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quinta-feira, 9 de abril de 2020

It's Joe!

Bernie Sanders anunciou ontem a suspensão da sua campanha presidencial, deixando Joe Biden com o caminho aberto para a nomeação presidencial. Se já o era de facto, Biden é agora oficialmente o presumptive nominee do Partido Democrata e, salvo um acontecimento excepcional, será o adversário de Donald Trump na eleição geral de Novembro.
Era evidente para todos que Bernie tinha perdido as hipóteses de vitória depois da Super Tuesday e das eleições que se seguiram. Com todo o establishment democrata a cerrar fileiras em torno do seu adversário, o senador independente pelo Vermont viu a sua coligação de eleitores - jovens, liberais e hispânicos - ser insuficiente para conseguir a maioria em qualquer primária. Assim, era uma questão de tempo até Joe Biden selar a nomeação, o que poderia até apenas acontecer na convenção nacional do partido. 
Mas, e como se viu em 2016, Bernie Sanders poderia não querer baixar os braços e manter a sua candidatura até ao fim, de forma a amplificar ao máximo a transmissão da sua mensagem liberal. Só que, desta vez, Bernie optou por atirar a toalha ao chão, provavelmente por dois grandes motivos. Em primeiro lugar, a pandemia da Covid-19 retirou-lhe o palco e a atenção mediática que precisava. Com os comícios cancelados e com os media e a opinião pública totalmente focados na crise epidémica, não tinha meios nem público para a sua mensagem. Em segundo lugar, Sanders não quer repetir o que se passou em 2016 e entende que só um partido unido poderá derrotar Donald Trump. Se há quatro anos se pensava que o nomeado democrata seria o eventual vencedor (as hipóteses de uma vitória de Trump não eram levadas a sério), agora os democratas percebem que é imperioso derrotar o actual ocupante da Casa Branca e, por isso, Sanders não quer correr o risco de ficar para a história como um dos grandes responsáveis por oito anos de uma administração Trump.
Até Novembro, os democratas terão mais de meio ano para unir o partido em redor da candidatura de Joe Biden. E, aí, Bernie Sanders terá um papel importante. Numa primeira fase, vai ter de evitar a debandada dos seus apoiantes, como aconteceu, em grande parte, há quatro anos. Depois, será importante na definição da plataforma eleitoral do partido, pois conquistou um lugar de relevo na posição ideológica democrata e, além disso, o partido terá de ser visto a aplacar ideias do movimento de Sanders para convencer os seus apoiantes a irem em força às urnas, em Novembro.
Bernie Sanders pode não ter conseguido uma campanha com tanto sucesso como a de há quatro anos, mas a sua carreira política só pode ser vista como um enorme triunfo. Até há poucos anos, era visto como uma figura menor, um senador de um pequeno Estado com ideias radicais. Todavia, actualmente, Bernie transformou a sua ideologia num movimento fundamental para a transformação do Partido Democrata num partido mais progressista. As suas ideias deixaram de estar limitadas a uma pequena franja para serem discutidas e aceites no sistema mainstream. Ainda é cedo para dizer, mas é possível que, daqui a algum tempo, se diga que o movimento de Bernie esteve para os democratas como o Tea Party esteve para os republicanos.
Mas, agora, as atenções viram-se para Joe Biden, que terá a responsabilidade de evitar um segundo mandato de Donald Trump, provavelmente o presidente republicano mais odiado de sempre pelos democratas. E é certo que Bernie tudo fará para que seja Biden o 46º presidente dos Estados Unidos.

terça-feira, 17 de março de 2020

O fim da estrada para Bernie Sanders

A pandemia do Covid-19 está a paralisar praticamente o mundo todo (em especial o hemisfério Norte) e os Estados Unidos já não são excepção, desde que a administração Trump fez meia-volta e declarou este corona vírus como uma grande ameaça à saúde pública. 
Naturalmente, numa situação de emergência como esta, até às importantes eleições primárias ficam para segundo plano e podem mesmo ficar numa espécie de stand-by, pelo menos até se ultrapassar a pior fase desta epidemia. 
No passado Sábado, decorreu um debate televisivo entre Joe Biden e Bernie Sanders, os dois últimos candidatos (além da irrelevante Tulsi Gabbard) à nomeação presidencial pelo Partido Democrata. Como não podia deixar de ser, o tema Covid-19 ocupou grande parte da discussão, o que levou, com naturalidade, a que os dois concorrentes esgrimissem argumentos sobre as sua visões para o serviço de saúde norte-americano. Sanders, um defensor acérrimo de um serviço de saúde universal, à europeia, colidiu com a visão mais "americana" de Biden, que apoia um serviço de saúde prestado por privados, reforçando as medidas de regulação e protecção criadas pelo Obamacare.
Além disso e de alguma discussão em torno do historial de voto de Joe Biden, que terá sempre alguma dificuldade em defender o seu perfil moderado no Senado numa época em que os democratas são significativamente mais progressistas do que até há 12 anos, quando Biden abandonou a câmara alta, o debate de Sábado pouco acrescentou. A maior novidade terá sido mesmo o anúncio de Biden de que escolherá uma mulher para sua vice-presidente. Surpreendido pela decisão do seu adversário, Sanders praticamente prometeu fazer o mesmo, pelo teremos um ticket misto do lado democrata.
Hoje mesmo decorrerá uma nova ronda de primárias, ainda que com uma baixa. Com efeito, o governador republicano do Ohio decidiu suspender as primárias no seu Estado, apesar de uma decisão judicial em sentido contrário, por causa do epidemia do Covid-19. Pode parecer uma decisão sensata, mas é sempre preocupante vermos um político a cancelar uma eleição (ainda por cima do partido oposto ao seu) indo contra uma decisão de um tribunal, pondo em causa o sistema de checks and balances da democracia norte-americana. 
Com esta decisão no Ohio, teremos primárias apenas na Florida, Arizona e Illinois e é expectável que Joe Biden vença facilmente os três estados. Depois disso, devemos entrar numa fase de suspensão das primárias, dado que muitos estados já anunciaram o adiamento da sua primária por causa do novo coronavirus. Fica, por isso, muito complicada a candidatura de Sanders, que, depois de hoje, deverá ver a sua distância para Biden em número de delegados alargar-se ainda mais. Para piorar a situação, foi hoje anunciado que foi o antigo VP de Obama a vencer no estado de Washington.
Assim, com a campanha prestes a entrar numa espécie de letargia, Bernie Sanders fica sem estrada para poder esperar por uma espécie de milagre que surgisse no percurso e trouxesse uma enorme reviravolta e o recolocasse na disputa pela nomeação. Nesta altura, não se sabe sequer em que moldes decorrerá a convenção nacional democrata, agendada para Julho. Resta, por isso, esperar para ver o que acontece nos próximos tempos que são, sem dúvida, extraordinários.

sábado, 14 de março de 2020

Xeque-mate

A não ser que algo de muito extraordinário aconteça - e vivemos tempos em que temos de estar preparados para tudo -, Joe Biden será o nomeado presidencial do Partido Democrata e defrontará Donald Trump na eleição geral de Novembro. Apesar de Bernie Sanders ainda se manter na corrida, o resultado final está praticamente definido, tendo em conta a vitoriosa noite de Biden na passada Terça-feira.
Depois das vitórias do ex-vice-presidente na Carolina do Sul e na Super Tuesday, Sanders não tinha motivos para estar optimista e os resultados vieram tornar realidade as previsões mais negras para  campanha do Senador pelo Vermont. Já se sabia que o Sul não era terreno favorável a Bernie, mas a derrota no Mississippi por 65 pontos percentuais foi, no mínimo, embaraçosa e pôs a nu, mais uma vez, as dificuldades de Sanders junto do eleitorado afro-americano. No Missouri, Joe Biden obteve mais uma vitória folgada, demonstrando que conta também com o apoio dos eleitores dos subúrbios e do heartland dos Estados Unidos. Também no Idaho, numa pequena primária que elegia apenas 20 delegados, foi Joe o vencedor, ainda que por uma margem mais curta, mas num estado que, há pouco tempo, parecia seguro para Bernie Sanders.
Contudo, o grande prémio da noite era o Michigan e, aí, num dos principais estados industriais da nação norte-americana, Joe Biden terá dado um verdadeiro tiro no porta-aviões da campanha de Sanders, com uma vitória clara e inequívoca que prova que Bernie, ao contrário de há quatro anos, não conta com uma maioria de apoiantes entre os blue collar workers da zona industrial dos Estados Unidos e que, como em 2016, poderão decidir a eleição geral de Novembro. 
Como fraco prémio de consolação, Sanders conseguiu vencer no Dakota do Norte e está à frente no estado de Washington por 2% dos votos quando ainda faltam contar 5% do total de boletins. O equilíbrio da corrida neste último estado é a prova de que o senador do Vermont está em queda livre, pois será difícil encontrar um estado demograficamente mais favorável à sua candidatura - Washington é um dos Estados com uma população mais jovem, instruída, urbana e liberal da União.
Após estes resultados, não existe mais um percurso viável que se possa vislumbrar e que leve à nomeação de Bernie Sanders. A próxima ronda de primárias é-lhe particularmente desfavorável, dado que os quatro importantes estados (Florida, Ohio, Illinois e Arizona) que vão a votos na próxima terça-feira (se o Covid-19 deixar) devem cair todos para o lado de Biden. Assim, e se as primárias desta semana representaram o "cheque ao rei" para a campanha de Bernie, as próximas eleições deverão significar o "cheque-mate".
Todavia, o senador de 78 anos decidiu manter-se na corrida e participar no debate de Domingo. Com uma fiel e dedicada legião de apoiantes e com dinheiro ainda na conta bancária, Sanders não quererá desistir demasiado cedo de uma corrida que já deu uma grande reviravolta e num ambiente dominado pela incerteza que a crise do Covid-19 veio acentuar. Ainda assim, estará ciente que tem pela frente uma tarefa praticamente impossível e deverá começar a refrear o tom do seu discurso e a reduzir a crispação da campanha, de forma a preparar o seu eventual apoio a Joe Biden. 
Sanders, que desdenha Donald Trump e até tem alguma simpatia pessoal por Biden, não quererá contribuir para a reeleição do actual presidente e terá de evitar o que aconteceu há quatro anos, quando os seus apoiantes se revoltaram contra a nomeada democrata, Hillary Clinton, chegando mesmo a perturbar a convenção nacional do partido. Por isso, os próximos tempos deverão ser de transição, de uma campanha activa para a gradual aproximação e inevitável endorsement a Joe Biden, de forma e unir o Partido Democrata e começar a derrotar Donald Trump.

terça-feira, 10 de março de 2020

All eyes on Michigan

Depois da Super Tuesday da semana passada, hoje temos uma Mini Tuesday, com seis estados a irem a votos. Mais logo, os eleitores do Idaho, do Michigan, do Mississippi, do Missouri, do Dakota do Norte e de Washington (não confundir com a capital federal) deslocam-se às urnas para eleger os nomeados presidenciais. Como Donald Trump tem a nomeação garantida, interessa o que se passa do lado democrata, numa altura em que restam Joe Biden e Bernie Sanders a disputar a vitória nas primárias democratas.
Renascido na Carolina do Sul e arrasador na Super Tuesday, Biden parece lançado para a nomeação e o 538 de Nate Silver já atribui 99% de possibilidades de triunfo ao antigo vice-presidente. Assim, Bernie Sanders está obrigado a fazer um grande resultado nas corridas de hoje para que a sua candidatura se mantenha viável. Contudo, as atenções estarão principalmente para o Michigan, o maior dos estados em disputa e que entrega mais de um terço - 125 - do s 352 delegados em jogo na noite de hoje.
Há quatro anos, quando Bernie competiu com Hillary Clinton pela nomeação presidencial, o Michigan também era apontado como um estado decisivo. Nessa altura, e quando Hillary surgia com uma enorme vantagem nas sondagens, foi o senador pelo Vermont a surpreender e a levar a melhor no estado dos Grandes Lagos. Essa vitória deu um novo fôlego à candidatura de Bernie e prolongou as primárias democratas que só terminaram na convenção nacional do partido. 
Sanders esperará que a história se repita e que o Michigan troque, uma vez mais, as voltas às sondagens e aos pundits, criando uma nova reviravolta numa corrida que já pareceu estar perto de vencer. Contudo, 2020 não é 2016 e, nesse ano, Hillary Clinton tinha muitos anti-corpos na classe operária branca, algo que já não acontece com Joe Biden. Há quatro anos, a abstenção democrata no Michigan foi elevadíssima, o que contribuiu para o falhanço de todas as sondagens e para a vitória inesperada de Bernie. Este ano, com os democratas motivados para derrotar Trump, isso não deverá acontecer e a forte mobilização do eleitorado de Sanders poderá não ser suficiente.
O Michigan será, então, o maior prémio da noite, mas não será o único. Em segundo lugar, o estado de Washington, com os seus 89 delegados, também será muito importante e Bernie e Joe parecem estar virtualmente empatados no estado norte-americano mais afectado pelo Coronavirus, o que pode baralhar as contas. Mais a sul, no Missouri (68 delegados) e no Mississippi (36), a vitória não deverá fugir a Biden, que conta com grande vantagem entre o eleitorado afro-americano. Por fim, temos os pequenos Idaho (20) e Dakota do Norte (14), pouco relevantes e onde praticamente não existem sondagens, ainda que se tenha de atribuir uma pequena vantagem ao antigo Veep, em especial neste último.
Tudo aponta, por isso, que a noite de hoje será muito importante para a corrida pela nomeação democrata. Se Joe Biden vencer em toda a linha, com vitórias no Michigan e em Washington a juntar aos esperados triunfos nos estados sulistas, tornar-se-á o presumível nomeado e Bernie Sanders começará a ser pressionado para abandonar a favor do seu adversário para unir o partido. Pelo seu lado, o senador do Vermont terá de triunfar, contra todas as probabilidades, pelo menos no Michigan e, de preferência, também em Washington para ainda poder sonhar em defrontar Trump em Novembro. Mais logo, veremos qual dos cenários se concretiza.

quinta-feira, 5 de março de 2020

É oficial: Joe vs Bernie

Confirmou-se o cenário anunciado após os resultados da Super Tuesday: Michael Bloomberg e Elizabeth Warren desistiram e, agora, a corrida está entregue apenas a Joe Biden e Bernie Sanders - um deles será o nomeado democrata para a eleição presidencial de Novembro, ainda que Tusi Gabbard mantenha a sua (irrelevante) candidatura.
Bloomberg apostou todas as suas fichas na série de eleições primárias da passada Terça-feira, mas não colheu frutos dessa estratégia. Entrou tarde na corrida e utilizou uma táctica pouco ortodoxa de evitar os primeiros estados a irem a votos (até porque já não foi a tempo de se inscrever nessas eleições) e realizar uma verdadeira barragem de anúncios televisivos e investir num exército de staffers com que pretendia saturar os mercados dos estados da Super Tuesday com a sua mensagem: Trump só poderia ser derrotado por um moderado, experiente, mas, acima de tudo, por alguém que fez (muito) mais dinheiro no sector privado do que o actual presidente. Contudo, a pálida imagem que transmitiu no único debate televisivo em que participou minou a sua aura de combatividade e invencibilidade com que pretendia derrotar Trump. Depois, o triunfo esmagador de Biden na Carolina do Sul, reabilitou a figura do antigo Veep como um moderado com possibilidades de ser eleito e isso afastou muitos eleitores de Bloomberg. 
Sem surpresa, o multimilionário anunciou a suspensão da sua campanha e endereçou o seu apoio a Joe Biden. Este endorsement não traz qualquer surpresa, pois Bloomberg nunca escondeu que, além do objectivo prioritário de impedir um segundo mandato de Donald Trump, queria também evitar a nomeação de um representante da ala mais liberal do Partido Democrata. Em conjunto com o endorsement de Bloomberg, Biden poderá também contar com o seu apoio financeiro, que será importante para eliminar ou atenuar a vantagem monetária de Bernie Sanders. 
Um dia depois, hoje, foi a vez de Elizabeth Warren anunciar a sua desistência da corrida presidencial. A senadora pelo Massachusetts foi, desde a sua eleição para a câmara alta do Congresso norte-americano em 2012, umas das grandes figuras liberais dos Estados Unidos e era grande a expectativa em torno da sua candidatura. Durante o Outono de 2019, Warren alcançou mesmo o estatuto de frontrunner, surgindo recorrentemente no topo das sondagens, mas foi mais um exemplo de um candidato cujo pico de rendimento surgiu demasiado cedo, começando a perder fulgor pouco antes do caucus do Iowa, em detrimento de Sanders e de Pete Buttigieg. 
Ao comunicar a suspensão da sua campanha, Elizabeth Warren não declarou o apoio a qualquer dos candidatos restantes, mas é ainda possível que o faça, mais logo, quando realizar uma conferência de imprensa que já anunciou. Sanders será sempre o favorito a almejar o endorsement de Warren, mas não é certo que isso aconteça, já que a Senadora do Massachusetts, apesar de se encontrar no espectro mais liberal do Partido Democrata, tem bastantes mais ligações ao establishment democrata do que Sanders, um independente anti-sistema. É, por isso, possível que Warren opte por não apoiar nenhum dos candidatos, sendo menos crível que apoie oficialmente Biden.
A partir de agora, com o campo de candidatos "limpo", veremos verdadeiramente o que valem as candidaturas de Joe Biden e Bernie Sanders. Os resultados das próximas primárias, com destaque para as do Michigan, no dia 10, e da Florida, no dia 17, deverão ser verdadeiramente decisivas para o que resta da disputa pela nomeação. Com base nas últimas sondagens, Joe parece levar alguma vantagem, mas teremos de ver os efeitos das desistências dos últimos dias para termos uma melhor perspectiva sobre o estado da corrida, após assentar todo o pó deixado pela verdadeira tempestade de areia que representou a Super Tuesday.

quarta-feira, 4 de março de 2020

The comeback oldie

Em 1992, Bill Clinton, na altura com 45 anos, ficou conhecido como o "The Comeback Kid", após o seu surpreendente segundo lugar na primária do New Hampshire, quando a sua candidatura à Casa Branca parecia estar já condenada ao fracasso. Ontem, 28 anos depois, Joe Biden, com 78 anos, mostrou estar à altura do epíteto de "Comeback Oldie", ao amealhar uma série de vitórias na famosa e importante Super Tuesday.
Após as desastrosas prestações de Biden nos primeiros estados e a consequente fuga de contribuições financeiras, chegou mesmo a falar-se na sua possível desistência. Contudo, tudo mudou no passado Sábado, quando o ex-Vice-Presidente de Barack Obama triunfou na primária da Carolina do Sul por uma diferença (de 30 pontos percentuais) que nenhuma sondagem previu. Com essa vitória, Biden alcançou, por direito próprio, o estatuto de representante da ala moderada do Partido Democrata e, a partir daí, o establishment democrata começou a cerrar fileiras à sua volta. As desistências de Amy Klobuchar e Pete Buttigieg a seu favor foram os sinais mais visíveis da mudança no momentum da corrida, quando Bernie Sanders parecia bem lançado para a nomeação, após os bons resultados no Iowa, New Hampshire e no Nevada.
Na Super Tuesday deste ano, estavam em jogo 1617 delegados e, à hora a que escrevo estas linhas, falta apenas conhecer o vencedor no Maine (onde Biden leva uma minúscula vantagem), sabendo-se que Joe venceu os estados do Alabama, Arkansas, Massachussetts, Minnesota, Carolina do Norte, Oklahoma, Tennessee e o Texas, tendo, neste momento, cerca de 400 delegados na sua coluna. Por sua vez, Bernie Sanders foi o mais votado na Califórnia, no Colorado, no Utah e no seu home state Vermont, amealhando cerca de 320 delegados.
Michael Bloomberg e Elizabeth Warren tiveram uma noite para esquecer e é provável que desistam nos próximos dias (a campanha do antigo Mayor de Nova Iorque já anunciou estar a avaliar a situação) pois dificilmente terão relevância na disputa. Bloomberg, que sempre disse querer evitar a nomeação de Sanders, deverá anunciar o seu apoio a Biden, enquanto Warren, que pretendia manter-se na corrida até à convenção de Julho, poderá apresentar o seu endorsement ao senador independente pelo Vermont.
Agora, as primárias democratas são definitivamente uma corrida a dois entre Biden e Sanders. De um lado, o establishment democrata, que saiu em força, nos últimos dias, em auxílio de Joe Biden. No seu lado da barricada, o antigo VP conta com os eleitores mais moderados, mais velhos e com os afro-americanos. Do outro lado, com Bernie, vemos os eleitores mais liberais, os mais jovens e os hispânicos. Sem o peso do partido por detrás, mas com uma grande pujança financeira, a campanha de Sanders ainda está na luta. Contudo, depois da noite de ontem, parece claro que Biden é o frontrunner. Além de contar com o momentum  da corrida, as próximas primárias parecem favorecer o antigo senador do Delaware, com destaque para a contenda no grande e importante estado da Florida, com um perfil de eleitorado muito averso a Sanders.
No próximo dia 10, será possível tomar novamente o pulso ao eleitorado democrata, quando decorrer uma espécie de mini Super Tuesday. Será importante seguir as sondagens que forem publicadas e os endorsements que deverão começar a "sair" com mais regularidade. Todavia, o apoio mais esperado, o de Obama, tão cedo não será conhecido e pode mesmo não acontecer até haver um nomeado, sendo certo que, entre o seu Veep e Sanders, o 44º Presidente preferirá sempre o seu antigo braço direito.
Entretanto, na Casa Branca, Donald Trump, entre ataques no Twitter e declarações sobre o corona vírus, vai esperando para ver quem será o seu adversário em Novembro.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Hillary vira a página

Hillary Clinton alcançou ontem a sua primeira grande vitória nas primárias presidenciais do Partido Democrata. Na Carolina do Sul, 73,5% dos eleitores votaram na antiga Primeira-Dama, deixando Bernie Sanders a quase 50 pontos percentuais de diferença, naquilo que foi uma vitória a que nos norte-americanos gostam de chamar de landslide.
E foi, de facto, um triunfo esmagador para Clinton, que já havia vencido no Iowa e no Nevada, mas sempre por margens pouco consonantes com o favoritismo que a candidatura da ex-Secretária de Estado sempre reuniu. Mas ontem, num Estado com uma grande presença de eleitores afro-americanos, Hillary conseguiu uma verdadeira demonstração de força, provando que o eleitorado negro, que a havia abandonado há oito anos por causa do carácter histórico da candidatura de Barack Obama, continua a confiar na marca Clinton. 
Por outro lado, Bernie Sanders, não conseguiu fazer chegar a sua mensagem aos eleitores afro-americanos, tendencialmente menos propensos a serem seduzidos por discursos idealistas como o do Senador do Vermont do que, por exemplo, os jovens universitários do Iowa. Para eles, Sanders é um perfeito desconhecido, enquanto que Hillary Clinton tem já uma história junto dos negros norte-americanos, desde os tempos em que defendeu o Movimento dos Direitos Civis e, principalmente, devido aos anos da presidência do seu marido. Bill Clinton chegou mesmo a ser apelidado de "o primeiro presidente negro da história" e a popularidade dos Clinton tem-se mantido, desde essa altura, em alta junto dos afro-americanos.
Com esta vitória esmagadora na Carolina do Sul, Hillary Clinton pode virar a página no que tinha sido o livro das primárias até agora, em que tinha ficado aquém das expectativas. Na Super Tuesday, dos 11 Estados que vão a votos, 7 são do Sul, com grande presença de eleitores afro-americanos. Assim sendo, e tendo a Carolina do Sul como amostra, tudo aponta para uma grande noite de Hillary que poderá tornar-se, já nessa noite de 1 de Março, como a presumível nomeada democrata, começando a apontar baterias para a eleição geral do Outono.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Donald vs Hillary?

Realiza-se hoje, na Carolina do Sul, as primárias do Partido Democrata nesse Estado, ficando concluída a ronda pelos early states, Iowa, New Hampshire, Nevada e South Carolina, que costumam ser determinantes na nomeação dos candidatos presidenciais dos dois grandes partidos norte-americanos. Em 2016, manteve-se essa tradição e deveremos chegar à Super Tuesday, do próximo dia 1 de Março, com dois grandes favoritos: Hillary Clinton, pelo Partido Democrata, e Donald Trump, pelo GOP.
Depois da grande vitória de Bernie Sanders no New Hampshire, a campanha do Senador pelo Vermont perdeu algum gás e Hillary garantiu uma vitória (ainda que por curta margem) no Nevada e prepara-se para obter um triunfo folgado na primária de hoje na Carolina do Sul. Assim, tudo indica que a ex-Secretária de Estado vai chegar à Super Tuesday com três vitórias contra apenas uma de Bernie Sanders. 
A 1 de Março, com muitos Estados sulistas, uma zona onde os Clinton sempre foram fortes, a irem a votos, Hillary poderá garantir uma vantagem em delegados suficiente para se tornar, logo aí, a presumível nomeada democrata. Será também importante perceber como vota, na Super Tuesday, o Massachussetts, Estado vizinho do Vermont e bastante liberal. Se Hillary conseguir derrotar Sanders no seu próprio terreno, então a corrida estará mesmo terminada. 
E se a disputa no lado democrata parece começar a desequilibrar-se a favor daquela que era apontada desde o início como a grande favorita, já na ala republicana estamos perto de assistir a uma enorme surpresa. Donald Trump, o magnata do imobiliário nova-iorquino, garantiu vitórias na Carolina do Sul e no Nevada, o que, juntamente com o triunfo no New Hampshire, constitui um hat trick que o torna o frontrunner na disputa pela nomeação presidencial republicana.
Confesso que nunca levei muito a sério a candidatura de Trump, e só a partir do New Hampshire comecei a perceber que The Donald pode mesmo ir até ao fim e ser o adversário de Hillary Clinton em Novembro. Agora, porém, parece claro que a nomeação de Trump é perfeitamente possível e, se calhar, até provável. Aproveitando-se do enorme descontentamento dos eleitores republicanos com o establishment do seu partido e de um enorme leque de candidatos que dispersou o voto dos eleitores tradicionais, Donald Trump explorou todos os seus trunfos e qualidades, fazendo uma campanha baseada na sua notoriedade, usando e abusando de frases bombásticas e até disparatadas, garantindo tempo de antena e concentrando em si todas as atenções, retirando espaço aos políticos de carreira e levado a narrativa da campanha para longe dos temas políticos, que não domina.
No último debate, Trump foi alvo de todos os ataques, com Ted Cruz e Marco Rubio, os adversários que restam (Ben Carson continua na corrida, mas é um non factor), a unirem esforços contra o líder da corrida. Terá sido a primeira vez que Donald Trump se sentiu verdadeiramente acossado nos debates televisivos. Sofreu alguns duros golpes (em especial de Rubio), mas, ainda assim, não foi ao tapete. 
Ontem, no dia seguinte ao debate, Trump conseguiu imediatamente recuperar dos eventuais danos que havia sofrido no debate, com o anúncio do apoio de Chris Christie à sua candidatura. O actual Governador de New Jersey e ex-candidato presidencial (desistiu após o New Hampshire) tornou-se no primeiro grande nome do establishment republicano a apoiar o bilionário de New York. No mesmo dia, também Paul LePage, Governador do Maine, declarou o seu endorsement a Trump, o que demonstra que algumas figuras do GOP começam a perceber que Donald Trump será o vencedor das primárias e querem ser os primeiros a escolher o "cavalo" vencedor, com todo o significado que isso poderá ter, mais tarde, quando o nomeado tiver de escolher o seu vice-presidente ou, caso seja eleito, o seu cabinet.
Numa corrida tradicional, com as vitórias já amealhadas por Trump e com a vantagem que tem nas sondagens, Donald seria já o presumível nomeado republicano. Contudo, já vimos que esta é tudo menos uma corrida tradicional. Marco Rubio recuperou depois do péssimo debate no New Hampshire e conseguiu o segundo lugar na Carolina do Sul e no Nevada. O establishment republicano tem-lhe dado o seu apoio e Mitt Romney, porventura a maior figura actual do GOP, já anunciou o seu endorsement ao Senador da Florida. Ainda assim, Rubio não conseguiu subir o suficiente nas sondagens para destronar Donald Trump e, ainda por cima, os Estados que vão a votos na Super Tuesday não lhe são muito favoráveis. Por isso, precisará de minimizar os danos a 1 de Março e vencer as primárias da Florida e do Ohio, a 15 de Março se quiser manter vivas as suas hipóteses.
Ted Cruz ainda se mantém na corrida, mas, na Carolina do Sul, nem sequer conseguiu ser a primeira escolha do eleitorado evangélico, o seu grande alvo. E se, nesse Estado do Sul, com eleitores profundamente conservadores, o Senador do Texas não foi além do terceiro lugar, não vejo que rumo possa Cruz tomar em direcção à nomeação. Talvez a sua melhor opção seja manter-se o mais tempo possível na corrida, de forma a ganhar notoriedade e a estabelecer uma marca junto dos eleitores conservadores, com vista a uma segunda candidatura presidencial.
Mas não vale a pena adiantarmo-nos muito nas previsões, porque, como já vimos, tudo pode acontecer e as coisas, em política, mudam muito depressa. Veremos como corre, hoje, a primária democrata na Carolina do Sul e, na Terça-feira, a Super Tuesday. Depois disso, já podemos tirar melhores conclusões sobre quem irá disputar a Casa Branca na eleição geral do Outono. Contudo, se tivesse, neste momento, de apostar o meu dinheiro, teria de dizer que teremos um embate entre Hillary Clinton e Donald Trump. Quem diria...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A vitória dos outsiders

O New Hampshire é conhecido por premiar candidatos improváveis, ou, como lhe chamam os norte-americanos, os mavericks. Em 1992, Bill Clinton tornou-se o comeback kid ao conseguir um bom resultado no Estado; em 2000 foi John McCain que derrotou o super poderoso George W. Bush e em 2008 Hillary Clinton deu a volta às sondagens e derrotou Barack Obama. Este ano, os eleitores do granite state voltaram a demonstrar a sua faceta independente e irreverente ao escolherem para vencedores das suas primárias dois candidatos que correm por fora do establishment de cada um dos dois grandes partidos políticos dos Estados Unidos: Bernie Sanders, pelos democratas, e Donald Trump, pelo GOP. Os resultados oficiais ainda não estão totalmente apurados, mas nunca houve dúvidas quanto aos vencedores - foram declarados por todas as estações logo no fecho das urnas no New Hampshire. 
Bernie Sanders derrotou copiosamente Hillary Clinton, com uma vantagem de cerca de 20 pontos percentuais, confirmando as sondagens mais optimistas. Com este resultado, o senador do Vermont ganha momentum para enfrentar as próximas primárias, na Carolina do Sul e no Nevada. Para ser competitivo nesses Estados, Sanders tem de apelar ao voto das minorias (os afro-americanos no primeiro Estado e os hispânicos no segundo), coisa que não tem conseguido fazer de forma eficaz. Contudo, a sua enfática vitória no New Hampshire dá-lhe uma nova legitimidade política e eleitoral e isso pode fazer com que os eleitores democratas que contavam votar em Hillary (alguns deles por falta de alternativas viáveis) olhem com mais atenção para a candidatura de Bernie e se sintam atraídos pela sua mensagem anti-establishment, anti-Wall Street e marcadamente liberal - ou socialista.
Por sua vez, Hillary Clinton, sofreu um duro golpe no New Hampshire, um Estado que lhe trazia tão boas recordações. Terá mantido os seus eleitores de 2008, quando conseguiu 39% dos votos, mas parece ter sido incapaz de atrair novos votantes, perdendo de forma esmagadora o voto dos jovens e dos independentes, com este último grupo a deslocar-se às urnas em grande número e, na maioria dos casos, para votar em Sanders. Agora, Hillary terá de contrariar a narrativa negativa que se criará à volta da sua campanha e reafirmar a sua posição de destacada frontrunner. Para o fazer, nada melhor do que uma dupla vitória na Carolina do Sul e no Nevada, mas, para isso, terá de encarar mais seriamente a ameaça de Bernie Sanders pela sua Esquerda. Ontem, no seu discurso de concessão de derrota, a ex-Secretária de Estado esforçou-se por fazer passar uma mensagem liberal, tentando "chegar" ao eleitorado de Sanders. Veremos se isso será suficiente.
Do outro lado, no Partido Republicano, Donald Trump alcançou um sólido triunfo, com mais de um terço dos votos e compensou a sua derrota no Iowa. Decorridas as duas primeiras eleições, Trump ficou sempre nos dois primeiros lugares e reforçou o seu estatuto de frontrunner.
Mas as boas notícias para The Donald não se ficam pela sua vitória. Isto porque os resultados dos restantes candidatos foram praticamente perfeitos para as hipóteses da candidatura presidencial do bilionário nova-iorquino. Com os votos muito dispersos pelos candidatos do establishment, todos eles muito próximos uns dos outros, tudo indica que seguirão (quase) todos na corrida, o que continuará a dispersar os votos dos republicanos mais tradicionais e mais moderados. É um facto que o apoio de Trump atingiu o seu tecto máximo, mas se um terço dos votos for suficiente para ir ganhando eleições, então Donald Trump não precisará de mais votos para ser o nomeado republicano (algo que continuo a considerar improvável, ainda que cada vez mais possível).
New Hampshire também correu bem para John Kasich que terá alcançado o segundo posto, depois de um sprint final que lhe terá valido muitos apoios. Ainda assim, Kasich apostou tudo neste Estado e não conseguiu mais do que 16% dos votos. Com um discurso demasiado moderado para Estados como os que irão a votos nas próximas semanas e sem estruturas nesses locais, não vejo como o Governador do Ohio ainda possa ser uma força nestas primárias e deverá ter o mesmo percurso de Jon Huntsman, em 2012. 
Como havia antecipado, Ted Cruz conseguiu um resultado relativamente positivo, tendo em conta as suas expectativas no New Hampshire e pode mesmo, depois de estarem contados todos os votos, ocupar o último lugar do pódio. Depois do Iowa, o governador do Texas tornou-se o último verdadeiro representante do movimento conservador e isso é-lhe benéfico a nível eleitoral, garantindo-lhe uma base de apoio estável e que o levará a disputar a eleição até ao final, ou muito perto disso. 
Na interessante disputa pessoal entre Jeb Bush e Marco Rubio, temos, neste momento, um resultado muito próximo, com ligeira vantagem para o irmão de W. Um dos principais destaques da noite de ontem tem de ser, obrigatoriamente, a implosão de Marco Rubio que, depois do Iowa, parecia estar bem lançado para se tornar o principal opositor de Trump e Cruz e, porventura, o favorito a conseguir a nomeação presidencial republicana. O debate do passado Sábado, porém, tudo mudou e Rubio poderá não ter passado de um péssimo quinto posto no New Hampshire. Veremos, nos próximos tempos, se o senador da Florida é capaz de se reagrupar e voltar em força. O seu mau resultado teve, ainda assim, o condão de dar uma nova oportunidade a Jeb Bush, que, não alcançando um resultado que possa ser encarado como positivo, lhe permite continuar na corrida pelo menos até à Carolina do Sul.
Mas o New Hampshire deverá ter marcado o ponto final nas campanhas de Chris Christie, Carly Fiorina e Ben Carson. Christie, que chegou a ser um dos favoritos, nunca descolou nas sondagens e tinha muita bagagem para umas primárias republicanas (o bridgegate ou o abraço a Obama). A prestação no último debate em que arrasou Rubio deu-lhe ânimo, mas não foi suficiente. Ontem à noite, anunciou que vai reanalisar a sua campanha, o que significará, certamente, o final da candidatura à Casa Branca. Fiorina e Carson, abaixo dos 5%, sem apoios, dinheiro ou motivos para continuarem, deverão seguir o mesmo caminho.
Realizada mais uma primária, a corrida continuará e parece estar para durar, com a certeza que nada é certo e tudo pode acontecer. Afinal, se há uns meses alguém dissesse que Bernie Sanders e Donald Trump seriam os vendedores da primária do New Hampshire, seria rapidamente apelidado de louco.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Olá, New Hampshire

As eleições primárias estão de volta, hoje, com a realização da primária do New Hampshire, a primeira neste formato, já que, na semana passada, no Iowa, realizou-se uma eleição em formato de caucus. Agora, num Estado mais homogéneo politicamente - os eleitorados democratas e republicanos não são tão polarizados - teremos uma primária que poderá ser importante na definição da corrida.
Do lado democrata, tudo indica que teremos uma vitória de Bernie Sanders, com todas a sondagens a darem uma vantagem folgada ao senador do vizinho Estado de Vermont. Hillary Clinton já praticamente desistiu de disputar a primária que lhe deu uma surpreendente vitória sobre Barack Obama, há oito anos, e que a lançou para uma longa e renhida disputa com o actual presidente norte-americano. 
Segundo as últimas notícias, Hillary não está contente com o modo como a sua campanha está a decorrer e já se fala em mexidas no seu staff, em especial no sector da comunicação digital, que está a ser claramente ultrapassada pela mensagem de Sanders. Ora, esse sucesso da campanha de Sanders nos meios digitais tem muito a ver com a penetração de Bernie no eleitorado jovem, que apoia maciçamente o único senador declaradamente socialista nos Estados Unidos. Se esse sucesso nos jovens é causa ou efeito das campanhas digitais, é mais difícil de saber. Contudo, David Axelrod, o guru da estratégia de comunicação de Obama terá alguma razão no que diz sobre a campanha de Clinton.
Será que, como em 2008, as sondagens voltarão a estar erradas ou Hillary sofrerá mesmo uma dura derrota no The Granite State? A crer na atitude de Clinton e nas sondagens - a média do Pollster dá uma vantagem de cerca de 14% a Bernie Sanders - será mesmo o senador do Vermont a declarar vitória. Ainda assim, Hillary Clinton conta com uma larga vantagem a nível nacional e nos próximos Estados a ir votos, fruto da sua enorme superioridade estrutural e organizacional. Continuará, por isso, a ser a grande favorita a obter a nomeação presidencial pelo Partido Democrata.
Na facção republicana, as coisas não são tão simples e, em vez de termos uma corrida bipolarizada, temos uma disputa que conta ainda com oito concorrentes. Depois da vitória de Ted Cruz no Iowa, o cenário muda de figura no Iowa, onde o eleitorado republicano é bem mais moderado e com menos incidência de votantes evangélicos. Assim, o senador do Texas não repetirá a vitória do caucus do Iowa e deveremos assistir ao primeiro triunfo do grande animador deste ciclo eleitoral: Donald Trump.
The Donald tem liderado com larga vantagem em todas as sondagens no New Hampshire e, apesar de os seus números a nível nacional terem perdido algum fulgor depois do Iowa, no Granite State mantiveram-se praticamente inalterados. É possível, porém, que a sua vitória não seja tão expressiva como indicam os números das sondagens, porque, como se viu no Iowa, o seu apoio eleitoral é extremamente volátil. Em contrapartida, os eleitores que ainda não decidiram o seu sentido de voto, têm poucas probabilidades de optar pelo mogul do imobiliário. Se Trump obtiver uma vitória curta, poderemos assistir ao início do fim da sua campanha.
Com o primeiro lugar praticamente assegurado, interessa perceber quem ficará com o segundo posto. Esse lugar deverá ser disputado por Marco Rubio e John Kasich, com Ted Cruz e Jeb Bush a espreitarem uma surpresa. Até há poucos dias atrás, esperava-se que Rubio solidificasse o seu bom resultado no Iowa, mas a sua desastrosa participação no último debate antes desta primária travou o seu momentum e estagnou os seus ganhos face a Trump. Em sentido contrário, Chris Christe pode aproveitar a sua forte prestação no debate para catapultar a sua campanha que parecia em queda livre rumo à desistência após o New Hampshire e pode ser uma das surpresas da noite.
John Kasich tem feito um forcing final no New Hampshire, fruto da moderação do seu discurso e das centenas de membros do seu staff que importou do Ohio, onde é Governador. Também Jeb Bush recuperou alguma coisa nos últimos dias e um resultado acima dos 10% pode manter viva a sua campanha, que conta ainda com forte apoio financeiro por parte dos Super PACs por detrás da sua candidatura. 
Com o voto moderado e do establishment dividido entre Rubio, Christie, Kasich e Bush, Ted Cruz corre sozinho pelo voto ultraconservador, o que lhe valerá sempre um resultado nos quatro primeiros e o manterá bem lançado na corrida. Ben Carson não repetirá o quarto lugar do Iowa e ficará nos low single digits, à imagem de Carly Fiorina que continuará a ser um non factor nestas eleições.
Resumindo, a corrida democrata pouco se definirá depois do New Hampshire, com Bernie Sanders a fazer pela vida de primária em primária, enquanto que Hillary Clinton continuará a sua maratona rumo à nomeação, salvo uma enorme surpresa. No GOP, poderemos assistir a mais duas ou três desistências, mas com o travão na ascensão de Marco Rubio, outros candidatos como Jeb Bush, John Kasich ou Chris Christe poderão ter votos suficientes para se manterem mais um pouco na corrida. Estamos, todavia, no campo das especulações e as decisões que realmente importam serão tomadas mais logo pelos eleitores do New Hampshire. E nós cá estaremos para assistir.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O Iowa falou

Está dado o primeiro passo rumo à escolha do 45º Presidente dos Estados Unidos. Ontem (esta madrugada em Portugal), os eleitores do Iowa compareceram em números recordes (170 mil pessoas apenas no lado republicano) ao caucus e deram a primeira vitória deste ciclo eleitoral a Ted Cruz. Na corrida democrata, temos, até ver, um empate, ainda que, numa altura em que ainda não se conhecem os resultados definitivos, tenha uma minúscula vantagem sobre Bernie Sanders. Sem mais demoras, aqui ficam os resultados:

Partido Democrata
Hillary Clinton - 49,9%
Bernie Sanders - 49,5%
Martin O'Malley - 0,6%

Partido Republicano
Ted Cruz - 27,7%
Donald Trump - 24,3%
Marco Rubio - 23,1%
Ben Carson - 9,3%
Rand Paul - 4,5%
Jeb Bush - 2,8%
Carly Fiorina - 1,9%
John Kasich - 1,9%
Mike Huckabee - 1,8%
Chris Christie - 1,8%
Rick Santorum 1,0%
Jim Gilmore - 0%

No lado democrata, como se esperava, tivemos uma corrida muitíssimo equilibrada e que ainda não está totalmente decidida, mas em que Hillary parece levar vantagem. Estranhamente, Clinton declarou vitória (ou quase), sem que esse desfecho fosse conhecido na altura ( e ainda não o é). Ou os números internos da sua campanha lhe davam uma vantagem que não se veio a verificar, ou se trata de um táctica pouco ortodoxa por parte da ex-Secretária de Estado, já que uma eventual reviravolta nos resultados tornaria o cenário ainda pior para Hillary, que cairia no ridículo de perder uma eleição em que tinha declarado vitória. 
Seja quem for o vencedor final, isso apenas contará em termos de spinning por parte das campanhas, porque o resultado será sempre, na prática, um empate, ainda que HIllary deva conseguir mais delegados do que o Senador do Vermont. Com este resultado, a presumível nomeada democrata sustém o primeiro golpe de Bernie Sanders e ganha algum oxigénio para suportar a derrota esperada no New Hampshire, a acreditar nas sondagens que dão a Sanders uma larga vantagem no Granite State, cuja primária se realiza de hoje a oito dias. Quanto a Martin O'Malley, teve uma votação inexpressiva e já suspendeu a sua campanha.
Na disputa republicana, o destaque tem de ir para a vitória de Ted Cruz que aguentou a forcing final de Donald Trump, que o havia ultrapassado o senador do Texas nas sondagens, e conseguiu uma importante vitória num Estado em que apostou todas as suas fichas. Até há cerca de um mês, Cruz era o grande favorito a vencer no Iowa, mas uma forte investida de Trump e a subida de Marco Rubio prejudicaram os seus números. Com este triunfo, Cruz ganha momentum para melhor encarar o New Hampshire.
Donald Trump, que até obteve um bom resultado, não deixa de sair como derrotado, até porque no dia de ontem afirmou, no seu tom característico, que iria obter uma grande vitória. Por não ter sabido jogar o jogo das expectativas, Trump sai mal na fotografia e perdeu algum ímpeto e a aura de winner que sempre apontou a si próprio. 
No último lugar do pódio ficou Marco Rubio, que superou as expectativas e confirmou a tendência de subida que lhe apontavam recentemente. Com um excelente terceiro posto, muito perto de Trump, o senador da Florida assume-se como um sério candidato à nomeação presidencial e ofusca todos os outros candidatos mais tradicionais.
Em quarto lugar, Ben Carson até conseguiu um melhor resultado do que esperava, mas, com a sua campanha em clara perda, não deverá ser um verdadeiro contender nesta corrida. Ainda assim, ficou bem à frente de candidatos mais conhecidos e de quem se espera muito mais. Rand Paul teve um fraco resultado, ficando à frente de Jeb Bush (que teve uns ridículos 2,8% dos votos), de John Kasich e de Chris Christe, que passaram ao lado do Iowa e esperam fazer melhor no New Hampshire.
Os restantes candidatos confirmaram que não farão história nestas eleições e estarão de saída da corrida. Mike Huckabee e Rick Santorum, os últimos vencedores do caucus do Iowa não conseguiram melhor que 1,8% dos votos e o ex-Governador do Arkansas já suspendeu mesmo a sua campanha. Carly Fiorina e Jim Gilmore são, também, irrelevantes.
Todos os candidatos - aqueles que se mantiverem na corrida - terão agora uma semana para apresentar o seu caso perante os eleitores do New Hampshire. A primária decorrerá na próxima Terça-feira e fará uma nova selecção, clarificando, ou assim se espera, a corrida. Quanto ao Iowa, (e porque este será um Estado importante na eleição geral), vemo-nos no Outono!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

So it begins

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Começa hoje, com a realização dos caucuses do Iowa, o processo eleitoral que durará cerca de um ano, com a escolha do sucessor de Barack Obama como Presidente dos Estados Unidos, na eleição geral de 8 de Novembro, e a sua eventual tomada de posse, a 20 de Janeiro do próximo ano.
Na fase que hoje tem início, os eleitores escolherão o candidato de cada um dos dois grandes partidos, num procedimento que poderá durar até ao Verão, quando tiverem lugar as convenções partidárias. E se a disputa democrata deverá ficar resolvida bem antes disso, já do lado republicano é muito possível que a história seja diferente e que tenhamos uma longa campanha até que se determine o nomeado do GOP. 
Seja como for, tudo indica que esta será uma das mais interessantes épocas de primárias de que há memória, com o fenómeno Trump, o maior e mais interessante leque de candidatos republicanos de sempre, a sensação Sanders e a possibilidade de termos em Hillar Clinton a primeira mulher nomeada por um grande partido. São, por isso, umas eleições que muito prometem e que seguiremos com muita atenção e interesse. A começar já hoje, no Iowa.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Scott Walker sai da corrida

E a mais de três meses do início das primárias temos a primeira desistência de peso na corrida. Scott Walker, Governador do Wisconsin e visto, até há pouco tempo, como um dos principais favoritos a conseguir a nomeação presidencial pelo Partido Republicano, anunciou ontem a sua saída da corrida pela Casa Branca.
Walker, um herói dos conservadores pela sua luta frente aos sindicados no Wisconsin, parecia destinado a ser o principal obstáculo de Jeb Bush e Marco Rubio na campanha, em particular por poder posicionar-se como o candidato anti-establishment. Contudo, o destaque conseguido por candidatos que nunca foram políticos - Donald Trump, Ben Carson e Carly Fiorina - ofuscou a candidatura de Scott Walker que também não foi capaz de aproveitar os debates para recuperar notoriedade.
Com os números no Iowa, o Estado fulcral para as suas hipóteses nas primárias, em derrapagem e sem dinheiro a entrar em valores suficientes para manter a sua campanha competitiva, Scott Walker tomou a mesma decisão de Rick Perry há algumas semanas e anunciou a desistência. Fala-se agora que o Governador do Wisconsin ainda pode regressar à corrida caso se chegue à Convenção Nacional Republicana sem um vencedor claramente definido, assumindo-se como uma figura de estabilidade e consenso. 
O mais provável, porém, é que Walker procure manter o seu lugar de Governador, procurando a reeleição em 2018. No imediato, e no que à disputa pela nomeação presidencial republicana diz respeito, Marco Rubio pode beneficiar desta desistência, absorvendo os poucos votos que Scott Walker estava a reunir, e, mais importante do que isso, os seus apoios financeiros e institucionais.

domingo, 15 de junho de 2014

A incrível derrota de Eric Cantor

Na passada Terça-feira à noite, os Estados Unidos foram testemunhas de uma das mais surpreendentes derrotas políticas de que há memória. Eric Cantor, o líder da maioria republicana na Câmara dos Representantes (o segundo cargo mais importante, apenas ultrapassado pelo Speaker), não poderá ser reeleito como o congressista do 7º distrito do Estado da Virginia, após ter sido batido nas eleições primárias do Partido Republicano por David Brat, um (até agora) desconhecido professor universitário.
Apoiado por grupos do Tea Party a nível local e estadual, David Brat desafiou Cantor pela sua Direita, acusando-o de não ser suficientemente conservador, de se preocupar mais com a elevação do seu estatuto público do que com os seus constituintes e de ser soft on immigration. Contudo, nem mesmo as organizações do Tea Party a nível nacional investiram seriamente nestas primárias, dado que a vitória de Eric Cantor era vista como certa, o que demonstra bem o efeito choque que a derrota de um dos mais influentes e poderosos republicanos provocou no mundo político norte-americano.
Uma das principais repercussões do afastamento de Eric Cantor poderá sentir-se na tão aguardada e, ao mesmo tempo, tão adiada reforma da imigração. O congressista da Virginia era visto como uma das figuras de proa do Partido Republicano para o avanço legislativo desta reforma e, sem a sua presença na Câmara dos Representantes, a vontade dos republicanos para chegarem a um acordo com os democratas nesta matéria pode ser seriamente afectada. Além disso, o facto de a posição tendencialmente favorável de Cantor em relação à reforma da imigração ter sido, ao que tudo indica, uma das principais razões para a sua derrota nas primárias, pode levar muitos congressistas republicanos a pensarem duas vezes quando ponderarem o seu eventual apoio à reforma.
Após a derrota da semana passada, esfumou-se também o sonho de Eric Cantor em ascender à tão ambicionada posição de Speaker of the House. Sendo o número dois na hierarquia da Câmara dos Representantes e assumindo-se como uma das principais figuras do Partido Republicano, o congressista da Virginia era o principal favorito a suceder a John Boehner como Speaker. Agora, com Cantor fora de cena, assistiremos a uma enorme luta de poder entre os congressistas do GOP: primeiro, para a sucessão de Eric Cantor e, mais tarde, para a substituição de Boehner.
O resultado no 7º distrito da Virginia pode também voltar a trazer à baila a narrativa da influência negativa das facções mais conservadoras nas eleições primárias do Partido Republicano. Este ano, essa tendência não se tem sentido tanto como em 2010 e 2012, mas também é verdade que estamos ainda muito cedo no calendário eleitoral. Caso se verifique que, mais uma vez, os candidatos do Tea Party estão a derrotar, nas primárias, candidatos mais moderados e, logo, mais elegíveis, isso pode prejudicar as hipóteses do GOP nas eleições intercalares do Outono. Ora, numas eleições em que se prevê que o controlo do Senado possa depender de apenas um assento, basta uma escolha menos acertada para alterar totalmente o desfecho da noite eleitoral do dia 4 de Novembro.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

1144

Quase cinco meses depois dos caucuses do Iowa, que marcaram o início da época de primárias, Mitt Romney conseguiu finalmente alcançar o número mágico de 1144 delegados, conseguindo, assim, selar oficiosamente a nomeação presidencial pelo Partido Republicano. A marca foi obtida depois de, ontem, ter vencido, com 69% dos votos, a primária do Texas, o que lhe permitiu ultrapassar a fasquia dos tais 1144 delegados que valem a nomeação. Agora, com as primárias definitivamente para trás das costas, resta a Romney concentrar-se na eleição geral e em derrotar Barack Obama.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

3 destaques da noite de ontem

Ontem à noite, nos Estados Unidos, realizaram-se eleições das mais variadas formas e feitios. Desde primárias para a Presidência, para o Senado ou para cargos de nível estadual, até referendos sobre o casamento pessoas do mesmo sexo, houve votações para todos os gostos. Entre elas, porém, importa realçar os três maiores pontos de interesse:

1) Nas primárias para a eleição presidencial, não houve surpresas do lado republicano. Mitt Romney, que corre agora sem oposição (com excepção do caso especial que é Ron Paul), venceu com cerca de dois terços dos votos no Indiana, na Carolina do Norte e na West Virginia. Contudo, neste último Estado, registou-se uma meia surpresa na primária democrata, com Barack Obama a vencer, mas cedendo 41% dos votos para concorrente que se encontra actualmente a servir pena de prisão (!) no Novo México por ameaças feitas à universidade desse Estado.
Este incrível resultado demonstra uma vez mais que a West Virginia é terreno agreste para Obama, onde foi copiosamente derrotado em 2008, tanto nas primárias contra Hillary Clinton, como na eleição geral frente a John McCain. As características demográficas deste Estado, com uma grande percentagem de eleitores rurais, pouco instruidos e blue collar workers, não favorecem Obama, cuja administração também tão tem sido muito amigável para com a indústria do carvão, uma das principais actividades da West Virginia. Assim, em 2012, o ticket Obama não escapará a uma pesada derrota no Mountain State.

2) No Indiana, houve também lugar a eleições primárias para o Senado. E, aqui, registou-se um resultado importante, com a derrota do histórico senador republicano, Richard Lugar, frente ao challenger Richard Mourdock, Secretário do Tesouro do Indiana, e que contou com o apoio dos líderes partidários locais e também dos movimentos Tea Party (incluindo Sarah Palin). Dick Lugar, que conta já com 80 anos de idade, estava no Senado desde 1977, e é um dos mais respeitados senadores do GOP. Apesar de não ser propriamente um dos membros mais moderados da câmara alta do Congresso, Lugar mostrou várias vezes ser capaz de se entender com os democratas e de chegar a acordos bipartidários. Contudo, foi incapaz de responder a uma tenaz e bem montada campanha do seu opositor e tornou-se, ontem, no primeiro senador em exercício a perder a nomeação pelo seu partido.

3) Nos boletins de voto da Carolina do Norte constava uma proposta de emenda à Constituição do estado, em jeito de referendo, que pretendia definir o casamento como uma união entre um homem e uma mulher, ou, por outras palavras, banir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como se esperava, num Estado ainda tendencialmente conservador, a emenda foi aprovada e a Carolina do Norte tornou-se no 29º Estado norte-americano a conter na sua Constituição uma provisão que proíbe o casamento homossexual.
Ora, o tema tem dado que falar nos Estados Unidos, em especial a posição algo dúbia de Barack Obama em relação a este assunto. Apesar de nos Estados Unidos o número de apoiantes do casamento entre pessoas do mesmo sexo estar em clara ascensão, existe ainda uma grande oposição a esse conceito em vários dos Estados decisivos nas eleições presidenciais (como, por exemplo, a própria Carolina do Norte). Por isso, Barack Obama move-se em terreno movediço em relação a este tema: por um lado, não pode alienar a sua base (a comunidade gay é uma grande apoiante dos democratas), mas por outro, tem de evitar desagradar aos eleitores dos swing states e aos independentes.

Edit: Obama, numa entrevista à ABC News, acabou de se declarar a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Romney cumpre calendário

A escolha de Mitt Romney como o nomeado presidencial do GOP em 2012 ficou sentenciada no momento em que Rick Santorum abandonou a corrida, deixando apenas um Newt Gingrich a meio gás e um inofensivo Ron Paul a disputarem as primárias com o antigo Governador do Massachusetts. 
Assim, esperava-se que as primárias de ontem, com cinco Estados a irem a votos (Nova Iorque Delaware, Connecticut, Pensilvânia e Rhode Island servissem apenas para cumprir calendário. Apenas no pequeno Estado do Delaware, onde Gingrich apostou em força nos últimos dias e conseguiu alguns apoios importantes a nível estadual, se admitia que a vitória do presumível nomeado republicano estivesse em causa. Contudo, ontem à noite, Romney conseguiu claras e inequívocas vitórias, ultrapassando a marca dos 50% em todos os Estados em jogo, incluindo o já citado Delaware e na Pensilvânia, onde se previa, até à desistência de Santorum, que se desenrolasse a "batalha" final pela nomeação republicana. 
Depois destes triunfos, Romney ainda não é formalmente o nomeado republicano, mas ficou já muito perto de atingir o número de delegados necessários para poder reclamar esse título na Convenção Nacional Republicana, em Tampa, Florida. Mas, seja como for, a verdade é que Romney é já tratado pelo seu partido e pela imprensa como o presumível nomeado e é provável que o passo final - a desistência dos adversários que ainda restam - não demore muito a chegar. Aliás, Gingrich, no seu discurso de ontem, já afirmou que vai agora pensar na melhor maneira de ajudar o seu partido. Ou seja, a sua saída da corrida deverá estar para breve.
Com a nomeação garantida, Mitt Romney há já algum tempo que está concentrado no seu próximo adversário: Barack Obama. Ontem, no seu discurso, que foi mais de aceitação da nomeação do que de vitória na noite eleitoral, deixou bem vincado que, a partir de agora, não dará tréguas ao ainda Presidente dos Estados Unidos. E a corrida está apenas a aquecer...

terça-feira, 10 de abril de 2012

Santorum sai de cena

Depois de alguns dias de ponderação, e em que esteve ausente da campanha devido a doença da sua filha mais nova, Rick Santorum decidiu hoje abandonar a corrida pela nomeação presidencial do Partido Republicano. Assim sendo, a época de primárias chega, na prática, ao fim, já que Mitt Romney perde o seu principal adversário e torna-se, definitivamente, o presumível nomeado republicano. 
Santorum conseguiu nestas primárias um feito verdadeiramente notável. No início da campanha, era apenas uma nota de rodapé, raramente merecendo destaque dos media e surgindo nas sondagens quase sempre nos últimos lugares. Contudo, nas vésperas dos caucuses do Iowa, Santorum encetou uma fantástica recuperação que lhe permitiu mesmo vencer nesse Estado. E, à medida que a época de primárias foi decorrendo, Rick Santorum estabeleceu-se como a maior ameaça para Mitt Romney, o grande favorito. 
Apesar de, no final, ter sido derrotado por um concorrente que contou com uma esmagadora superioridade financeira, estrutural e organizacional., Santorum conseguiu, com esta sua campanha, tornar-se um dos líderes do Partido Republicano e terá, no futuro (talvez até nas eleições de 2016), um papel de relevo na política norte-americana. 
Findas as primárias, marcadas por um ambiente hostil e negativo entre os candidatos republicanos, segue-se o inevitável cerrar de fileiras em torno do candidato presidencial. Mitt Romney, que será, salvo algo de verdadeiramente extraordinário, o adversário de Barack Obama, na eleição geral de Novembro.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Game (almost) over

Como se esperava, Mitt Romney venceu ontem as primárias que se disputaram. Em Washington D.C. e em Maryland os seus triunfos foram avassaladores (na capital venceu com 70% dos votos e em Maryland deixou Santorum a mais de 20 pontos percentuais) e no Wisconsin, apesar de a margem de vitória ter sido mais curta do que se previa, Romney conseguiu bater a concorrência, conseguindo, assim, o hat-trick que precisava para poder afirmar-se como o presumível nomeado do Partido Republicano.
No seu discurso de vitória de ontem à noite, Romney enviou um firme recado aos seus adversários: o jogo acabou, eu serei o nomeado. E, realmente, é já um dado praticamente adquirido que será o ex-Governador do Massachusetts a enfrentar Barack Obama na eleição geral do Outono. Mesmo que Santorum, Gingrich e Paul teimem em não abandonar a corrida, pelo menos para já. Rick Santorum anunciou ontem a intenção de apostar tudo na primária do seu Estado Natal, a Pensilvânia, numa derradeira tentativa de contrariar o momentum de Romney. Todavia, com as sondagens no Keystone State a mostrarem que Santorum está em perda, é bem possível que nem o estatuto de favorite son (que nem é assim tão favorito quanto isso, visto que Santorum perdeu a sua reeleição para o Senado por quase 20%) seja suficiente para evitar a vitória de Romney.
Agora, sem primárias durante três semanas, veremos as atenções virarem-se para o início das escaramuças entre as campanhas de Obama e Romney. À medida que o interesse e a excitação da época das primárias se vão desvanecendo, vislumbra-se o início da campanha pela eleição geral, numa altura em que os protagonistas estão já praticamente encontrados: Barack Obama selou ontem formalmente a sua nomeação pelo Partido Democrata e Mitt Romney está cada vez mais perto de fazer o mesmo do lado republicano.