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sábado, 12 de outubro de 2024

The Issues




















Num panorama político cada vez mais polarizado e onde existem menos indecisos e menos swing voters, os grandes temas das campanhas vão perdendo destaque e importância na corrida eleitoral, mas, ainda assim, existem alguns assuntos que dominam as atenções e são decisivos aquando da escolha do sentido de voto dos eleitores. Importa, por isso, passar em revista os principais temas que têm dominado a campanha pela Casa Branca e que determinarão o vencedor da eleição.

Economia - Como sempre, "it's the economy, stupid" e a economia continua a ser o factor mais importante que os eleitores analisam quando decidem o seu voto. Actualmente, a economia norte-americana está numa situação relativamente positiva, com o desemprego em baixa, a bolsa em alta e o poder de compra a subir ligeiramente. Segundo as tendências, a economia ainda melhorará, ainda que pouco significativamente, até 5 de Novembro.

Posto isto, seria de esperar que Kamala Harris, vice-presidente na actual administração, colheria os louros da boa prestação económica dos Estados Unidos. Contudo, no tema da economia, é Donald Trump que tem levado vantagem junto dos eleitores, principalmente pelo trauma que a alta inflação de 2022 e 2023 deixou na população norte-americana durante o mandato de Biden e porque a maioria dos eleitores tem memória positiva do mandato de Trump no que à economia diz respeito.  

Democracia - A insurreição de 6 de Janeiro de 2021 e a negação da derrota na última eleição por parte de Trump, colocou dúvidas sobre a saúde da democracia dos Estados Unidos da América. Muitos democratas temem que, caso perca, Donald Trump volte a não assumir a derrota e apele à revolta dos seus apoiantes, o que pode originar numa nova onda de violência. Temem ainda que, caso vença, Trump utilize o seu poder presidencial para atacar até acusar judicialmente os seus adversários políticos. 

Por seu lado, grande parte do eleitorado republicano, baseado em informação falsa e totalmente infundada, preocupa-se com uma eventual fraude eleitoral, como votos de imigrantes ilegais, que impeçam a vitória do seu candidato, como alegam, falsamente, ter acontecido há quatro anos. 

Segurança e Imigração - Apesar de serem dois temas claramente distintos, escolhi juntar a segurança e imigração num só tópico dada a clara estratégia da campanha republicana em ligar a imigração a uma alegada sensação de insegurança no país. Para a história dos debates presidenciais americanos ficou já a estapafúrdia frase de Trump "They're eating cats and dogs", alegando que imigrantes do Haiti estariam a raptar e comer animais domésticos numa pequena cidade do Ohio. Apesar dos exageros e da retórica incendiária de Trump, a verdade é que os americanos estão mesmo preocupados com o aumento dos números da imigração e com a situação na fronteira com o México, que continua a ser atravessada por milhares de imigrantes ilegais à procura de uma vida melhor.

Apesar de os Estados Unidos serem, desde a sua fundação, a Terra da Oportunidade e de a Estátua da Liberdade ter uma inscrição que começa com "Give me your tired, your poor", a desconfiança em relação aos que chegam do exterior tem vindo a crescer. E já não são apenas os brancos a defender uma maior restrição à imigração: os afro-americanos e mesmo os hispânicos de segunda ou terceira geração temem uma grande vaga migratória que ameace os seus empregos e mesmo a sua segurança. Por isso, este é um tema onde a mensagem republicana, de fecho de fronteiras e deportação de imigrantes ilegais leva vantagem sobre a posição mais permissiva dos democratas.

Educação e Saúde - Menos presenet do que noutros ciclos eleitorais, os assuntos internos da nação americana, como a educação, a saúde ou a segurança social, têm sido, desta vez, menos falados. Isto acontece, principalmente, porque é menor a diferença entre as posições dos dois grandes partidos. Trump é um populista e não um conservador fiscal e defensor de um small government, como os candidatos republicanos tradicionais, e até já deixou de tentar desmantelar o Obamacare, o sistema de saúde reformado por Barack Obama que, ao longo dos anos, se tornou bastante popular. Como é tradicional, os norte-americanos continuam a confiar mais nos democratas para estes temas, mais relacionados com o welfare state e com os serviços providenciados pelo estado, por isso talvez não seja uma boa notícia para eles que estes assuntos estejam menos presentes na campanha. 

Aborto - Se no tópico anterior falei num assunto caro aos democratas, mas agora menos premente na opinião pública, o aborto pode muito bem ter sido o tema que veio compensar essa perda. A revogação da "Roe v Wade" pelo Supremo Tribunal voltou a trazer o aborto para a linha da frente das campanhas eleitorais norte-americanas. Este tema tem sido bastante "cavalgado" pelos candidatos democratas e essa estratégia teve resultados muito positivos nas eleições intercalares de 2022. Sem uma resposta coerente e eficaz para um assunto onde a posição republicana é altamente impopular, o GOP tem procurado não falar no tema, o que não tem resultado perante a insistência democrata em apostar no aborto como tópico constante no trilho de campanha. Donald Trump tem feito grandes flip flops sobre este tema, o que ainda tem ajudado mais a campanha de Kamala Harris, que aposta forte neste tópico para incentivar o eleitorado feminino (em especial, as jovens) a votar na candidata democrata. 

Política Externa - Deixei para o fim o tema que nos diz mais a nós, não norte-americanos: a política externa dos Estados Unidos. Este ano, a guerra na Ucrânia e o conflito israelo-palestiniano têm dominado as notícias e trazem algumas da mais profundas diferenças entre Kamala Harris e Donald Trump. Se Kamala quer manter e até aumentar o apoio norte-americano à Ucrânia, já Donald Trump, cuja boas relações com Putin são conhecidas, já disse querer cortar o apoio à nação invadida pela Rússia e ajudar a encontrar uma solução imediata para o fim da guerra na Europa Oriental. No que diz respeito à situação no Médio Oriente, o candidato republicano é totalmente pró-israelita enquanto que a democrata tenta um maior equilíbrio entre o apoio a Israel e a procura de uma solução de dois estados para o conflito, apelando à contenção de Israel nas suas acções militares, reflectindo esta posição uma maior divisão do eleitorado democrata à relativamente questão israelo-palestiniana. 

Assim, se Putin e Netanyahu preferirão, obviamente, uma vitória de Donald Trump, já a esmagadora maioria do mundo ocidental torcerá pela vitória de Kamala Harris, até porque o anterior presidente continua a ameaçar com um isolacionismo cada vez mais pronunciado e que poderá minar a coligação política e militar do Ocidente. Porém, para os norte-americanos, em 2024, a política externa continuará a ser muito pouco relevante na hora de escolherem em quem votar, já que serão os assuntos internos, referidos em cima, a revestirem-se de maior importância para a grande decisão de 5 de Novembro.

domingo, 6 de outubro de 2024

Kamala Harris, no lugar certo e à hora certa


Kamala Devi Harris é a candidata democrata à Presidência dos Estados Unidos, após a histórica (e tardia) desistência do ainda presidente Joe Biden, que havia vencido as primárias do partido, praticamente sem oposição de relevo. Apesar de ter entrado tarde na corrida, Kamala teve um impacto imediato e rapidamente agregou o Partido Democrata em torno da sua candidatura à Casa Branca. 

Filha de uma imigrante indiana e de um jamaicano negro, Kamala nasceu em Oakland, na Califórnia e seguiu Direito, tendo estudado na histórica universidade afro-americana de Howard e na Universidade da Califórnia. E foi neste estado do Oeste americano que Harris fez carreira como prosecutor, primeiro como District Attorney de São Francisco e, mais tarde, como Attorney General do estado californiano. 

Em 2016, decidiu, sem surpresa, prosseguir a sua carreira na política, tendo concorrido para o cargo no Senado deixado vago pela consagrada senadora Barbara Boxer, eleição que venceu sem dificuldade. Na câmara alta do Congresso dos Estados Unidos, Kamala Harris cedo se destacou pelas suas posições progressistas, como na defesa pela legalização da cannabis ou do DREAM act. Contudo, foi principalmente nas audiências de confirmação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal que a então senadora ganhou notoriedade nacional. Na altura, utilizou a sua experiência como advogada de acusação para colocar o juiz Kavanaugh em sérias dificuldades, tanto que a sua confirmação para o Supremo esteve em dúvida mesmo até ao último momento.

Com a popularidade junto do eleitorado mais à esquerda em alta, Kamala decidiu candidatar-se à presidência em 2020 e era vista, no início desse ciclo eleitoral, como uma das principais favoritas a ser a nomeada democrata para enfrentar o então presidente Donald Trump. A sua campanha até começou bem e ficou famoso o debate em que usou a sua herança cultural para atacar Joe Biden e o seu passado no Senado, quando se dava amigavelmente com senadores republicanos sulistas (leia-se, racistas). Porém, o destaque que ganhou fez dela um alvo e nos debates que se seguiram foi atacada pelos seus adversários e o seu passado como prosecutor foi utilizado para a desacreditar junto do eleitorado mais progressista. Além disso, Harris, que nunca tinha participado numa eleição verdadeiramente competitiva, demonstrou não estar à vontade no trilho da campanha e foi perdendo momentum e apoios financeiros, até, eventualmente,  ter de desistir da candidatura e passar a apoiar Joe Biden para a nomeação democrata. 

Sendo uma das primeiras apoiantes proeminentes de Biden, e apesar dos ataques que lhe desferiu durante a campanha, Kamala era vista como uma das favoritas a ser escolhida para a vice-presidência. Com a nomeação de Biden, este tinha a necessidade de "equilibrar" o ticket. Assim, uma mulher negra parecia o perfil certo para se assumir como running mate de Joe Biden e, por isso, não foi nenhuma surpresa quando o nomeado presidencial democrata a anunciou como a sua escolha para concorrer como sua veep. 

Com a nomeação à vice-presidência garantida, Kamala Harris não se destacou de sobremaneira na campanha nacional de 2020, muito por culpa da pandemia de 2020. Cumpriu o seu papel no debate vice-presidencial face a Mike Pence, mas não deslumbrou e a sua fama como candidata medíocre em campanhas não desapareceu, mesmo após a vitória do ticket Biden/Harris que fez dela a primeira mulher na vice-presidência.

Na Casa Branca, Kamala ocupou um lugar de relativo destaque, tendo em conta que o papel do vice-presidente, sem funções executivas definidas pela Constituição, depende sempre do portfolio que lhe é atribuído pelo chefe de estado. Em especial, a vice de Biden foi mais relevante na política externa e na questão da imigração, tendo sido escolhida pelo Presidente para tentar resolver o problema da imigração ilegal na fronteira entre os Estados Unidos e o México.

O papel de um vice-presidente é sempre ingrato e os quatro anos de Kamala Harris na Casa Branca também não foram pacíficos. Com a avançada idade de Biden a assombrar as suas hipóteses da reeleição, o senior staff presidencial viu sempre a vice-presidente, bem mais jovem e enérgica, como uma ameaça à recandidatura do presidente octogenário. Não admira, por isso, que Kamala tenha ficado com a batata quente da questão da imigração, que nunca teria hipóteses de resolver, ou que saíssem constantes leaks da West Wing da Casa Branca que prejudicavam a sua imagem. 

No final, uma desastrosa prestação de Joe Biden no debate face a Trump e a enorme pressão por parte dos líderes democratas - com Nancy Pelosi a assumir a dianteira das manobras de bastidores -, levou à desistência do ainda Presidente que abdicou a favor da sua vice. Harris, herdeira da nomeação democrata sem ter de passar por primárias, assumiu a tocha do combate contra Trump e entusiasmou, de imediato, a base do Partido Democrata que voltou a acreditar numa vitória na eleição, algo que parecia já quase impossível dada a fragilidade de Biden. 

Apesar da tardia entrada na corrida, Kamala Harris tem quebrado com o passado e tem-se revelado uma boa candidata. Apesar dos problemas anteriores, manteve no lugar quase todo o staff da campanha de Biden e chamou David Plouffe, um dos grandes arquitectos das campanhas vitoriosas de Barack Obama, tendo conseguido uma transição pacífica e suave. Nos dois grandes momentos da campanha, o discurso de aceitação da nomeação e no debate frente a Trump, apresentou-se sem falhas e conseguiu duas grandes prestações. De menos positivo, até agora, apenas se lhe pode apontar ser pouco propensa para tomar riscos, como se pode ver no facto de evitar ao máximo a exposição ao media e na escolha do seu candidato a vice-presidente (continuo a achar que não escolher Josh Shapiro foi um erro). 

Kamala Harris tem, ao longo da sua vida, demonstrado uma enorme capacidade para se retransformar. Veja-se, por exemplo, que, em 2020, foi uma das candidatas mais progressistas nas primárias mais à esquerda da história do Partido Democrata para, em 2024, ser uma das nomeadas presidenciais democratas mais moderadas dos tempos modernos. Para alguns, isso representa inteligência e adaptabilidade, enquanto que, para outros, isso significará vazio ideológico e uma coluna cervical demasiado flexível.

Como se viu, fruto da sorte, das circunstâncias, ou da sua adaptabilidade, a história de vida de Kamala prova-nos que tem estado sempre no lugar certo à hora certa. Falta saber se a 20 de Janeiro de 2025, pelas 12 horas de Washington D.C. também estará no Capitólio, a prestar juramento como a primeira mulher presidente dos Estados Unidos da América. 

sábado, 31 de outubro de 2020

O controlo do Senado está em jogo
















Como o prometido é devido, hoje abordo a disputa pelo Senado, a câmara alta do Congresso dos Estados Unidos, actualmente dominada pelo Partido Republicano, que conta com 53 dos 100 lugares do mais conceituado dos órgãos legislativos norte-americanos. Ao contrário do que acontece na contenda pela Câmara dos Representantes, onde uma vitória democrata é praticamente certa, o controlo do senado está em jogo neste ciclo eleitoral e, a crer nas sondagens, é muito provável que os democratas consigam, a 3 de Novembro voltar a uma posição maioritária na câmara alta.

Este ano, acontecem 35 eleições para o Senado, sendo que 33 são  regulares e 2 eleições especiais no Arizona e na Georgia, para os eleitores escolherem os sucessores eleitos de John McCain, falecido em 2018, e de Johnny Isakson, que se demitiu em 2019, respectivamente (até agora, esses lugares foram ocupados de forma provisória por políticos nomeados pelos governadores dos seus estados). 

Entre assentos que não vão a votos e aqueles que é certo que seguirão nas mãos dos democratas, temos 44 lugares, à partida, no lado azul. Depois, podemos já atribuir o Colorado ao Partido Democrata, já que o candidato democrata, John Hickenlooper, tem surgido com sucessivas e folgadas vantagens nas sondagens sobre o senador do GOP, Cory Gardner. Sendo o Colorado, hoje em dia, um estado com grande inclinação para os liberais, este será o primeiro lugar a mudar de mãos.

Por sua vez, os republicanos contam, inicialmente, com 41 assentos do seu lado, contando os lugares que não se disputam e aqueles onde contam com uma vantagem insuperável. Entre estes, coloco a corrida do Mississippi, apesar de alguns analistas considerarem que poderá ser competitiva. Além disso, parece quase certo que, no Alabama, o senador democrata, Doug Jones, não conseguirá manter o seu lugar e será derrotado pelo republicano Tommy Tuberville. 

Sobram, assim, 13 corridas cujo desfecho está em dúvida, pelo que serão essas que teremos de seguir com mais atenção na noite eleitoral e que decidirão, contados os votos, qual dos partidos controlará o Senado. Com base na minha perceção das várias contendas, colori o mapa eleitoral da forma que podem ver na imagem de cima. Dividindo os estados por categorias, cheguei às seguintes escolhas:

Leaning Republican - Texas, South Carolina e Alaska. 

O Alaska é sempre um estado difícil de prever, por causa da falta de sondagens, sendo que os poucos estudos de opinião mostram uma curta vantagem republicana. O Texas e a South Carolina são ambos estados do Sul, onde os republicanos são claramente favoritos, mas em que o simples facto de serem considerados relativamente competitivos demonstra como o clima político actual nos Estados Unidos é desfavorável ao GOP. Ainda assim, é o senador da SC, Lindsey Graham que parece em pior situação (ponderei mesmo colocar esta corrida como toss-up).

Leaning Democrat - Minnesota, Michigan, Maine

À imagem do que acontece nas corridas presidenciais, o upper midwest  parece terreno favorável para os liberais, pelo que os actuais senadores democratas deverão manter os seus assentos no Minnesota e no Michigan. Já no Maine, a senadora republicana, Susan Collins, muito dificilmente será reeleita e a democrata Sara Gideon está numa posição muito favorável para ficar com o seu lugar.

Toss-up - Montana, Iowa, Arizona, North Carolina, Kansas, Georgia 1 e 2

Estas são as corridas mais equilibradas e onde é mais difícil prever um vencedor. No Arizona, na North Carolina e no Iowa os democratas parecem estar em melhor posição, ao passo que no Kansas e no Montana os candidatos republicanos podem ter uma ligeira vantagem. Já na Georgia, a situação é muito complicada, porque, aqui, há lugar a segunda ronda, caso nenhum dos candidatos consiga uma maioria absoluta. Em ambas as eleições, será difícil que não venha a ser necessária a eleição runnoff (segunda volta), ainda que seja possível que o democrata Jon Ossof consiga ultrapassar os 50% na sua corrida face ao senador republicano David Perdue, que está a ter muitas dificuldades. Talvez o mais importante factor a reter destas sete disputadas eleições é que todas elas têm um ponto em comum - todos os lugares em disputa são, actualmente, ocupados por senadores republicanos. 

Assim se percebe que o Partido Democrata tem um caminho muito mais desimpedido rumo à maioria no Senado do que o GOP. E os democratas poderão mesmo precisar apenas de alcançar 50 assentos, pois cabe ao vice-presidente o voto de desempate em caso de igualdade numa votação do Senado e, nesta altura, é Joe Biden o favorito a vencer a eleição presidencial. Nesse caso, apenas precisariam de vencer dois dos sete estados toss-up, algo que parece bastante provável, pelo que se pode prever que uma vitória democrata, ainda que não seja certa, é bastante provável.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Oportunidade suprema















Após a morte, no mês passado, da juíza Ruth Bader Ginsburg, a liderança republicana anunciou de imediato a sua intenção de confirmar o/a nomeado/a de Donald Trump o quanto antes, em contraponto com o precedente criado, em 2016, quando os senadores do GOP recusaram confirmar o nomeado do Presidente Obama, alegando que, sendo ano de eleições presidenciais, deveria ser dada a palavra aos eleitores, ficando o assento em aberto até um novo Presidente estar na Casa Branca. De seguida, Trump nomeou para o lugar Amy Coney Barrett, uma favorita dos conservadores.

Naturalmente, os democratas reagiram furiosamente, apontando para a contradição republicana e ameaçando com retaliações no caso de a nomeação de Barret vir a ser confirmada pelos senadores do GOP. O fim do filibuster, um tema de que os democratas já vêm a falar há algum tempo, e o court packing, através da expansão do número de lugares no Supremo de nove para onze, foram dois cenários apontados por alguns democratas como possíveis de se virem a concretizar quando regressarem ao poder no caso de Amy Coney Barrett ocupar o lugar deixado vago pela morte de Ginsburg.

Joe Biden, por sua vez, tem recusado dizer se apoia ou não o fim do filibuster e o court packing. E percebe-se porquê. Por um lado, se disser que é contra essas medidas, então será acossado pela ala mais liberal do seu partido e poderá ser prejudicado pela desmobilização do eleitorado mais progressista. Por outro lado, se vier a público mostrar-se favorável, será "pintado" pelo partido adversário como sendo um mero fantoche da ala democrata mais radical e como alguém que colocará em perigo as instituições mais tradicionais e conceituadas do país, como são o Senado e o Supremo Tribunal. 

Veremos, nos próximos dias, se a campanha de Biden consegue resistir à pressão dos media e continuar a evitar uma resposta concreta. Apesar de compreender a evasão do nomeado presidencial democrata, penso que uma estratégia mais sensata do que estar à defensiva seria, simplesmente, dizer: "o court packing não é algo que queira fazer, mas os republicanos obrigar-me-ão a ponderar essa medida caso vão em frente com a confirmação de Amy Coney Barrett e quebrem as normas (não escritas) que eles próprios criaram".

Por sua vez, a táctica republicana, apesar de ética e moralmente questionável, é facilmente justificada pelo enorme prémio que está em jogo. A colocação de uma juíza muito conservadora no lugar de uma antecessora liberal representa uma dramática mudança no equilíbrio do tribunal. A confirmar-se, a presença de Barret no Supremo representaria o terceiro juiz apontado para esta instância por Donald Trump, em apenas quatro anos, o que é verdadeiramente extraordinário, dado que o Supreme Court é constituído por nove membros que são nomeados de forma vitalícia. Por isso, se quando Barack Obama deixou a Casa Branca o tribunal contava com quatro juízes apontados por presidentes democratas e outros quatro apontados por presidentes do GOP, agora, apenas quatro anos depois, podemos passar para uma vantagem de seis a três para o lado republicano.

Sabendo que a influência legislativa do Supremo Tribunal tem vindo a crescer, percebe-se, então, a enorme motivação dos republicanos para ocuparem rapidamente esta vaga, cientes de que, a 3 de Novembro, perderão, provavelmente, a Casa Branca e a maioria no Senado. Além disso, os republicanos foram astutos ao proceder com a confirmação ainda antes da eleição, pois uma confirmação depois da eleição por um Senado lame duck seria vista de forma ainda mais negativa pelo eleitorado e poderia legitimar, aos olhos do público, a retaliação democrata.

Neste momento, decorrem as audiências para a nomeação de Amy Coney Barrett que pouco têm adiantado, já que a juíza se tem esquivado a praticamente todas as perguntas que lhe são colocadas pelos senadores democratas, nomeadamente sobre posições que tomaria em cenários hipotéticos. Salvo uma grande surpresa, Barrett será rapidamente confirmada, já que apenas duas senadoras do GOP se opuseram publicamente a este processo. Por isso, e como os republicanos contam com 53 senadores e apenas precisam de 50 votos favoráveis, tudo indica que os conservadores vão conseguir uma fundamental vantagem ideológica no Supremo Tribunal.

Assim sendo, e numa altura em que os democratas apontam para o perigo de o Supremo vir a decidir em temas como o fim do direito ao aborto, a revogação do Obamacare ou mesmo o desfecho da eleição presidencial, umas poucas dezenas de senadores republicanos, eleitos por uma minoria de eleitores (por exemplo, os dois senadores republicanos do Wyoming representam menos de 600 mil habitantes enquanto as duas senadoras democratas pela Califórnia representam quase 50 milhões de cidadãos), têm nas mãos uma decisão que poderá ter um enorme impacto durante os próximos 40 anos (Barrett tem 48 anos). 

Ao mesmo tempo, mais de 250 milhões de eleitores norte-americanos deslocam-se às urnas (se ainda não o tiverem feito antecipadamente ou por correio) para escolherem o novo Presidente, um terço do Senado, a totalidade dos membros da Câmara dos Representantes e vários governos locais e estaduais, para os próximos dois (no caso dos representantes) ou quatro anos. Será, sem dúvida, um dia decisivo para o futuro próximo do panorama político dos Estados Unidos da América  Mas será essa a decisão mais importante que se toma por estes dias? 

terça-feira, 14 de abril de 2020

Obama apoia Biden

Barack Obama e Joe Biden mantiveram sempre, ao longo dos seus oito anos em conjunto na Casa Branca, uma excelente relação, tanto pessoal como profissional. A química entre os dois foi evidente e permitiu uma convivência pacífica e sem os atritos que marcaram outras relações entre Presidente e Vice-presidente na história da política norte-americana.
Apesar de Biden ter sido o seu Veep e de serem amigos, Obama não quis nunca ser visto como a intrometer-se na decisão das primárias do seu partido, muito menos a declarar o seu favorecimento a qualquer candidato, nomeadamente ao seu antigo vice. Chegaram mesmo a circular alguns rumores que davam a entender que Obama não via Joe Biden como a pessoa mais indicada para fazer face a Trump e que não estava impressionado com a campanha do antigo senador do Delaware. 
Mas, agora que Joe é o presumível nomeado do Partido Democrata, Obama não tinha por que se manter na rectaguarda e veio, num vídeo divulgado hoje, anunciar publicamente o seu apoio a Biden, deixando um claro contraste para com Donald Trump e apontando para o extenso currículo do seu antigo running mate.
Ao alcançar a nomeação, Joe Biden "liberta", assim, um dos seus mais poderosos trunfos na campanha que se avizinha, pois Barack Obama conta com bons níveis de popularidade entre os norte-americanos, é um orador de excelência e será importante na mobilização do eleitorado democrata, em especial o afro-americano, o que poderá ser decisivo em Novembro. Nessa altura, veremos se o apoio de Obama fez ou não a diferença na luta pela Casa Branca.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

It's Joe!

Bernie Sanders anunciou ontem a suspensão da sua campanha presidencial, deixando Joe Biden com o caminho aberto para a nomeação presidencial. Se já o era de facto, Biden é agora oficialmente o presumptive nominee do Partido Democrata e, salvo um acontecimento excepcional, será o adversário de Donald Trump na eleição geral de Novembro.
Era evidente para todos que Bernie tinha perdido as hipóteses de vitória depois da Super Tuesday e das eleições que se seguiram. Com todo o establishment democrata a cerrar fileiras em torno do seu adversário, o senador independente pelo Vermont viu a sua coligação de eleitores - jovens, liberais e hispânicos - ser insuficiente para conseguir a maioria em qualquer primária. Assim, era uma questão de tempo até Joe Biden selar a nomeação, o que poderia até apenas acontecer na convenção nacional do partido. 
Mas, e como se viu em 2016, Bernie Sanders poderia não querer baixar os braços e manter a sua candidatura até ao fim, de forma a amplificar ao máximo a transmissão da sua mensagem liberal. Só que, desta vez, Bernie optou por atirar a toalha ao chão, provavelmente por dois grandes motivos. Em primeiro lugar, a pandemia da Covid-19 retirou-lhe o palco e a atenção mediática que precisava. Com os comícios cancelados e com os media e a opinião pública totalmente focados na crise epidémica, não tinha meios nem público para a sua mensagem. Em segundo lugar, Sanders não quer repetir o que se passou em 2016 e entende que só um partido unido poderá derrotar Donald Trump. Se há quatro anos se pensava que o nomeado democrata seria o eventual vencedor (as hipóteses de uma vitória de Trump não eram levadas a sério), agora os democratas percebem que é imperioso derrotar o actual ocupante da Casa Branca e, por isso, Sanders não quer correr o risco de ficar para a história como um dos grandes responsáveis por oito anos de uma administração Trump.
Até Novembro, os democratas terão mais de meio ano para unir o partido em redor da candidatura de Joe Biden. E, aí, Bernie Sanders terá um papel importante. Numa primeira fase, vai ter de evitar a debandada dos seus apoiantes, como aconteceu, em grande parte, há quatro anos. Depois, será importante na definição da plataforma eleitoral do partido, pois conquistou um lugar de relevo na posição ideológica democrata e, além disso, o partido terá de ser visto a aplacar ideias do movimento de Sanders para convencer os seus apoiantes a irem em força às urnas, em Novembro.
Bernie Sanders pode não ter conseguido uma campanha com tanto sucesso como a de há quatro anos, mas a sua carreira política só pode ser vista como um enorme triunfo. Até há poucos anos, era visto como uma figura menor, um senador de um pequeno Estado com ideias radicais. Todavia, actualmente, Bernie transformou a sua ideologia num movimento fundamental para a transformação do Partido Democrata num partido mais progressista. As suas ideias deixaram de estar limitadas a uma pequena franja para serem discutidas e aceites no sistema mainstream. Ainda é cedo para dizer, mas é possível que, daqui a algum tempo, se diga que o movimento de Bernie esteve para os democratas como o Tea Party esteve para os republicanos.
Mas, agora, as atenções viram-se para Joe Biden, que terá a responsabilidade de evitar um segundo mandato de Donald Trump, provavelmente o presidente republicano mais odiado de sempre pelos democratas. E é certo que Bernie tudo fará para que seja Biden o 46º presidente dos Estados Unidos.

terça-feira, 17 de março de 2020

O fim da estrada para Bernie Sanders

A pandemia do Covid-19 está a paralisar praticamente o mundo todo (em especial o hemisfério Norte) e os Estados Unidos já não são excepção, desde que a administração Trump fez meia-volta e declarou este corona vírus como uma grande ameaça à saúde pública. 
Naturalmente, numa situação de emergência como esta, até às importantes eleições primárias ficam para segundo plano e podem mesmo ficar numa espécie de stand-by, pelo menos até se ultrapassar a pior fase desta epidemia. 
No passado Sábado, decorreu um debate televisivo entre Joe Biden e Bernie Sanders, os dois últimos candidatos (além da irrelevante Tulsi Gabbard) à nomeação presidencial pelo Partido Democrata. Como não podia deixar de ser, o tema Covid-19 ocupou grande parte da discussão, o que levou, com naturalidade, a que os dois concorrentes esgrimissem argumentos sobre as sua visões para o serviço de saúde norte-americano. Sanders, um defensor acérrimo de um serviço de saúde universal, à europeia, colidiu com a visão mais "americana" de Biden, que apoia um serviço de saúde prestado por privados, reforçando as medidas de regulação e protecção criadas pelo Obamacare.
Além disso e de alguma discussão em torno do historial de voto de Joe Biden, que terá sempre alguma dificuldade em defender o seu perfil moderado no Senado numa época em que os democratas são significativamente mais progressistas do que até há 12 anos, quando Biden abandonou a câmara alta, o debate de Sábado pouco acrescentou. A maior novidade terá sido mesmo o anúncio de Biden de que escolherá uma mulher para sua vice-presidente. Surpreendido pela decisão do seu adversário, Sanders praticamente prometeu fazer o mesmo, pelo teremos um ticket misto do lado democrata.
Hoje mesmo decorrerá uma nova ronda de primárias, ainda que com uma baixa. Com efeito, o governador republicano do Ohio decidiu suspender as primárias no seu Estado, apesar de uma decisão judicial em sentido contrário, por causa do epidemia do Covid-19. Pode parecer uma decisão sensata, mas é sempre preocupante vermos um político a cancelar uma eleição (ainda por cima do partido oposto ao seu) indo contra uma decisão de um tribunal, pondo em causa o sistema de checks and balances da democracia norte-americana. 
Com esta decisão no Ohio, teremos primárias apenas na Florida, Arizona e Illinois e é expectável que Joe Biden vença facilmente os três estados. Depois disso, devemos entrar numa fase de suspensão das primárias, dado que muitos estados já anunciaram o adiamento da sua primária por causa do novo coronavirus. Fica, por isso, muito complicada a candidatura de Sanders, que, depois de hoje, deverá ver a sua distância para Biden em número de delegados alargar-se ainda mais. Para piorar a situação, foi hoje anunciado que foi o antigo VP de Obama a vencer no estado de Washington.
Assim, com a campanha prestes a entrar numa espécie de letargia, Bernie Sanders fica sem estrada para poder esperar por uma espécie de milagre que surgisse no percurso e trouxesse uma enorme reviravolta e o recolocasse na disputa pela nomeação. Nesta altura, não se sabe sequer em que moldes decorrerá a convenção nacional democrata, agendada para Julho. Resta, por isso, esperar para ver o que acontece nos próximos tempos que são, sem dúvida, extraordinários.

sábado, 14 de março de 2020

Xeque-mate

A não ser que algo de muito extraordinário aconteça - e vivemos tempos em que temos de estar preparados para tudo -, Joe Biden será o nomeado presidencial do Partido Democrata e defrontará Donald Trump na eleição geral de Novembro. Apesar de Bernie Sanders ainda se manter na corrida, o resultado final está praticamente definido, tendo em conta a vitoriosa noite de Biden na passada Terça-feira.
Depois das vitórias do ex-vice-presidente na Carolina do Sul e na Super Tuesday, Sanders não tinha motivos para estar optimista e os resultados vieram tornar realidade as previsões mais negras para  campanha do Senador pelo Vermont. Já se sabia que o Sul não era terreno favorável a Bernie, mas a derrota no Mississippi por 65 pontos percentuais foi, no mínimo, embaraçosa e pôs a nu, mais uma vez, as dificuldades de Sanders junto do eleitorado afro-americano. No Missouri, Joe Biden obteve mais uma vitória folgada, demonstrando que conta também com o apoio dos eleitores dos subúrbios e do heartland dos Estados Unidos. Também no Idaho, numa pequena primária que elegia apenas 20 delegados, foi Joe o vencedor, ainda que por uma margem mais curta, mas num estado que, há pouco tempo, parecia seguro para Bernie Sanders.
Contudo, o grande prémio da noite era o Michigan e, aí, num dos principais estados industriais da nação norte-americana, Joe Biden terá dado um verdadeiro tiro no porta-aviões da campanha de Sanders, com uma vitória clara e inequívoca que prova que Bernie, ao contrário de há quatro anos, não conta com uma maioria de apoiantes entre os blue collar workers da zona industrial dos Estados Unidos e que, como em 2016, poderão decidir a eleição geral de Novembro. 
Como fraco prémio de consolação, Sanders conseguiu vencer no Dakota do Norte e está à frente no estado de Washington por 2% dos votos quando ainda faltam contar 5% do total de boletins. O equilíbrio da corrida neste último estado é a prova de que o senador do Vermont está em queda livre, pois será difícil encontrar um estado demograficamente mais favorável à sua candidatura - Washington é um dos Estados com uma população mais jovem, instruída, urbana e liberal da União.
Após estes resultados, não existe mais um percurso viável que se possa vislumbrar e que leve à nomeação de Bernie Sanders. A próxima ronda de primárias é-lhe particularmente desfavorável, dado que os quatro importantes estados (Florida, Ohio, Illinois e Arizona) que vão a votos na próxima terça-feira (se o Covid-19 deixar) devem cair todos para o lado de Biden. Assim, e se as primárias desta semana representaram o "cheque ao rei" para a campanha de Bernie, as próximas eleições deverão significar o "cheque-mate".
Todavia, o senador de 78 anos decidiu manter-se na corrida e participar no debate de Domingo. Com uma fiel e dedicada legião de apoiantes e com dinheiro ainda na conta bancária, Sanders não quererá desistir demasiado cedo de uma corrida que já deu uma grande reviravolta e num ambiente dominado pela incerteza que a crise do Covid-19 veio acentuar. Ainda assim, estará ciente que tem pela frente uma tarefa praticamente impossível e deverá começar a refrear o tom do seu discurso e a reduzir a crispação da campanha, de forma a preparar o seu eventual apoio a Joe Biden. 
Sanders, que desdenha Donald Trump e até tem alguma simpatia pessoal por Biden, não quererá contribuir para a reeleição do actual presidente e terá de evitar o que aconteceu há quatro anos, quando os seus apoiantes se revoltaram contra a nomeada democrata, Hillary Clinton, chegando mesmo a perturbar a convenção nacional do partido. Por isso, os próximos tempos deverão ser de transição, de uma campanha activa para a gradual aproximação e inevitável endorsement a Joe Biden, de forma e unir o Partido Democrata e começar a derrotar Donald Trump.

terça-feira, 10 de março de 2020

All eyes on Michigan

Depois da Super Tuesday da semana passada, hoje temos uma Mini Tuesday, com seis estados a irem a votos. Mais logo, os eleitores do Idaho, do Michigan, do Mississippi, do Missouri, do Dakota do Norte e de Washington (não confundir com a capital federal) deslocam-se às urnas para eleger os nomeados presidenciais. Como Donald Trump tem a nomeação garantida, interessa o que se passa do lado democrata, numa altura em que restam Joe Biden e Bernie Sanders a disputar a vitória nas primárias democratas.
Renascido na Carolina do Sul e arrasador na Super Tuesday, Biden parece lançado para a nomeação e o 538 de Nate Silver já atribui 99% de possibilidades de triunfo ao antigo vice-presidente. Assim, Bernie Sanders está obrigado a fazer um grande resultado nas corridas de hoje para que a sua candidatura se mantenha viável. Contudo, as atenções estarão principalmente para o Michigan, o maior dos estados em disputa e que entrega mais de um terço - 125 - do s 352 delegados em jogo na noite de hoje.
Há quatro anos, quando Bernie competiu com Hillary Clinton pela nomeação presidencial, o Michigan também era apontado como um estado decisivo. Nessa altura, e quando Hillary surgia com uma enorme vantagem nas sondagens, foi o senador pelo Vermont a surpreender e a levar a melhor no estado dos Grandes Lagos. Essa vitória deu um novo fôlego à candidatura de Bernie e prolongou as primárias democratas que só terminaram na convenção nacional do partido. 
Sanders esperará que a história se repita e que o Michigan troque, uma vez mais, as voltas às sondagens e aos pundits, criando uma nova reviravolta numa corrida que já pareceu estar perto de vencer. Contudo, 2020 não é 2016 e, nesse ano, Hillary Clinton tinha muitos anti-corpos na classe operária branca, algo que já não acontece com Joe Biden. Há quatro anos, a abstenção democrata no Michigan foi elevadíssima, o que contribuiu para o falhanço de todas as sondagens e para a vitória inesperada de Bernie. Este ano, com os democratas motivados para derrotar Trump, isso não deverá acontecer e a forte mobilização do eleitorado de Sanders poderá não ser suficiente.
O Michigan será, então, o maior prémio da noite, mas não será o único. Em segundo lugar, o estado de Washington, com os seus 89 delegados, também será muito importante e Bernie e Joe parecem estar virtualmente empatados no estado norte-americano mais afectado pelo Coronavirus, o que pode baralhar as contas. Mais a sul, no Missouri (68 delegados) e no Mississippi (36), a vitória não deverá fugir a Biden, que conta com grande vantagem entre o eleitorado afro-americano. Por fim, temos os pequenos Idaho (20) e Dakota do Norte (14), pouco relevantes e onde praticamente não existem sondagens, ainda que se tenha de atribuir uma pequena vantagem ao antigo Veep, em especial neste último.
Tudo aponta, por isso, que a noite de hoje será muito importante para a corrida pela nomeação democrata. Se Joe Biden vencer em toda a linha, com vitórias no Michigan e em Washington a juntar aos esperados triunfos nos estados sulistas, tornar-se-á o presumível nomeado e Bernie Sanders começará a ser pressionado para abandonar a favor do seu adversário para unir o partido. Pelo seu lado, o senador do Vermont terá de triunfar, contra todas as probabilidades, pelo menos no Michigan e, de preferência, também em Washington para ainda poder sonhar em defrontar Trump em Novembro. Mais logo, veremos qual dos cenários se concretiza.

sábado, 7 de março de 2020

Bernie can't win?






















Costuma-se dizer que os generais estão sempre preparados para travar a guerra anterior e não a próxima. Mas isso acontece também com os analistas políticos que anteveem a próxima eleição com base nas anteriores. Eu mesmo cometi esse erro há quatro anos quando menosprezei as hipóteses de vitória de Donald Trump. Da mesma forma, este ano, são muitos aqueles que defendem que Bernie Sanders não tem possibilidades de derrotar o actual ocupante da Sala Oval numa eventual disputa pela presidência. Larry Sabato, por exemplo, defende que se for Bernie o nomeado, Trump será favorito à vitória.
Na verdade, a maioria das sondagens até têm tendência para apontar no sentido contrário, pois  nestes estudos de opinião Sanders tem sido, de uma forma geral, o candidato democrata a conseguir melhores resultados num frente-a-frente virtual com Trump. Porém, é preciso ter em consideração que as sondagens relativas à eleição geral têm pouca importância nesta fase e que, mais do que as sondagens nacionais, importa perceber a posição de cada candidato nos battleground states. Basta recordar que, há quatro anos, Hillary Clinton teve mais três milhões de votos do que Donald Trump, mas saiu derrotada devido a alguns milhares de votos nos estados decisivos, em particular no Midwest. 
Assim sendo, parece-me muito cedo para tecer considerações definitivas e absolutas relativamente às hipóteses de qualquer um dos candidatos no resultado final do Colégio Eleitoral. Podemos, contudo, perceber as nuances de cada candidatura e parece-me evidente que a nomeação de Bernie Sanders reduziria o tabuleiro de jogo para os democratas no que diz respeito aos estados em jogo. Em primeiro lugar, o resultado na Florida deixaria de ser um toss up e passaria a estar na coluna dos estados com favoritismo para os republicanos, já que o sunshine state é um dos estados mais envelhecidos do país e o grupo social dos idosos é um daqueles onde Sanders consegue piores resultados. Além disso, com o seu posicionamento ideológico bem mais à esquerda do eleitoral médio norte-americano, o senador pelo Vermont poderia ter piores resultados junto do eleitorado independente, pelo que estados com eleitorados moderados (a Virginia, por exemplo) ou onde os democratas têm conseguido, mais recentemente, aproximar-se dos republicanos, podem ficar numa posição menos favorável para o partido Democrata, casos da Georgia, do Arizona e da Carolina do Norte.
Por outro lado, a nomeação de Sanders poderia reforçar a posição democrata junto dos hispânicos, grupo em que Bernie tem conseguido bons resultados nas primárias. Mas o principal argumento a favor do Senador do Vermont seria a possibilidade de conseguir esvaziar algum do discurso de Trump que mais agradou ao operariado branco do Midwest e que foi o mais prejudicado pela globalização e pela crise económica e, assim, fazer regressar à coluna democrata os estados do Michigan, Pennsylvania e Wisconsin (e, quem sabe, o Iowa). Se o conseguir, ficará muito perto de ser o 46º presidente dos Estados Unidos. 
Em resumo, apesar de ser muito cedo para tecer grandes considerações sobre a corrida pela eleição geral de Novembro, parece-me que existe um caminho para a vitória de Sanders contra Trump. Será, porventura, uma via mais estreita do que aquelas com que contaram Barack Obama e Hillary Clinton, mas isso até poderá nem ser negativo, pois permite uma alocação de recursos mais eficaz, ainda que represente uma espécie de all in, sem direito a plano B.
De qualquer forma, este exercício é meramente teórico, em especial numa altura em que é até pouco provável que seja Bernie Sanders o nomeado presidencial do Partido Democrata - o 538 de Nate Silver atribui-lhe apenas 2% de chances de vitória. Mas o mesmo aconteceu já a Biden, e há muito pouco tempo, por isso o melhor é mesmo esperar para ver se Bernie can win.

quinta-feira, 5 de março de 2020

É oficial: Joe vs Bernie

Confirmou-se o cenário anunciado após os resultados da Super Tuesday: Michael Bloomberg e Elizabeth Warren desistiram e, agora, a corrida está entregue apenas a Joe Biden e Bernie Sanders - um deles será o nomeado democrata para a eleição presidencial de Novembro, ainda que Tusi Gabbard mantenha a sua (irrelevante) candidatura.
Bloomberg apostou todas as suas fichas na série de eleições primárias da passada Terça-feira, mas não colheu frutos dessa estratégia. Entrou tarde na corrida e utilizou uma táctica pouco ortodoxa de evitar os primeiros estados a irem a votos (até porque já não foi a tempo de se inscrever nessas eleições) e realizar uma verdadeira barragem de anúncios televisivos e investir num exército de staffers com que pretendia saturar os mercados dos estados da Super Tuesday com a sua mensagem: Trump só poderia ser derrotado por um moderado, experiente, mas, acima de tudo, por alguém que fez (muito) mais dinheiro no sector privado do que o actual presidente. Contudo, a pálida imagem que transmitiu no único debate televisivo em que participou minou a sua aura de combatividade e invencibilidade com que pretendia derrotar Trump. Depois, o triunfo esmagador de Biden na Carolina do Sul, reabilitou a figura do antigo Veep como um moderado com possibilidades de ser eleito e isso afastou muitos eleitores de Bloomberg. 
Sem surpresa, o multimilionário anunciou a suspensão da sua campanha e endereçou o seu apoio a Joe Biden. Este endorsement não traz qualquer surpresa, pois Bloomberg nunca escondeu que, além do objectivo prioritário de impedir um segundo mandato de Donald Trump, queria também evitar a nomeação de um representante da ala mais liberal do Partido Democrata. Em conjunto com o endorsement de Bloomberg, Biden poderá também contar com o seu apoio financeiro, que será importante para eliminar ou atenuar a vantagem monetária de Bernie Sanders. 
Um dia depois, hoje, foi a vez de Elizabeth Warren anunciar a sua desistência da corrida presidencial. A senadora pelo Massachusetts foi, desde a sua eleição para a câmara alta do Congresso norte-americano em 2012, umas das grandes figuras liberais dos Estados Unidos e era grande a expectativa em torno da sua candidatura. Durante o Outono de 2019, Warren alcançou mesmo o estatuto de frontrunner, surgindo recorrentemente no topo das sondagens, mas foi mais um exemplo de um candidato cujo pico de rendimento surgiu demasiado cedo, começando a perder fulgor pouco antes do caucus do Iowa, em detrimento de Sanders e de Pete Buttigieg. 
Ao comunicar a suspensão da sua campanha, Elizabeth Warren não declarou o apoio a qualquer dos candidatos restantes, mas é ainda possível que o faça, mais logo, quando realizar uma conferência de imprensa que já anunciou. Sanders será sempre o favorito a almejar o endorsement de Warren, mas não é certo que isso aconteça, já que a Senadora do Massachusetts, apesar de se encontrar no espectro mais liberal do Partido Democrata, tem bastantes mais ligações ao establishment democrata do que Sanders, um independente anti-sistema. É, por isso, possível que Warren opte por não apoiar nenhum dos candidatos, sendo menos crível que apoie oficialmente Biden.
A partir de agora, com o campo de candidatos "limpo", veremos verdadeiramente o que valem as candidaturas de Joe Biden e Bernie Sanders. Os resultados das próximas primárias, com destaque para as do Michigan, no dia 10, e da Florida, no dia 17, deverão ser verdadeiramente decisivas para o que resta da disputa pela nomeação. Com base nas últimas sondagens, Joe parece levar alguma vantagem, mas teremos de ver os efeitos das desistências dos últimos dias para termos uma melhor perspectiva sobre o estado da corrida, após assentar todo o pó deixado pela verdadeira tempestade de areia que representou a Super Tuesday.

quarta-feira, 4 de março de 2020

The comeback oldie

Em 1992, Bill Clinton, na altura com 45 anos, ficou conhecido como o "The Comeback Kid", após o seu surpreendente segundo lugar na primária do New Hampshire, quando a sua candidatura à Casa Branca parecia estar já condenada ao fracasso. Ontem, 28 anos depois, Joe Biden, com 78 anos, mostrou estar à altura do epíteto de "Comeback Oldie", ao amealhar uma série de vitórias na famosa e importante Super Tuesday.
Após as desastrosas prestações de Biden nos primeiros estados e a consequente fuga de contribuições financeiras, chegou mesmo a falar-se na sua possível desistência. Contudo, tudo mudou no passado Sábado, quando o ex-Vice-Presidente de Barack Obama triunfou na primária da Carolina do Sul por uma diferença (de 30 pontos percentuais) que nenhuma sondagem previu. Com essa vitória, Biden alcançou, por direito próprio, o estatuto de representante da ala moderada do Partido Democrata e, a partir daí, o establishment democrata começou a cerrar fileiras à sua volta. As desistências de Amy Klobuchar e Pete Buttigieg a seu favor foram os sinais mais visíveis da mudança no momentum da corrida, quando Bernie Sanders parecia bem lançado para a nomeação, após os bons resultados no Iowa, New Hampshire e no Nevada.
Na Super Tuesday deste ano, estavam em jogo 1617 delegados e, à hora a que escrevo estas linhas, falta apenas conhecer o vencedor no Maine (onde Biden leva uma minúscula vantagem), sabendo-se que Joe venceu os estados do Alabama, Arkansas, Massachussetts, Minnesota, Carolina do Norte, Oklahoma, Tennessee e o Texas, tendo, neste momento, cerca de 400 delegados na sua coluna. Por sua vez, Bernie Sanders foi o mais votado na Califórnia, no Colorado, no Utah e no seu home state Vermont, amealhando cerca de 320 delegados.
Michael Bloomberg e Elizabeth Warren tiveram uma noite para esquecer e é provável que desistam nos próximos dias (a campanha do antigo Mayor de Nova Iorque já anunciou estar a avaliar a situação) pois dificilmente terão relevância na disputa. Bloomberg, que sempre disse querer evitar a nomeação de Sanders, deverá anunciar o seu apoio a Biden, enquanto Warren, que pretendia manter-se na corrida até à convenção de Julho, poderá apresentar o seu endorsement ao senador independente pelo Vermont.
Agora, as primárias democratas são definitivamente uma corrida a dois entre Biden e Sanders. De um lado, o establishment democrata, que saiu em força, nos últimos dias, em auxílio de Joe Biden. No seu lado da barricada, o antigo VP conta com os eleitores mais moderados, mais velhos e com os afro-americanos. Do outro lado, com Bernie, vemos os eleitores mais liberais, os mais jovens e os hispânicos. Sem o peso do partido por detrás, mas com uma grande pujança financeira, a campanha de Sanders ainda está na luta. Contudo, depois da noite de ontem, parece claro que Biden é o frontrunner. Além de contar com o momentum  da corrida, as próximas primárias parecem favorecer o antigo senador do Delaware, com destaque para a contenda no grande e importante estado da Florida, com um perfil de eleitorado muito averso a Sanders.
No próximo dia 10, será possível tomar novamente o pulso ao eleitorado democrata, quando decorrer uma espécie de mini Super Tuesday. Será importante seguir as sondagens que forem publicadas e os endorsements que deverão começar a "sair" com mais regularidade. Todavia, o apoio mais esperado, o de Obama, tão cedo não será conhecido e pode mesmo não acontecer até haver um nomeado, sendo certo que, entre o seu Veep e Sanders, o 44º Presidente preferirá sempre o seu antigo braço direito.
Entretanto, na Casa Branca, Donald Trump, entre ataques no Twitter e declarações sobre o corona vírus, vai esperando para ver quem será o seu adversário em Novembro.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Super Tuesday: a noite democrata

Foi uma noite morna a da Super Tuesday de ontem no que diz respeito às primárias do Partido Democrata. No cômputo geral, e como se esperava, Hillary Clinton conseguiu uma sólida vitória, amealhando sete dos onze Estados em jogo, entre eles o maior prémio em jogo, o Texas, e o Massachussetts, que Bernie Sanders contaria conquistar para a sua coluna. A estes dois, Hillary juntou o Arkansas (onde foi Primeira-Dama, quando Bill Clinton foi Governador), o Alabama, a Georgia, o Tennessee e a Virginia. Por seu lado, Bernie Sanders ganhou nos caucuses do Colorado e Minnesota, no seu Estado do Vermont e no Oklahoma - aqui, de forma algo surpreendente e evitando o pleno de Hillary no Sul. 
Já se sabia que iria ser uma noite complicada para Sanders, que fez bem em baixar as expectativas da sua candidatura no que dizia respeito à Super Tuesday, mas é difícil de ver um caminho viável que leve o Senador do Vermont até à nomeação presidencial democrata. Até agora, Hillary venceu 10 das 15 eleições realizadas, tem uma vantagem esmagadora em termos de superdelegados e apoio da estrutura partidária, conta com os votos das minorias e dos blue collar workers e pode fechar a contenda ainda este mês.
Bernie Sanders, que tem vencido caucuses, formato que favorece a sua campanha, por contar com apoiantes organizados e entusiastas, conta ainda com muito dinheiro no banco (os últimos números de dinheiro angariado superam mesmo os da sua adversária) e deverá permanecer na corrida durante mais algum tempo. A vitória no Oklahoma amenizou o desaire sofrido a Nordeste, no Massachussetts, e permite-lhe dizer que não foi derrubado pela Super Tuesday. Ainda assim, e como já começou a dizer no discurso de ontem, a sua campanha é mais do que a eleição de um presidente, mas sim o forjar de um movimento liberal (ou socialista), porventura fazendo à Esquerda o que o Tea Party fez pelo movimento conservador.
Bernie Sanders, por ter tido um desempenho surpreendente e conseguido cativar milhares de eleitores, em especial jovens e com elevados níveis de escolaridade, será sempre uma figura a ter em conta no Partido Democrata e Hillary Clinton, ciente disso, não forçará a desistência do seu antigo colega no Senado e deverá passar mensagens de paz e união para a campanha de Sanders. Porque, agora, é já claro para a Hillaryland que a ex-Secretária de Estado será a nomeada democrata e terão de começar a pensar no grande desafio que os espera, em Outubro, quando tiverem de enfrentar o candidato escolhido pelos republicanos. 
Em resumo, a Super Tuesday não foi o ponto final parágrafo na corrida democrata, mas terá sido, ainda assim, um dos últimos capítulos decisivos antes do desfecho há muito aguardado: a vitória da super favorita Hillary Clinton.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Hillary vira a página

Hillary Clinton alcançou ontem a sua primeira grande vitória nas primárias presidenciais do Partido Democrata. Na Carolina do Sul, 73,5% dos eleitores votaram na antiga Primeira-Dama, deixando Bernie Sanders a quase 50 pontos percentuais de diferença, naquilo que foi uma vitória a que nos norte-americanos gostam de chamar de landslide.
E foi, de facto, um triunfo esmagador para Clinton, que já havia vencido no Iowa e no Nevada, mas sempre por margens pouco consonantes com o favoritismo que a candidatura da ex-Secretária de Estado sempre reuniu. Mas ontem, num Estado com uma grande presença de eleitores afro-americanos, Hillary conseguiu uma verdadeira demonstração de força, provando que o eleitorado negro, que a havia abandonado há oito anos por causa do carácter histórico da candidatura de Barack Obama, continua a confiar na marca Clinton. 
Por outro lado, Bernie Sanders, não conseguiu fazer chegar a sua mensagem aos eleitores afro-americanos, tendencialmente menos propensos a serem seduzidos por discursos idealistas como o do Senador do Vermont do que, por exemplo, os jovens universitários do Iowa. Para eles, Sanders é um perfeito desconhecido, enquanto que Hillary Clinton tem já uma história junto dos negros norte-americanos, desde os tempos em que defendeu o Movimento dos Direitos Civis e, principalmente, devido aos anos da presidência do seu marido. Bill Clinton chegou mesmo a ser apelidado de "o primeiro presidente negro da história" e a popularidade dos Clinton tem-se mantido, desde essa altura, em alta junto dos afro-americanos.
Com esta vitória esmagadora na Carolina do Sul, Hillary Clinton pode virar a página no que tinha sido o livro das primárias até agora, em que tinha ficado aquém das expectativas. Na Super Tuesday, dos 11 Estados que vão a votos, 7 são do Sul, com grande presença de eleitores afro-americanos. Assim sendo, e tendo a Carolina do Sul como amostra, tudo aponta para uma grande noite de Hillary que poderá tornar-se, já nessa noite de 1 de Março, como a presumível nomeada democrata, começando a apontar baterias para a eleição geral do Outono.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Donald vs Hillary?

Realiza-se hoje, na Carolina do Sul, as primárias do Partido Democrata nesse Estado, ficando concluída a ronda pelos early states, Iowa, New Hampshire, Nevada e South Carolina, que costumam ser determinantes na nomeação dos candidatos presidenciais dos dois grandes partidos norte-americanos. Em 2016, manteve-se essa tradição e deveremos chegar à Super Tuesday, do próximo dia 1 de Março, com dois grandes favoritos: Hillary Clinton, pelo Partido Democrata, e Donald Trump, pelo GOP.
Depois da grande vitória de Bernie Sanders no New Hampshire, a campanha do Senador pelo Vermont perdeu algum gás e Hillary garantiu uma vitória (ainda que por curta margem) no Nevada e prepara-se para obter um triunfo folgado na primária de hoje na Carolina do Sul. Assim, tudo indica que a ex-Secretária de Estado vai chegar à Super Tuesday com três vitórias contra apenas uma de Bernie Sanders. 
A 1 de Março, com muitos Estados sulistas, uma zona onde os Clinton sempre foram fortes, a irem a votos, Hillary poderá garantir uma vantagem em delegados suficiente para se tornar, logo aí, a presumível nomeada democrata. Será também importante perceber como vota, na Super Tuesday, o Massachussetts, Estado vizinho do Vermont e bastante liberal. Se Hillary conseguir derrotar Sanders no seu próprio terreno, então a corrida estará mesmo terminada. 
E se a disputa no lado democrata parece começar a desequilibrar-se a favor daquela que era apontada desde o início como a grande favorita, já na ala republicana estamos perto de assistir a uma enorme surpresa. Donald Trump, o magnata do imobiliário nova-iorquino, garantiu vitórias na Carolina do Sul e no Nevada, o que, juntamente com o triunfo no New Hampshire, constitui um hat trick que o torna o frontrunner na disputa pela nomeação presidencial republicana.
Confesso que nunca levei muito a sério a candidatura de Trump, e só a partir do New Hampshire comecei a perceber que The Donald pode mesmo ir até ao fim e ser o adversário de Hillary Clinton em Novembro. Agora, porém, parece claro que a nomeação de Trump é perfeitamente possível e, se calhar, até provável. Aproveitando-se do enorme descontentamento dos eleitores republicanos com o establishment do seu partido e de um enorme leque de candidatos que dispersou o voto dos eleitores tradicionais, Donald Trump explorou todos os seus trunfos e qualidades, fazendo uma campanha baseada na sua notoriedade, usando e abusando de frases bombásticas e até disparatadas, garantindo tempo de antena e concentrando em si todas as atenções, retirando espaço aos políticos de carreira e levado a narrativa da campanha para longe dos temas políticos, que não domina.
No último debate, Trump foi alvo de todos os ataques, com Ted Cruz e Marco Rubio, os adversários que restam (Ben Carson continua na corrida, mas é um non factor), a unirem esforços contra o líder da corrida. Terá sido a primeira vez que Donald Trump se sentiu verdadeiramente acossado nos debates televisivos. Sofreu alguns duros golpes (em especial de Rubio), mas, ainda assim, não foi ao tapete. 
Ontem, no dia seguinte ao debate, Trump conseguiu imediatamente recuperar dos eventuais danos que havia sofrido no debate, com o anúncio do apoio de Chris Christie à sua candidatura. O actual Governador de New Jersey e ex-candidato presidencial (desistiu após o New Hampshire) tornou-se no primeiro grande nome do establishment republicano a apoiar o bilionário de New York. No mesmo dia, também Paul LePage, Governador do Maine, declarou o seu endorsement a Trump, o que demonstra que algumas figuras do GOP começam a perceber que Donald Trump será o vencedor das primárias e querem ser os primeiros a escolher o "cavalo" vencedor, com todo o significado que isso poderá ter, mais tarde, quando o nomeado tiver de escolher o seu vice-presidente ou, caso seja eleito, o seu cabinet.
Numa corrida tradicional, com as vitórias já amealhadas por Trump e com a vantagem que tem nas sondagens, Donald seria já o presumível nomeado republicano. Contudo, já vimos que esta é tudo menos uma corrida tradicional. Marco Rubio recuperou depois do péssimo debate no New Hampshire e conseguiu o segundo lugar na Carolina do Sul e no Nevada. O establishment republicano tem-lhe dado o seu apoio e Mitt Romney, porventura a maior figura actual do GOP, já anunciou o seu endorsement ao Senador da Florida. Ainda assim, Rubio não conseguiu subir o suficiente nas sondagens para destronar Donald Trump e, ainda por cima, os Estados que vão a votos na Super Tuesday não lhe são muito favoráveis. Por isso, precisará de minimizar os danos a 1 de Março e vencer as primárias da Florida e do Ohio, a 15 de Março se quiser manter vivas as suas hipóteses.
Ted Cruz ainda se mantém na corrida, mas, na Carolina do Sul, nem sequer conseguiu ser a primeira escolha do eleitorado evangélico, o seu grande alvo. E se, nesse Estado do Sul, com eleitores profundamente conservadores, o Senador do Texas não foi além do terceiro lugar, não vejo que rumo possa Cruz tomar em direcção à nomeação. Talvez a sua melhor opção seja manter-se o mais tempo possível na corrida, de forma a ganhar notoriedade e a estabelecer uma marca junto dos eleitores conservadores, com vista a uma segunda candidatura presidencial.
Mas não vale a pena adiantarmo-nos muito nas previsões, porque, como já vimos, tudo pode acontecer e as coisas, em política, mudam muito depressa. Veremos como corre, hoje, a primária democrata na Carolina do Sul e, na Terça-feira, a Super Tuesday. Depois disso, já podemos tirar melhores conclusões sobre quem irá disputar a Casa Branca na eleição geral do Outono. Contudo, se tivesse, neste momento, de apostar o meu dinheiro, teria de dizer que teremos um embate entre Hillary Clinton e Donald Trump. Quem diria...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A vitória dos outsiders

O New Hampshire é conhecido por premiar candidatos improváveis, ou, como lhe chamam os norte-americanos, os mavericks. Em 1992, Bill Clinton tornou-se o comeback kid ao conseguir um bom resultado no Estado; em 2000 foi John McCain que derrotou o super poderoso George W. Bush e em 2008 Hillary Clinton deu a volta às sondagens e derrotou Barack Obama. Este ano, os eleitores do granite state voltaram a demonstrar a sua faceta independente e irreverente ao escolherem para vencedores das suas primárias dois candidatos que correm por fora do establishment de cada um dos dois grandes partidos políticos dos Estados Unidos: Bernie Sanders, pelos democratas, e Donald Trump, pelo GOP. Os resultados oficiais ainda não estão totalmente apurados, mas nunca houve dúvidas quanto aos vencedores - foram declarados por todas as estações logo no fecho das urnas no New Hampshire. 
Bernie Sanders derrotou copiosamente Hillary Clinton, com uma vantagem de cerca de 20 pontos percentuais, confirmando as sondagens mais optimistas. Com este resultado, o senador do Vermont ganha momentum para enfrentar as próximas primárias, na Carolina do Sul e no Nevada. Para ser competitivo nesses Estados, Sanders tem de apelar ao voto das minorias (os afro-americanos no primeiro Estado e os hispânicos no segundo), coisa que não tem conseguido fazer de forma eficaz. Contudo, a sua enfática vitória no New Hampshire dá-lhe uma nova legitimidade política e eleitoral e isso pode fazer com que os eleitores democratas que contavam votar em Hillary (alguns deles por falta de alternativas viáveis) olhem com mais atenção para a candidatura de Bernie e se sintam atraídos pela sua mensagem anti-establishment, anti-Wall Street e marcadamente liberal - ou socialista.
Por sua vez, Hillary Clinton, sofreu um duro golpe no New Hampshire, um Estado que lhe trazia tão boas recordações. Terá mantido os seus eleitores de 2008, quando conseguiu 39% dos votos, mas parece ter sido incapaz de atrair novos votantes, perdendo de forma esmagadora o voto dos jovens e dos independentes, com este último grupo a deslocar-se às urnas em grande número e, na maioria dos casos, para votar em Sanders. Agora, Hillary terá de contrariar a narrativa negativa que se criará à volta da sua campanha e reafirmar a sua posição de destacada frontrunner. Para o fazer, nada melhor do que uma dupla vitória na Carolina do Sul e no Nevada, mas, para isso, terá de encarar mais seriamente a ameaça de Bernie Sanders pela sua Esquerda. Ontem, no seu discurso de concessão de derrota, a ex-Secretária de Estado esforçou-se por fazer passar uma mensagem liberal, tentando "chegar" ao eleitorado de Sanders. Veremos se isso será suficiente.
Do outro lado, no Partido Republicano, Donald Trump alcançou um sólido triunfo, com mais de um terço dos votos e compensou a sua derrota no Iowa. Decorridas as duas primeiras eleições, Trump ficou sempre nos dois primeiros lugares e reforçou o seu estatuto de frontrunner.
Mas as boas notícias para The Donald não se ficam pela sua vitória. Isto porque os resultados dos restantes candidatos foram praticamente perfeitos para as hipóteses da candidatura presidencial do bilionário nova-iorquino. Com os votos muito dispersos pelos candidatos do establishment, todos eles muito próximos uns dos outros, tudo indica que seguirão (quase) todos na corrida, o que continuará a dispersar os votos dos republicanos mais tradicionais e mais moderados. É um facto que o apoio de Trump atingiu o seu tecto máximo, mas se um terço dos votos for suficiente para ir ganhando eleições, então Donald Trump não precisará de mais votos para ser o nomeado republicano (algo que continuo a considerar improvável, ainda que cada vez mais possível).
New Hampshire também correu bem para John Kasich que terá alcançado o segundo posto, depois de um sprint final que lhe terá valido muitos apoios. Ainda assim, Kasich apostou tudo neste Estado e não conseguiu mais do que 16% dos votos. Com um discurso demasiado moderado para Estados como os que irão a votos nas próximas semanas e sem estruturas nesses locais, não vejo como o Governador do Ohio ainda possa ser uma força nestas primárias e deverá ter o mesmo percurso de Jon Huntsman, em 2012. 
Como havia antecipado, Ted Cruz conseguiu um resultado relativamente positivo, tendo em conta as suas expectativas no New Hampshire e pode mesmo, depois de estarem contados todos os votos, ocupar o último lugar do pódio. Depois do Iowa, o governador do Texas tornou-se o último verdadeiro representante do movimento conservador e isso é-lhe benéfico a nível eleitoral, garantindo-lhe uma base de apoio estável e que o levará a disputar a eleição até ao final, ou muito perto disso. 
Na interessante disputa pessoal entre Jeb Bush e Marco Rubio, temos, neste momento, um resultado muito próximo, com ligeira vantagem para o irmão de W. Um dos principais destaques da noite de ontem tem de ser, obrigatoriamente, a implosão de Marco Rubio que, depois do Iowa, parecia estar bem lançado para se tornar o principal opositor de Trump e Cruz e, porventura, o favorito a conseguir a nomeação presidencial republicana. O debate do passado Sábado, porém, tudo mudou e Rubio poderá não ter passado de um péssimo quinto posto no New Hampshire. Veremos, nos próximos tempos, se o senador da Florida é capaz de se reagrupar e voltar em força. O seu mau resultado teve, ainda assim, o condão de dar uma nova oportunidade a Jeb Bush, que, não alcançando um resultado que possa ser encarado como positivo, lhe permite continuar na corrida pelo menos até à Carolina do Sul.
Mas o New Hampshire deverá ter marcado o ponto final nas campanhas de Chris Christie, Carly Fiorina e Ben Carson. Christie, que chegou a ser um dos favoritos, nunca descolou nas sondagens e tinha muita bagagem para umas primárias republicanas (o bridgegate ou o abraço a Obama). A prestação no último debate em que arrasou Rubio deu-lhe ânimo, mas não foi suficiente. Ontem à noite, anunciou que vai reanalisar a sua campanha, o que significará, certamente, o final da candidatura à Casa Branca. Fiorina e Carson, abaixo dos 5%, sem apoios, dinheiro ou motivos para continuarem, deverão seguir o mesmo caminho.
Realizada mais uma primária, a corrida continuará e parece estar para durar, com a certeza que nada é certo e tudo pode acontecer. Afinal, se há uns meses alguém dissesse que Bernie Sanders e Donald Trump seriam os vendedores da primária do New Hampshire, seria rapidamente apelidado de louco.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Olá, New Hampshire

As eleições primárias estão de volta, hoje, com a realização da primária do New Hampshire, a primeira neste formato, já que, na semana passada, no Iowa, realizou-se uma eleição em formato de caucus. Agora, num Estado mais homogéneo politicamente - os eleitorados democratas e republicanos não são tão polarizados - teremos uma primária que poderá ser importante na definição da corrida.
Do lado democrata, tudo indica que teremos uma vitória de Bernie Sanders, com todas a sondagens a darem uma vantagem folgada ao senador do vizinho Estado de Vermont. Hillary Clinton já praticamente desistiu de disputar a primária que lhe deu uma surpreendente vitória sobre Barack Obama, há oito anos, e que a lançou para uma longa e renhida disputa com o actual presidente norte-americano. 
Segundo as últimas notícias, Hillary não está contente com o modo como a sua campanha está a decorrer e já se fala em mexidas no seu staff, em especial no sector da comunicação digital, que está a ser claramente ultrapassada pela mensagem de Sanders. Ora, esse sucesso da campanha de Sanders nos meios digitais tem muito a ver com a penetração de Bernie no eleitorado jovem, que apoia maciçamente o único senador declaradamente socialista nos Estados Unidos. Se esse sucesso nos jovens é causa ou efeito das campanhas digitais, é mais difícil de saber. Contudo, David Axelrod, o guru da estratégia de comunicação de Obama terá alguma razão no que diz sobre a campanha de Clinton.
Será que, como em 2008, as sondagens voltarão a estar erradas ou Hillary sofrerá mesmo uma dura derrota no The Granite State? A crer na atitude de Clinton e nas sondagens - a média do Pollster dá uma vantagem de cerca de 14% a Bernie Sanders - será mesmo o senador do Vermont a declarar vitória. Ainda assim, Hillary Clinton conta com uma larga vantagem a nível nacional e nos próximos Estados a ir votos, fruto da sua enorme superioridade estrutural e organizacional. Continuará, por isso, a ser a grande favorita a obter a nomeação presidencial pelo Partido Democrata.
Na facção republicana, as coisas não são tão simples e, em vez de termos uma corrida bipolarizada, temos uma disputa que conta ainda com oito concorrentes. Depois da vitória de Ted Cruz no Iowa, o cenário muda de figura no Iowa, onde o eleitorado republicano é bem mais moderado e com menos incidência de votantes evangélicos. Assim, o senador do Texas não repetirá a vitória do caucus do Iowa e deveremos assistir ao primeiro triunfo do grande animador deste ciclo eleitoral: Donald Trump.
The Donald tem liderado com larga vantagem em todas as sondagens no New Hampshire e, apesar de os seus números a nível nacional terem perdido algum fulgor depois do Iowa, no Granite State mantiveram-se praticamente inalterados. É possível, porém, que a sua vitória não seja tão expressiva como indicam os números das sondagens, porque, como se viu no Iowa, o seu apoio eleitoral é extremamente volátil. Em contrapartida, os eleitores que ainda não decidiram o seu sentido de voto, têm poucas probabilidades de optar pelo mogul do imobiliário. Se Trump obtiver uma vitória curta, poderemos assistir ao início do fim da sua campanha.
Com o primeiro lugar praticamente assegurado, interessa perceber quem ficará com o segundo posto. Esse lugar deverá ser disputado por Marco Rubio e John Kasich, com Ted Cruz e Jeb Bush a espreitarem uma surpresa. Até há poucos dias atrás, esperava-se que Rubio solidificasse o seu bom resultado no Iowa, mas a sua desastrosa participação no último debate antes desta primária travou o seu momentum e estagnou os seus ganhos face a Trump. Em sentido contrário, Chris Christe pode aproveitar a sua forte prestação no debate para catapultar a sua campanha que parecia em queda livre rumo à desistência após o New Hampshire e pode ser uma das surpresas da noite.
John Kasich tem feito um forcing final no New Hampshire, fruto da moderação do seu discurso e das centenas de membros do seu staff que importou do Ohio, onde é Governador. Também Jeb Bush recuperou alguma coisa nos últimos dias e um resultado acima dos 10% pode manter viva a sua campanha, que conta ainda com forte apoio financeiro por parte dos Super PACs por detrás da sua candidatura. 
Com o voto moderado e do establishment dividido entre Rubio, Christie, Kasich e Bush, Ted Cruz corre sozinho pelo voto ultraconservador, o que lhe valerá sempre um resultado nos quatro primeiros e o manterá bem lançado na corrida. Ben Carson não repetirá o quarto lugar do Iowa e ficará nos low single digits, à imagem de Carly Fiorina que continuará a ser um non factor nestas eleições.
Resumindo, a corrida democrata pouco se definirá depois do New Hampshire, com Bernie Sanders a fazer pela vida de primária em primária, enquanto que Hillary Clinton continuará a sua maratona rumo à nomeação, salvo uma enorme surpresa. No GOP, poderemos assistir a mais duas ou três desistências, mas com o travão na ascensão de Marco Rubio, outros candidatos como Jeb Bush, John Kasich ou Chris Christe poderão ter votos suficientes para se manterem mais um pouco na corrida. Estamos, todavia, no campo das especulações e as decisões que realmente importam serão tomadas mais logo pelos eleitores do New Hampshire. E nós cá estaremos para assistir.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Hillary a tentar evitar que 2008 se repita

Há oito anos como agora, Hillary Clinton era a grande favorita a conseguir a nomeação presidencial pelo Partido Democrata. Contudo, um terceiro lugar no Iowa, perdendo para um surpreendente Barack Obama e para um John Edwards que cedo cairia em desgraça, fez soar os alarmes na Hillaryland e acabaria por marcar o início do fim das hipóteses da antiga Primeira-Dama nesse ciclo eleitoral.
Desta vez, Clinton é novamente vista como uma a inevitável nomeada democrata, mas voltou a ver a sua suposta imbatibilidade ser posta em causa por um improvável Senador. Em 2016, é Bernie Sander que com uma campanha em muito semelhante à de Obama (pela mensagem de mudança do status quo e pelos eleitores que atrai - principalmente os jovens) ameaça Hillar pela sua Esquerda. 
No New Hampshire, Bernie Sanders está bem lançado para derrotar a ex-Secretária de Estado, mas, no Iowa, Hillary tem surgido à frente nas sondagens e conta derrotar o Senador do Iowa para evitar que este ganhe momentum e que se diga que it's 2008 all over again. Até porque, de facto, 2016 não é em nada semelhante com a eleição de há oito anos. Sanders é um candidato mais marginal do que Obama (auto-denomina-se um democrata socialista, uma denominação com uma conotação muito negativa nos Estados Unidos), ao contrário do actual Presidente não conseguiu apoios no establishment do Partido Democrata e não tem um aparelho montado a nível nacional como aquela formidável estrutura que apoiava Obama em 2008.
Apesar disso, Bernie Sanders montou uma eficaz campanha, concentrando-se nos dois primeiros Estados das primárias, o Iowa e o New Hampshire, com uma mensagem populista anti-Wall Street que vale cada vez mais votos e com uma aposta nos grassroots que o levou a encher comícios com vários milhares de apoiantes entusiastas um pouco por todo o lado onde passou. Com isso, tornou-se uma ameaça para Hillary Clinton que se viu forçada a gastar mais tempo e dinheiro nos early states do que aquilo que eventualmente gostaria. 
Hoje, na véspera do início das primárias, percebe-se que é muito possível que Sanders consiga mesmo uma dupla vitória no Iowa e no New Hampshire, algo impensável até há pouco tempo atrás. Ainda assim, e mesmo que isso seja um grande contratempo para Hillary, é pouco provável que não seja a esposa de Bill Clinton a nomeada democrata, já que, ao contrário do seu principal adversário, conta com uma estrutura a nível nacional que lhe permitirá recuperar rapidamente dos desaires que possa sofrer nas primeiras contendas. Além disso, conta com o apoio em peso de todo o seu partido, o que lhe garante, à partida, uma grande vantagem nos superdelegados, que podem decidir a corrida caso esta seja muito equilibrada. Finalmente, é inegável que Hillary Clinton é uma das mais bem preparadas candidatas presidenciais da história do país, como recordou o New York Times no editorial em que anunciou o seu apoio à antiga Senadora do Estado de New York.
Assim, deveremos assistir a uma interessante disputa na fase inicial das primárias democratas, a começar já amanhã, no Iowa. Com as sondagens a mostrarem os dois adversários muito próximos, é difícil prever quem vencerá. O formato de caucus pode favorecer Bernie Sanders, cujos apoiantes se encontram muito motivados, mas Hillary conta com o apoio do eleitorado mais moderado e com um nome reconhecido por praticamente 100% dos eleitores.
Seja como for, e ao contrário do que sucede do lado republicano, parece-me que o Iowa não será decisivo na escolha do nomeado democrata para a corrida à Casa Branca. Isto porque, como expliquei atrás, parece-me muito improvável que Bernie Sanders consiga mais do que retardar a vitória de Hillary. Até porque o Senador do Vermont terá como principal objectivo obrigar Clinton a "manter-se honesta" na sua campanha, ou seja, fazer com que a presumível nomeada se mantenha ancorada a um discurso mais liberal (leia-se, de Esquerda) do que seria previsível caso não tivesse oposição nas primárias democratas.
Falta falar de Martin O'Malley, ex-Governador do Estado do Maryland, cuja campanha nunca descolou e que tem tido números insignificantes nas sondagens. À espera de um milagre que lhe permita obter oxigénio para se manter na corrida, O'Malley parece remetido para a irrelevância nestas eleições. 

Para o fim, fica a minha previsão para amanhã. Se não houver surpresas, acredito que Hillary ganhará, mas com uma curta margem para Bernie Sanders. O'Malley não deverá passar dos 3%.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Hillary is getting started

Como era esperado, Hillary Clinton anunciou, ontem, o início oficial da sua candidatura à Casa Branca. Com uma mensagem no Twitter e este vídeo, com o título Getting Started, a grande favorita a selar a nomeação pelo Partido Democrata arrancou a sua campanha presidencial. Um anúncio simples e discreto, mas que termina com anos de indefinição sobre a candidatura presidencial da política mais conhecida, mas também mais controversa, dos Estados Unidos. Agora sim, já podemos dizer que a campanha presidencial de 2016 está lançada.