Mostrar mensagens com a etiqueta midterms. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta midterms. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

As midterms de 2014: um balanço

Uma semana após serem conhecidos os resultados das eleições intercalares de 2014, é altura de fazer um balanço do que se passou, tentando perceber as razões que levaram a uma vitória imperial do Partido Republicano e a uma estrondosa derrota dos democratas. E, a meu ver, o desfecho da noite eleitoral explica-se mais pelo demérito do Partido Democrata do que propriamente pelo mérito do GOP.
Em primeiro lugar, importa referir que para estas eleições nunca se poderia esperar um resultado positivo para os democratas. As midterms que coincidem com o sexto ano de mandato de um Presidente são, por norma, muito penalizadoras para o partido que ocupa a Casa Branca. Para piorar as coisas, Barack Obama é um presidente impopular nos Estados Unidos, ainda que mantenha bastiões de defensores nos principais territórios democratas. Contudo, este ciclo eleitoral desenrolou-se principalmente em red e purple states, ou seja, Estados republicanos ou moderados, o que potenciou a carga negativa da imagem do Chefe de Estado para os candidatos democratas.
Se em 2010 e 2012 o Partido Democrata conseguiu algumas vitórias improváveis contando com a preciosa colaboração dos candidatos republicanos, alguns deles verdadeiramente inaptos para concorrerem a cargos de dimensão nacional, desta vez o GOP não prestou essa ajuda aos seus adversários. De facto, o establishment republicano foi capaz de evitar e derrotar candidatos mais radicais e conseguiu controlar o Tea Party. Para isso, foi muito importante o recrutamento de concorrentes de qualidade, mas também o controlo dos principais financiadores do partido (como os irmãos Koch), que, este ano, fecharam a torneira aos fringe candidates em detrimento daqueles que tinham o apoio da estrutura partidária.
Assim, a estratégia republicana centrou-se principalmente em não cometer erros, evitando candidatos improváveis, mas também gaffes comprometedoras como as que fizeram cabeçalhos de jornais nas duas últimas eleições e que prejudicaram seriamente os resultados eleitorais do partido. Por outro lado, assistimos a uma vazio ideológico por parte da maioria dos candidatos republicanos, que consideraram (e, pelos visto, bem) que quanto menos dissessem, melhor. E quando os concorrentes do GOP falavam era, invariavelmente, para colar a imagem dos seus opositores à do impopular Obama. 
Do lado democrata, a campanha eleitoral não podia ter sido mais desastrada. Como cada vez mais acontece, os operativos democratas planearam as suas estratégias com base quase exclusivamente nas sondagens. Desse modo, vimos os candidatos democratas a centrarem o seu discurso nos temas normalmente associados ao seu eleitorado mais predominante, as mulheres, com destaque para o direito ao aborto. Ao mesmo tempo, os democratas, assustados com os números de Obama nos estudos de opinião, fugiram a sete pés do seu Presidente e do seu currículo. 
Todavia, considero que esse foi o principal erro do Partido Democrata. Em vez de renegarem Barack Obama e o seu historial na Casa Branca, os democratas deveriam ter abraçado o legado do seu líder e feito campanha com base nos seus feitos. Podiam ter defendido o estímulo económico que terá evitado o colapso da economia do país; podiam ter apontado para os números do desempenho económico norte-americano, com o PIB a crescer acima dos 3% e o desemprego abaixo dos 6%; podiam ter recordado que o Obamacare é cada vez menos vilipendiado e veio cobrir dezenas de milhões de norte-americanos até então sem seguro de saúde; podiam ainda ter apostado na defesa dos direitos de milhões de imigrantes ilegais.
Mas não. Os democratas preferiram atirar tudo isso para debaixo do tapete com medo que o eleitorado republicano e independente os penalizasse nas urnas. O que conseguiram, porém, foi desmobilizar e desmotivar o seu eleitorado de base, que se mantém, desde 2008, com Barack Obama. E foram esses mesmos eleitores, como os hispânicos (que viram Obama a sacudir a reforma da imigração para uma qualquer data após as eleições), os afro-americanos e, principalmente, os jovens que ficaram em casa no passado dia 4 de Novembro e contribuíram, por isso, para uma esmagadora republicana nas midterms.
Durante os próximos dois anos, os democratas farão uma inevitável travessia no deserto, sendo minoritários nas duas câmaras do Congresso, detendo muito menos governos estaduais do que os republicanos e preparando a sucessão de um Presidente lame duck. Em 2016 terão uma nova oportunidade. Será que aprenderão com os erros, como fizeram, este ano, os republicanos?

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

E tudo a onda levou

Estão contados quase todos os votos das eleições intercalares de 2014 nos Estados Unidos e o resultado é fácil de descrever: uma imponente vitória do Partido Republicano.  Confirmaram-se os piores receios democratas e a noite eleitoral de ontem revelou-se uma onda dos republicanos que venceram a toda a linha, com praticamente todas as corridas assinaladas como competitivas a caírem para o lado dos candidatos do GOP.
Nas eleições para o Senado, as melhores expectativas republicanas terão sido superadas e o GOP retirou sete assentos aos democratas, sendo que este número deverá aumentar para nove, quando todos os votos estiverem contados no Alaska, que deverá ir para a coluna vermelha, e quando se realizar a segunda volta da corrida no Louisiana, que deverá cair para o lado republicano. No outro Estado ainda sem resultado oficial, a Virginia, o Democrata Mark Warner deverá ser sagrado vencedor. Dessa forma, o Senado ficaria dividido entre 46 democratas (incluindo dois independentes) e 54 republicanos, uma assinalável transferência de poder e que coloca mesmo o Partido Republicano em condições de aguentar a previsível investida democrata nas eleições de 2016.
No que diz respeito à Câmara dos Representantes, cuja recuperação de controlo não passava pela cabeça ao democrata mais optimista, o desfecho não foi diferente. Esperava-se um resultado dentro do de há dois anos, ou, no máximo, um dos dois partidos a ganhar uma meia dúzia de lugares ao adversário. Porém, o Partido Republicano obteve um novo triunfo, conseguindo aumentar ainda mais a sua maioria na câmara baixa. Até ao momento, o GOP já conquistou 13 novos lugares, mas esse número poderá subir quase até aos 20, quando todas as corridas tiverem sido encerradas. Assim sendo, os republicanos passarão a ocupar cerca de 250 dos 435 lugares na House, ficando com uma sólida maioria que poderá resistir durante vários ciclos eleitorais.
Finalmente, nas eleições para governos de Estados federados, assistiu-se, invariavelmente, a uma vitória dos republicanos, com destaque para os resultados na Florida, onde Rick Scott segurou o seu cargo de Governador frente ao favorito Charlie Crist que, depois de ter sido Governador do Estado como republicano e de ter concorrido ao Senado como independente, tentou o regresso à mansão de governador do sunshine state, desta vez como democrata, mas sem sucesso, no Wisconsin, Estado onde Scott Walker garantiu a reeleição, posicionando-se, assim, para uma previsível candidatura à Casa Branca, em 2016, e no Illinois, território democrata, mas que não permitiu a reeleição a Pat Quinn, o actual Governador democrata, que perdeu a corrida para Bruce Rauner, o seu opositor republicano. 
Para os democratas, apenas a reconquista da Pennsylvania e e vitória no Colorado (ambas as corridas para Governador do Estado) podem ser encarados como resultados positivos, mas que não chegam, longe disso, para atenuar aquela que foi uma péssima noite eleitoral (foi mesmo pior do que o shellacking de 2010) e cujas consequências darão muito que falar nos próximos tempos. 

Vitória republicana

A noite ainda não terminou nos Estados Unidos, mas em Portugal a madrugada já vai longa e o sono começa finalmente a levar a melhor. Análises mais profundas ficarão para os próximos dias, mas, neste momento, parece evidente que as eleições intercalares de 2014 resultaram, como se esperava, numa vitória do Partido Republicano. 
Quando o próximo Congresso tomar posse, o GOP passará a deter a maioria dos assentos nas duas câmaras. Sem surpresas, manteve o controlo da Câmara dos Representantes (deverá mesmo ganhar mais alguns lugares) e, principalmente, conseguiu destronar o Partido Democrata da maioria no Senado. À hora que escrevo, ainda não são conhecidos os resultados na North Carolina, no Virginia (deverá cair para os democratas), no Iowa, no Kansas e no Alaska, mas esses Estados apenas ditarão a dimensão da vitória republicana.
No que diz respeito aos Governadores, os democratas ainda podem atenuar um pouco os danos se, à vitória na Pennsylvania juntarem um triunfo na Florida (neste momento, o sunshine state está muito renhido e será decidido no phono finish). Com o ganho destes dois grandes e importantes Estados ao GOP, os democratas teriam, pelo menos, alguns motivos de festa que serviriam de consolo para uma noite, no cômputo geral, muito negativa.
Ainda assim, e analisando as exit polls, parece-me que os democratas perderam principalmente, por falta de comparência. Olhando para os números, percebe-se que o Partido Democrata conseguiu atingir os valores habituais junto da sua coligação de eleitores (nomeadamente, afro-americanos, hispânicos jovens e mulheres). Contudo, esses eleitores deslocaram-se às urnas em menor número do que o necessário para que os democratas alcançassem melhores resultados. Por exemplo, em 2012, 72% dos votantes eram brancos, menos 3 pontos percentuais do que hoje, quando se sabe que a tendência da população dos Estados Unidos é tornar-se mais diversa. Por isso, não podem os republicanos retirar grandes ilações dos resultados de hoje no que diz respeito à corrida presidencial de daqui a dois anos.

Segunda volta no Louisiana

No Louisiana, já se sabe que não vai haver vencedor esta noite. Como nenhum dos candidatos obteve uma maioria absoluta, haverá lugar, a 6 de Janeiro, a uma segunda volta entre a democrata Mary Landrieu e o republicano Bill Cassidy na disputa de um lugar no Senado. Assim sendo, e dependendo dos resultados nos restantes Estados, pode acontecer que o controlo do Senado pode ficar adiado por mais dois meses. Todavia, nesta altura, o mais provável é que o Partido Republicano consiga alcançar os 51 assentos necessários para retirar a maioria na câmara alta do Congresso aos democratas.

GOP rouba primeiro assento no Senado aos democratas

Os republicanos já conseguiram "roubar" um assento no Senado aos democratas. Logo após o fecho das urnas na West Virginia, a CNN anunciou a vitória de Shelley Moore Capito. Este era um triunfo mais que aguardado para o GOP que, com este resultado, ficam precisam "apenas" de recuperar outros cinco lugares no Senado para retirar o controlo da câmara alta ao Partido Democrata. 

Mitch McConnell reeleito

Acabaram de fechar as urnas nos primeiros Estados e já há algumas corridas declaradas pelos principais meios de comunicação social. Entre elas, destaque para a vitória de Mitch McConnell no Kentucky. Assim sendo, o líder republicano do Senado garante um novo mandato de seis anos. Este era um resultado previsível, mas que chegou a estar em causa durante a campanha. Agora, McConnell terá de esperar para saber se, em Janeiro, continuará como líder da minoria, ou, se por outro lado, passará a chefiar a maioria no Senado.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Too close to call

As midterms são já na próxima Terça-feira, mas continua tudo em aberto no que diz respeito à maioria da câmara alta do Congresso norte-americano. Com o controlo da Câmara dos Representantes bem seguro em mãos republicanas e com as eleições para os governos estaduais a serem mais importantes a nível local do que nacional, resta a "batalha" pelo Senado como principal ponto de interesse para a noite eleitoral do dia 4 de Novembro.
Na ponta final da campanha, o Partido Republicano continua favorito para alcançar a maioria, mas o grande número de sondagens com resultados diferentes em vários Estados torna mais difícil fazer uma previsão de confiança sobre o que acontecerá na noite eleitoral. Em eleições intercalares, por norma bem menos participadas do que em anos coincidentes com eleições presidenciais, as sondagens são, também, tradicionalmente menos precisas. Por exemplo, em 2010, todos os estudos de opinião apontavam para a derrota do líder da maioria democrata no Senado, Harry Reid. Contudo, como hoje sabemos, o senador do Nevada saiu vitorioso e, inclusive, por uma margem relativamente folgada.
Além disso, as sondagens em alguns dos Estados cujas corridas serão decisivas para o desfecho final têm um historial de pouca fiabilidade. Entre eles, o caso mais paradigmático é o do Alaska, com um eleitorado disperso, pouco implantado e de difícil acesso por telefone (o método de contacto da grande maioria das sondagens). Os números das sondagens no Kansas e no South Dakota têm também de ser olhados com alguma reserva, já que estes dois Estados, ambos profundamente republicanos, não costumam gerar corridas competitivas. Por isso, os analistas e as empresas de sondagens não estão particularmente familiarizados com as realidade política e eleitoral desses Estados, que normalmente não contam para o "totobola" das noites de eleições.
Há ainda o caso da Georgia, onde as leis do Estado obrigam a uma segunda volta, caso o vencedor não alcance uma maioria absoluta dos votos. Ora, com a presença de um candidato libertário na corrida, é bem possível, se não provável, que o cenário de um runoff se concretize. Nesse caso, a segunda volta apenas se realizaria em Janeiro de 2015 (o que pode adiar a decisão do controlo do Senado para essa data), o que dificulta a "tomada de pulso" ao eleitorado, estando essa eventual eleição a mais de dois meses de distância. No Louisiana, também existe a figura do runoff, mas, nesse caso, é pouco provável que o candidato republicano deixe escapar a vitória à primeira volta.
Se a isto juntarmos resultados muito equilibrados que as sondagens vão mostrando no Kansas, na Georgia, no Iowa, no Alaska, na North Carolina, no Colorado e até no Kentucky (e ainda podem haver surpresas noutros Estados), facilmente se percebe que é muito difícil fazer uma previsão sobre o resultado da noite eleitoral da próxima semana no que ao controlo do Senado diz respeito. É certo que os republicanos parecem levar, hoje, uma vantagem importante sobre os democratas, mas, na minha opinião, a corrida está ainda too close to call.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Agenda em dia

Depois de umas merecidas férias, o Máquina Política está de regresso. Durante o período de descanso, muito se passou do lado de lá do Atlântico. Mas vamos por partes:

EUA atacam o ISIS - Depois de dois jornalistas norte-americanos terem sido decapitados pelo Islamic State in Iraq and Syria (ISIS), Barack Obama decidiu agir e, num discurso transmitido em directo pelas principais cadeias dos Estados Unidos, anunciou o seu plano para combater o ISIS, grupo radical que controla já grande parte do Iraque e da Síria. O Presidente informou os cidadãos norte-americanos que os ataques aéreos da Força Aérea dos Estados Unidos já em vigor no território iraquiano serão alargados a regiões da Síria ocupadas pelo ISIS. Além disso, Obama anunciou ainda que colocará mais conselheiros militares norte-americanos no terreno e que aumentará o apoio financeiro e militar às autoridades iraquianas e curdas que combatem o Estado Islâmico. Contudo, Barack Obama frisou que o conjunto de acções agora implementado não contempla o envio de tropas combatentes norte-americanas.
Estas novas medidas são a resposta de Obama ao choque sentido pela opinião pública dos Estados Unidos após a divulgação dos vídeos das decapitações dois dois jornalistas. Contudo, o 44º Presidente norte-americano está numa situação muito delicada, pois sempre defendeu a retirada do Iraque e, agora, está, de facto, a regressar àquele território para uma nova guerra de desgaste sem um fim à vista. Na verdade, este pode ter sido um momento decisivo para o legado de Obama que chegou ao poder como aquele que acabaria com o fim da presença norte-americana no Médio Oriente, mas que pode, como o seu antecessor, deixar a Casa Branca com um conflito em aberto e que terá de ser resolvido pelo seu sucessor.

Eleições intercalares - A menos de dois meses das eleições intercalares, as notícias não podiam ser piores para os democratas. Com uma maioria na Câmara dos Representantes a ser uma mera possibilidade matemática, está também cada vez mais complicada a tarefa do partido de Obama para manter a maioria no Senado. Se as eleições fossem hoje,  segundo tanto Nate Silver como Larry Sabato, o mais provável é que o GOP alcançasse o controlo da câmara alta do Congresso, relegando os democratas para a oposição. 
Nesse caso, o mais provável é que os dois últimos anos do mandato presidencial de Obama fossem praticamente irrelevantes no sector legislativo, dado que sem apoio do Congresso, será praticamente impossível para um presidente relativamente impopular conseguir amealhar apoios para qualquer peça legislativa de relevo (como, por exemplo, a reforma da imigração).

Corrida presidencial - Do lado democrata, não há novidades. Hillary Clinton continua a ser a presumível nomeada democrata e a antiga Primeira-Dama regressará, este Domingo, ao Iowa, o primeiro Estado a ir a votos nas primárias presidenciais. Esta será a primeira vez que Hillary se desloca ao Hawkeye State desde que, em Janeiro de 2008, foi surpreendentemente derrotada por Barack Obama (e também por John Edwards). Tudo indica que a ex-Secretária de Estado entrará mesmo na corrida, isto apesar de ter anunciado esta semana que apenas tomará uma decisão no início do próximo ano. Com todos os outros democratas de peso (que não são assim tantos como isso) a colocarem-se de fora das contas presidenciais para 2016 devido à presença de Clinton, o Partido Democrata não receberia nada bem uma decisão negativa da sua grande estrela quanto à sua candidatura à Casa Branca.
Do lado republicano, o destaque vai para Ted Cruz e para Rand Paul. O primeiro continua a dar mais indicações quanto à sua candidatura presidencial, com o seu chefe de gabinete a deixar esse cargo para assumir maiores responsabilidades políticas (leia-se, eleitorais). Todavia, o Senador pelo Texas foi também notícia pela negativa: numa gala organizada por um grupo de cristãos do Médio Oriente, Cruz abandonou o palco onde discursava, após as suas declarações vincadamente pró-Israel terem sido recebidas pela audiência com fortes vaias. Já em relação ao segundo é praticamente certo que será um candidato presidencial e as suas constantes presenças no New Hampshire, o primeiro Estado a realizar primárias indiciam que o Granite State será o centro da sua estratégia. Ora, tal facto não é surpreendente ou não fosse o eleitorado republicano do New Hampshire um dos mais favoráveis a candidaturas de candidatos com raízes libertárias, como se comprova pelo excelente resultado obtido, em 2012, por Ron Paul (pai de Rand), com 23% dos votos, apenas atrás do vencedor, Mitt Romney.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Obama decidido a recuperar a Câmara dos Representantes

Barack Obama venceu há poucos meses aquela que terá sido a última eleição da sua vida, mas estará já com os olhos postos no próximo ciclo eleitoral, ainda que o seu nome não vá constar dos boletins de voto. Em 2014, haverá eleições intercalares e o Presidente dos Estados Unidos parece determinado a recuperar o controlo da Câmara dos Representantes para o seu partido. 
A tarefa não se avizinha nada fácil, já que o Partido Democrata terá de conquistar 17 assentos na câmara baixa do Congresso ao GOP. Apesar de ser possível, e até provável, que os democratas sejam o partido mais votado nas eleições para a House, a verdade é que a actual distribuição dos círculos uninominais favorece claramente os republicanos que, após as suas vitórias retumbantes nas midterms de 2010, redesenharam os distritos de forma a terem vantagem nas eleições para a Câmara dos Representantes. 
Assim sendo, os democratas terão de obter um excelente resultado para serem capazes de se tornaram novamente maioritários. E é nesse sentido que Obama tem trabalhado, envolvendo-se mais directamente do que nunca no planeamento da estratégia da campanha do próximo ano e, principalmente, concentrando-se em angariar rios de dinheiro para os candidatos democratas serem o mais competitivos possível. Todavia, o contributo do 44º Presidente será principalmente ao nível organizacional e financeiro e menos focado no apoio pessoal aos candidatos no terreno (como, por exemplo, com presenças em eventos de campanha). Isto porque, neste momento, os democratas controlam a grande maioria dos distritos onde o seu candidato presidencial venceu em 2012, pelo que terão de apostar em terrenos onde Obama é relativamente impopular.
Esta nova atitude do Presidente em relação às eleições para o Congresso (noutros ciclos eleitorais mostrou-se bem menos interessado em ajudar o seu partido) prende-se sobretudo com a preocupação em garantir um legado duradouro e efectivo para a sua presidência. Frustrado com a ausência de entendimentos com a oposição republicana no Congresso, Obama já percebeu que a melhor forma fazer passar legislação de relevo neste seu segundo mandato é contar com uma maioria democrata no Capitólio.
Deste modo, Obama aposta na recuperação da Câmara dos Representantes - que terá de ser conjugada com a manutenção da maioria democrata no Senado, o que não é um dado adquirido - para garantir que a sua agenda legislativa será cumprida e que o legado da sua presidência deixará uma profunda marca na história norte-americana. Com esta nova estratégia, Barack Obama parece estar a dizer: "se não te podes juntar a eles (ou eles a ti), derrota-os".

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Os vencedores e derrotados das midterms

Os vencedores
GOP - Há dois anos, quando os democratas juntaram a Casa Branca, uma grande maioria no Congresso - que, no Senado, era mesmo à prova de fillibuster - e a maior parte dos governadores estaduais, muitos pensaram que isto seria o princípio do fim do Partido Republicano. Pois bem, se mais provas eram necessárias, depois das vitórias de 2009 na Virginia, New Jersey e Massachusetts, os republicanos voltaram a demonstrar, ontem, que ainda estão aí para as curvas.
John Boehner - Foi, porventura, o grande vencedor da noite eleitoral. Apesar de ainda ser pouco conhecido a nível nacional, o até agora líder da minoria na Câmara dos Representantes eleva-se à condição de uma das principais figuras políticas norte-americanas, já que será o novo Speaker, substituindo Nancy Pelosi. Da sua relação com Barack Obama (boa ou má) depende o futuro próximo da política dos Estados Unidos.
Marco Rubio - O recém-eleito Senador pelo estado da Florida realizou um percurso brilhante para derrotar (duplamente) Charlie Crist. Numa a corrida a três, conseguiu mesmo mais de 50% dos votos, o que, num estado moderado como a Florida, é um facto assinalável. Pode estar aqui um dos futuros líderes do Partido Republicano.
Harry Reid - Quando já poucos esperavam, o Senador do Nevada conseguiu garantir a reeleição, podendo continuar, pelo menos durante mais dois anos, como líder da maioria no Senado. Contudo, a sua vitória deveu-se mais aos defeitos de Sharron Angle, a sua adversária, do que propriamente à sua popularidade entre o eleitorado.
Democratas da Califórnia - Para os democratas, as eleições na Califórnia representaram uma espécie de oásis no meio de um enorme deserto que foram os seus resultados a nível nacional. Jerry Brown venceu folgadamente o governo do estado, sucedendo ao republicano Schwarzenneger, e Barbara Boxer foi reeleita para o Senado também sem dificuldades.

Os derrotados

Barack Obama - O nome do Presidente dos Estados Unidos não aparecia nos boletins de voto das eleições de ontem. Contudo, parece claro que muitos dos eleitores que se deslocaram às urnas fizeram-no com Barack Obama no pensamento, decididos a expressarem o seu descontentamento com o rumo que o país leva sob o leme do Chefe de Estado.

Nancy Pelosi - A ainda Speaker of the House é uma figura altamente impopular nos Estados Unidos. Assim, não admira que a liderança republicana tenha utilizado a sua imagem para atacar os candidatos democratas um pouco por todo o país. E, tendo em conta os resultados na Câmara dos Representantes, parece que essa estratégia resultou. Pelosi cede a Boehner o lugar de Speaker, mas ninguém pode negar que, nesse cargo, foi uma das mais influentes e bem-sucedidas de sempre.

Russ Feingold e Blanche Lincoln - Estes foram os dois senadores democratas que perderam ontem o seu lugar na câmara alta do Congresso (Arlen Specter já tinha sido derrotado nas primárias). Se o caso de Lincoln é mais compreensível, visto que representa o Arkansas, um estado bastante conservador, já a situação de Feingold é mais surpreendente, dado tratar-se de um senador conceituado e com fama de independente. Porém, num ano em que o sentimento anti-Washington e anti-incumbentes esteve presente de forma muito intensa, a campanha inteligente e sem erros do seu adversário foi suficiente para o derrotar.

Candidatos senatoriais do Tea Party - É um facto que os movimentos Tea Party foram bastante importantes para o rebranding do Partido Republicano e para a onda de entusiasmo entre os conservadores que resultou na vitória de ontem para o GOP. Contudo, não fossem as desastrosas vitórias de candidatos apoiados pelos Tea Party em algumas primárias republicanas, como no Delaware, no Colorado e no Nevada, é quase certo que o mapa do Senado teria ainda mais lugares pintados de vermelho.

Charlie Crist - Quando o Governador da Florida se candidatou ao Senado, a sua vitória parecia um dado adquirido. Contudo, um tal de Marco Rubio surgiu a disputar consigo a nomeação republicana. Quando Crist percebeu que seria incapaz de o bater nas primárias do GOP, deixou o seu partido de sempre para concorrer na eleição geral como independente, onde foi mesmo copiosamente derrotado pelo mesmo Rubio.

Controlo de danos no Senado

Se nas eleições para a Câmara dos Representantes a vitória republicana foi em toda a linha, no Senado os democratas aguentaram-se melhor. Faltando ainda encontrar os vencedores em três corridas, o Partido Democrata tem já garantidos 51 senadores, o que lhes garante a maioria. Além disso, nas três eleições - Colorado, Washington e Alasca - ainda indefinidas têm boas hipóteses de vencer nas duas primeiras, dado que grande parte dos votos por contar nestes estados são referentes a distritos tendencialmente democratas. No Alasca, Lisa Murkowski leva vantagem sobre Joe Miller. Este resultado, porém, não terá qualquer influência no elenco do Senado, já que qualquer um dos dois, uma vez no Senado, sentar-se-á na bancada republicana.
Ao início da noite, os democratas chegaram a estar bem colocados para vencer no Illinois e na Pennsylvania. Contudo, a contagem final viria a traduzir-se numa vitória dos candidatos republicanos, ainda que por uma margem apertada. No Illinois estava em jogo o antigo lugar de Obama, que agora passará a ser ocupado pelo republicano Mark Kirk, ainda assim um dos candidatos mais moderados apresentados pelo GOP neste ciclo eleitoral. Por seu lado, Pat Toomey, que venceu na Pennsylvania, é consideravelmente mais conservador do que é tradicional num senador eleito por este estado. Teve, porém, de enfrentar uma dura batalha pela vitória, visto que o democrata Joe Sestak provou ser um candidato de muito valor, lutando praticamente até ao último voto.
A melhor notícia da noite de ontem para os democratas veio do Nevada, onde Harry Reid bateu a candidata tea partier, Sharron Angle. Apesar de as últimas sondagens apontarem para uma vitória da republicana, a verdade é que Reid conseguiu ser eleito para um novo mandato. Esta corrida estava carregada de simbolismo, dado que estava em jogo a reeleição do líder da maioria no Senado. Contudo, não é certo que Reid mantenha o seu cargo de liderança, mesmo com esta vitória importante.
Em conclusão, os democratas não tiveram tão maus resultados nas eleições para o Senado como nas que diziam respeito à Câmara dos Representantes. Este fenómeno pode ser explicado por várias razões, mas é preciso lembrar que, em primeiro lugar, isso aconteceu porque, enquanto foi a votos a totalidade da House, no caso do Senado apenas houve eleições para pouco mais de um terço da câmara. Depois, as eleições para o Senado costumam ser acompanhadas mais de perto pelos eleitores, que olham atentamente para os candidatos e fazem uma decisão mais ponderada. Já nas eleições para a Câmara dos Representantes, o factor "partido" tem mais importância e, dessa forma, o voto de "castigo" aos democratas pode ter sido sentido de forma mais premente. 
De qualquer forma, e mesmo que os candidatos democratas vençam no Colorado e em Washington - esses resultados podem ainda demorar vários dias a ser conhecidos - não se poderá dizer nunca que se tratou de uma vitória democrata. Na melhor das hipóteses, o Partido Democrata ficou sem seis assentos no Senado, o que é sempre uma perda significativa. Mas, pelo menos, os democratas conseguiram controlar os danos, evitando a hecatombe que se chegou a pensar ir acontecer.

House sweep

Este é o novo mapa da distribuição dos representantes por partido político relativo à Câmara dos Representantes. Como se pode ver, o vermelho é, agora, a cor dominante, já que a imponente vitória republicana fez com que o GOP passasse a ser o partido maioritário na câmara baixa do Congresso. Agora, quando há ainda 13 corridas sem vencedor anunciado, os republicanos contam com 239 representantes, enquanto os democratas se ficam pelos 183. A perda de lugares pelo Partido Democrata vai já em 60, o que representa uma maior derrota do que em 1994, durante o primeiro mandato de Bill Clinton, quando perderam 52 assentos na House.
Está, assim, concretizada uma pesadíssima derrota para os democratas, que vêem Nancy Pelosi abandonar o cargo de speaker, lugar que passará a ser ocupado pelo republicano John Boehner. A partir de agora, o panorama político dos Estados Unidos vai mudar completamente, já que a Casa Branca de Obama e a Câmara dos Representantes controlada pelo GOP terão de ser capazes de se entender e alcançar compromissos, caso contrário o país ficará ingovernável. E o primeiro passo nesse sentido deverá ser dado pelo Presidente americano, já hoje, quando falar ao país.

Por hoje é tudo

Antes de saber os resultados de eleições decisivas em estados como a California, Washington, Nevada, Colorada e Alasca, parece já claro que os republicanos alcançaram uma vitória de proporções históricas na Câmara dos Representantes, podendo mesmo chegar à marca das seis dezenas de lugares conquistados aos democratas.
Por sua vez, à hora que escrevo estas linhas, a manutenção do controlo do Senado pelos democratas está quase garantida. Durante a noite, chegou mesmo a parecer que as corridas do Illinois e da Pennsylvania iam cair para o lado democrata, mas os candidatos republicanos conseguiram, na recta final, passar para a frente. Contudo, estas são eleições muito equilibradas e as cadeias noticiosas americanas ainda não declararam vitória a favor de nenhum dos lados. 
Nas eleições para os governadores há também algumas eleições interessantes, mas sem nenhuma surpresa de maior, pelo menos até ao momento. Assim, salvo a grande margem da vitória republicana na house, esta tem sido uma noite eleitoral sem grandes surpresas. E, além do Partido Republicano, também as empresas de sondagens estão de parabéns, já que têm acertado na maior parte dos resultados já anunciados. Amanhã, estarei por cá para a divulgação e análise de todos os resultados destas eleições intercalares de 2010.

GOP ganha a Câmara dos Representantes

É praticamente oficial. A CNN e a NBC já declararam a vitória do Partido Republicano na câmara baixa do Congresso. Assim, Nancy Pelosi deixa o cargo de speaker, que deverá passar a ser ocupado pelo republicano John Boehner. Este era um desfecho esperado, mas que não deixa de constituir um enorme triunfo para o GOP. Com a vitória assegurada, falta agora perceber qual a sua dimensão.

Balanço inicial

Apesar de ainda estarmos no início da noite eleitoral, parece já claro que os democratas vão manter o controlo do Senado, podendo mesmo conseguir manter uma maioria mais folgada do que parecia possível. Por outro lado, os republicanos estão a conseguir os ganhos que eram esperados na Câmara dos Representantes. Nesta altura, a maior dúvida é perceber se os resultados deste ano serão superiores ou não aos de 1994, quando os republicanos retiraram 54 assentos aos democratas na House. Pelo que vi até agora, parece-me que a vitória do GOP deverá rondar esses números.

Joe Manchin vence na West Virginia

Está definido o primeiro grande resultado da noite relativo ao Senado: o democrata Joe Manchin venceu na West Virginia, segundo a CNN e a Fox News. Assim sendo, aumentam substancialmente as hipóteses de os democratas manterem o controlo do Senado.

No Senado, ainda não há surpresas

Eleições onde já foram declaradas vitórias: triunfos republicanos no New Hampshire, Ohio, Indiana (que muda de mãos), Kentucky, North Carolina, South Carolina, Georgia e Florida. Os democratas vencem no Delaware, Maryland, Vermont e Connecticut. Sem surpresas, portanto.