verdadeira tempestade de areia que representou a Super Tuesday.

quarta-feira, 4 de março de 2020

The comeback oldie

Em 1992, Bill Clinton, na altura com 45 anos, ficou conhecido como o "The Comeback Kid", após o seu surpreendente segundo lugar na primária do New Hampshire, quando a sua candidatura à Casa Branca parecia estar já condenada ao fracasso. Ontem, 28 anos depois, Joe Biden, com 78 anos, mostrou estar à altura do epíteto de "Comeback Oldie", ao amealhar uma série de vitórias na famosa e importante Super Tuesday.
Após as desastrosas prestações de Biden nos primeiros estados e a consequente fuga de contribuições financeiras, chegou mesmo a falar-se na sua possível desistência. Contudo, tudo mudou no passado Sábado, quando o ex-Vice-Presidente de Barack Obama triunfou na primária da Carolina do Sul por uma diferença (de 30 pontos percentuais) que nenhuma sondagem previu. Com essa vitória, Biden alcançou, por direito próprio, o estatuto de representante da ala moderada do Partido Democrata e, a partir daí, o establishment democrata começou a cerrar fileiras à sua volta. As desistências de Amy Klobuchar e Pete Buttigieg a seu favor foram os sinais mais visíveis da mudança no momentum da corrida, quando Bernie Sanders parecia bem lançado para a nomeação, após os bons resultados no Iowa, New Hampshire e no Nevada.
Na Super Tuesday deste ano, estavam em jogo 1617 delegados e, à hora a que escrevo estas linhas, falta apenas conhecer o vencedor no Maine (onde Biden leva uma minúscula vantagem), sabendo-se que Joe venceu os estados do Alabama, Arkansas, Massachussetts, Minnesota, Carolina do Norte, Oklahoma, Tennessee e o Texas, tendo, neste momento, cerca de 400 delegados na sua coluna. Por sua vez, Bernie Sanders foi o mais votado na Califórnia, no Colorado, no Utah e no seu home state Vermont, amealhando cerca de 320 delegados.
Michael Bloomberg e Elizabeth Warren tiveram uma noite para esquecer e é provável que desistam nos próximos dias (a campanha do antigo Mayor de Nova Iorque já anunciou estar a avaliar a situação) pois dificilmente terão relevância na disputa. Bloomberg, que sempre disse querer evitar a nomeação de Sanders, deverá anunciar o seu apoio a Biden, enquanto Warren, que pretendia manter-se na corrida até à convenção de Julho, poderá apresentar o seu endorsement ao senador independente pelo Vermont.
Agora, as primárias democratas são definitivamente uma corrida a dois entre Biden e Sanders. De um lado, o establishment democrata, que saiu em força, nos últimos dias, em auxílio de Joe Biden. No seu lado da barricada, o antigo VP conta com os eleitores mais moderados, mais velhos e com os afro-americanos. Do outro lado, com Bernie, vemos os eleitores mais liberais, os mais jovens e os hispânicos. Sem o peso do partido por detrás, mas com uma grande pujança financeira, a campanha de Sanders ainda está na luta. Contudo, depois da noite de ontem, parece claro que Biden é o frontrunner. Além de contar com o momentum  da corrida, as próximas primárias parecem favorecer o antigo senador do Delaware, com destaque para a contenda no grande e importante estado da Florida, com um perfil de eleitorado muito averso a Sanders.
No próximo dia 10, será possível tomar novamente o pulso ao eleitorado democrata, quando decorrer uma espécie de mini Super Tuesday. Será importante seguir as sondagens que forem publicadas e os endorsements que deverão começar a "sair" com mais regularidade. Todavia, o apoio mais esperado, o de Obama, tão cedo não será conhecido e pode mesmo não acontecer até haver um nomeado, sendo certo que, entre o seu Veep e Sanders, o 44º Presidente preferirá sempre o seu antigo braço direito.
Entretanto, na Casa Branca, Donald Trump, entre ataques no Twitter e declarações sobre o corona vírus, vai esperando para ver quem será o seu adversário em Novembro.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Biden afirma que esta não será a sua última eleição

Ainda não sabemos quem é o vencedor em 2012 e já se fala das eleições de 2016. Hoje, depois de votar, Joe Biden voltou a dar a entender que será candidato à Casa Branca, daqui a quatro anos (terá 74 anos), ao afirmar que esta não foi a última vez que votou a si próprio. Pode ser verdade (de Biden tudo se espera), ou pode ser apenas uma forma de não perder margem negocial durante um eventual segundo mandato como Vice-Presidente. Seja como for, esta é uma dúvida que só será esclarecida daqui a alguns anos.

sábado, 13 de outubro de 2012

Biden vs Ryan

Como não vi em directo o debate entre os candidatos à vice-presidência dos Estados Unidos, apenas hoje me foi possível fazer a análise ao que de mais importante se passou na noite de Quinta-feira. Depois de ver a gravação, pareceu-me que Joe Biden foi o vencedor, ainda que não tenha sido, de maneira nenhuma, um triunfo com a dimensão da vitória de Mitt Romney no primeiro debate entre os nomeados presidenciais.
O debate foi interessante, com substância e entre dois candidatos que mostraram estar à altura do momento. A primeira parte do debate foi dominada pela temática da política externa, onde Joe Biden se sente como peixe na água e esteve, sem surpresas, por cima de Paul Ryan, ainda que este, apesar de não ter grande experiência nesta matéria, não se saiu mal. Nesta secção, o melhor momento do actual Vice-presidente terá sido quando respondeu às críticas lançadas por Ryan relativamente às condições de segurança do Embaixador norte-americano assassinado em Benghazi, lembrando que foi Paul Ryan, enquanto Presidente da Comissão do Orçamento na Câmara dos Representantes a reduzir em 300 milhões de euros os fundos para a segurança das embaixadas dos Estados Unidos.
Se na política externa era Biden o favorito, já nas questões do foro interno, em especial nos temas económicas, esperava-se que Ryan estivesse por cima. E, de facto, o candidato republicano atacou de forma assertiva o registo económico do primeiro mandato da dupla Obama/Biden na Casa Branca. Mas Biden, experiente nestas andanças, reagiu eficazmente e colocou pressão em Ryan para que o congressista do Wisconsin desse mais detalhes sobre a proposta de orçamento republicana. Contudo, Ryan não foi específico e voltou a não dar explicações sobre como uma administração republicana irá ser capaz de descer os impostos sem agravar o défice federal.
A nível de conteúdo, o vencedor foi, e de forma relativamente clara, Joe Biden. Mas, na forma, o Vice-presidente pecou por algumas expressões e comportamentos que demonstraram um certo desdém, se não mesmo desprezo, pelo seu adversário, chegando mesmo a rir-se enquanto Paul Ryan falava. Biden tentou, claramente, cumprir onde Obama falhou, mostrando-se dinâmico, envolvido no debate e agressivo. Por sua vez, Ryan adoptou uma postura tranquila, parecendo apenas irritado por ser repetidamente interrompido por Biden.
No fim de contas, Joe Biden pareceu-me levar a melhor sobre Paul Ryan, o que não deixa de ser natural, já que o antigo Senador do Delaware é um político mais experiente e que, em 2008, teve de passar por inúmeros debates nas primárias presidenciais democratas e por um debate vice-presidencial face a Sarah Palin. Ainda assim, o debate foi equilibrado e muitos analistas consideraram que o resultado final se saldou num empate. Por isso, o debate vice-presidencial não deverá ter grande impacto na corrida pela Casa Branca, que, desde o frente-a-frente de Obama e Romney, está mais renhida do que nunca.