Mostrar mensagens com a etiqueta Imigração. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Imigração. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Obama enfurece o GOP

Após a esmagadora vitória nas eleições intercalares, muitos republicanos pensaram que Barack Obama não teria outro remédio senão admitir a derrota e aproximar-se das posições do GOP. Contudo, quem esperava um compromisso em Washington enganou-se, pois as posições estão, agora, mais extremadas do que nunca. Isto porque o Presidente dos Estados Unidos, em vez de tentar agradar à oposição, preferiu irritá-la, ao fazer saber que se prepara para tomar acções executivas (flanqueando, assim, o Congresso) que permitam legalizar alguns imigrantes ilegais.
Como era previsível, o Partido Republicano insurgiu-se rapidamente contra estes planos da Casa Branca, com algumas vozes mais radicais a falarem mesmo num eventual processo de impeachment (demissão forçada pelo Congresso) de Barack Obama. E se o impeachment é um hipótese muito remota (e o desencadeamento desse processo por parte do GOP seria uma verdadeira dádiva para os democratas), já um novo shutdown do governo federal, através da suspensão dos fundos necessários para o funcionamento do Estado por parte do Congresso republicano, é um cenário mais plausível. E, de facto, já alguns sectores republicanos - mais ligados ao Tea Party - têm falado, nos últimos dias, de um novo shutdown como forma de retaliação pelas possíveis acções do Presidente no campo da imigração. Naturalmente, a liderança republicana, ciente que os shutdowns anteriormente provocados pelo seu partido prejudicaram a imagem do GOP junto da opinião pública, está já a tomar as medidas necessárias para evitar tal possibilidade.
Quanto a Barack Obama, parece-me que esta é uma medida acertada a nível político e eleitoral. É verdade que está novamente a confrontar a oposição e que pode ser criticado por não respeitar os resultados das últimas eleições que foram altamente favoráveis aos republicanos. Mas também é um facto que Obama tem poucas hipóteses, faça o que fizer, de alcançar compromissos razoáveis com um Partido Republicano cada vez mais entrincheirado. Sem o apoio do Congresso, resta ao Presidente dos Estados Unidos optar por acções executivas se quiser deixar a sua marca no campo legislativo interno nestes dois anos finais do seu mandato.
Por outro lado, Barack Obama pretende forçar os republicanos a tomarem novamente uma posição vista como anti-imigração, o que alienará - mais ainda - o eleitorado hispânico que será, previsivelmente, decisivo no próximo ciclo eleitoral. Esta medida de Obama é especialmente prejudicial para os candidatos presidenciais republicanos que, face à assertiva oposição do GOP, serão obrigados a vir a público condenar as acções do presidente norte-americano. E, como se viu com Romney em 2012, essa postura anti-imigração do eventual nomeado republicano poderá custar-lhe muitos votos na eleição geral e, quem sabe, até a Presidência. 
Por isso, com esta medida, Obama estará a ajudar alguns milhões de imigrantes ilegais que poderão ficar nos Estados Unidos, pelo menos, por mais algum tempo, mas estará também a dar uma preciosa contribuição para a campanha do nomeado presidencial democrata. Hillary Clinton (who else?) agradece.

domingo, 21 de julho de 2013

Reforma da imigração nas mãos da Câmara dos Representantes

Continua a batalha legislativa pela passagem de uma histórica e ampla reforma das regras da imigração para os Estados Unidos da América. Com o apoio da Casa Branca, dos democratas e de uma parte minoritária mas influente do Partido Republicano, falta apenas a passagem da proposta de lei pela câmara baixa do Congresso norte-americano. Contudo, o último passo pode muito bem não chegar a ser dado e é possível que a reforma da imigração venha mesmo a morrer na praia.
No final do mês passado, as conversações do famoso Gang of Eight (um grupo bipartidário responsável por negociar e acordar o formato final da lei) foram bem sucedidas e, após algumas alterações realizadas para agradar aos republicanos (nomeadamente o fortalecimento da segurança das fronteiras), a proposta de lei foi finalmente apresentada no Senado que a aprovou com um resultado de 68 votos favoráveis contra 32 votos contra. Ao lado dos democratas e dos independentes, votaram 14 senadores do GOP. Apesar de os proponentes da proposta não terem atingido os 70 votos pretendidos, o resultado não deixa de ser positivo e encorajador para os defensores da reforma da imigração. 
Com a aprovação no Senado, ficava a faltar apenas o "sim" da Câmara dos Representantes - a promulgação da lei por parte de Barack Obama é um dado adquirido. Todavia, e ao contrário do que acontece na câmara alta, são os republicanos (na sua maioria, marcadamente conservadores) que estão na maioria e, aparentemente, pouco dispostos a votar favoravelmente a Border Security, Economic Opportunity and Immigration Modernization Act, o pomposo nome oficial da proposta de lei. 
Mesmo assim, ainda há esperança para a reforma da imigração e figuras proeminentes dos dois partidos estão a trabalhar no sentido de a verem passar na Câmara dos Representantes. No seio do Partido Republicano, cujos representantes decidirão o desfecho final, Marco Rubio, John McCain e até mesmo George W. Bush têm desdobrado esforços com o objectivo de conseguirem os votos suficientes para a passagem da proposta. Entre estes, Rubio é aquele que tem mais a perder, já que apostou muito do seu capital e futuro político na aprovação desta reforma. Se falhar, as suas ambições (inclusive presidenciais) ficarão seriamente comprometidas.
Mas também o Partido Republicano joga muito do seu futuro nesta questão. Como se viu nas últimas eleições presidenciais, o voto hispânico continua a fugir para o lado democrata a um ritmo assustador para os líderes do GOP. Se esta reforma da imigração for rejeitada pelos republicanos, então o bloco eleitoral com maior crescimento demográfico nos Estados Unidos poderá ficar definitivamente nas mãos do Partido Democrata. 
São, por isso, consideráveis e importantes as razões políticas que justificam a aprovação da reforma da imigração. Contudo, as razões morais são ainda mais poderosas, especialmente se tivermos em conta os ideais fundadores da nação norte-americana. Afinal, a Terra das Oportunidades e o Sonho Americano têm de estar acessíveis e a todos e a qualquer um.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Nas mãos de Rubio

Ainda que muito lentamente, continuam as negociações entre democratas e republicanos com vista à reforma da imigração no país. Com o apoio da Casa Branca de Barack Obama, é o o chamado Gang of Eight, constituido por oito senadores dos dois partidos, que lidera o processo que deverá levar à apresentação de uma proposta que possa ser aprovada pelo Congresso norte-americano.
Aparentemente, tudo aponta para que a reforma da imigração tenha já os votos suficientes para passar no Senado, mesmo tendo em conta que necessitaria de uma maioria de pelo menos 60 senadores para ultrapassar um eventual bloqueio através de filibuster. Contudo, o Gang of Eight pretende alcançar uma super-maioria, conseguindo o apoio de 70 ou mais dos 100 senadores e uma maioria entre os representantes dos dois partidos. Dessa forma, demonstrando força e consenso, seria bem mais provável que a Câmara dos Representantes, controlada pelos republicanos e cujos membros são bem mais voláteis e polarizados politicamente, aprovasse também esta reforma.
Com os votos democratas garantidos, assim como os de pelo menos quase uma dezena de senadores republicanos mais moderados, falta agora atrair os votos de republicanos relativamente conservadores. Para isso, a chave parece ser Marco Rubio, o senador da Florida e porventura a maior figura do Partido Republicano na actualidade. Filho de pais cubanos que imigraram para os Estados Unidos, Rubio foi um dos proponentes desta reforma que permitirá legalizar milhões de cidadãos ilegais no país e tornou-se o líder do GOP nesta questão. Com o seu apoio inequívoco, muitos dos congressistas republicanos terão maior propensão em aprovar a reforma da imigração. Caso contrário, terão na "desistência" de Rubio um excelente motivo para votarem contra.
Nos últimos tempos, Marco Rubio tem preferido manter um low profile, deixando o destaque para o Gang of Eight que integra. Todavia, é certo que terá sempre um papel determimante para o futuro da reforma da imigração. Ao apostar muito do seu capital político neste tema, Rubio tem também muito a ganhar e a perder. Se a reforma passar tranquilamente e de forma consensual no Congresso, então Rubio terá afirmado a sua liderança e será um concorrente de peso para as eleições presidenciais de 2016. Se, pelo contrário, a reforma falhar, então Rubio terá perdido a batalha que travou o seio do seu próprio partido, ao mesmo tempo que verá o voto hispânico fugir ainda mais dos republicanos, com todas as consequências eleitorais que daí advêm, como tão bem se tem visto nas últimas eleições.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Obama força reforma da imigração

Barack Obama deu início à primeira grande iniciativa deste seu segundo mandato na Casa Branca e, como se esperava, o tema escolhido foi a reforma da imigração norte-americano. Num discurso no Nevada, um dos Estados do país com maior número de hispânicos, o Presidente pressionou o Congresso a agir e deu a conhecer a sua pretensão de assinar brevemente uma lei que permita que cerca de onze milhões de imigrantes ilegais tenham a possibilidade de conseguir a cidadania norte-americana.
Esta era uma acção aguardada, já que a reforma da imigração foi uma das grandes promessas da sua campanha para a reeleição (já o havia sido em 2008, mas, dessa vez, o capital político de Obama foi consumido com a reforma do sistema de saúde) e o eleitorado hispânico constituiu-se como um dos principais pilares da coligação que reelegeu Obama no ano passado. Para fazer avançar esta reforma, a Casa Branca conta com o apoio bipartidário de um grupo de senadores. Entre os republicanos, as maiores esperanças de Obama recaem em John McCain, outrora um defensor da reforma da imigração, e Marco Rubio, ele próprio descendente de imigrantes.
Depois do falhanço do DREAM Act, esta nova tentativa de fazer passar legislação que permita e legalização de imigrantes ilegalmente nos Estados Unidos tem boas hipóteses de ser aprovada pelo Congresso. Com amplo apoio dos democratas, também os republicanos terão grande dificuldade em opor-se a esta proposta, cientes de que o seu partido não pode continuar a alcançar tão fracos resultados junto dos eleitores hispânicos, que são, afinal, o grupo eleitoral em maior crescimento demográfico no país. Assim, e mesmo que os republicanos mais conservadores continuem a ser opositores da suavização da política norte-americana em relação à imigração, é expectável que os membros mais moderados permitam a passagem desta legislação.
Tudo indica, por isso, que os democratas alcançarão com esta reforma uma importante vitória. Barack Obama, em especial, junta o seu nome a mais uma peça legislativa de referência, solidificando o seu legado na Casa Branca. Contudo, nem tudo é perfeito para o Partido Democrata, já que, com a aprovação da reforma da imigração, perdem um dos seus principais argumentos para atraírem os eleitores latinos, que, sendo, por norma, socialmente conservadores e pro-business podem ser mais facilmente cativados pelo GOP. Neste caso, porém, o mérito da legislação deverá sobrepor-se ao interesse político envolvido.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Obama contra-ataca

Como tenho vindo a dar conta neste blogue, Barack Obama tem vivido momentos difíceis nesta primeira fase da campanha para as eleições presidenciais de Novembro. Depois de ter começado a corrida bem lançado, tendo ganho vantagem sobre Mitt Romney fruto do desgaste que o republicano sofreu durante as primárias, o Presidente tem vindo a perder terreno e as sondagens mostram agora que a disputa pela Casa Branca está, de momento, muito renhida.

Contudo, esta tendência negativa de Obama deve ter feito soar os alarmes na sede da campanha democrata, em Washington, porque, finalmente, o Presidente parece estar a acertar agulhas e a responder ao seu momento menos positivo. E, como não podia deixar de ser, a reacção presidencial teria de passar, em primeira instância, por uma mensagem de cariz económica, mostrando aos norte-americanos que Obama é o homem certo para estar ao leme numa altura em que os Estados Unidos procuram uma recuperação económica mais acentuada.

Ontem, no Ohio (não é coincidência que se trate de um dos Estados mais decisivos em eleições presidenciais), o Presidente realizou um discurso exclusivamente dedicado à economia, onde delineou aquela que será a sua mensagem económica para a campanha presidencial. Em pouco menos de uma hora, Obama deixou bem marcadas as diferenças entre si e Mitt Romney (disse o nome do seu opositor oito vezes, tantas como no último ano e meio), afirmando que é o único candidato disposto a ajudar a classe média, enquanto que Romney representará o regresso às políticas republicanas (leia-se, de George W. Bush) que levaram à actual crise económica e financeira. Esta táctica de colar o nomeado do GOP ao ainda impopular 43º Presidente norte-americano resultou em 2008 para Obama. Contudo, quatro anos depois, teremos de esperar para ver se o mesmo acontece desta vez.

Mas nem só da economia se faz o contra-ataque da campanha de Obama. Também a imigração é uma questão que os democratas estão a tentar trazer para cima da mesa no que diz respeito aos temas centrais da campanha. Hoje mesmo, a Casa Branca assumiu a intenção de aligeirar as regras para os jovens e crianças que entraram ilegalmente nos Estados Unidos com os seus pais e que não tenham infringido a lei. Baseado no Dream Act, a proposta de lei apoiada por Obama e pelos democratas, mas rejeitada pelo republicanos do Congresso, esta ideia coloca um problema para Romney que se dividirá entre a posição tough on immigration do seu partido e a possibilidade de alienar ainda mais o grupo eleitoral em maior crescimento demográfico do país - os hispânicos. 

Após esta investida de Obama, os próximos dias serão importantes para avaliarmos se a estratégia seguida pelos democratas teve impacto junto do eleitorado. Quanto a mim, parece-me que Obama está a corrigir erros anteriores e que este é um rumo mais acertado. Contudo, Novembro está ainda muito longe e, entretanto, as férias de Verão, altura em que os americanos pouco ou nada ligam às notícias, estão quase à porta. Só depois disso, mais precisamente após o Labor Day, é que a campanha presidencial começa verdadeiramente. Para já, estamos apenas no aquecimento.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Uma história americana

O conceituado repórter da Time, Joe Klein, está a fazer uma road trip pelos Estados Unidos, para sentir o pulso à população americana nas vésperas das eleições intercalares de Novembro. E no Arizona, onde mais do que em qualquer outro sítio a questão da imigração ilegal está na ordem do dia, deu de caras com a interessante história de um jovem estudante imigrante ilegal que gostava de se poder alistar nas forças armadas americanas. Ele e outros amigos reuniram-se, então, junto aos escritórios de John McCain, em Phoenix, para protestar contra o voto negativo do senador do Arizona aquando da votação do DREAM act no Congresso. Relembre-se que esta proposta - que teve como um dos primeiros proponentes o próprio McCain - proporcionaria um caminho rumo à cidadania para os descendentes de imigrantes ilegais que quisessem frequentar a universidade ou alistar-se nas forças armadas.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Obama vs McCain - Act III

Barack Obama dirigiu-se, ontem, ao Capitólio, para se reunir com os senadores republicanos. Pelo que se sabe desse encontro, a discussão foi animada e, por vezes, bastante dura. Vários assuntos estiveram em cima da mesa, como a reforma financeira, a nomeação de Elena Kagan para o Supremo Tribunal, a reforma da saúde ou o ambiente.
Porém, houve um tema, o da imigração, que terá provocado uma troca de argumentos mais ríspida entre o presidente americano e um veterano e conhecido senador do GOP: nada mais, nada menos do que John McCain. Os dois foram rivais na última eleição presidencial, mas a relação pessoal entre ambos nunca pareceu especialmente tensa. O senador do Arizona chegou mesmo a defender o seu opositor quando as multidões dos seus comícios insultavam Obama. Além disso, no seu discurso de concessão de derrota, McCain foi gracioso e prometeu que o vencedor da eleição seria o seu presidente.

Porém, com Obama na Casa Branca, a relação entre os dois foi-se deteriorando. McCain, outrora um senador moderado e que muitas vezes colaborava com os democratas em legislação importante - na reforma do financiamento das campanhas ou mesmo na própria questão da imigração -, afastou-se do centro e deixou de ser um alvo dos democratas, quando estes procuravam apoio bipartidário. Este ano, os dois rivais da histórica eleição de 2008 já se tinham envolvido numa discussão. A ocasião foi uma conferência de Obama com os republicanos do Congresso, no auge da discussão sobre a reforma do serviço de saúde americano e, nessa altura, Obama "lembrou" a McCain que a campanha presidencial já tinha terminado.

Ontem, ao que parece, os dois envolveram-se em nova disputa verbal, sobre a questão da imigração, que está na ordem do dia no home state de McCain, o Arizona, um dos estados mais afectados pela imigração ilegal. No fim de contas, a discussão terá provocado alguns efeitos práticos, já que, logo a seguir, Obama anunciou o envio de 1200 soldados da Guarda Nacional para a fronteira americana com o México. Contudo, McCain e os republicanos não ficaram satisfeitos e exigem o envio de 6 mil militares para conter a "invasão" de imigrantes ilegais, através da vasta fronteira que tem mais de 3 mil quilómetros de extensão.

O tema da imigração é uma questão bastante controversa e que é de complexa resolução. O reforço do patrulhamento da fronteira dos Estados Unidos com o México não será, e isso é claro, a silver bullet que resolverá este problema. Por isso, a reforma da imigração que se espera que ainda chegue este ano ao congresso, será uma das discussões mais importantes e interessantes nos próximos tempos. E é muito possível que esse debate traga novos confrontos entre dois pesos pesados da política americana: Barack Obama e John McCain.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O problema latino do GOP

O apoio da maioria do establishment republicano à nova legislação do Arizona sobre a imigração trouxe a lume um tema que há já algum tempo é debatido pelos estudiosos da política norte-americana: o possível problema demográfico do Partido Republicano, decorrente da sua precária incursão nas crescentes minorias americanas. Depois de terem perdido, há muitos anos, o eleitorado afro-americano, o GOP pode estar em vias de perder um grupo cada vez mais numeroso e fundamental: o hispânico.

É verdade que, segundo as sondagens, esta lei conta com o apoio da maioria da população americana. Porém, o que os estudos de opinião não nos indicam é o nível de importância que cada comunidade concede a este tema. Porque se assim fosse, estou convencido que mostrariam que a maioria dos eleitores que favorecem esta lei não fariam deste tópico um dos principais factores no momento de decidirem o seu voto. Mas, pelo contrário, os eleitores hispânicos, cujos familiares e amigos (e até eles próprios) serão os mais afectados por esta legislação, concederão uma importância tal a esta matéria que poderá mesmo influenciar directamente o seu sentido de voto. Assim, se os republicanos optarem por fazer do apoio a esta lei um dos elementos da sua plataforma eleitoral, poderão estar a dizer adeus, talvez definitivamente, aos votantes latinos.

Hoje em dia, este eleitorado é cada vez mais essencial para a matemática eleitoral dos EUA, dado que representa já cerca de 15% da população americana e com clara tendência para aumentar. A importância do voto hispânico merece ainda mais destaque quando se observa que, em muitos dos mais importantes estados para as eleições presidenciais, os latinos formam uma grande parte dos votantes. Em 2008, o exemplo do New Mexico salta à vista, com os seus 41% de votantes hispânicos, mas também o Texas (20%), a Califórnia (18%), o Arizona (16%), o Nevada (15%), a Florida (14%) ou o Colorado (13%) merecem destaque. Por isso, não é de surpreender a cada vez maior atenção prestada pelos políticos americanos a esta franja eleitoral. Na última eleição presidencial, Obama, que muitos analistas consideravam ir ter muitas dificuldades em captar o voto dos hispânicos, conseguiu receber dois terços dos votos deste grupo, melhorando mesmo o saldo de John Kerry que, em 2004, apenas tinha conseguido 60% desses votos.

Este potencial conflito entre o GOP e a comunidade latina é um fenómeno que tem similaridades com a famosa "estratégia sulista" dos republicanos, nos anos 60, que lhes custou, até hoje, o voto dos afro-americanos, mas que lhes conquistou o voto dos brancos do sul que, até essa altura, preferiam, maioritariamente, no Partido Democrata. Dessa vez, o GOP conseguiu ganhos reais, dado que o peso desses eleitores brancos sulistas, mais numerosos e mais participativos politicamente, mais que compensou a perda dos afro-americanos. Só que, quase 50 anos depois, o cenário alterou-se e, agora, a comunidade branca é a única com tendência para diminuir, enquanto os afro-americanos e, especialmente, os hispânicos continuam a crescer demograficamente. Assim, ao alienar este grupo de eleitores americanos que, ainda para mais, se encontra em franco crescimento, o GOP pode inclusive pôr em causa o seu futuro eleitoral e político.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Os americanos em Portugal

Há uma semana atrás, referi-me à comunidade de emigrantes portugueses nos Estados Unidos. Da mesma forma, será justo e pertinente fazer o mesmo em relação à presença de norte-americanos no nosso país.
Ao contrário do que acontece com a comunidade portuguesa no gigante do outro lado do Atlântico, os números de americanos em Portugal são diminutos. Segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, existiam, em 2008, 2228 americanos com estatuto legal de residência em solo nacional português. Estes dividem-se entre o continente (1864 americanos), os Açores (313) e a Madeira (51).

Mas se a comunidade americana em Portugal é residual, o mesmo já não acontece em relação à visita ao nosso país de cidadãos americanos em viagens de turismo, visto que os EUA são o oitavo maior país emissor de turistas para Portugal. Este facto é natural, ou não fossem os Estados Unidos o segundo país do mundo que mais gasta em turismo (e aquele que mais dinheiro recebe com esta actividade).

Nos últimos anos, o número de turistas americanos no nosso país vinha aumentando consistentemente, mas, em 2008, porventura fruto da crise económica mundial, verificou-se uma acentuada quebra neste fluxo e nas receitas arrecadadas com o turistas "yankees". Actualmente, o cenário é de recuperação e, no ano passado, cerca de 250 mil americanos visitaram Portugal.

Portugal tem nos Estados Unidos um mercado que ainda pode ser muito mais e melhor explorado. Para isso, muito pode contribuir a presença, no nosso país, do americano mais famoso do mundo, quando Barack Obama visitar Portugal para participar na cimeira da Nato, já em Novembro próximo.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A criminalização do sonho americano

O Estado do Arizona continua a dominar a actualidade americana. Agora, as atenções viram-se para a aprovação de uma lei estadual muito dura, relativamente à imigração. Esta legislação, num Estado fronteiriço e onde se calcula existirem cerca de 460 mil "aliens", criminaliza a imigração ilegal, punindo-a mesmo com pena de prisão.
A imigração é uma questão que, como tantas outras, divide profundamente a América. Barack Obama e a Janet Napolitano, actual Secretária da Segurança Interna e anterior Governadora do Arizona, já declararam a sua oposição a esta medida, que consideram mal dirigida e irresponsável. Por outro lado, os defensores da legislação consideram-na importante, de forma a pôr fim à grande vaga de imigração proveniente do México e a outros fenómenos associados, como o narcotráfico.
Contudo, o ponto que tem gerado mais polémica prende-se com a permissão concedida às forças policiais de pedirem a identificação de qualquer pessoa que suspeitem tratar-se de um imigrante ilegal, medida que já foi caracterizada por alguns democratas e defensores dos Direitos Civis como algo saído do III Reich. De facto, este aspecto parece poder transformar-se numa medida racista, já que o critério utilizado para esta "suspeição" será, apenas e só, o da raça, ou, neste caso, a cor da pele.
Também já foram sentidas repercussões na campanha para o lugar de senador por este Estado do sudoeste americano. McCain, o actual incumbente que luta pela reeleição, continua a manter-se bem à Direita e já afirmou que esta é uma medida necessária. No campo oposto, surgiu já um novo candidato para conseguir a nomeação pelos democratas. Randy Parraz, um advogado dos Direitos Civis, já anunciou a sua candidatura e fará da imigração o seu tema principal.
É verdade que a questão da imigração ilegal é um flagelo que assola os Estados Unidos, principalmente os estados fronteiriços do Sul. Porém, os americanos não se deviam esquecer que estão num país edificado por imigrantes que partiram à procura de liberdade e da terra das oportunidades. No fundo, estas centenas de milhares de "aliens" que atravessam a fronteira entre o México e os EUA mais não desejam do que aceder, também eles, ao sonho americano.

quarta-feira, 31 de março de 2010

McCain protege o flanco direito

John McCain pediu ontem a intervenção da Guarda Nacional do Arizona para proteger a fronteira mexicana do seu Estado, de modo a prevenir a entrada de muitos imigrantes ilegais provenientes do México. Esta solicitação do candidato presidencial de 2008 à administração Obama acontece após um rancheiro do Arizona ter sido encontrado morto na sua propriedade.
Estas declarações vêm em sentido oposto à posição moderada por que McCain ficou conhecido depois de ter proposto legislação, durante a presidência de George W. Bush, que reformaria as lei de imigração e permitiria legalizar muitos imigrantes que se encontram ilegalmente nos Estados Unidos. Essa posição criou-lhe muitos anti-corpos no GOP, mas consolidou a imagem de maverick que tinha conquistado na campanha de 2000 contra Bush.
Porém, agora, que enfrenta uma dura batalha à Direita nas primárias republicanas para a sua reeleição, McCain necessita de atrair o eleitorado mais conservador, tentando minimizar as perdas para o seu concorrente e, assim, a sua verdadeira intenção não é proteger a fronteira sul do Arizona, mas sim o seu próprio flanco direito. Para esse efeito, conta ainda com a ajuda da sua running-mate de 2008, Sarah Palin, que se manteve leal a quem a trouxe para a ribalta e não embarcou na contestação dos mais conservadores a McCain.
O opositor de John McCain nas primárias republicanas é J. D. Hayworth, um antigo congressista, mais conservador e que conta com o apoio informal do Tea Party e de figuras do conservadorismo americano, como Glen Beck e Mark Levin. Do lado de McCain está o grosso do establishment do GOP, como Romney, Pawlenty ou Scott Brown.
Serão, então, as primárias o seu grande desafio - uma sondagem da Rasmussen coloca Hayworth muito próximo de McCain - já que na eleição geral os democratas nem se deram ao trabalho de apresentar um candidato competitivo (a ex-Governadora Janet Napolitano seria uma forte concorrente, mas Obama nomeou-a Secretary of Homeland Security).