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domingo, 30 de dezembro de 2012

2012 em revista

Com a chegada do final de 2012, é altura de se fazer o tradicional balanço do ano que agora termina. Nos Estados Unidos, a agenda política foi marcada, como não podia deixar de ser, pelas eleições presidenciais. Contudo, nem só da corrida pela Casa Branca se fez a história do ano que agora termina.
Ainda assim, os primeiros meses de 2012 foram dedicados principalmente à campanha pela nomeação presidencial republicana. Mitt Romney, o grande favorito a vencer as primárias do GOP, enfrentou um leque de opositores que pode ser considerado relativamente fraco. Todavia, acossado pelos candidatos conservadores, especialmente Rick Santorum, Romney foi obrigado a fazer uma campanha acentuadamente à Direita, com destaque para a sua posição muito dura relativamente à imigração, e isso foi-lhe fatal quando, mais à frente, teve de enfrentar Obama na eleição geral.
Eventualmente, Mitt Romney acabou por selar a nomeação republicana. Para derrotar o Presidente, o antigo Governador do Massachusetts centrou a sua mensagem na economia, já que a recuperação económica norte-americana continuava a ser anémica. Apesar de situação da economia dos Estados não ser a melhor, a verdade é que o PIB do país manteve-se em subida (ainda que ligeira) e a taxa de desemprego desceu finalmente abaixo da barreira dos 8%. Além disso, os cidadãos americanos continuavam a ver George W. Bush como o principal culpado pelo estado da economia dos EUA, o que dava a Barack Obama algum espaço de manobra para gerir as suas próprias responsabilidades na matéria.
Outra questão que voltou a estar na ordem do dia neste último ano foi a reforma do sistema de saúde, a grande marca do primeiro mandato de Obama enquanto Presidente. Sempre debaixo de imensa polémica, esta fulcral peça legislativa esteve em risco de ser anulada por via judicial. Porém, o Supremo Tribunal, numa histórica decisão, considerou constitucional a reforma, conhecida como Obamacare. A discussão na mais alta instância judicial norte-americana foi intensa e chegou mesmo a pensar-se que o Supreme Court iria anular o Obamacare, mas, numa reviravolta surpreendente, o Chief Justice John Roberts, normalmente conservador, alinhou com os juízes liberais e permitiu a passagem da reforma da saúde, numa apertada votação de cinco votos favoráveis e quatro votos contra.
Com a chegada do Verão, começou em força a campanha pela Presidência. Barack Obama e Mitt Romney enfrentaram-se para decidir quem seria o Chefe de Estado norte-americano a partir de 20 de Janeiro de 2013. Foi, em grande parte, uma corrida mais renhida do que parece, agora que conhecemos os resultados finais. Barack Obama foi, uma vez mais, um candidato muito forte, tendo apenas falhado aquando do primeiro debate, e liderou a mais eficaz, competente e inovadora campanha da história das eleições norte-americanas. Foi capaz de convencer os norte-americanos de que era o melhor candidato para liderar o país durante mais quatro anos, ao mesmo tempo que minou a credibilidade e a imagem do seu opositor. Por sua vez, Romney, apesar de ter conseguido o que muitos consideravam impossível, ou seja, ameaçar a reeleição de Obama, cometeu demasiados erros e deixou-se caracterizar como um milionário desligado da realidade do cidadão americano comum. A 6 de Novembro, com um empurrão final proporcionado pelo furacão Sandy, Obama venceu de forma relativamente folgada a eleição e conquistou o direito a um segundo mandato na Casa Branca.
A vitória de Obama, assim como os péssimos resultados do partido nas eleições para o Congresso, levaram a uma pequena convulsão no seio do Partido Republicano. Muitas vozes, mesmo internamente, se levantaram para criticar as posições ortodoxas e rígidas do GOP relativamente à imigração, que prejudica  os republicanos de forma particularmente intensa junto do eleitorado hispânico, e a questões sociais, que tem afastado os jovens e as mulheres do voto em candidatos republicanos, como ficou bem evidente nas últimas eleições. Na verdade, a crescente influência da ala mais conservadora do partido tem trazido alguns dissabores ao GOP, especialmente em eleições primárias, já que, em alguns casos, o Partido Republicano tem nomeado políticos demasiadamente conservadores, com consequências desastrosas, nomeadamente para os resultados republicanos em eleições para o Senado. Em 2012, ficou claro que o Partido Republicano tem de repensar a sua estratégia e a sua plataforma política, de forma a manter-se competitivo nas urnas, especialmente em anos de eleições presidenciais.
2012 ficou também marcado, infelizmente, por mais uma série de incidentes com armas de fogo. O mais mediático, e também o mais mortífero, foi a tragédia de Newtown, no Connecticut, em que perderam a vida 27 pessoas, incluindo 20 crianças. Este massacre voltou a colocar em cima da mesa a questão do posse de armas nos Estados Unidos, com Barack Obama a clamar por um sério debate sobre esta matéria, de modo a que se possam evitar incidentes deste género no futuro. Desta vez, e ao contrário do que aconteceu em outras ocasiões, tudo indica que a discussão vai mesmo avançar e que o entendimento bipartidário que permita a criação de nova legislação que regule a compra e o porte de armas (pelo menos as de cariz militar) pode ser alcançado.
Por fim, a terminar o ano de 2012, é o fiscal cliff que tem dominado as atenções. Sem que os democratas e republicanos cheguem a um acordo, os Estados Unidos cairão, a 1 de Janeiro de 2013, num verdadeiro "precipício fiscal", com aumentos de impostos para todos os americanos e brutais cortes na despesa federal, com os previsíveis efeitos devastadores na economia do país. Até ao momento, e a poucas horas do deadline, não notícias de um entendimento entre os dois partidos e a situação é deveras preocupante. Resta, por isso, aguardar que um compromisso entre democratas e republicanos e entre a Casa Branca e o Congresso seja ainda possível e que o adeus a 2012 e as boas-vindas a 2013 possam ser comemorados de forma mais tranquila por todos os cidadãos dos Estados Unidos da América.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2010 em revista

2010 foi um ano histórico, no que diz respeito à política norte-americana. Foram 365 dias repletos de pontos de interesse, emoções, derrotas e vitórias, tanto para democratas como republicanos. Agora, no último dia do ano, é altura de fazermos um pequeno balanço de tudo o que de mais importante se passou no panorama político dos Estados Unidas da América.
Para o Presidente Obama, 2010 ficará na memória como um ano agridoce. No que diz respeito a realizações legislativas, os últimos doze meses foram-lhe muito prolíferos. A reforma do sistema de saúde é um highlight óbvio, mas também a reforma financeira, o fim do "Don't Ask, Don't Tell", a assinatura e ratificação do novo tratado START, a nomeação de Elena Kagan para o Supremo Tribunal, entre várias outras, fazem deste ano um dos mais conseguidos a nível legislativo da história presidencial americana. Contudo, os índices de aprovação do trabalho do Presidente mantiveram-se, durante todo o ano, em terreno negativo, sendo Obama prejudicado pela impopular reforma de saúde que conseguiu que o Congresso aprovasse, pelo clima de conflituosidade partidária que imperou em Washington, pelo desastre ambiental no Golfo no México, mas, principalmente, pela tímida recuperação económica do país.
2010 foi também o ano do renascimento do Partido Republicano. Depois das enormes derrotas sofridas pelo GOP em 2006 e 2008, muitos previram que os republicanos estavam condenados à irrelevância política. Porém, logo no início do ano, a chocante vitória de Scott Brown no Massachusetts, um dos mais liberais Estados americanos, veio provar que esses vaticínios estavam errados. No fim do ano, as eleições intercalares trouxeram uma vitória republicana de grandes proporções: o ganho de mais de 60 assentos na Câmara dos Representantes permitiu a John Boehner substituir Nancy Pelosi como Speaker; no Senado, a conquista de seis lugares pelos republicanos praticamente impede que os democratas consigam alcançar uma maioria à prova de fillibuster em qualquer votação decisiva, obrigando-os a procurar um compromisso com a minoria republicana na câmara alta; por fim, nas eleições para os governos estaduais, o GOP "roubou" importantes Estados aos democratas, como o Ohio, ou a Pennsylvania, o Michigan ou o Iowa, o que mais que compensou a vitória democrata na Califórnia.
Para esta onda vitoriosa do Partido Republicano contribuiu, e muito, a ascensão de um novo movimento sociopolítico  nos Estados Unidos. Recuperando o nome do Tea Party de Boston, há quase 240 atrás, o movimento conservador que nasceu da contestação ao plano de estímulos à economia e à reforma da saúde de Barack Obama conseguiu, este ano, um destaque e uma importância que foi fundamental para os bons resultados eleitorais do GOP em Novembro, ao animar e mobilizar as bases conservadoras do partido. Todavia, o Tea Party foi também responsável por algumas escolhas duvidosas de candidatos nas primárias republicanas, o que impediu que a dimensão da vitória do Partido Republicano tivesse sido ainda maior.
2010 foi um ano em grande para os seguidores da política que se faz do outro lado do Atlântico, mas, agora, é tempo de nos despedirmos do ano velho e darmos as boas vindas a 2011, que promete também ser um ano bastante interessante. Durante os próximos 365 dias, assistiremos ao início da corrida pela nomeação presidencial republicana, à forma como Obama lidará com uma Câmara dos Representantes controlada pela oposição e a muitas, muitas outras situações que certamente surgirão. Mas, por agora, a ocasião é de celebração. Por isso, boas entradas e um fantástico 2011!