sábado, 7 de março de 2020

Bernie can't win?






















Costuma-se dizer que os generais estão sempre preparados para travar a guerra anterior e não a próxima. Mas isso acontece também com os analistas políticos que anteveem a próxima eleição com base nas anteriores. Eu mesmo cometi esse erro há quatro anos quando menosprezei as hipóteses de vitória de Donald Trump. Da mesma forma, este ano, são muitos aqueles que defendem que Bernie Sanders não tem possibilidades de derrotar o actual ocupante da Sala Oval numa eventual disputa pela presidência. Larry Sabato, por exemplo, defende que se for Bernie o nomeado, Trump será favorito à vitória.
Na verdade, a maioria das sondagens até têm tendência para apontar no sentido contrário, pois  nestes estudos de opinião Sanders tem sido, de uma forma geral, o candidato democrata a conseguir melhores resultados num frente-a-frente virtual com Trump. Porém, é preciso ter em consideração que as sondagens relativas à eleição geral têm pouca importância nesta fase e que, mais do que as sondagens nacionais, importa perceber a posição de cada candidato nos battleground states. Basta recordar que, há quatro anos, Hillary Clinton teve mais três milhões de votos do que Donald Trump, mas saiu derrotada devido a alguns milhares de votos nos estados decisivos, em particular no Midwest. 
Assim sendo, parece-me muito cedo para tecer considerações definitivas e absolutas relativamente às hipóteses de qualquer um dos candidatos no resultado final do Colégio Eleitoral. Podemos, contudo, perceber as nuances de cada candidatura e parece-me evidente que a nomeação de Bernie Sanders reduziria o tabuleiro de jogo para os democratas no que diz respeito aos estados em jogo. Em primeiro lugar, o resultado na Florida deixaria de ser um toss up e passaria a estar na coluna dos estados com favoritismo para os republicanos, já que o sunshine state é um dos estados mais envelhecidos do país e o grupo social dos idosos é um daqueles onde Sanders consegue piores resultados. Além disso, com o seu posicionamento ideológico bem mais à esquerda do eleitoral médio norte-americano, o senador pelo Vermont poderia ter piores resultados junto do eleitorado independente, pelo que estados com eleitorados moderados (a Virginia, por exemplo) ou onde os democratas têm conseguido, mais recentemente, aproximar-se dos republicanos, podem ficar numa posição menos favorável para o partido Democrata, casos da Georgia, do Arizona e da Carolina do Norte.
Por outro lado, a nomeação de Sanders poderia reforçar a posição democrata junto dos hispânicos, grupo em que Bernie tem conseguido bons resultados nas primárias. Mas o principal argumento a favor do Senador do Vermont seria a possibilidade de conseguir esvaziar algum do discurso de Trump que mais agradou ao operariado branco do Midwest e que foi o mais prejudicado pela globalização e pela crise económica e, assim, fazer regressar à coluna democrata os estados do Michigan, Pennsylvania e Wisconsin (e, quem sabe, o Iowa). Se o conseguir, ficará muito perto de ser o 46º presidente dos Estados Unidos. 
Em resumo, apesar de ser muito cedo para tecer grandes considerações sobre a corrida pela eleição geral de Novembro, parece-me que existe um caminho para a vitória de Sanders contra Trump. Será, porventura, uma via mais estreita do que aquelas com que contaram Barack Obama e Hillary Clinton, mas isso até poderá nem ser negativo, pois permite uma alocação de recursos mais eficaz, ainda que represente uma espécie de all in, sem direito a plano B.
De qualquer forma, este exercício é meramente teórico, em especial numa altura em que é até pouco provável que seja Bernie Sanders o nomeado presidencial do Partido Democrata - o 538 de Nate Silver atribui-lhe apenas 2% de chances de vitória. Mas o mesmo aconteceu já a Biden, e há muito pouco tempo, por isso o melhor é mesmo esperar para ver se Bernie can win.

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