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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Obama, o liberal

Depois da tomada de posse formal, pouco antes das doze horas do dia 20 de Janeiro, como manda a Constituição dos Estados Unidos, realizou-se ontem, na escadaria ocidental do Capitólio, a cerimónia tradicional e protocolar diante de uma assistência que terá rondado o milhão de espectadores. Como sempre nestas ocasiões, o momento mais aguardado por todos era o discurso do Presidente, já que os discursos inaugurais costumam marcar o tom para o mandato que se inicia, sendo várias as frases ou soundbytes destes discursos que têm ficado para a história, como o "ask what you can do for you country" de John Kennedy ou o "the only thing we have to fear is fear itself" de Franklin Roosevelt.
Desta vez, não terá havido no discurso de Obama uma frase tão memorável, mas foi, é certo, uma comunicação relevante e que está a dar que falar. Confiante após uma robusta vitória eleitoral e pelos bons números nas sondagens, o 44º Presidente dos Estados Unidos adoptou uma postura determinada e um discurso marcadamente liberal. Talvez por saber que nunca mais terá de concorrer a uma eleição, Obama destacou temas queridos para a Esquerda norte-americana, com destaque para o ambiente e para os direitos dos homosexuais (foi mesmo o primeiro Presidente a dizer a palavra "gay" num discurso inaugural). Fez ainda uma apaixonada defesa do Estado Social e da importância e justiça do papel Estado na defesa dos mais fracos e dos mais necessitados. Aliás, neste ponto, Obama deixou mesmo um "recado" ao ticket que o defrontou nas últimas eleições, quando referiu que os Estados Unidos não são uma nação de takers, numa alusão ao infame comentário dos 47% de Romney.
O Inaugural Speech de Barack Obama foi, por isso, muito bem recebido pelos liberais norte-americanos e Andrew Sullivan até afirmou que Obama se tornará o Ronald Reagan dos democratas, dando a entender que o actual presidente se poderá tornar no grande símbolo político e ideológico da Esquerda Americana. Por outro lado, e como seria de esperar, os conservadores não ficaram particularmente entusiasmados com o discurso de Obama, criticando o tom pouco conciliatório e a ausência de referências a um entendimento com o partido adversário.
No final de contas, este foi um discurso de alguém que, mais do que mudar Washington foi mudado por Washington. Quando assumiu, em 2009, pela primeira vez, a presidência, Obama procurava consensos e tencionava chegar a entendimentos com o Partido Republicano. Contudo, por falhas suas, mas principalmente pelo obstrucionismo de um GOP muito acossado pelas suas facções mais conservadoras, o Presidente norte-americano foi incapaz de alcançar a nova era bipartidária com que sonhava. Assim sendo, a sua nova estratégia é passar por cima dos seus adversários e levar as suas ideias avante. Em resumo, e como escreveu Chris Cillizza no Washington Post, Obama utilizou o discurso de ontem para enviar uma mensagem aos seus detractores: "I'm the President, deal with it".

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Discurso de vitória de Obama

Como é da praxe, Barack Obama esperou pelo final do discurso de concessão de Romney para subir ao pódio e dirigir-se aos cidadãos norte-americanos. O discurso de vitória do Presidente recordou mais o vibrante e sonhador Obama de há quatro anos do que o pragmático candidato desta eleição. Mais uma vez, apelou à unidade nacional e uma das maiores curiosidades para o seu segundo mandato é saber se o Presidente é capaz, ao contrário do que sucedeu nos últimos quatro anos, de esbater a brutal polarização política que se vive actualmente nos Estados Unidos. Mas, para já, o momento é mesmo de festa e de descanso para o 44º Presidente norte-americano.

Romney concede derrota

Mitt Romney demorou muito tempo a conceder a derrota - quando as cadeias noticiosas declararam Barack Obama vencedor, a campanha republicana entrou em modo de blackout - mas acabou, inevitavelmente, por volta da uma da manhã (Eastern Time), por o fazer. No seu discurso de concessão de derrota, Romney congratulou Obama pela vitória e elogiou, como é costume, a sua esposa, Ann, e o seu running mate, Paul Ryan. Foi uma comunicação curta, mas em que se percebeu a devastação do candidato republicano que, aparentemente, não contava mesmo sair derrotado.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Regresso agitado

Depois do período de férias do Congresso norte-americano, durante o qual o destaque noticioso foi quase exclusivamente dedicado à campanha pela nomeação republicana e pelo furacão Irene, antecipa-se, agora, o regresso à "batalha" política em Washington D.C., entre democratas e republicanos, não esquecendo, claro está, o Presidente.
Para assinalar a reentré política, Barack Obama optou por agendar um discurso no Capitólio, perante as duas câmaras do Congresso, onde apresentará o seu novo plano para combater o desemprego e reduzir o défice. Mas a própria marcação da data desse discurso já gerou polémica, devido ao facto de a  Casa Branca ter marcado, inicialmente, a comunicação do Presidente para a mesma hora em que os candidatos presidenciais republicanos estariam a participar num debate televisivo. Provavelmente, a estratégia de Obama seria ofuscar os seus opositores, salientando as diferenças entre si e meros candidatos ao seu lugar. Contudo, depois da forte oposição do GOP, com o speaker John Boehner em destaque, e porventura temendo que a politics ofuscasse a policy (à falta de uma tradução competente em português), Obama desistiu dessa ideia e agendou o seu discurso para o dia seguinte, dia 8 de Setembro. Assim sendo, não se percebe a estratégia da Casa Branca, que rapidamente desistiu do seu intento inicial, e que apenas lhe valeu publicidade negativa.
Erros tácticos como este em nada ajudam Obama, que, depois de um Verão em que viu os seus números nas sondagens descerem a pique, atingindo os valores mais baixos desde que está na Casa Branca, necessita urgentemente de voltar a dominar a narrativa política e de evitar discussões fúteis que o distraiam das temáticas mais importantes da governação. Para o fazer, é fulcral transmitir a ideia de que a recuperação económica dos Estados Unidos é a sua principal prioridade e, depois, esperar que as suas políticas tenham resultados práticos. Até porque o que ainda o tem aguentado nos estudos de opinião é a noção de que não é o principal  culpado pela grave situação da economia norte-americana, mas sim o seu antecessor, George W. Bush. Se essa percepção mudar, então Obama estará mesmo em péssimos lençóis.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Obama anuncia plano para o défice

Barack Obama proferiu ontem, na Universidade George Washington, um discurso onde, em cerca de 45 minutos, apresentou o seu plano para a redução do défice federal em 4 triliões de dólares nos próximos 12 anos. No centro da sua proposta estão a criação de novos impostos para os mais ricos, além da não-renovação dos cortes fiscais da era Bush. Anunciou ainda a formação de uma comissão, liderada pelo Vice-presidente Joe Biden, que negociará com o Congresso a chegada a um acordo relativamente ao défice.
Esta comunicação foi apenas anunciada no Domingo passado, por David Axelrod, tendo apanhado de surpresa a oposição republicana, que tinha apresentado, recentemente, o seu plano para a redução de défice, através do seu "guru" para as questões fiscais, o congressista Paul Ryan, que esteve presente no discurso de Obama. Aliás, o seu plano foi duramente atacado pelo Presidente, que prometeu não tocar nos programas de Saúde Medicare e Medicaid, que, segundo o plano de Ryan, seriam, respectivamente, privatizados e cortados. O GOP contra-atacou, afirmando que Obama não apresentou nada de concreto, tendo-se limitado a fazer um discurso de campanha eleitoral.
Já a base liberal do Partido Democrata, que exigia há muito tempo o aumento de impostos para os americanos mais ricos, recebeu de forma bem mais positiva o discurso do Presidente. Depois de várias semanas em que adoptou uma postura mais moderada e distanciada dos partidos, Obama surgiu ontem com uma nova vivacidade e com uma nítida viragem à Esquerda nas ideias que apresentou. O plano apresentado pode ter, de facto,  o condão de animar e reunir as bases democratas em torno do seu Presidente, com quem não tem mantido uma relação tão quente quanto seria expectável depois da vitória de Obama em 2008, mas que serão fundamentais para garantir a sua reeleição no próximo ano.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Há quatro anos atrás...

Parece que já foi há uma eternidade, mas há quatro anos atrás, no dia 10 de Fevereiro de 2007, o então Senador pelo Illinois há apenas dois anos, Barack Obama, anunciou a sua candidatura à Presidência dos Estados Unidos. O seu discurso, sob um frio gélido e diante da State House do Illinois, em Springfield, marcou o início de uma extraordinária jornada, que duraria quase dois anos e que culminaria com a chegada de Obama à Casa Branca.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

"I have a dream"

Hoje é feriado nos Estados Unidos, comemorando-se o Martin Luther King Day, em honra do lendário activista pelos direitos civis dos afro-americanos. Este dia é celebrado na terceira Segunda-feira de Janeiro, aproximando-se do aniversário de MLK e, apesar de alguns Estados e políticos terem-se insurgido contra a adopção deste feriado federal, a verdade é que, hoje, o dia de Martin Luther King é observado quase na generalidade do território norte-americano. Assim, neste dia, faz todo o sentido voltar a ver e ouvir aquele que é considerado um dos melhores discursos da história da Humanidade, e que proferido por King no Mall de Washington a 28 de Agosto de 1963. 

domingo, 31 de outubro de 2010

Morreu Ted Sorensen

Faleceu, hoje, com 82 anos, aquele que foi, na minha opinião, o melhor speechwriter presidencial da história dos Estados Unidos e, provavelmente, do mundo. Ted Sorensen, que escreveu os discursos de John F. Kennedy, foi responsável por algumas das mais famosas frases da humanidade, como aquela que marcou o inaugural adress de JFK: "ask not what your country can do for you; ask what you can do for your country". Contudo, outros discursos do carismático presidente americano assassinado em 1963, foram tão ou ainda mais brilhantes. Aconselho a leitura ou audição deste, sobre a guerra e a paz, proferido por Kennedy no ano da sua morte, na American University.
Sorensen e Kennedy formaram uma fantástica aliança e juntos levaram a oratória política a um novo nível. Agora, já nenhum dos dois está por cá, mas a escrita de Sorensen e a interpretação de Kennedy jamais serão esquecidas.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O virar de página

O discurso do presidente dos Estados Unidos da passada Terça-feira, transmitido directamente da Sala Oval (recentemente renovada a gosto dos Obama), serviu para o Chefe de Estado americano selar uma das principais promessas que fez durante a campanha presidencial: a retirada do Iraque. Apesar de ficarem ainda cerca de 50 mil homens e mulheres das  forças armadas americanas naquele país do Médio Oriente, as operações militares terminaram oficialmente e Obama concentra agora todas as atenções no Afeganistão, o palco de guerra onde sempre prometeu continuar a batalha contra a Al-Qaeda de Bin Laden.
Esta comunicação à nação, onde o presidente disse ser altura de virar a página, foi também aproveitada, de forma inteligente, para clarificar ao país que, agora (já o devia ser há muito), a principal prioridade será a recuperação económica e financeira dos Estados Unidos. Além disso, Obama, não deixou de lembrar que o estado das finanças públicas se deve, em grande parte, ao enorme esforço financeiro realizado, durante sete anos, no Iraque. Dessa forma, voltou a culpar, algo implicitamente, o seu antecessor pela crise que a nação atravessa.   
Foi um bom discurso de Obama, que lhe poderá valer a subida de alguns pontos percentuais nas próximas sondagens. Exaltou os valores americanos e elogiou as forças armadas, cumprindo à risca o seu papel de Commander-in-chief. Mais: o teor da mensagem foi susceptível de agradar tanto a democratas, como a republicanos, pois Obama foi de encontro ao exigido pela esquerda americana, ao terminar o conflito no Iraque, mas, ao mesmo tempo, não se desviou do rumo seguido por Bush desde o "surge", engendrado por Petraeus, em 2007.
Porém, Barack Obama não perdeu tempo a envolver-se numa nova grande empreitada diplomática na mesma zona geográfica. Agora, tenta levar a bom porto o processo de paz do Médio Oriente, algo que todos os últimos presidente americanos tentam, sem sucesso, conseguir (apesar de Bill Clinton, com Rabin e Arafat, ter estado muito perto). As negociações, com os líderes de Israel, da Palestina, da Jordânia e do Egipto, sob a égide do presidente americano, já começaram, mas o seu desfecho é, como sempre, incerto. 
Se Obama conseguir que as partes envolvidas se entendam e cheguem a um acordo sólido e com possibilidades de se manter (o que é algo de muito complexo), então terá conseguido justificar, plenamente, o seu Nobel da Paz de 2009. Caso contrário, será mais um presidente "queimado" por esta questão. O que não é certo é se os americanos concordam com esta nova grande intervenção americana, logo depois de o seu presidente ter prometido concentrar as suas atenções no interior das fronteiras do país.