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sábado, 12 de outubro de 2024

The Issues




















Num panorama político cada vez mais polarizado e onde existem menos indecisos e menos swing voters, os grandes temas das campanhas vão perdendo destaque e importância na corrida eleitoral, mas, ainda assim, existem alguns assuntos que dominam as atenções e são decisivos aquando da escolha do sentido de voto dos eleitores. Importa, por isso, passar em revista os principais temas que têm dominado a campanha pela Casa Branca e que determinarão o vencedor da eleição.

Economia - Como sempre, "it's the economy, stupid" e a economia continua a ser o factor mais importante que os eleitores analisam quando decidem o seu voto. Actualmente, a economia norte-americana está numa situação relativamente positiva, com o desemprego em baixa, a bolsa em alta e o poder de compra a subir ligeiramente. Segundo as tendências, a economia ainda melhorará, ainda que pouco significativamente, até 5 de Novembro.

Posto isto, seria de esperar que Kamala Harris, vice-presidente na actual administração, colheria os louros da boa prestação económica dos Estados Unidos. Contudo, no tema da economia, é Donald Trump que tem levado vantagem junto dos eleitores, principalmente pelo trauma que a alta inflação de 2022 e 2023 deixou na população norte-americana durante o mandato de Biden e porque a maioria dos eleitores tem memória positiva do mandato de Trump no que à economia diz respeito.  

Democracia - A insurreição de 6 de Janeiro de 2021 e a negação da derrota na última eleição por parte de Trump, colocou dúvidas sobre a saúde da democracia dos Estados Unidos da América. Muitos democratas temem que, caso perca, Donald Trump volte a não assumir a derrota e apele à revolta dos seus apoiantes, o que pode originar numa nova onda de violência. Temem ainda que, caso vença, Trump utilize o seu poder presidencial para atacar até acusar judicialmente os seus adversários políticos. 

Por seu lado, grande parte do eleitorado republicano, baseado em informação falsa e totalmente infundada, preocupa-se com uma eventual fraude eleitoral, como votos de imigrantes ilegais, que impeçam a vitória do seu candidato, como alegam, falsamente, ter acontecido há quatro anos. 

Segurança e Imigração - Apesar de serem dois temas claramente distintos, escolhi juntar a segurança e imigração num só tópico dada a clara estratégia da campanha republicana em ligar a imigração a uma alegada sensação de insegurança no país. Para a história dos debates presidenciais americanos ficou já a estapafúrdia frase de Trump "They're eating cats and dogs", alegando que imigrantes do Haiti estariam a raptar e comer animais domésticos numa pequena cidade do Ohio. Apesar dos exageros e da retórica incendiária de Trump, a verdade é que os americanos estão mesmo preocupados com o aumento dos números da imigração e com a situação na fronteira com o México, que continua a ser atravessada por milhares de imigrantes ilegais à procura de uma vida melhor.

Apesar de os Estados Unidos serem, desde a sua fundação, a Terra da Oportunidade e de a Estátua da Liberdade ter uma inscrição que começa com "Give me your tired, your poor", a desconfiança em relação aos que chegam do exterior tem vindo a crescer. E já não são apenas os brancos a defender uma maior restrição à imigração: os afro-americanos e mesmo os hispânicos de segunda ou terceira geração temem uma grande vaga migratória que ameace os seus empregos e mesmo a sua segurança. Por isso, este é um tema onde a mensagem republicana, de fecho de fronteiras e deportação de imigrantes ilegais leva vantagem sobre a posição mais permissiva dos democratas.

Educação e Saúde - Menos presenet do que noutros ciclos eleitorais, os assuntos internos da nação americana, como a educação, a saúde ou a segurança social, têm sido, desta vez, menos falados. Isto acontece, principalmente, porque é menor a diferença entre as posições dos dois grandes partidos. Trump é um populista e não um conservador fiscal e defensor de um small government, como os candidatos republicanos tradicionais, e até já deixou de tentar desmantelar o Obamacare, o sistema de saúde reformado por Barack Obama que, ao longo dos anos, se tornou bastante popular. Como é tradicional, os norte-americanos continuam a confiar mais nos democratas para estes temas, mais relacionados com o welfare state e com os serviços providenciados pelo estado, por isso talvez não seja uma boa notícia para eles que estes assuntos estejam menos presentes na campanha. 

Aborto - Se no tópico anterior falei num assunto caro aos democratas, mas agora menos premente na opinião pública, o aborto pode muito bem ter sido o tema que veio compensar essa perda. A revogação da "Roe v Wade" pelo Supremo Tribunal voltou a trazer o aborto para a linha da frente das campanhas eleitorais norte-americanas. Este tema tem sido bastante "cavalgado" pelos candidatos democratas e essa estratégia teve resultados muito positivos nas eleições intercalares de 2022. Sem uma resposta coerente e eficaz para um assunto onde a posição republicana é altamente impopular, o GOP tem procurado não falar no tema, o que não tem resultado perante a insistência democrata em apostar no aborto como tópico constante no trilho de campanha. Donald Trump tem feito grandes flip flops sobre este tema, o que ainda tem ajudado mais a campanha de Kamala Harris, que aposta forte neste tópico para incentivar o eleitorado feminino (em especial, as jovens) a votar na candidata democrata. 

Política Externa - Deixei para o fim o tema que nos diz mais a nós, não norte-americanos: a política externa dos Estados Unidos. Este ano, a guerra na Ucrânia e o conflito israelo-palestiniano têm dominado as notícias e trazem algumas da mais profundas diferenças entre Kamala Harris e Donald Trump. Se Kamala quer manter e até aumentar o apoio norte-americano à Ucrânia, já Donald Trump, cuja boas relações com Putin são conhecidas, já disse querer cortar o apoio à nação invadida pela Rússia e ajudar a encontrar uma solução imediata para o fim da guerra na Europa Oriental. No que diz respeito à situação no Médio Oriente, o candidato republicano é totalmente pró-israelita enquanto que a democrata tenta um maior equilíbrio entre o apoio a Israel e a procura de uma solução de dois estados para o conflito, apelando à contenção de Israel nas suas acções militares, reflectindo esta posição uma maior divisão do eleitorado democrata à relativamente questão israelo-palestiniana. 

Assim, se Putin e Netanyahu preferirão, obviamente, uma vitória de Donald Trump, já a esmagadora maioria do mundo ocidental torcerá pela vitória de Kamala Harris, até porque o anterior presidente continua a ameaçar com um isolacionismo cada vez mais pronunciado e que poderá minar a coligação política e militar do Ocidente. Porém, para os norte-americanos, em 2024, a política externa continuará a ser muito pouco relevante na hora de escolherem em quem votar, já que serão os assuntos internos, referidos em cima, a revestirem-se de maior importância para a grande decisão de 5 de Novembro.

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

The Donald













Em 2016, no início da campanha das primárias presidenciais republicanas, disse, num programa da TSF, que fazia todo o sentido que a candidatura de Donald Trump fosse seguida, como fazia o Huffington Post, nas secções de entretenimento dos media e não nas de política. Não podia ter dito um maior disparate, pois, hoje, oito anos depois, Trump já venceu três nomeações presidenciais pelo GOP e ocupou, durante um mandato, a Sala Oval. Como em 2016 e em 2020, The Donald é novamente o candidato do partido conservador à Casa Branca.

Trump nasceu em 1946, no seio de uma família abastada. O seu pai era um empresário de sucesso no sector do imobiliário e Donald frequentou sempre escolas privadas de Nova Iorque, incluindo a escola militar local. Tirou um degree em Economia, primeiro em Warthon e, depois, na Universidade da Pennsylvania. 

Terminados os estudos, Donald Trump empregou-se na empresa do pai, a Trump Management, e começou uma vida dedicada ao imobiliário. Primeiro, sob a alçada do pai e, mais tarde, de forma independente, o magnata tornou-se um nome incontornável na cena imobiliária de Nova Iorque e dos Estados Unidos. O seu sucesso é alvo de muita polémica e o seu império sofreu muitos altos e baixos, mas é indesmentível que, durante décadas, o nome Trump foi sinónimo de prosperidade e riqueza. 

O seu império, mas também as suas várias polémicas, tanto a nível profissional como pessoal, fizeram dele uma das grandes figuras da vida cor-de-rosa de Nova Iorque. Trump tornou-se um ícone da cultura popular norte-americana e, depois de ganhar fama no imobiliário, apostou forte no show business (quem não se lembra do seu cameo no Home Alone 2?). No início dos anos 2000, lançou o seu próprio reality show, o The Apprentice, que rapidamente se tornou um grande sucesso e duraria até ao seu protagonista chegar à Casa Branca. 

Depois dos negócios e do entretenimento, Trump procurou uma nova arena para brilhar e, naturalmente, virou-se para a política. Registado como republicano, apesar de ter contribuído para vários candidatos democratas - como os Clinton -, nunca se definiu propriamente como conservador. Como em tudo na sua vida, Donald procurava criar controvérsias, trazendo-se a si próprio para as luzes da ribalta. Foi assim, por exemplo, que, em 1988, se auto-proclamou como candidato a vice-presidente de George Bush ou que se tornou uma das principais vozes que acusavam Barack Obama de não ter nascido nos Estados Unidos e, por isso, não ser elegível para a presidência da nação norte-americana. 

Em 2000, chegou a ser candidato às primárias presidenciais do Partido Reformista, apenas para desistir pouco tempo depois. Mas o momento decisivo chegaria em 2011, num célebre jantar dos correspondentes da Casa Branca, em que marcou presença e em que foi alvo das piadas de Barack Obama. Visivelmente incomodado e sentindo-se publicamente humilhado, terá sido nessa ocasião que decidiu concorrer à Casa Branca para se vingar de Obama e dos democratas. Contudo, foi a partir daí que se assumiu definitivamente como republicano e conservador, tendo mesmo participado na CPAC e marcado presença nos primeiros estados a terem primárias. Estava a lançar as sementes que dariam frutos quatro anos mais tarde.

Em 2016, os republicanos tinham de decidir quem seria o seu candidato presidencial num ano em que os democratas deixavam de ter o popular Obama no boletim de voto. Com boas hipóteses de vitória, foram muitos e de nomeada os concorrentes republicanos, como, por exemplo, Jed Bush, Marco Rubio ou Ted Cruz. Todavia, esse ciclo eleitoral foi absolutamente tomado de assalto por Donald Trump, mesmo quando muitos (eu incluído) pensavam que a sua candidatura não era séria, mas apenas uma publicity stunt destinada a aumentar as audiências do seu reality show. 

Ao longo das primárias, foram caindo um a um os vários candidatos "anti-Trump" que se destacavam nas sondagens momentaneamente. No final, a nomeação foi para Donald e essa vitória haveria de transformar radicalmente o Partido Republicano, quiçá para sempre. Trump, com o seu discurso disruptivo e sem filtros, agradou a um grande segmento do eleitorado republicano, tornando-se o herdeiro e grande representante do movimento populista Tea Party. A partir daí, o GOP passou a ser o partido de Trump e os republicanos clássicos tornaram-se uma espécie em vias de extinção. 

Contudo, na eleição geral, Trump era visto como o underdog face à favorita Hillary Clinton. A antiga primeira-dama, senadora e secretária de estado, tinha um currículo impressionante, enorme experiência e contava com o Partido Democrata totalmente do seu lado (apesar de alguns ruidosos apoiantes de Bernie Sanders). Já Donald não tinha qualquer experiência política e era visto com muita desconfiança por parte do establishment republicano. Acossado por escândalos e atrás de Hillary nas sondagens, nem o próprio Trump acreditava na sua eleição. 

Aconteceu, porém, que Hillary Clinton demonstrou ser uma candidata sofrível, tendo cometido muitos erros de palmatória. Além disso, as sondagens subvalorizaram repetidamente as hipóteses de vitória de Donald Trump e os democratas apostaram recursos em estados que não teriam hipóteses de ganhar, descurando locais onde pensavam, erradamente, estar seguros. A poucos dias da eleição, a famosa carta de James Comey terá também sido decisiva e selou a vitória de Trump que se tornou, contra todas as expectativas, o 45º presidente dos Estados Unidos.

O seu mandato presidencial foi marcado, primeiro, pela desregulação, pela quebra de acordos e tratados e internacionais e até pela ameaça da retirada dos Estados Unidos da NATO. A boa prestação da economia norte-americana nos primeiros anos do seu mandato, haveria de ser totalmente revertida pela eclosão da COVID-19. A sua gestão da pandemia foi um verdadeiro desastre e isso poderá ter ditado a sua derrota nas eleições de 2020. Do seu mandato na Casa Branca, ficam ainda para a história os dois processos de impeachment que lhe foram movidos pela maioria democrata na Câmara dos Representantes - primeiro por ter, alegadamente, sugerido trocar favores políticos por armamento numa conversa telefónica com Vladimir Zelenksy e, depois, pelo seu papel na insurreição de 6 de Janeiro de 2021.

Vencido nas urnas por Joe Biden, Trump nunca assumiu a derrota, preferindo esconder-se atrás de teorias completamente infundadas, alegando que venceu a eleição e que esse triunfo lhe foi roubado por uma massiva fraude eleitoral. Assim, Trump evitava a assunção da derrota, algo que seria fatal para alguém que, como ele,  vê o mundo dividido entre vencedores e falhados. A reação violenta dos seus apoiantes haveria de tornar o 6 de Janeiro num dia infame. Na altura, pensou-se que Trump tinha ido longe demais e que estaria acabado para a política. Porém, o seu poder total sobre a sua falange de apoio não esmoreceu e o GOP resignou-se a esquecer o sucedido e a continuar a apoiar o seu líder. Ainda hoje, a maioria dos eleitores republicanos acredita na mentira da eleição roubada, prova de que Trump controla, ainda, o eleitorado e, consequentemente, o partido republicano. 

Agora, em 2024, Donald Trump tenta a reeleição para a Casa Branca. Se contra Joe Biden a vitória parecia certa, já face a Kamala Harris a conversa é outra e o triunfo incerto. Até ao momento, Trump mantém-se igual a ele mesmo, talvez ainda mais irascível e fora de controlo. A tentativa de assassinato a que sobreviveu deu-lhe ainda mais confiança e sente-se, agora, uma figura messiânica destinada a salvar os Estados Unidos. Ou, pelo menos, é isso que gosta de dizer, ao mesmo tempo que vende bíblias, relógios e todo o tipo de parafernália com o seu nome e cara para aumentar a sua riqueza pessoal.

Acossado por vários processos judiciais, tendo já sido declarado culpado num deles, Donald Trump precisa desesperadamente de ser eleito para, pelo menos, adiar a conclusão destes processos e, até, quem sabe, perdoar-se a si próprio através do poder presidencial. Com as sondagens a darem a corrida como empatada, a vitória está em dúvida, mas uma coisa é certa: Trump já entrou para a história como, porventura, a figura mais polarizadora da história dos Estados Unidos. 

domingo, 1 de novembro de 2020

The Lincoln Project

Hoje em dia, Donald Trump tem controlo total e absoluto sobre o Partido Republicano.  Se nos recordarmos das primárias de 2016, isso pode parecer estranho, pois, na altura, o establishment republicano combateu ferozmente o actual presidente. Nomes como Marco Rubio ou Lindsey Graham, agora 100% alinhados com Trump, eram grandes críticos do mogul de Nova Iorque. Mas, com a vitória nas primárias, Donald Trump conquistou uma enorme popularidade junto das bases republicanas, pelo que, agora, a esmagadora maioria dos políticos eleitos do GOP, usando de um natural instinto de sobrevivência, não ousa desafiar o actual presidente norte-americano.

Existem, porém, raras excepções. John McCain foi o exemplo mais notório, o que lhe valeu um ódio visceral por parte de Trump em resposta. Mais tarde, também o senador Jeff Flake, depois de anunciar que não se candidataria a um novo mandato no Senado, se tornou uma voz dissonante no partido na crítica ao presidente. Mais recentemente, o voto de Mitt Romney a favor da destituição de Trump foi uma rara demonstração de resistência no seio do partido Republicano.

Mas este ciclo eleitoral trouxe um movimento de operativos republicanos que se juntaram para fazer frente a Donald Trump e auxiliarem a candidatura de Joe Biden no objectivo comum da derrota do trumpismo. Constituído por nomes como Steve Schmidt, director da campanha de McCain em 2008, George Conway, advogado e marido da assessora de Trump, Kellyanne Conway, ou Michael Steele, antigo presidente do Partido Republicano, o The Lincoln Project tem feito uma  grande e colorida campanha contra o 45º presidente dos Estados.

Com uma forte operação nas redes sociais, o grupo já conseguiu, por diversas vezes, enervar Donald Trump, ao ponto de este ter atacado com violência, via Twitter, o grupo e os seus mais proeminentes membros. Além disso, o The Lincoln Project tem-se mostrado eficaz em angariar fundos para criar conteúdos e difundir sua própria campanha anti-Trump e pró-Biden. Com um grande conhecimento do eleitorado republicano, o grupo tem criado alguns dos mais eficazes vídeos de campanha, como o que encabeça este post. 

Se Joe Biden vencer, pode muito bem agradecer ao Lincoln Project, pois o grupo de republicanos anti-Trump terá dado uma importante contribuição para o fim de The Donald na Casa Branca. Já o Partido Republicano, se quiser mudar de rumo e cortar com os loucos anos Trump, bem pode olhar para este grupo como motivação e inspiração para se reinventar e voltar a ser "o partido de Lincoln".

sábado, 31 de outubro de 2020

O controlo do Senado está em jogo
















Como o prometido é devido, hoje abordo a disputa pelo Senado, a câmara alta do Congresso dos Estados Unidos, actualmente dominada pelo Partido Republicano, que conta com 53 dos 100 lugares do mais conceituado dos órgãos legislativos norte-americanos. Ao contrário do que acontece na contenda pela Câmara dos Representantes, onde uma vitória democrata é praticamente certa, o controlo do senado está em jogo neste ciclo eleitoral e, a crer nas sondagens, é muito provável que os democratas consigam, a 3 de Novembro voltar a uma posição maioritária na câmara alta.

Este ano, acontecem 35 eleições para o Senado, sendo que 33 são  regulares e 2 eleições especiais no Arizona e na Georgia, para os eleitores escolherem os sucessores eleitos de John McCain, falecido em 2018, e de Johnny Isakson, que se demitiu em 2019, respectivamente (até agora, esses lugares foram ocupados de forma provisória por políticos nomeados pelos governadores dos seus estados). 

Entre assentos que não vão a votos e aqueles que é certo que seguirão nas mãos dos democratas, temos 44 lugares, à partida, no lado azul. Depois, podemos já atribuir o Colorado ao Partido Democrata, já que o candidato democrata, John Hickenlooper, tem surgido com sucessivas e folgadas vantagens nas sondagens sobre o senador do GOP, Cory Gardner. Sendo o Colorado, hoje em dia, um estado com grande inclinação para os liberais, este será o primeiro lugar a mudar de mãos.

Por sua vez, os republicanos contam, inicialmente, com 41 assentos do seu lado, contando os lugares que não se disputam e aqueles onde contam com uma vantagem insuperável. Entre estes, coloco a corrida do Mississippi, apesar de alguns analistas considerarem que poderá ser competitiva. Além disso, parece quase certo que, no Alabama, o senador democrata, Doug Jones, não conseguirá manter o seu lugar e será derrotado pelo republicano Tommy Tuberville. 

Sobram, assim, 13 corridas cujo desfecho está em dúvida, pelo que serão essas que teremos de seguir com mais atenção na noite eleitoral e que decidirão, contados os votos, qual dos partidos controlará o Senado. Com base na minha perceção das várias contendas, colori o mapa eleitoral da forma que podem ver na imagem de cima. Dividindo os estados por categorias, cheguei às seguintes escolhas:

Leaning Republican - Texas, South Carolina e Alaska. 

O Alaska é sempre um estado difícil de prever, por causa da falta de sondagens, sendo que os poucos estudos de opinião mostram uma curta vantagem republicana. O Texas e a South Carolina são ambos estados do Sul, onde os republicanos são claramente favoritos, mas em que o simples facto de serem considerados relativamente competitivos demonstra como o clima político actual nos Estados Unidos é desfavorável ao GOP. Ainda assim, é o senador da SC, Lindsey Graham que parece em pior situação (ponderei mesmo colocar esta corrida como toss-up).

Leaning Democrat - Minnesota, Michigan, Maine

À imagem do que acontece nas corridas presidenciais, o upper midwest  parece terreno favorável para os liberais, pelo que os actuais senadores democratas deverão manter os seus assentos no Minnesota e no Michigan. Já no Maine, a senadora republicana, Susan Collins, muito dificilmente será reeleita e a democrata Sara Gideon está numa posição muito favorável para ficar com o seu lugar.

Toss-up - Montana, Iowa, Arizona, North Carolina, Kansas, Georgia 1 e 2

Estas são as corridas mais equilibradas e onde é mais difícil prever um vencedor. No Arizona, na North Carolina e no Iowa os democratas parecem estar em melhor posição, ao passo que no Kansas e no Montana os candidatos republicanos podem ter uma ligeira vantagem. Já na Georgia, a situação é muito complicada, porque, aqui, há lugar a segunda ronda, caso nenhum dos candidatos consiga uma maioria absoluta. Em ambas as eleições, será difícil que não venha a ser necessária a eleição runnoff (segunda volta), ainda que seja possível que o democrata Jon Ossof consiga ultrapassar os 50% na sua corrida face ao senador republicano David Perdue, que está a ter muitas dificuldades. Talvez o mais importante factor a reter destas sete disputadas eleições é que todas elas têm um ponto em comum - todos os lugares em disputa são, actualmente, ocupados por senadores republicanos. 

Assim se percebe que o Partido Democrata tem um caminho muito mais desimpedido rumo à maioria no Senado do que o GOP. E os democratas poderão mesmo precisar apenas de alcançar 50 assentos, pois cabe ao vice-presidente o voto de desempate em caso de igualdade numa votação do Senado e, nesta altura, é Joe Biden o favorito a vencer a eleição presidencial. Nesse caso, apenas precisariam de vencer dois dos sete estados toss-up, algo que parece bastante provável, pelo que se pode prever que uma vitória democrata, ainda que não seja certa, é bastante provável.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Oportunidade suprema















Após a morte, no mês passado, da juíza Ruth Bader Ginsburg, a liderança republicana anunciou de imediato a sua intenção de confirmar o/a nomeado/a de Donald Trump o quanto antes, em contraponto com o precedente criado, em 2016, quando os senadores do GOP recusaram confirmar o nomeado do Presidente Obama, alegando que, sendo ano de eleições presidenciais, deveria ser dada a palavra aos eleitores, ficando o assento em aberto até um novo Presidente estar na Casa Branca. De seguida, Trump nomeou para o lugar Amy Coney Barrett, uma favorita dos conservadores.

Naturalmente, os democratas reagiram furiosamente, apontando para a contradição republicana e ameaçando com retaliações no caso de a nomeação de Barret vir a ser confirmada pelos senadores do GOP. O fim do filibuster, um tema de que os democratas já vêm a falar há algum tempo, e o court packing, através da expansão do número de lugares no Supremo de nove para onze, foram dois cenários apontados por alguns democratas como possíveis de se virem a concretizar quando regressarem ao poder no caso de Amy Coney Barrett ocupar o lugar deixado vago pela morte de Ginsburg.

Joe Biden, por sua vez, tem recusado dizer se apoia ou não o fim do filibuster e o court packing. E percebe-se porquê. Por um lado, se disser que é contra essas medidas, então será acossado pela ala mais liberal do seu partido e poderá ser prejudicado pela desmobilização do eleitorado mais progressista. Por outro lado, se vier a público mostrar-se favorável, será "pintado" pelo partido adversário como sendo um mero fantoche da ala democrata mais radical e como alguém que colocará em perigo as instituições mais tradicionais e conceituadas do país, como são o Senado e o Supremo Tribunal. 

Veremos, nos próximos dias, se a campanha de Biden consegue resistir à pressão dos media e continuar a evitar uma resposta concreta. Apesar de compreender a evasão do nomeado presidencial democrata, penso que uma estratégia mais sensata do que estar à defensiva seria, simplesmente, dizer: "o court packing não é algo que queira fazer, mas os republicanos obrigar-me-ão a ponderar essa medida caso vão em frente com a confirmação de Amy Coney Barrett e quebrem as normas (não escritas) que eles próprios criaram".

Por sua vez, a táctica republicana, apesar de ética e moralmente questionável, é facilmente justificada pelo enorme prémio que está em jogo. A colocação de uma juíza muito conservadora no lugar de uma antecessora liberal representa uma dramática mudança no equilíbrio do tribunal. A confirmar-se, a presença de Barret no Supremo representaria o terceiro juiz apontado para esta instância por Donald Trump, em apenas quatro anos, o que é verdadeiramente extraordinário, dado que o Supreme Court é constituído por nove membros que são nomeados de forma vitalícia. Por isso, se quando Barack Obama deixou a Casa Branca o tribunal contava com quatro juízes apontados por presidentes democratas e outros quatro apontados por presidentes do GOP, agora, apenas quatro anos depois, podemos passar para uma vantagem de seis a três para o lado republicano.

Sabendo que a influência legislativa do Supremo Tribunal tem vindo a crescer, percebe-se, então, a enorme motivação dos republicanos para ocuparem rapidamente esta vaga, cientes de que, a 3 de Novembro, perderão, provavelmente, a Casa Branca e a maioria no Senado. Além disso, os republicanos foram astutos ao proceder com a confirmação ainda antes da eleição, pois uma confirmação depois da eleição por um Senado lame duck seria vista de forma ainda mais negativa pelo eleitorado e poderia legitimar, aos olhos do público, a retaliação democrata.

Neste momento, decorrem as audiências para a nomeação de Amy Coney Barrett que pouco têm adiantado, já que a juíza se tem esquivado a praticamente todas as perguntas que lhe são colocadas pelos senadores democratas, nomeadamente sobre posições que tomaria em cenários hipotéticos. Salvo uma grande surpresa, Barrett será rapidamente confirmada, já que apenas duas senadoras do GOP se opuseram publicamente a este processo. Por isso, e como os republicanos contam com 53 senadores e apenas precisam de 50 votos favoráveis, tudo indica que os conservadores vão conseguir uma fundamental vantagem ideológica no Supremo Tribunal.

Assim sendo, e numa altura em que os democratas apontam para o perigo de o Supremo vir a decidir em temas como o fim do direito ao aborto, a revogação do Obamacare ou mesmo o desfecho da eleição presidencial, umas poucas dezenas de senadores republicanos, eleitos por uma minoria de eleitores (por exemplo, os dois senadores republicanos do Wyoming representam menos de 600 mil habitantes enquanto as duas senadoras democratas pela Califórnia representam quase 50 milhões de cidadãos), têm nas mãos uma decisão que poderá ter um enorme impacto durante os próximos 40 anos (Barrett tem 48 anos). 

Ao mesmo tempo, mais de 250 milhões de eleitores norte-americanos deslocam-se às urnas (se ainda não o tiverem feito antecipadamente ou por correio) para escolherem o novo Presidente, um terço do Senado, a totalidade dos membros da Câmara dos Representantes e vários governos locais e estaduais, para os próximos dois (no caso dos representantes) ou quatro anos. Será, sem dúvida, um dia decisivo para o futuro próximo do panorama político dos Estados Unidos da América  Mas será essa a decisão mais importante que se toma por estes dias? 

domingo, 9 de outubro de 2016

A derrota de Donald Trump

Estamos a praticamente um mês da noite eleitoral de 8 de Novembro que decidirá quem sucederá a Barack Obama na Casa Branca, mas, por esta altura, é já praticamente certo que Donald Trump não virá a ocupar a Sala Oval a partir de 20 de Janeiro do próximo ano., depois de um mês de Outubro que tem sido absolutamente devastador para a sua candidatura.
O início do fim de Trump terá começado no primeiro debate televisivo face a Hillary, onde finalmente ficou totalmente clara a sua completa falta de preparação para assumir o cargo de Presidente dos Estados Unidos. Face a uma adversária segura, com a lição bem estudada e com a atitude correcta perante um adversário intelectualmente inferior (não repetiu, por exemplo, o erro que Al Gore cometeu em 2000 ao demonstrar o seu menosprezo por George W. Bush), o candidato republicano limitou-se ao populismo e à demagogia, sendo incapaz de desenvolver minimamente uma qualquer ideia política. Além disso, e ao contrário do que sucedeu em muitos dos debates das primárias republicanas, Trump não conseguiu desferir ataques certeiros de forma a destabilizar a sua adversária. Pareceu sempre na defensiva e sem argumentos para a antiga Secretária de Estado, além de ter, novamente, ofendido uma mulher e de se ter gabado de não pagar impostos.
A vitória de Hillary no primeiro debate foi de tal forma clara que, nos dias seguintes, Clinton disparou nas sondagens, deixando Trump, que, até esse ponto, tinha vindo a recuperar terreno, a cerca de 5% de distância. Contudo, a reacção de The Donald à sua derrota no debate serviu como que para atirar mais lenha para a fogueira. Desde de falar em problemas no microfone causados intencionalmente, passando por críticas ao moderador (que fez um excelente trabalho), até novos insultos a mulheres, tudo serviu ao candidato presidencial do GOP para desculpabilizar pelo seu fiasco.
Depois, veio a lume uma investigação do New York Times, que indiciou que Donald Trump poderá não ter pago impostos federais durante 18 anos, por ter apresentado, em 1995, um prejuízo de quase mil milhões de dólares. Esta narrativa parecia vir confirmar o rumor lançado por Hillary Clinton no debate, quando esta afirmou que Trump não divulgava as suas declarações de impostos com medo de duas coisas: ou de mostrar que afinal não é tão rico como gosta de afirmar ou de provar que esteve largos anos sem pagar impostos. 
Contudo, o pior ainda estava para vir e, na Sexta-feira, veio a público uma gravação de Donald Trump, em 2005, a fazer comentários nada abonatórios sobre, pasme-se, mulheres. Nesta conversa, agora tornada pública, o magnata do imobiliário confessava assediar mulheres casadas e dizia que tudo era permitido a uma figura pública como ele. Nas últimas horas, as consequências de mais este caso têm sido dramáticas para a candidatura de Trump. Vários republicanos de nomeada (como John McCain ou Kelly Ayotte) vieram retirar o seu apoio ao nomeado do partido e muitos insiders pedem mesmo a sua desistência, algo que não sucederá - devido à personalidade do próprio candidato (antes quebrar que torcer) e por motivos logísticos (neste momento, já muitos norte-americanos, incluindo o próprio Obama, já votaram antecipadamente).
Agora, a não ser que algo de catastrófico suceda à candidatura de Hillary Clinton, é certo que será a concorrente democrata a vencer a eleição presidencial de 8 de Novembro. Apesar de não ser uma candidata perfeita, longe disso, Hillary tem gerido uma campanha serena, profissional e altamente competente. Com larga vantagem financeira e organizativa, a antiga Primeira-Dama seria sempre favorita no cenário de uma corrida equilibrada. Assim, com uma vantagem considerável nas sondagens e o seu adversário em queda livre nos estudos de opinião e acossado pelo seu próprio partido, é de esperar um landslide que "coroe" Hillary Clinton como a 45ª Presidente dos Estados Unidos. Para Trump, que glorifica os vencedores e abomina os vencidos, a noite da sua derrota deverá ser especialmente agonizante.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Donald vs Hillary?

Realiza-se hoje, na Carolina do Sul, as primárias do Partido Democrata nesse Estado, ficando concluída a ronda pelos early states, Iowa, New Hampshire, Nevada e South Carolina, que costumam ser determinantes na nomeação dos candidatos presidenciais dos dois grandes partidos norte-americanos. Em 2016, manteve-se essa tradição e deveremos chegar à Super Tuesday, do próximo dia 1 de Março, com dois grandes favoritos: Hillary Clinton, pelo Partido Democrata, e Donald Trump, pelo GOP.
Depois da grande vitória de Bernie Sanders no New Hampshire, a campanha do Senador pelo Vermont perdeu algum gás e Hillary garantiu uma vitória (ainda que por curta margem) no Nevada e prepara-se para obter um triunfo folgado na primária de hoje na Carolina do Sul. Assim, tudo indica que a ex-Secretária de Estado vai chegar à Super Tuesday com três vitórias contra apenas uma de Bernie Sanders. 
A 1 de Março, com muitos Estados sulistas, uma zona onde os Clinton sempre foram fortes, a irem a votos, Hillary poderá garantir uma vantagem em delegados suficiente para se tornar, logo aí, a presumível nomeada democrata. Será também importante perceber como vota, na Super Tuesday, o Massachussetts, Estado vizinho do Vermont e bastante liberal. Se Hillary conseguir derrotar Sanders no seu próprio terreno, então a corrida estará mesmo terminada. 
E se a disputa no lado democrata parece começar a desequilibrar-se a favor daquela que era apontada desde o início como a grande favorita, já na ala republicana estamos perto de assistir a uma enorme surpresa. Donald Trump, o magnata do imobiliário nova-iorquino, garantiu vitórias na Carolina do Sul e no Nevada, o que, juntamente com o triunfo no New Hampshire, constitui um hat trick que o torna o frontrunner na disputa pela nomeação presidencial republicana.
Confesso que nunca levei muito a sério a candidatura de Trump, e só a partir do New Hampshire comecei a perceber que The Donald pode mesmo ir até ao fim e ser o adversário de Hillary Clinton em Novembro. Agora, porém, parece claro que a nomeação de Trump é perfeitamente possível e, se calhar, até provável. Aproveitando-se do enorme descontentamento dos eleitores republicanos com o establishment do seu partido e de um enorme leque de candidatos que dispersou o voto dos eleitores tradicionais, Donald Trump explorou todos os seus trunfos e qualidades, fazendo uma campanha baseada na sua notoriedade, usando e abusando de frases bombásticas e até disparatadas, garantindo tempo de antena e concentrando em si todas as atenções, retirando espaço aos políticos de carreira e levado a narrativa da campanha para longe dos temas políticos, que não domina.
No último debate, Trump foi alvo de todos os ataques, com Ted Cruz e Marco Rubio, os adversários que restam (Ben Carson continua na corrida, mas é um non factor), a unirem esforços contra o líder da corrida. Terá sido a primeira vez que Donald Trump se sentiu verdadeiramente acossado nos debates televisivos. Sofreu alguns duros golpes (em especial de Rubio), mas, ainda assim, não foi ao tapete. 
Ontem, no dia seguinte ao debate, Trump conseguiu imediatamente recuperar dos eventuais danos que havia sofrido no debate, com o anúncio do apoio de Chris Christie à sua candidatura. O actual Governador de New Jersey e ex-candidato presidencial (desistiu após o New Hampshire) tornou-se no primeiro grande nome do establishment republicano a apoiar o bilionário de New York. No mesmo dia, também Paul LePage, Governador do Maine, declarou o seu endorsement a Trump, o que demonstra que algumas figuras do GOP começam a perceber que Donald Trump será o vencedor das primárias e querem ser os primeiros a escolher o "cavalo" vencedor, com todo o significado que isso poderá ter, mais tarde, quando o nomeado tiver de escolher o seu vice-presidente ou, caso seja eleito, o seu cabinet.
Numa corrida tradicional, com as vitórias já amealhadas por Trump e com a vantagem que tem nas sondagens, Donald seria já o presumível nomeado republicano. Contudo, já vimos que esta é tudo menos uma corrida tradicional. Marco Rubio recuperou depois do péssimo debate no New Hampshire e conseguiu o segundo lugar na Carolina do Sul e no Nevada. O establishment republicano tem-lhe dado o seu apoio e Mitt Romney, porventura a maior figura actual do GOP, já anunciou o seu endorsement ao Senador da Florida. Ainda assim, Rubio não conseguiu subir o suficiente nas sondagens para destronar Donald Trump e, ainda por cima, os Estados que vão a votos na Super Tuesday não lhe são muito favoráveis. Por isso, precisará de minimizar os danos a 1 de Março e vencer as primárias da Florida e do Ohio, a 15 de Março se quiser manter vivas as suas hipóteses.
Ted Cruz ainda se mantém na corrida, mas, na Carolina do Sul, nem sequer conseguiu ser a primeira escolha do eleitorado evangélico, o seu grande alvo. E se, nesse Estado do Sul, com eleitores profundamente conservadores, o Senador do Texas não foi além do terceiro lugar, não vejo que rumo possa Cruz tomar em direcção à nomeação. Talvez a sua melhor opção seja manter-se o mais tempo possível na corrida, de forma a ganhar notoriedade e a estabelecer uma marca junto dos eleitores conservadores, com vista a uma segunda candidatura presidencial.
Mas não vale a pena adiantarmo-nos muito nas previsões, porque, como já vimos, tudo pode acontecer e as coisas, em política, mudam muito depressa. Veremos como corre, hoje, a primária democrata na Carolina do Sul e, na Terça-feira, a Super Tuesday. Depois disso, já podemos tirar melhores conclusões sobre quem irá disputar a Casa Branca na eleição geral do Outono. Contudo, se tivesse, neste momento, de apostar o meu dinheiro, teria de dizer que teremos um embate entre Hillary Clinton e Donald Trump. Quem diria...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A vitória dos outsiders

O New Hampshire é conhecido por premiar candidatos improváveis, ou, como lhe chamam os norte-americanos, os mavericks. Em 1992, Bill Clinton tornou-se o comeback kid ao conseguir um bom resultado no Estado; em 2000 foi John McCain que derrotou o super poderoso George W. Bush e em 2008 Hillary Clinton deu a volta às sondagens e derrotou Barack Obama. Este ano, os eleitores do granite state voltaram a demonstrar a sua faceta independente e irreverente ao escolherem para vencedores das suas primárias dois candidatos que correm por fora do establishment de cada um dos dois grandes partidos políticos dos Estados Unidos: Bernie Sanders, pelos democratas, e Donald Trump, pelo GOP. Os resultados oficiais ainda não estão totalmente apurados, mas nunca houve dúvidas quanto aos vencedores - foram declarados por todas as estações logo no fecho das urnas no New Hampshire. 
Bernie Sanders derrotou copiosamente Hillary Clinton, com uma vantagem de cerca de 20 pontos percentuais, confirmando as sondagens mais optimistas. Com este resultado, o senador do Vermont ganha momentum para enfrentar as próximas primárias, na Carolina do Sul e no Nevada. Para ser competitivo nesses Estados, Sanders tem de apelar ao voto das minorias (os afro-americanos no primeiro Estado e os hispânicos no segundo), coisa que não tem conseguido fazer de forma eficaz. Contudo, a sua enfática vitória no New Hampshire dá-lhe uma nova legitimidade política e eleitoral e isso pode fazer com que os eleitores democratas que contavam votar em Hillary (alguns deles por falta de alternativas viáveis) olhem com mais atenção para a candidatura de Bernie e se sintam atraídos pela sua mensagem anti-establishment, anti-Wall Street e marcadamente liberal - ou socialista.
Por sua vez, Hillary Clinton, sofreu um duro golpe no New Hampshire, um Estado que lhe trazia tão boas recordações. Terá mantido os seus eleitores de 2008, quando conseguiu 39% dos votos, mas parece ter sido incapaz de atrair novos votantes, perdendo de forma esmagadora o voto dos jovens e dos independentes, com este último grupo a deslocar-se às urnas em grande número e, na maioria dos casos, para votar em Sanders. Agora, Hillary terá de contrariar a narrativa negativa que se criará à volta da sua campanha e reafirmar a sua posição de destacada frontrunner. Para o fazer, nada melhor do que uma dupla vitória na Carolina do Sul e no Nevada, mas, para isso, terá de encarar mais seriamente a ameaça de Bernie Sanders pela sua Esquerda. Ontem, no seu discurso de concessão de derrota, a ex-Secretária de Estado esforçou-se por fazer passar uma mensagem liberal, tentando "chegar" ao eleitorado de Sanders. Veremos se isso será suficiente.
Do outro lado, no Partido Republicano, Donald Trump alcançou um sólido triunfo, com mais de um terço dos votos e compensou a sua derrota no Iowa. Decorridas as duas primeiras eleições, Trump ficou sempre nos dois primeiros lugares e reforçou o seu estatuto de frontrunner.
Mas as boas notícias para The Donald não se ficam pela sua vitória. Isto porque os resultados dos restantes candidatos foram praticamente perfeitos para as hipóteses da candidatura presidencial do bilionário nova-iorquino. Com os votos muito dispersos pelos candidatos do establishment, todos eles muito próximos uns dos outros, tudo indica que seguirão (quase) todos na corrida, o que continuará a dispersar os votos dos republicanos mais tradicionais e mais moderados. É um facto que o apoio de Trump atingiu o seu tecto máximo, mas se um terço dos votos for suficiente para ir ganhando eleições, então Donald Trump não precisará de mais votos para ser o nomeado republicano (algo que continuo a considerar improvável, ainda que cada vez mais possível).
New Hampshire também correu bem para John Kasich que terá alcançado o segundo posto, depois de um sprint final que lhe terá valido muitos apoios. Ainda assim, Kasich apostou tudo neste Estado e não conseguiu mais do que 16% dos votos. Com um discurso demasiado moderado para Estados como os que irão a votos nas próximas semanas e sem estruturas nesses locais, não vejo como o Governador do Ohio ainda possa ser uma força nestas primárias e deverá ter o mesmo percurso de Jon Huntsman, em 2012. 
Como havia antecipado, Ted Cruz conseguiu um resultado relativamente positivo, tendo em conta as suas expectativas no New Hampshire e pode mesmo, depois de estarem contados todos os votos, ocupar o último lugar do pódio. Depois do Iowa, o governador do Texas tornou-se o último verdadeiro representante do movimento conservador e isso é-lhe benéfico a nível eleitoral, garantindo-lhe uma base de apoio estável e que o levará a disputar a eleição até ao final, ou muito perto disso. 
Na interessante disputa pessoal entre Jeb Bush e Marco Rubio, temos, neste momento, um resultado muito próximo, com ligeira vantagem para o irmão de W. Um dos principais destaques da noite de ontem tem de ser, obrigatoriamente, a implosão de Marco Rubio que, depois do Iowa, parecia estar bem lançado para se tornar o principal opositor de Trump e Cruz e, porventura, o favorito a conseguir a nomeação presidencial republicana. O debate do passado Sábado, porém, tudo mudou e Rubio poderá não ter passado de um péssimo quinto posto no New Hampshire. Veremos, nos próximos tempos, se o senador da Florida é capaz de se reagrupar e voltar em força. O seu mau resultado teve, ainda assim, o condão de dar uma nova oportunidade a Jeb Bush, que, não alcançando um resultado que possa ser encarado como positivo, lhe permite continuar na corrida pelo menos até à Carolina do Sul.
Mas o New Hampshire deverá ter marcado o ponto final nas campanhas de Chris Christie, Carly Fiorina e Ben Carson. Christie, que chegou a ser um dos favoritos, nunca descolou nas sondagens e tinha muita bagagem para umas primárias republicanas (o bridgegate ou o abraço a Obama). A prestação no último debate em que arrasou Rubio deu-lhe ânimo, mas não foi suficiente. Ontem à noite, anunciou que vai reanalisar a sua campanha, o que significará, certamente, o final da candidatura à Casa Branca. Fiorina e Carson, abaixo dos 5%, sem apoios, dinheiro ou motivos para continuarem, deverão seguir o mesmo caminho.
Realizada mais uma primária, a corrida continuará e parece estar para durar, com a certeza que nada é certo e tudo pode acontecer. Afinal, se há uns meses alguém dissesse que Bernie Sanders e Donald Trump seriam os vendedores da primária do New Hampshire, seria rapidamente apelidado de louco.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Olá, New Hampshire

As eleições primárias estão de volta, hoje, com a realização da primária do New Hampshire, a primeira neste formato, já que, na semana passada, no Iowa, realizou-se uma eleição em formato de caucus. Agora, num Estado mais homogéneo politicamente - os eleitorados democratas e republicanos não são tão polarizados - teremos uma primária que poderá ser importante na definição da corrida.
Do lado democrata, tudo indica que teremos uma vitória de Bernie Sanders, com todas a sondagens a darem uma vantagem folgada ao senador do vizinho Estado de Vermont. Hillary Clinton já praticamente desistiu de disputar a primária que lhe deu uma surpreendente vitória sobre Barack Obama, há oito anos, e que a lançou para uma longa e renhida disputa com o actual presidente norte-americano. 
Segundo as últimas notícias, Hillary não está contente com o modo como a sua campanha está a decorrer e já se fala em mexidas no seu staff, em especial no sector da comunicação digital, que está a ser claramente ultrapassada pela mensagem de Sanders. Ora, esse sucesso da campanha de Sanders nos meios digitais tem muito a ver com a penetração de Bernie no eleitorado jovem, que apoia maciçamente o único senador declaradamente socialista nos Estados Unidos. Se esse sucesso nos jovens é causa ou efeito das campanhas digitais, é mais difícil de saber. Contudo, David Axelrod, o guru da estratégia de comunicação de Obama terá alguma razão no que diz sobre a campanha de Clinton.
Será que, como em 2008, as sondagens voltarão a estar erradas ou Hillary sofrerá mesmo uma dura derrota no The Granite State? A crer na atitude de Clinton e nas sondagens - a média do Pollster dá uma vantagem de cerca de 14% a Bernie Sanders - será mesmo o senador do Vermont a declarar vitória. Ainda assim, Hillary Clinton conta com uma larga vantagem a nível nacional e nos próximos Estados a ir votos, fruto da sua enorme superioridade estrutural e organizacional. Continuará, por isso, a ser a grande favorita a obter a nomeação presidencial pelo Partido Democrata.
Na facção republicana, as coisas não são tão simples e, em vez de termos uma corrida bipolarizada, temos uma disputa que conta ainda com oito concorrentes. Depois da vitória de Ted Cruz no Iowa, o cenário muda de figura no Iowa, onde o eleitorado republicano é bem mais moderado e com menos incidência de votantes evangélicos. Assim, o senador do Texas não repetirá a vitória do caucus do Iowa e deveremos assistir ao primeiro triunfo do grande animador deste ciclo eleitoral: Donald Trump.
The Donald tem liderado com larga vantagem em todas as sondagens no New Hampshire e, apesar de os seus números a nível nacional terem perdido algum fulgor depois do Iowa, no Granite State mantiveram-se praticamente inalterados. É possível, porém, que a sua vitória não seja tão expressiva como indicam os números das sondagens, porque, como se viu no Iowa, o seu apoio eleitoral é extremamente volátil. Em contrapartida, os eleitores que ainda não decidiram o seu sentido de voto, têm poucas probabilidades de optar pelo mogul do imobiliário. Se Trump obtiver uma vitória curta, poderemos assistir ao início do fim da sua campanha.
Com o primeiro lugar praticamente assegurado, interessa perceber quem ficará com o segundo posto. Esse lugar deverá ser disputado por Marco Rubio e John Kasich, com Ted Cruz e Jeb Bush a espreitarem uma surpresa. Até há poucos dias atrás, esperava-se que Rubio solidificasse o seu bom resultado no Iowa, mas a sua desastrosa participação no último debate antes desta primária travou o seu momentum e estagnou os seus ganhos face a Trump. Em sentido contrário, Chris Christe pode aproveitar a sua forte prestação no debate para catapultar a sua campanha que parecia em queda livre rumo à desistência após o New Hampshire e pode ser uma das surpresas da noite.
John Kasich tem feito um forcing final no New Hampshire, fruto da moderação do seu discurso e das centenas de membros do seu staff que importou do Ohio, onde é Governador. Também Jeb Bush recuperou alguma coisa nos últimos dias e um resultado acima dos 10% pode manter viva a sua campanha, que conta ainda com forte apoio financeiro por parte dos Super PACs por detrás da sua candidatura. 
Com o voto moderado e do establishment dividido entre Rubio, Christie, Kasich e Bush, Ted Cruz corre sozinho pelo voto ultraconservador, o que lhe valerá sempre um resultado nos quatro primeiros e o manterá bem lançado na corrida. Ben Carson não repetirá o quarto lugar do Iowa e ficará nos low single digits, à imagem de Carly Fiorina que continuará a ser um non factor nestas eleições.
Resumindo, a corrida democrata pouco se definirá depois do New Hampshire, com Bernie Sanders a fazer pela vida de primária em primária, enquanto que Hillary Clinton continuará a sua maratona rumo à nomeação, salvo uma enorme surpresa. No GOP, poderemos assistir a mais duas ou três desistências, mas com o travão na ascensão de Marco Rubio, outros candidatos como Jeb Bush, John Kasich ou Chris Christe poderão ter votos suficientes para se manterem mais um pouco na corrida. Estamos, todavia, no campo das especulações e as decisões que realmente importam serão tomadas mais logo pelos eleitores do New Hampshire. E nós cá estaremos para assistir.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Rubio travado no debate

Realizou-se ontem o último debate televisivo entre os candidatos presidenciais republicanos antes da primária do New Hampshire, que, para muitos deles, é totalmente decisiva e pode significar a última oportunidade de se imporem na corrida. E isso ficou bem patente ao longo da noite, com os concorrentes a mostrarem-se mais empenhados do que nunca a deixarem uma forte impressão aos eleitores. Terá sido, porventura, o melhor dos debates republicanos até ao momento.
Foi um debate com muitos momentos marcantes - o Politico reúne aqui os 11 mais explosivos - mas, sem dúvida que o que está a marcar a actualidade é a implosão de Marco Rubio, que sucumbiu ao ataque certeiro e sem piedade de Chris Christie. Num momento que ficará para a história dos debates presidenciais, o Governador de New Jersey acusou Rubio de ser totalmente inexperiente para ser presidente e referiu que o Senador da Florida pouco dizia de substancial, limitando-se a recorrer a um soundbyte previamente decorado. Marco Rubio não conseguiu rebater o ataque e piorou ainda a situação ao usar a mesma frase que havia levado à acusação por parte de Christie três vezes ao longo do debate. Mais tarde, tentou contra atacar Christie, mas o tiro saiu pela culatra, como se pode ver no vídeo que encabeça o post.
Marco Rubio, normalmente forte nos debates, saiu claramente a perder da noite de ontem e pode vir a prejudicar o momentum que conseguiu após o seu forte 3º lugar no Iowa. Terá tido a sua pior prestação de sempre em debates e pareceu acusar a pressão de estar debaixo de fogo por parte dos candidatos do establishment, que viram em Rubio o seu principal adversário pelo voto dos republicanos mais tradicionais e moderados. Chris Christie destacou-se, mas também Jeb Bush lançou alguns golpes ao seu (ex) amigo e outros ainda a Donald Trump. The Donald esteve relativamente tranquilo no debate, saindo-se bem e mostrando uma faceta menos agressiva do que o habitual (ainda que tenha mandado calar Jeb Bush), talvez fruto da sua derrota no Iowa. Por sua vez, Ted Cruz, um peixe fora de água no New Hampshire, tentou passar entre os pingos da chuva, esperando por Estados com eleitorados mais conservadores e onde a sua mensagem possa ser melhor recebida.
A dois dias da primária do granite state, falta saber qual a influência que este debate terá nos resultados finais. É possível que Donald Trump tenha feito o suficiente para aguentar a sua vantagem (que se mantém segura, mas a diminuir, segundo as últimas sondagens) e que Marco Rubio sofra alguma coisa após a sua péssima prestação - que não foi, ainda assim, um momento ups. No sentido contrário, Chris Christe poderá receber um tão desejado balão de oxigénio, ao mesmo tempo que Jeb Bush, com uma recente tímida subida nas sondagens, também poderá ver algum apoio a correr na sua direcção. John Kasich, esse, continua a não aproveitar as oportunidades para marcar pontos e dar uma nova vida à sua recandidatura. Veremos, na Terça-feira, quem sairá do New Hampshire a sorrir e quem sairá... da corrida.

Para o fim, fica um dos momentos mais curiosos e hilariantes do debate de ontem. Um vídeo a não perder:

sábado, 30 de janeiro de 2016

O Iowa entre Trump e Cruz


A dois dias do caucus do Iowa, o arranque oficial das primárias presidenciais de 2016, a corrida pela nomeação republicana continua marcada pelo fenómeno Donald Trump, que tem ofuscado os restantes candidatos (incluindo democratas) e fazendo deste ciclo eleitoral um dos mais mediáticos de todos os tempos.
Sendo um campeão de notoriedade, Trump até se deu ao luxo de faltar ao último debate televisivo antes do Iowa, evitando um novo frente-a-frente com um dos seus (muitos) ódios de estimação, a pivot da Fox News, Megyn Kelly. Todavia, e apesar de nas sondagens a nível nacional The Donald dominar a toda a linha com grande vantagem, a sua liderança no Estado do Iowa é relativamente curta, com a última sondagem a indicar uma margem de apenas 4% a separar o mogul do imobiliário do Senador Ted Cruz. 
Tudo indica, por isso, que a corrida no Iowa será bastante renhida, até porque o modelo da votação, através de caucus - uma espécie de assembleias onde os apoiantes de todos os candidatos tentam atrair os eleitores e o voto é feito de forma informal, como, por exemplo, de braço no ar - resulta, normalmente, num reduzido universo eleitoral, mais restrito a eleitores muito motivados e tradicionalmente empenhados no mundo político-eleitoral. Ora, esse eleitor-tipo é diametralmente oposto ao perfil do votante em Trump, que costuma atrair eleitores dispersos, pouco motivados politicamente e muito propícios a fazer parte da abstenção, e esse facto pode prejudicar o resultado de Donald Trump no Iowa.
Ainda assim, tudo indica que Trump, mesmo que não vença, consiga um bom resultado e continue, depois dos caucus, a dominar o cenário da batalha pela nomeação. Por outro lado, há candidatos que dependem de uma boa prestação na noite da próxima Segunda-feira se querem manter viva a sua campanha. A começar logo por Ted Cruz, actualmente o principal rival de Trump, mas que precisa de conseguir um bom resultado no Iowa, um Estado que lhe é mais favorável do que o New Hampshire, palco da primeira primária, a 9 de Fevereiro. Se não vencer, Cruz necessita de um score sólido, para não perder momentum e manter-se como a alternativa mais viável a Donald Trump.
Também Marco Rubio, que vem surgindo no terceiro posto, conta com uma prestação positiva no dia 1, de preferência com uma votação acima de 15%. O senador da Florida precisa de um resultado desse género para se manter como um candidato do top tier e possivelmente vir a beneficiar das desistências dos candidatos que consigam fracos resultados no Iowa e no New Hampshire. Com o seu perfil "misto", de candidato que é bem visto pelo establishment, mas que o eleitorado não identifica com o business as usual de Washington, Rubio é um dos concorrentes que mais pode vir a ganhar quando a actual dispersão dos votos por quase uma dezena de candidatos terminar para dar lugar a um campo mais restrito de pretendentes à Casa Branca.
Ben Carson, cuja campanha se encontra em queda livre, espera ainda por um balão de oxigénio que o mantenha mais algum tempo na corrida. Contudo, se ficar pelos low single digits (e as últimas sondagens não lhe dão muito mais do que isso), é bem possível que a sua campanha não resista muito mais, até porque o New Hampshire não lhe é terreno favorável. Seja como for, o Dr. Carson está condenado a ser um also run neste ciclo eleitoral.
Por outro lado, Jeb Bush, Chris Christie e John Kasich deverão ter um mau resultado no Iowa, ainda que isso seja um desfecho normal, já que estes dois candidatos, representantes da ala mais moderada e tradicional do Partido Republicano, estão a guardar-se para o New Hampshire, onde o eleitorado, normalmente menos conservador, lhes dá mais garantias de um resultado digno e que lhes permita afirmarem-se como players nestas primárias. Também Rand Paul, que nunca se conseguiu afirmar durante a pré-campanha, poderá tentar uma pequena surpresa no granite state, já que este Estado costuma premiar candidatos da ala libertária, como ficou demonstrando em 2012, quando o seu pai, Ron Paul, alcançou um notável segundo lugar, apenas atrás de Mitt Romney.
Sobram, assim, os candidatos marginais (se bem que esse adjectivo também possa ser endereçado a, pelo menos, Rand Paul) e que cujas campanhas não deverão passar de asteriscos quando se contar a história das presidenciais de 2016: Carly Fiorina, Mike Huckabee, Rick Santorum e Gil Gilmore não deverão "contar para o totobola" quando se souberem os resultados do Estado do Iowa na noite da próxima Terça-feira.
Para o fim ficam as minhas previsões para a noite eleitoral republicana. Com o momentum do seu lado, Donald Trump deverá bater Ted Cruz, ainda que a margem de vitória possa ser mais curta do que dizem as sondagens, devido ao "efeito caucus" que referi anteriormente. Em terceiro, deve ficar Marco Rubio a uma distância segura do resto do pelotão.
Se estes resultados se confirmarem, deverão ser estes três candidatos e mais um quarto concorrente que saia do grupo dos moderados (aquele que conseguir um melhor resultado no New Hampshire) a disputarem durante as próximas semanas (e talvez meses) a nomeação presidencial republicana. A corrida promete!

Amanhã farei o lançamento da corrida democrata.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Scott Walker sai da corrida

E a mais de três meses do início das primárias temos a primeira desistência de peso na corrida. Scott Walker, Governador do Wisconsin e visto, até há pouco tempo, como um dos principais favoritos a conseguir a nomeação presidencial pelo Partido Republicano, anunciou ontem a sua saída da corrida pela Casa Branca.
Walker, um herói dos conservadores pela sua luta frente aos sindicados no Wisconsin, parecia destinado a ser o principal obstáculo de Jeb Bush e Marco Rubio na campanha, em particular por poder posicionar-se como o candidato anti-establishment. Contudo, o destaque conseguido por candidatos que nunca foram políticos - Donald Trump, Ben Carson e Carly Fiorina - ofuscou a candidatura de Scott Walker que também não foi capaz de aproveitar os debates para recuperar notoriedade.
Com os números no Iowa, o Estado fulcral para as suas hipóteses nas primárias, em derrapagem e sem dinheiro a entrar em valores suficientes para manter a sua campanha competitiva, Scott Walker tomou a mesma decisão de Rick Perry há algumas semanas e anunciou a desistência. Fala-se agora que o Governador do Wisconsin ainda pode regressar à corrida caso se chegue à Convenção Nacional Republicana sem um vencedor claramente definido, assumindo-se como uma figura de estabilidade e consenso. 
O mais provável, porém, é que Walker procure manter o seu lugar de Governador, procurando a reeleição em 2018. No imediato, e no que à disputa pela nomeação presidencial republicana diz respeito, Marco Rubio pode beneficiar desta desistência, absorvendo os poucos votos que Scott Walker estava a reunir, e, mais importante do que isso, os seus apoios financeiros e institucionais.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A escolha acertada


Quando, na semana passada, escrevi sobre o actual frontrunner da corrida pela nomeação presidencial republicana, deixei bem claro que Donald Trump seria uma péssima escolha do GOP para representar o partido na eleição geral, onde seria facilmente derrotado pelo candidato(a) democrata. Pelo contrário, hoje escolhi falar sobre aquele que seria, na minha opinião, a melhor opção do Partido Republicano para voltar a controlar a Casa Branca: Marco Rubio.
Rubio é uma estrela em ascensão no GOP desde que foi eleito para o Senado pelo Estado da Florida, na onda republicana de 2010. Na altura, o jovem político derrotou um consagrado e experiente Charlie Crist, que tinha a vantagem de concorrer enquanto Governador da Florida, frente a um então desconhecido Rubio. Ainda assim, o republicano derrotou copiosamente a concorrência e a sua campanha assertiva, eloquente e isenta de erros catapultou-o para a ribalta nacional. Logo aí, ficou claro que Marco Rubio, que mostrou ter um discurso sólido e ser excelente a debater, estaria destinado a voos mais altos. Foi, assim, sem surpresa que o senador júnior da Florida lançou a sua candidatura à Casa Branca, constituindo-se como um dos principais adversários do seu amigo e mentor, Jeb Bush.
Rubio, de 44 anos, é um cara nova no panorama políticos dos Estados Unidos e a sua entrada em cena recorda a de Barack Obama. É jovem e carrega um simbolismo paralelo ao do 44º Presidente: como filho de cubanos, seria o primeiro presidente hispânico dos Estados Unidos. Com os republicanos cada vez mais distantes do eleitorado latino, a escolha de Rubio como nomeado poderia representar uma nova oportunidade junto deste segmento do eleitorado tão decisivo em eleições presidenciais. Mais: num campo de candidatos republicanos muito homogéneo, Rubio destaca-se.
Sendo jovem e uma cara nova em Washington, Marco Rubio seria um excelente contraponto à provável nomeada democrata, Hillary Clinton, podendo utilizar a cartada da dinastia, algo que, naturalmente, não está à disposição de Jeb Bush, um dos favoritos a conseguir a nomeação republicana.  
Além disso, com o seu estatuto de Senador pela Florida, Rubio partiria na pole-position no sunshine state que é, sem dúvida alguma, um dos Estados mais importantes na disputa pela presidência, sendo mesmo o swing state com mais votos eleitorais à disposição do seu vencedor - 29.
Finalmente, Rubio também seria uma escolha ideologicamente coerente. Não pertencendo a nenhuma franja limitada do Partido Republicano, como o libertário Rand Paul ou o cristão Evangélico Mike Huckabee, o senador da Florida é um conservador que agrada ao Tea Party ao mesmo tempo que consegue atrair alguns eleitores mais moderados. É certo que é mais conservador do que o nomeado republicano tradicional, mas, numa época em que o GOP guinou à direita, isso não é propriamente algo de surpreendente.
Contudo, até ao momento, Rubio não tem confirmado o seu potencial e os seus números nas sondagens não têm sequer conseguido atingir os dois dígitos.Ainda assim, nada está ainda perdido para Marco Rubio que tem ainda tempo para se assumir como um dos favoritos a obter a nomeação. Para o fazer, é imperioso que recorde aos eleitores republicanos (normalmente pragmáticos na escolha do seu nomeado), que, caso seja nomeado, seria uma escolha fortíssima para derrotar os democratas quando chegar o dia 8 de Novembro de 2016.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

The Donald Show

Ainda que não tenha escrito sobre isso (24 horas por dia não chegam, nem nada que se pareça), tenho seguido atentamente a campanha para as eleições primárias para a escolha do candidato presidencial do Partido Republicano e todo o espectáculo gerado pela presença do mais polémico candidato de que há memória: Donald Trump. O magnata do imobiliário - e eterno candidato a candidato presidencial - desta vez avançou mesmo com uma candidatura à Casa Branca. E que candidatura! O efeito do "The Donald" tem sido tal que transformou estas primárias num autêntico circo mediático, bem à imagem do excêntrico bilionário.
Com a sua forma de estar polémica e o seu discurso agressivo e politicamente incorrecto (e não raras vezes a resvalar para o mal educado e insultuoso), Trump tomou conta da campanha e conquistou admiradores entusiásticos e críticos ferozes. Com a sua notoriedade, Trump subiu rapidamente nas sondagens e é, há largas semanas, o líder incontestado da corrida. É, neste momento, o frontrunner e o alvo a abater por parte dos restantes candidatos.
Todavia, não acredito (ainda) que Donald Trump possa vir a ser o candidato presidencial do GOP. Em primeiro lugar porque o Verão que antecede as primárias é conhecido, em especial do lado republicano, por ser uma espécie de silly season. Nesta altura, a vários meses do início das primárias, a maioria dos norte-americanos está ainda pouco atenta ao trilho da campanha, ao passo que os eleitores mais entusiastas, que, no caso do GOP, são, por norma, os mais conservadores, estão já ligados a tudo o que se passa na corrida. Ora, esses eleitores costumam procurar um candidato fora do establishment e que represente a ala-dura do partido. Foi isso que aconteceu há quatro anos, quando Michelle Bachman e Rick Perry dominaram as sondagens nesta fase da campanha, sem que nenhum deles se viesse a tornar um verdadeiro contender na fase "a doer" das eleições. Em 2016, pode ser a vez de Donald Trump. Mas, como Perry e Bachman, o mais provável é que à medida que o grosso dos eleitores comece a prestar verdadeira atenção à disputa pela nomeação (e não apenas a todo o show off actual), Donald Trump seja ultrapassado por concorrentes mais institucionais e melhor posicionados para a eleição geral.
Por outro lado, é um facto que Trump tem dominado por mais tempo do que qualquer outros dos candidatos "anti-Romney" o fez em 2012, o que pode levar a crer que Trump veio para ficar e não é um fenómeno de circunstância, especialmente porque tem reinado entre um grande e forte leque de candidatos. Mas The Donald tem beneficiado, e muito, precisamente do facto de concorrer entre quase duas dezenas de republicanos que procuram a nomeação do partido. Trump, sempre polémico e sem papas na língua, é um homem de extremos e provoca essa mesma reacção: ou se adora, ou se detesta. Assim, com o seu discurso fracturante, conseguiu uma franja de apoiantes (os que o adoram) que lhe tem valido cerca de 30/35% das intenções de, voto de acordo com as sondagens, com os restantes eleitores (os que o detestam) a dividirem-se pelas restantes candidaturas.
Assim sendo, é provável que à medida que o tempo passa e que a corrida se vai definido, os eleitores que não gostam de Trump se vão posicionando atrás de um ou dois candidatos melhor posicionados para obter a nomeação, ao mesmo tempo que os concorrentes secundários e que ficam sem dinheiro e apoios se vão retirando da corrida. O empresário ficará, assim, "agarrado" à sua franja eleitoral, sem grandes hipóteses de ver crescer a sua base de apoio.
Contra Donald Trump funcionará também o aparelho do Partido Republicano, que não quer, de forma alguma, que seja o excêntrico e polémico bilionário a representar o GOP na eleição geral, com a consciência que isso significaria entregar de bandeja a Casa Branca aos democratas por mais quatro anos. O establishment do partido tem conseguido manter o controlo do processo de nomeação, pois não é habitual ver um outsider a concorrer sob a égide dos republicanos - o último caso terá sido Barry Goldwater em 1964 - e quererá que assim continue desta vez.
Por tudo isto, considero muito pouco provável que Trump venha a conseguir a nomeação. Ainda assim, convém continuar a prestar atenção a este ilustre candidato (o que não será difícil). Primeiro, porque, nesta fase das campanhas presidenciais os candidatos procuram essencialmente duas coisas: dinheiro e notoriedade. Ora, Donald Trump não precisa nem de uma coisa nem de outra, pois é um bilionário e pode financiar pessoalmente a sua campanha e é uma figura pública, conhecido nos Estados Unidos e no mundo. Finalmente, porque costuma dizer-se que nesta fase não se ganham eleições, mas podem perder-se. E, para já, Trump ainda não as perdeu.

sábado, 11 de abril de 2015

Começou a corrida à Casa Branca

A menos de um ano do início oficial das primárias presidenciais, já foi dado o tiro de partida para a corrida que culminará com a eleição do Presidente dos Estados Unidos que sucederá a Barack Obama e ocupará a Casa Branca a partir de 20 de Janeiro de 2017. 
Ao que tudo indica, Hillary Clinton anunciará a formalmente a sua candidatura presidencial este fim-de-semana, provavelmente através das redes sociais, não sendo esperado um grande evento mediático para o arranque da sua campanha. Ao contrário de Obama, a presumível nomeada democrata prefere um início mais discreto, por se sentir menos à vontade do que o actual Presidente em eventos de grande escala, mas também para poder fazer uma campanha em crescendo e não perder balanço com o passar do tempo. 
Hillary deverá passar as próximas semanas nos early states (Iowa, New Hampshire e South Carolina), de forma a preparar as primárias do Partido Democrata, ainda que, até ao momento, não se vislumbre oposição de relevo para a sua segunda candidatura presidencial. Os pesos pesados que poderiam ameaçar a sua nomeação deverão deixar o caminho aberto para a antiga Secretária de Estado - nem a Senadora Elizabeth Warren, nem o Veep Joe Biden, nem o Governador de New York, Andrew Cuomo, são esperados na corrida em 2016. Por outro lado, os democratas que consideram concorrer contra Clinton (Martin O'Malley, Governador de Maryland, Jim Webb, Senador da Virginia e Lincoln Chafee, antigo Governador e Senador de Rhode Island) não têm notoriedade nem dinheiro suficientes para beliscar Hillary. Assim sendo, tudo aponta para um passeio da ex-Primeira-Dama rumo à nomeação democrata. Se isso é bom ou mau para os democratas será tema para um texto futuro.
Do lado republicano, o cenário é exactamente o oposto, com um leque de candidatos em quantidade e de qualidade. Até ao momento, o senador do Texas, Ted Cruz, e o senador pelo Kentucky, Rand Paul, já anunciaram a sua candidatura. Muito em breve, também Marco Rubio, Senador pelo Estado da Florida, deverá anunciar formalmente a sua candidatura à Casa Branca, sendo, então, adversário do seu grande amigo Jeb Bush (antigo Governador da Florida e irmão de George W. Bush) que será, certamente, outro dos concorrentes pela nomeação do GOP. Além destes, também Scott Walker, Governador do Wisconsin, Rick Perry, Governador do Texas, Chris Christie, Governador de New Jersey e Bobby Jindal, Governador do Louisiana deverão entrar na corrida. Há ainda outros possíveis candidatos, já repetentes destas andanças, como Mike Huckabee e Rick Santorum, que poderão animar a campanha.
Ou seja, são muitos os nomes que têm de ser referidos quando falamos nas primárias presidenciais republicanas para 2016. Há mesmo quem fale no mais forte leque de candidatos de sempre para uma campanha à Casa Branca. Contudo, de todos estes nomes, os principais favoritos a serem o escolhido pelos republicanos para defrontarem Hillary Clinton numa eleição geral são Jeb Bush, Scott Walker e Marco Rubio, provalvemente por esta ordem. Figuras como Rand Paul e Chris Christie podem ter uma palavra a dizer, mas dificilmente serão os nomeados. 
Neste momento, se tivesse de apostar, e a muito tempo do início das primárias, colocaria o meu dinheiro numa eleição geral disputada entre Hillary Clinton e Jeb Bush ou Scott Walker. Mas, até Janeiro do próximo ano, muito água vai passar debaixo da ponte e o cenário poder sofrer uma grande reviravolta. Durante os próximos tempos, falarei mais detalhadamente sobre cada um dos principais candidatos à Casa Branca. Mas, por agora, let the game begin!

P.S. - Infelizmente, e por vários motivos, tem sido impossível,a minha participação nesta Máquina Política. Espero, nos próximos tempos, alterar essa situação e conseguir voltar a escrever mais regular, especialmente agora, que vai começar aquele que considero ser o maior e mais importante espectáculo do mundo: a eleição presidencial norte-americana.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Obama enfurece o GOP

Após a esmagadora vitória nas eleições intercalares, muitos republicanos pensaram que Barack Obama não teria outro remédio senão admitir a derrota e aproximar-se das posições do GOP. Contudo, quem esperava um compromisso em Washington enganou-se, pois as posições estão, agora, mais extremadas do que nunca. Isto porque o Presidente dos Estados Unidos, em vez de tentar agradar à oposição, preferiu irritá-la, ao fazer saber que se prepara para tomar acções executivas (flanqueando, assim, o Congresso) que permitam legalizar alguns imigrantes ilegais.
Como era previsível, o Partido Republicano insurgiu-se rapidamente contra estes planos da Casa Branca, com algumas vozes mais radicais a falarem mesmo num eventual processo de impeachment (demissão forçada pelo Congresso) de Barack Obama. E se o impeachment é um hipótese muito remota (e o desencadeamento desse processo por parte do GOP seria uma verdadeira dádiva para os democratas), já um novo shutdown do governo federal, através da suspensão dos fundos necessários para o funcionamento do Estado por parte do Congresso republicano, é um cenário mais plausível. E, de facto, já alguns sectores republicanos - mais ligados ao Tea Party - têm falado, nos últimos dias, de um novo shutdown como forma de retaliação pelas possíveis acções do Presidente no campo da imigração. Naturalmente, a liderança republicana, ciente que os shutdowns anteriormente provocados pelo seu partido prejudicaram a imagem do GOP junto da opinião pública, está já a tomar as medidas necessárias para evitar tal possibilidade.
Quanto a Barack Obama, parece-me que esta é uma medida acertada a nível político e eleitoral. É verdade que está novamente a confrontar a oposição e que pode ser criticado por não respeitar os resultados das últimas eleições que foram altamente favoráveis aos republicanos. Mas também é um facto que Obama tem poucas hipóteses, faça o que fizer, de alcançar compromissos razoáveis com um Partido Republicano cada vez mais entrincheirado. Sem o apoio do Congresso, resta ao Presidente dos Estados Unidos optar por acções executivas se quiser deixar a sua marca no campo legislativo interno nestes dois anos finais do seu mandato.
Por outro lado, Barack Obama pretende forçar os republicanos a tomarem novamente uma posição vista como anti-imigração, o que alienará - mais ainda - o eleitorado hispânico que será, previsivelmente, decisivo no próximo ciclo eleitoral. Esta medida de Obama é especialmente prejudicial para os candidatos presidenciais republicanos que, face à assertiva oposição do GOP, serão obrigados a vir a público condenar as acções do presidente norte-americano. E, como se viu com Romney em 2012, essa postura anti-imigração do eventual nomeado republicano poderá custar-lhe muitos votos na eleição geral e, quem sabe, até a Presidência. 
Por isso, com esta medida, Obama estará a ajudar alguns milhões de imigrantes ilegais que poderão ficar nos Estados Unidos, pelo menos, por mais algum tempo, mas estará também a dar uma preciosa contribuição para a campanha do nomeado presidencial democrata. Hillary Clinton (who else?) agradece.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

As midterms de 2014: um balanço

Uma semana após serem conhecidos os resultados das eleições intercalares de 2014, é altura de fazer um balanço do que se passou, tentando perceber as razões que levaram a uma vitória imperial do Partido Republicano e a uma estrondosa derrota dos democratas. E, a meu ver, o desfecho da noite eleitoral explica-se mais pelo demérito do Partido Democrata do que propriamente pelo mérito do GOP.
Em primeiro lugar, importa referir que para estas eleições nunca se poderia esperar um resultado positivo para os democratas. As midterms que coincidem com o sexto ano de mandato de um Presidente são, por norma, muito penalizadoras para o partido que ocupa a Casa Branca. Para piorar as coisas, Barack Obama é um presidente impopular nos Estados Unidos, ainda que mantenha bastiões de defensores nos principais territórios democratas. Contudo, este ciclo eleitoral desenrolou-se principalmente em red e purple states, ou seja, Estados republicanos ou moderados, o que potenciou a carga negativa da imagem do Chefe de Estado para os candidatos democratas.
Se em 2010 e 2012 o Partido Democrata conseguiu algumas vitórias improváveis contando com a preciosa colaboração dos candidatos republicanos, alguns deles verdadeiramente inaptos para concorrerem a cargos de dimensão nacional, desta vez o GOP não prestou essa ajuda aos seus adversários. De facto, o establishment republicano foi capaz de evitar e derrotar candidatos mais radicais e conseguiu controlar o Tea Party. Para isso, foi muito importante o recrutamento de concorrentes de qualidade, mas também o controlo dos principais financiadores do partido (como os irmãos Koch), que, este ano, fecharam a torneira aos fringe candidates em detrimento daqueles que tinham o apoio da estrutura partidária.
Assim, a estratégia republicana centrou-se principalmente em não cometer erros, evitando candidatos improváveis, mas também gaffes comprometedoras como as que fizeram cabeçalhos de jornais nas duas últimas eleições e que prejudicaram seriamente os resultados eleitorais do partido. Por outro lado, assistimos a uma vazio ideológico por parte da maioria dos candidatos republicanos, que consideraram (e, pelos visto, bem) que quanto menos dissessem, melhor. E quando os concorrentes do GOP falavam era, invariavelmente, para colar a imagem dos seus opositores à do impopular Obama. 
Do lado democrata, a campanha eleitoral não podia ter sido mais desastrada. Como cada vez mais acontece, os operativos democratas planearam as suas estratégias com base quase exclusivamente nas sondagens. Desse modo, vimos os candidatos democratas a centrarem o seu discurso nos temas normalmente associados ao seu eleitorado mais predominante, as mulheres, com destaque para o direito ao aborto. Ao mesmo tempo, os democratas, assustados com os números de Obama nos estudos de opinião, fugiram a sete pés do seu Presidente e do seu currículo. 
Todavia, considero que esse foi o principal erro do Partido Democrata. Em vez de renegarem Barack Obama e o seu historial na Casa Branca, os democratas deveriam ter abraçado o legado do seu líder e feito campanha com base nos seus feitos. Podiam ter defendido o estímulo económico que terá evitado o colapso da economia do país; podiam ter apontado para os números do desempenho económico norte-americano, com o PIB a crescer acima dos 3% e o desemprego abaixo dos 6%; podiam ter recordado que o Obamacare é cada vez menos vilipendiado e veio cobrir dezenas de milhões de norte-americanos até então sem seguro de saúde; podiam ainda ter apostado na defesa dos direitos de milhões de imigrantes ilegais.
Mas não. Os democratas preferiram atirar tudo isso para debaixo do tapete com medo que o eleitorado republicano e independente os penalizasse nas urnas. O que conseguiram, porém, foi desmobilizar e desmotivar o seu eleitorado de base, que se mantém, desde 2008, com Barack Obama. E foram esses mesmos eleitores, como os hispânicos (que viram Obama a sacudir a reforma da imigração para uma qualquer data após as eleições), os afro-americanos e, principalmente, os jovens que ficaram em casa no passado dia 4 de Novembro e contribuíram, por isso, para uma esmagadora republicana nas midterms.
Durante os próximos dois anos, os democratas farão uma inevitável travessia no deserto, sendo minoritários nas duas câmaras do Congresso, detendo muito menos governos estaduais do que os republicanos e preparando a sucessão de um Presidente lame duck. Em 2016 terão uma nova oportunidade. Será que aprenderão com os erros, como fizeram, este ano, os republicanos?