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terça-feira, 19 de março de 2013

O casamento homossexual na ordem do dia

Nos últimos anos, temos assistido a uma lenta mas progressiva liberalização da sociedade norte-americana no que diz respeito aos costumes. A legalização do aborto, estabelecida pela histórica decisão do Supremo Tribunal no caso Roe vs Wade é hoje praticamente incontestada e poucos são já os políticos, mesmo entre o Partido Republicano, que fazem da proibição da interrupção voluntária da gravidez um dos destaques da sua plataforma política. 
Contudo, a liberalização dos norte-americanos é particularmente evidente num outro assunto fracturante: o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Outrora um direito defendido por apenas uma minoria, hoje o casamento homossexual conta já com o apoio da maioria dos cidadãos dos Estados Unidos. Uma sondagem da ABC News e do Washington Post mostrou que 58% dos americanos é a favor do casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, um aumento brutal em relação aos números de 2004, quando apenas 32% dos inquiridos se dizia favorável ao casamento gay.
Como não podia deixar de ser, esta mudança de atitude e de mentalidade entre o povo tem repercussões na classe política. Em 2012, foi marcante a mudança de opinião de Barack Obama que veio a público declarar o seu apoio à união homossexual. Entretanto, vários políticos demonstraram-se também a favor, com destaque para o senador republicano Rob Portman, outrora um opositor do casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, que anunciou publicamente a sua mudança de opinião (era contra o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo). No lado democrata, precisamente durante o dia de ontem, Hillary Clinton também veio declarar o seu apoio ao casamento homossexual, atitude que pode muito bem ter as eleições presidenciais de 2016 como pano de fundo.
Por outro lado, a justiça norte-americana pode também ter, nos próximos tempos, um papel importante a desempenhar na temática. Aguarda-se, a qualquer momento, a decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos relativamente à proibição do gay marriage no Estado da Califórnia, sendo que o desfecho mais provável é a declaração da inconstitucionalidade da legislação estadual pelo mais alto órgão judicial do país.
Como se pode ver, o casamento homossexual está, nos dias que correm, na ordem do dia na agenda mediática e política dos Estados Unidos. Todavia, a manter-se a actual tendência liberal ao nível dos costumes na sociedade norte-americana, é bem provável que este tema se torne cada vez menos polémico e fracturante.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O rescaldo do anúncio de Obama

Assentado o pó que se levantou depois de, na passada Quarta-feira, Barack Obama ter anunciado o seu apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, importa agora analisar possíveis consequências desse seu acto.
Do lado democrata, o anúncio do Presidente animou, como seria de esperar, a base do partido.  Normalmente, os homossexuais (particulares, lobbies ou grupos) são já um grupo eleitoral afecto aos democratas, mas é de esperar que a posição de Obama - o primeiro sitting Presidente a defender publicamente o casamento gay - estimule, e de que maneira, o apoio e as contribuições financeiras deste sector do eleitorado. Além disso, a nova posição de Obama em relação a este assunto serve também para refutar algumas críticas que vinham surgindo da ala mais liberal do Partido Democrata, e que acusavam o Presidente de não ser demasiado ambicioso e progressista. Do seu lado, Obama apenas poderá temer alguns problemas com os afro-americanos, já que esta comunidade, muito religiosa, é maioritariamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Contudo, dado os níveis de popularidade de que Obama goza junto dos afro-americanos, é muito duvidoso que este assunto lhe retire parte do voto negro, nas eleições do Outono.
Entre as fileiras republicanas, a reacção ao anúncio presidencial tem sido bem menos audível do que seria de esperar. Na verdade, os principais líderes republicanos têm preferido não comentar muito o assunto, cientes de que necessitam de voltar à mensagem em torno dos problemas da economia. E são sensatos ao fazê-lo, dado que - dizem as sondagens - o único tema em que Romney leva vantagem sobre Obama aos olhos dos eleitores é precisamente a economia. Por isso, sempre que os democratas forem capazes de desviar as atenções do público da situação económica do país os republicanos sairão a perder. E, como nos últimos dias os destaques noticiosos têm ido para o apoio do Presidente ao casamento gay, temos de considerar que isso favorece mais os democratas do que o GOP.
No que diz respeito às consequências eleitorais, é possível que Obama perca uns quantos votos junto dos eleitores independentes e em Estados importantes, mas essa perdas poderão ser anuladas por um aumento do número de eleitores jovens, que se sentirão mais propensos a votar num candidato que partilha das suas convicções sociais e pelas grandes contribuições financeiras que deverão chegar por parte de associações ou lobbies de defesa dos homossexuais. No fim de contas, duvido que o anúncio presidencial da última Quarta-feira tenha um grande impacto na eleição que se aproxima a passos largos. Afinal de contas, it's still about the economy, stupid!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Obama apoia casamento homossexual

Barack Obama, numa entrevista à ABC News, acaba de se declarar apoiante do casamento homossexual. Depois de vários anos em que nunca marcou uma posição clara e decisiva em relação a este assunto (chegou mesmo, durante a sua campanha de reeleição para o Sendo do Illinois, em 1998, a confessar-se "indeciso"), Obama considera agora que a sua opinião "evoluiu" e que o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo deve ser legal, tornando-se, assim, o primeiro Presidente dos Estados Unidos a anunciar publicamente tal posição. Em ano de eleições eleitorais, teremos de esperar para ver que consequências políticas terá este anúncio de Obama, sendo certo que Obama terá garantido o apoio, mais entusiasta do que nunca, dos homossexuais norte-americanos.

3 destaques da noite de ontem

Ontem à noite, nos Estados Unidos, realizaram-se eleições das mais variadas formas e feitios. Desde primárias para a Presidência, para o Senado ou para cargos de nível estadual, até referendos sobre o casamento pessoas do mesmo sexo, houve votações para todos os gostos. Entre elas, porém, importa realçar os três maiores pontos de interesse:

1) Nas primárias para a eleição presidencial, não houve surpresas do lado republicano. Mitt Romney, que corre agora sem oposição (com excepção do caso especial que é Ron Paul), venceu com cerca de dois terços dos votos no Indiana, na Carolina do Norte e na West Virginia. Contudo, neste último Estado, registou-se uma meia surpresa na primária democrata, com Barack Obama a vencer, mas cedendo 41% dos votos para concorrente que se encontra actualmente a servir pena de prisão (!) no Novo México por ameaças feitas à universidade desse Estado.
Este incrível resultado demonstra uma vez mais que a West Virginia é terreno agreste para Obama, onde foi copiosamente derrotado em 2008, tanto nas primárias contra Hillary Clinton, como na eleição geral frente a John McCain. As características demográficas deste Estado, com uma grande percentagem de eleitores rurais, pouco instruidos e blue collar workers, não favorecem Obama, cuja administração também tão tem sido muito amigável para com a indústria do carvão, uma das principais actividades da West Virginia. Assim, em 2012, o ticket Obama não escapará a uma pesada derrota no Mountain State.

2) No Indiana, houve também lugar a eleições primárias para o Senado. E, aqui, registou-se um resultado importante, com a derrota do histórico senador republicano, Richard Lugar, frente ao challenger Richard Mourdock, Secretário do Tesouro do Indiana, e que contou com o apoio dos líderes partidários locais e também dos movimentos Tea Party (incluindo Sarah Palin). Dick Lugar, que conta já com 80 anos de idade, estava no Senado desde 1977, e é um dos mais respeitados senadores do GOP. Apesar de não ser propriamente um dos membros mais moderados da câmara alta do Congresso, Lugar mostrou várias vezes ser capaz de se entender com os democratas e de chegar a acordos bipartidários. Contudo, foi incapaz de responder a uma tenaz e bem montada campanha do seu opositor e tornou-se, ontem, no primeiro senador em exercício a perder a nomeação pelo seu partido.

3) Nos boletins de voto da Carolina do Norte constava uma proposta de emenda à Constituição do estado, em jeito de referendo, que pretendia definir o casamento como uma união entre um homem e uma mulher, ou, por outras palavras, banir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como se esperava, num Estado ainda tendencialmente conservador, a emenda foi aprovada e a Carolina do Norte tornou-se no 29º Estado norte-americano a conter na sua Constituição uma provisão que proíbe o casamento homossexual.
Ora, o tema tem dado que falar nos Estados Unidos, em especial a posição algo dúbia de Barack Obama em relação a este assunto. Apesar de nos Estados Unidos o número de apoiantes do casamento entre pessoas do mesmo sexo estar em clara ascensão, existe ainda uma grande oposição a esse conceito em vários dos Estados decisivos nas eleições presidenciais (como, por exemplo, a própria Carolina do Norte). Por isso, Barack Obama move-se em terreno movediço em relação a este tema: por um lado, não pode alienar a sua base (a comunidade gay é uma grande apoiante dos democratas), mas por outro, tem de evitar desagradar aos eleitores dos swing states e aos independentes.

Edit: Obama, numa entrevista à ABC News, acabou de se declarar a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O casamento homossexual regressa à ribalta

A 4 de Novembro de 2008, no mesmo dia em que Barack Obama foi eleito o 44º presidente da história americana, os eleitores da Califórnia optaram, em referendo, por impedir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Contudo, agora, um juiz de São Francisco (where else?) veio declarar que esse impedimento viola a Constituição americana, anulando, assim, a denominada Proposition 8, que os californianos haviam aprovado nas urnas.
Nos Estados Unidos, onde a maioria da população não é favorável ao casamento homossexual, cabe aos Estados federados legislar sobre esta matéria. Apenas cinco dos 50 Estados têm leis que o permitem (Iowa, Massachussetts, Vermont, New Hampshire e Connecticut). Assim, a permissão deste tipo de casamento no maior Estado da União é uma importante vitória para os activistas dos direitos dos LGBT.
Além disso, esta decisão veio relançar a discussão em torno de um tópico que andava, nos últimos tempos, ausente dos tópicos principais da política americana e traz alguns problemas ao presidente do país. Obama tem nesta questão uma posição algo dúbia e pouco clarificadora: assume-se como opositor do casamento homossexual, (apesar de ser favorável a uniões civis) mas também veio mostrar-se desfavorável a iniciativas como a da Proposition 8, que visam a discriminação de minorias através da alteração das constituições estaduais. Assim, a questão da Califórnia traz à baila um tema em que Obama não se sente à vontade.
Quem não pode deixar de estar satisfeito pelo regresso desta questão às luzes da ribalta são os activistas pró e contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, que defendem sempre aguerridamente os seus ideais. Contudo, é duvidoso que a questão dos casamentos homossexuais ganhe tracção e se torne num dos grandes temas da campanha para as eleições de Novembro. Com a lenta recuperação económica, os elevados valores de desemprego, a guerra no Afeganistão, as reformas da saúde e do sector financeiro e muitos outros assuntos de destaque, esta questão parece bastante secundária.