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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Agenda em dia

Depois de umas merecidas férias, o Máquina Política está de regresso. Durante o período de descanso, muito se passou do lado de lá do Atlântico. Mas vamos por partes:

EUA atacam o ISIS - Depois de dois jornalistas norte-americanos terem sido decapitados pelo Islamic State in Iraq and Syria (ISIS), Barack Obama decidiu agir e, num discurso transmitido em directo pelas principais cadeias dos Estados Unidos, anunciou o seu plano para combater o ISIS, grupo radical que controla já grande parte do Iraque e da Síria. O Presidente informou os cidadãos norte-americanos que os ataques aéreos da Força Aérea dos Estados Unidos já em vigor no território iraquiano serão alargados a regiões da Síria ocupadas pelo ISIS. Além disso, Obama anunciou ainda que colocará mais conselheiros militares norte-americanos no terreno e que aumentará o apoio financeiro e militar às autoridades iraquianas e curdas que combatem o Estado Islâmico. Contudo, Barack Obama frisou que o conjunto de acções agora implementado não contempla o envio de tropas combatentes norte-americanas.
Estas novas medidas são a resposta de Obama ao choque sentido pela opinião pública dos Estados Unidos após a divulgação dos vídeos das decapitações dois dois jornalistas. Contudo, o 44º Presidente norte-americano está numa situação muito delicada, pois sempre defendeu a retirada do Iraque e, agora, está, de facto, a regressar àquele território para uma nova guerra de desgaste sem um fim à vista. Na verdade, este pode ter sido um momento decisivo para o legado de Obama que chegou ao poder como aquele que acabaria com o fim da presença norte-americana no Médio Oriente, mas que pode, como o seu antecessor, deixar a Casa Branca com um conflito em aberto e que terá de ser resolvido pelo seu sucessor.

Eleições intercalares - A menos de dois meses das eleições intercalares, as notícias não podiam ser piores para os democratas. Com uma maioria na Câmara dos Representantes a ser uma mera possibilidade matemática, está também cada vez mais complicada a tarefa do partido de Obama para manter a maioria no Senado. Se as eleições fossem hoje,  segundo tanto Nate Silver como Larry Sabato, o mais provável é que o GOP alcançasse o controlo da câmara alta do Congresso, relegando os democratas para a oposição. 
Nesse caso, o mais provável é que os dois últimos anos do mandato presidencial de Obama fossem praticamente irrelevantes no sector legislativo, dado que sem apoio do Congresso, será praticamente impossível para um presidente relativamente impopular conseguir amealhar apoios para qualquer peça legislativa de relevo (como, por exemplo, a reforma da imigração).

Corrida presidencial - Do lado democrata, não há novidades. Hillary Clinton continua a ser a presumível nomeada democrata e a antiga Primeira-Dama regressará, este Domingo, ao Iowa, o primeiro Estado a ir a votos nas primárias presidenciais. Esta será a primeira vez que Hillary se desloca ao Hawkeye State desde que, em Janeiro de 2008, foi surpreendentemente derrotada por Barack Obama (e também por John Edwards). Tudo indica que a ex-Secretária de Estado entrará mesmo na corrida, isto apesar de ter anunciado esta semana que apenas tomará uma decisão no início do próximo ano. Com todos os outros democratas de peso (que não são assim tantos como isso) a colocarem-se de fora das contas presidenciais para 2016 devido à presença de Clinton, o Partido Democrata não receberia nada bem uma decisão negativa da sua grande estrela quanto à sua candidatura à Casa Branca.
Do lado republicano, o destaque vai para Ted Cruz e para Rand Paul. O primeiro continua a dar mais indicações quanto à sua candidatura presidencial, com o seu chefe de gabinete a deixar esse cargo para assumir maiores responsabilidades políticas (leia-se, eleitorais). Todavia, o Senador pelo Texas foi também notícia pela negativa: numa gala organizada por um grupo de cristãos do Médio Oriente, Cruz abandonou o palco onde discursava, após as suas declarações vincadamente pró-Israel terem sido recebidas pela audiência com fortes vaias. Já em relação ao segundo é praticamente certo que será um candidato presidencial e as suas constantes presenças no New Hampshire, o primeiro Estado a realizar primárias indiciam que o Granite State será o centro da sua estratégia. Ora, tal facto não é surpreendente ou não fosse o eleitorado republicano do New Hampshire um dos mais favoráveis a candidaturas de candidatos com raízes libertárias, como se comprova pelo excelente resultado obtido, em 2012, por Ron Paul (pai de Rand), com 23% dos votos, apenas atrás do vencedor, Mitt Romney.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Os 65 candidatos a candidato presidencial

Estamos a mais de dois anos da eleição presidencial de 2016 (ou a 14 meses do início das primárias) e foram já várias as dezenas de nomes falados para a corrida que decidirá o sucessor de Barack Obama. Segundo o The Hill, são exactamente 64 os políticos que já foram, de uma forma ou de outra, sugeridos como possíveis candidatos presidenciais. O panorama da campanha só começará a ficar definido a partir do início do próximo ano, mas, até lá, é sempre interessante percorrer esta lista e começar a fazer as primeiras apostas.

domingo, 15 de junho de 2014

A incrível derrota de Eric Cantor

Na passada Terça-feira à noite, os Estados Unidos foram testemunhas de uma das mais surpreendentes derrotas políticas de que há memória. Eric Cantor, o líder da maioria republicana na Câmara dos Representantes (o segundo cargo mais importante, apenas ultrapassado pelo Speaker), não poderá ser reeleito como o congressista do 7º distrito do Estado da Virginia, após ter sido batido nas eleições primárias do Partido Republicano por David Brat, um (até agora) desconhecido professor universitário.
Apoiado por grupos do Tea Party a nível local e estadual, David Brat desafiou Cantor pela sua Direita, acusando-o de não ser suficientemente conservador, de se preocupar mais com a elevação do seu estatuto público do que com os seus constituintes e de ser soft on immigration. Contudo, nem mesmo as organizações do Tea Party a nível nacional investiram seriamente nestas primárias, dado que a vitória de Eric Cantor era vista como certa, o que demonstra bem o efeito choque que a derrota de um dos mais influentes e poderosos republicanos provocou no mundo político norte-americano.
Uma das principais repercussões do afastamento de Eric Cantor poderá sentir-se na tão aguardada e, ao mesmo tempo, tão adiada reforma da imigração. O congressista da Virginia era visto como uma das figuras de proa do Partido Republicano para o avanço legislativo desta reforma e, sem a sua presença na Câmara dos Representantes, a vontade dos republicanos para chegarem a um acordo com os democratas nesta matéria pode ser seriamente afectada. Além disso, o facto de a posição tendencialmente favorável de Cantor em relação à reforma da imigração ter sido, ao que tudo indica, uma das principais razões para a sua derrota nas primárias, pode levar muitos congressistas republicanos a pensarem duas vezes quando ponderarem o seu eventual apoio à reforma.
Após a derrota da semana passada, esfumou-se também o sonho de Eric Cantor em ascender à tão ambicionada posição de Speaker of the House. Sendo o número dois na hierarquia da Câmara dos Representantes e assumindo-se como uma das principais figuras do Partido Republicano, o congressista da Virginia era o principal favorito a suceder a John Boehner como Speaker. Agora, com Cantor fora de cena, assistiremos a uma enorme luta de poder entre os congressistas do GOP: primeiro, para a sucessão de Eric Cantor e, mais tarde, para a substituição de Boehner.
O resultado no 7º distrito da Virginia pode também voltar a trazer à baila a narrativa da influência negativa das facções mais conservadoras nas eleições primárias do Partido Republicano. Este ano, essa tendência não se tem sentido tanto como em 2010 e 2012, mas também é verdade que estamos ainda muito cedo no calendário eleitoral. Caso se verifique que, mais uma vez, os candidatos do Tea Party estão a derrotar, nas primárias, candidatos mais moderados e, logo, mais elegíveis, isso pode prejudicar as hipóteses do GOP nas eleições intercalares do Outono. Ora, numas eleições em que se prevê que o controlo do Senado possa depender de apenas um assento, basta uma escolha menos acertada para alterar totalmente o desfecho da noite eleitoral do dia 4 de Novembro.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Teremos mais um Bush na Casa Branca?

As eleições intercalares, vulgarmente conhecidas como midterms, estão a cerca de meio ano de distância, mas as eleição presidencial, marcada para Novembro de 2016, continua a merecer grande parte das atenções nos meandros políticos dos Estados Unidos. E se no lado democrata, tudo continua na mesma, ou seja, ainda se aguarda a decisão por parte da ultra-mega-hiper-favorita Hillary Clinton, já no campo republicano o cenário é bem mais incerto.
Nos últimos dias, o nome mais falado é bem conhecido, pois partilha o apelido com dois antigos presidentes norte-americanos. Jeb Bush, antigo Governador da Florida, tem sido associado a uma possível candidatura presidencial. O mesmo aconteceu em 2012, mas, desta vez, esse rumor parece ser mais consistente, principalmente porque o establishment do GOP procura insistentemente um candidato credível para apoiar, depois da polémica que se instalou em torno de Chris Christie, que era, até há pouco tempo, o concorrente preferido por grande parte da estrutura partidária republicana para a corrida à Casa Branca.
O irmão mais novo do 43º Presidente pode muito bem ser uma boa aposta por parte do establishment do GOP para fazer frente aos candidatos do Tea Party, como Rand Paul ou Ted Cruz, figuras adoradas pela base do partido, mas demasiado conservadoras para representarem os republicanos numa eleição geral contra um(a) democrata. Com a vasta máquina dos Bush por detrás de si, Jeb não teria problemas em garantir apoios financeiros ou endorsements por parte de nomes proeminentes do Partido Republicano. Além disso, seria um candidato moderado quando comparado com outros possíveis concorrentes, como Rick Santorum, Mike Huckabee ou Scott Walker, além dos já citados Paul e Cruz. Em especial, a sua moderação em relação ao tema da imigração seria uma importante vantagem e um factor diferenciador (ainda que lhe pudesse trazer alguns dissabores durante as primárias), já que é conhecido o problema republicano junto do eleitorado hispânico. Finalmente, Jeb Bush provém da Florida, provavelmente o mais importante Estado numa eleição presidencial, fruto dos 29 votos eleitorais que o sunshine state atribui ao seu vencedor.
É claro que o nome Bush ainda traz recordações negativas à maior parte da população norte-americana. Contudo, isso não seria problema nas eleições primárias, já que a esmagadora maioria do eleitorado republicano tem uma imagem positiva de George W. Bush. Mas, mais importante que isso, Jeb sempre foi mais associado ao seu pai do que ao seu irmão mais velho, o que, numa altura, em que o patriarca da família goza de relativa popularidade junto da população, é uma boa notícia para o novo porta-estandarte da dinastia.
Ainda é muito cedo para dizer se Jeb Bush vai ou não ser candidato à Casa Branca, mas é certo que se o fizer será, apesar do seu nome, um fortíssimo concorrente. A sua entrada na corrida afastará outros nomes de peso (com Marco Rubio à cabeça) e reuniria o establishment e a ala moderada do GOP no apoio à sua candidatura, o que, por norma, é meio caminho andado para a vitória nas primárias republicanas. 
Será que vamos ter, 24 anos depois, um novo duelo presidencial entre um (uma, neste caso) Clinton e um Bush?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A divisão republicana ilustrada

Com a divisão que reina actualmente no seio do Partido Republicano em destaque após o acordo para o fim do shutdown, o New York Times criou um gráfico/mapa interactivo que ilustra as diferentes facções do GOP, de acordo com o sentido de voto dos congressistas republicanos no que diz respeito à proposta que resolveu, por enquanto, o impasse em Washington. A consulta deste gráfico, ajuda, e muito, a tomarmos consciência da realidade actual dos dois partidos norte-americanos: de um lado, os democratas, unidos e a votar como um bloco praticamente inexpugnável, e, do outro, os republicanos, divididos pela discórdia das suas várias facções.

sábado, 19 de outubro de 2013

Que futuro para o GOP depois do shutdown?

Na passada Quarta-feira, democratas e republicanos chegaram finalmente a um entendimento que levou ao fim do shutdown e trouxe a normalidade de volta a Washington e aos Estados Unidos. O acordo foi originalmente anunciado pelos líderes do Senado, o democrata Harry Reid e o republicano Mitch McConnell e, mais tarde, o Senado votava esmagadoramente a favor do acordo para retomar o financiamento do governo federal, com apenas 18 senadores (todos republicanos) a votarem contra o fim do shutdown. De seguida, também a Câmara dos Representantes aprovou o acordo, com os votos favoráveis de todos os democratas e 87 republicanos (144 congressistas do GOP votaram contra).
16 dias depois, chegou ao fim, pelo menos por agora, um longo e desgastante impasse que provocou grandes tumultos políticos e económicos na nação norte-americana. Contudo, o acordo agora alcançado não resolve o problema do orçamento federal, limitando-se a adiar o debate para daqui a cerca de três meses. Nessa altura, democratas e republicanos terão de chegar a um novo entendimento para que o o governo continue a funcionar.
Ainda assim, um novo shutdown deverá estar fora da mesa, já que os republicanos não quererão repetir a receita que, desta vez, lhes trouxe tantos dissabores. De facto, este frente-a-frente foi altamente prejudicial para o Partido Republicano, que saiu da crise como o grande derrotado. Considerados pela opinião pública como os principais responsáveis pelo shutdown e sem terem conseguido ganhar nada com a sua tomada de posição, os republicanos estão agora numa posição muito fragilizada e terão de correr atrás do prejuízo causado pela sua actuação ao longo da crise que agora termina.
Em sentido inverso, os democratas e Barack Obama em particular estão a ser caracterizados como os vencedores do despique. É um facto que conseguiram obrigar os republicanos a ceder sem "entregar" nada ao outro lado. Todavia, não é totalmente claro que o Presidente dos Estados Unidos tenha ganho alguma coisa com esta sua vitória. Isto porque é bem possível que, após esta derrota, os republicanos se tornem ainda mais intransigentes e ainda menos dispostos a negociar com Obama e com os democratas. E isso pode inviabilizar quaisquer novas conquistas legislativas da Casa Branca durante este segundo e último mandato de Barack Obama. A reforma da imigração, cuja aprovação no Congresso parecia, há uns meses atrás, parecia praticamente inevitável, pode ser a grande prejudicada e arrisca-se a ficar na "gaveta".
Contudo, a estratégia a seguir pelos republicanos é ainda um pouco dúbia e deverá depender do resultado da batalha interna pelo controlo do partido que se trava actualmente no seio do GOP. De um lado, os republicanos mais radicais, liderados pelos políticos mais próximos do Tea Party e, do outro, os membros do GOP mais moderados. No Congresso, essa disputa tem sido vencida pelos mais radicais e a liderança republicana, constituída principalmente por políticos mais próximos do centro, tem tido enorme dificuldade em controlar as suas bancadas, hoje em dia sob grande influência dos Tea Party. 
Ora, a posição demasiado intransigente dos republicanos do Congresso tem levado à contínua degradação da imagem do partido a nível nacional. As últimas sondagens colocam os a aprovação do trabalho dos congressistas republicanos por parte dos eleitores nos níveis mais baixo de sempre e mostram os democratas a fugir nas intenções de voto para as eleições intercalares de 2014. Assim sendo, e apesar de faltar ainda mais de um ano para este momento eleitoral, tudo aponta para que os republicanos não tenham um 2014 tão positivo como esperariam.
Em suma, o GOP atravessa, hoje, um mau momento, com o extremismo da ala mais conservadora e a impopularidade dos seus membros do Congresso a arrastarem o partido para o fundo. Assim, e com as presidenciais de 2016 cada vez mais perto, aquilo que os republicanos precisam desesperadamente a precisar é de encontrar um líder moderado, que não tenha sido "tocado" pelos vícios de Washington e que tenha experiência de governação. Neste momento, quem encaixa que nem uma luva nesta descrição é, claro está, Chris Christie.

domingo, 13 de outubro de 2013

Os republicanos em maus lençóis

Como se esperava, as consequências políticas do shutdown estão a ser muito negativas para o Partido Republicano e as sondagens mostram que a maioria dos americanos culpa principalmente os republicanos pelo impasse em Washington que levou ao encerramento parcial do governo federal norte-americano. Esta semana, uma sondagem para o Wall Street Journal e para a NBC News revelou que 53% dos norte-americanos atribuiem as culpas do shutdown ao GOP, enquanto que apenas 31% assacam as principais responsabilidades desta crise política ao Presidente Barack Obama.
Ora, a um ano das eleições intercalares, este percepção pública sobre a responsabilidade pelo shutdown poderá ter importantes consequências eleitorais para o Partido Republicano. Tradicionalmente, o GOP é mais forte em eleições intercalares do que em anos de eleições presidenciais, beneficiando da maior abstenção entre grupos eleitorais tendencialmente democratas, como os jovens ou as minorias, em eleições que não contam com o mediatismo das eleições em que se escolhe o ocupante da Casa Branca.
Contudo, os estudos de opinião mostram agora um rápido crescimento das intenções de voto para os democratas nas eleições para o Congresso. Uma sondagem da Greenberg Quinlan Rosner Research (com ligações aos democratas) indicou uma vantagem democrata que já atingiu os dois dígitos. De acordo com esta sondagem, 46% dos eleitores tencionam votar num candidato democrata e 36% preparam-se para votar num republicano para o Congresso.
É certo que falta ainda muito tempo para as eleições intercalares (terão lugar em Novembro de 2014), mas estas são péssimas notícias para os republicanos que tinham como principal objectivo político a breve prazo recuperar a maioria no Senado. Todavia, a manter-se este cenário, não só não conseguirão alcançar esse objectivo, como se arriscam a perder o controlo da Câmara dos Representantes para os democratas, algo que, há poucas semanas, parecia praticamente impossível. 
Os alarmes deverão estar a soar entre a liderança do GOP e os republicanos mais moderados. Porém, estes terão uma árdua tarefa pela frente para resgatar o partido, que se encontra actualmente refém dos sectores mais radicais e que, apesar de serem uma minoria, têm um grande poder político. Contudo, para controlar os danos, é obrigatório que o partido se desvie da retórica mais extremista e belicosa e regresse à sua mensagem tradicional que tão bons resultados lhe costuma trazer em eleições intercalares. Caso contrário, o GOP arrisca-se a sofrer uma derrota estrondosa no próximo ano.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A posição republicana

Dois dias depois do Shutdown, continua a não haver acordo em Washington e os serviços não essenciais do governo federal continuam encerrados. Ontem, na Casa Branca, Barack Obama reuniu-se com os líderes democratas e republicanos do Congresso, mas nenhum entendimento foi alcançado. Os republicanos continuam a insistir no seu ataque ao Obamacare e Obama é intransigente na defesa da maior vitória legislativa da sua presidência.
Para muitos, pode parecer estranha a posição republicana. É verdade que a reforma do sistema de saúde norte-americano continua a dividir opiniões nos Estados Unidos. Contudo, essa reforma foi aprovada pelo Congresso, confirmada pelo Supremo Tribunal e passou o teste das urnas no ano passado. Assim sendo, porque razão continuam os congressistas republicanos tão empenhados na sua luta para derrubar o Obamacare?
Para perceber a resposta a esta questão é preciso recuarmos às eleições intercalares de 2010. Nesse ano, o Partido Republicano alcançou uma grande vitória e, além de roubar a maioria na Câmara dos Representantes aos democratas, conseguiu o controlo da maioria dos órgãos legislativos estaduais. Ora, são exatamente as legislaturas estaduais que determinam, a cada dez anos, o desenho e a distribuição dos círculos eleitorais que determinam a eleição dos congressistas para a Câmara dos Representantes. Em 2011, com as câmaras legislativas da maior parte dos Estados no seu poder, os republicanos redesenharam os círculos eleitorais de forma a que as suas hipóteses nas eleições para a House saíssem muito favorecidas. Neste momento, a distribuição dos círculos eleitorais é-lhes tão favorável que os democratas, para conseguirem uma maioria na Câmara dos Representantes, teriam de vencer o GOP por 4% ou 5% dos votos a nível nacional.
Além de garantir que a maioria dos congressistas republicanos estão seguros da sua posição eleitoral, tendo, por isso, maior margem de manobra para tomar posições impopulares, a redistribuição dos distritos congressionais também resultou numa maior polarização dos círculos eleitorais. Por norma, os distritos controlados por um congressista democrata são constítuidos por uma maioria de liberais, enquanto que os distritos nas mãos de um republicano são tendencialmente muito conservadores. Assim, os congressistas do GOP têm, grosso modo, um eleitorado significativamente mais conservador do que o eleitor médio norte-americano. E, como é óbvio, esse eleitorado opõe-se ao Obamacare, provavelmente o programa federal mais odiado de sempre pelo movimento conservador dos Estados Unidos.
Podemos, então, concluir que os congressistas republicanos, ao combaterem a implementação do novo sistema de saúde, estão apenas a cumprir a vontade dos eleitores que representam. É preciso ainda recordar que os congressistas têm, com honrosas excepções, pouca notoriedade e influência a nível nacional. Apenas um pequeno número terá a ambição de alcançar cargos estaduais ou nacionais, pelo que lhes interessa, sobretudo, manter satisfeitos os seus constituintes. 
Com esta explicação, torna-se mais compreensível a tomada de posição dos republicanos na Câmara dos Representantes. Todavia, nem o facto de a postura do GOP ser menos irracional do que à primeira vista se poderia pensar reveste de objectividade a sua posição. Isto porque, mais tarde ou mais cedo, terão de ceder de forma a permitir que o governo volte a funcionar normalmente. E, no final, o Obamacare continuará a ser the law of the land, mas o shutdown terá, ao que tudo indica, fortes consequências políticas e eleitorais para o Partido Republicano

terça-feira, 1 de outubro de 2013

SHUTDOWN!

E o impensável aconteceu: à meia-noite de hoje, em Washington D.C., o governo federal norte-americano foi encerrado depois de o Congresso não ter chegado a um acordo para a aprovação de um orçamento temporário que permitiria manter os serviços geridos pelo governo dos Estados Unidos a funcionar até ao final do ano.
As negociações entre democratas e republicanos não chegaram a bom porto devido à posição inflexível dos republicanos da Câmara dos Representantes, que exigiam a eliminação ou o corte de fundos para o sistema de saúde conhecido como Obamacare, ideia totalmente rejeitada pelos democratas.
Esta é uma postura muito dura por parte dos republicanos mais radicais e que pode ter graves consequências políticas e eleitorais para o GOP. Todas as sondagens têm indicado que a grande maioria dos norte-americanos não concorda com a estratégia utilizada pelos republicanos da House e, agora, quando os efeitos do shutdown começarem a ser sentidos na pele pelos milhares de funcionários públicos que estão a ser enviados para casa sem ordenado e quando os meios de comunicação social derem um enorme destaque ao que se está a passar, é muito provável que a imagem do Partido Republicano saia muito beliscada desta crise.
No seio do GOP, há, contudo, quem esteja preocupado com a posição assumida pelo caucus republicano da Câmara dos Representantes. Chegou a falar-se mesmo de uma rebelião dos republicanos moderados face à ala mais extremista. Todavia, quando uma proposta que visava ultrapassar o bloqueio ao orçamento foi votada, apenas seis congressistas republicanos votaram ao lados dos democratas, um número insuficiente para ultrapassar a maioria do GOP. Os democratas é que não perderam tempo e encetaram de imediato uma barragem de publicidade nos distritos dos congressistas republicanos mais vulneráveis culpando-os pela crise governamental.
Agora, resta esperar que uma das partes ceda, sendo que é mais provável que sejam os republicanos a fazê-lo, dado que se espera que sejam eles os principais responsabilizados por esta crise. Aliás, tudo indica que as consequências para o Partido Republicano serão ainda mais nefastas do que aquelas que sofreram Newt Gingrich e os republicanos, em 1996, quando se deu o último shutdown em Washington, durante a Presidência de Bill Clinton. Se assim for, a vida não ficará nada fácil para o GOP e mesmo as eleições intercalares de 2014 podem vir a ser muito influenciadas pelo modo como esta crise se desenrolar.
Será também interessante perceber como reage Barack Obama a esta situação, numa altura em que os seus números de aprovação têm vindo a cair significativamente. Se conseguir parecer "presidencial" e assumir a gestão e resolução da crise, então poderá conseguir um novo balão de oxigénio para este seu segundo mandato; se, por outro lado, a sua reacção for inócua e não mostrar capacidade de liderança, então o rótulo de lame duck pode chegar mais cedo do que nunca.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Obamacare: a luta continua

A passagem de uma história lei que reformou o sistema de saúde norte-americano foi a maior vitória do primeiro mandato de Barack Obama na Casa Branca e constituirá, muito provavelmente, o principal marco da presidência do antigo Senador pelo Illinois. A aprovação do Affordable Care Act, nome oficial da legislação que ficou mais conhecida como Obamacare, foi em Março de 2010, mas hoje, três anos e meio depois, continua ainda no centro da discussão política dos Estados Unidos.
Esta semana, esteve em destaque o Senador republicano Ted Cruz, que discursou, de forma ininterrupta, durante mais de 21 horas, no Senado, utilizando uma espécie de filibuster para evitar que a câmara alta do Congresso, dominada pelos democratas, votasse para derrubar uma proposta aprovada pela Câmara dos Representantes, sob controlo republicano, que retiraria os fundos governamentais necessários para a manutenção do Obamacare.
Ted Cruz, eleito em 2012 pelo Estado do Texas, é uma figura em ascenção no GOP e um potencial candidato presidencial em 2016. Com esta acção, o jovem senador ganhou reconhecimento nacional, mas, por outro lado, tornou-se uma figura controversa. Para os seus apoiantes, como os libertários e o Tea Party, o épico discurso de Ted Cruz foi um acto heróico e uma firme demonstração de defesa das suas convicções. Já para os seus detractores, foi apenas uma manobra publicitária desprovida de qualquer objectivo prático, visto que, mais tarde ou mais cedo, a votação seria realizada.
As reacções aos discurso de Cruz demonstram bem a enorme polaridade causada pela reforma da saúde. Três anos volvidos, a histórica peça legislativa continua a dividir opiniões. Obama e os democratas achavam que a reforma iria ganhar apoiantes à medida que as pessoas iam assimilando as vantagens do novo sistema. Contudo, as sondagens indicam que o aumento de popularidade do Obamacare é, no máximo, muito tímido. Não obstante, não deixa de ser verdade que uma curta maioria dos norte-americanos não vê com bons olhos as repetidas tentativas republicanas de reverter a lei que criou a reforma do sistema de saúde. Além disso (ou por causa disso), mesmo no seio do GOP se começam a levantar vozes contra a insistência do partido em combater o Obamacare, com alguns republicanos a temerem que a perservança seja entendida pelos eleitores como  radicalismo, o que, numa altura em que o GOP é cada vez mais criticado por estar sob "sequestro" da sua ala mais radical, não é algo que interesse ao partido de Lincoln.
No fim de contas, não será muito legítima esta batalha contínua em torno de uma legislação já em vigor há algum tempo e que já foi (indirectamente) sufragada nas urnas. Como recordou esta semana o senador republicano John McCain, a reforma da saúde foi um dos temas centrais da campanha presidencial do ano passado que, como se sabe, resultou na vitória de Barack Obama. Assim sendo, e devendo respeitar-se a vontade popular, que preferiu o candidato que originou e defendeu com unhas e dentes (e até deu nome) a reforma, o Obamacare é a law of the land e deverá ser respeitada, mesmo não se concordando com ela.

domingo, 21 de julho de 2013

Reforma da imigração nas mãos da Câmara dos Representantes

Continua a batalha legislativa pela passagem de uma histórica e ampla reforma das regras da imigração para os Estados Unidos da América. Com o apoio da Casa Branca, dos democratas e de uma parte minoritária mas influente do Partido Republicano, falta apenas a passagem da proposta de lei pela câmara baixa do Congresso norte-americano. Contudo, o último passo pode muito bem não chegar a ser dado e é possível que a reforma da imigração venha mesmo a morrer na praia.
No final do mês passado, as conversações do famoso Gang of Eight (um grupo bipartidário responsável por negociar e acordar o formato final da lei) foram bem sucedidas e, após algumas alterações realizadas para agradar aos republicanos (nomeadamente o fortalecimento da segurança das fronteiras), a proposta de lei foi finalmente apresentada no Senado que a aprovou com um resultado de 68 votos favoráveis contra 32 votos contra. Ao lado dos democratas e dos independentes, votaram 14 senadores do GOP. Apesar de os proponentes da proposta não terem atingido os 70 votos pretendidos, o resultado não deixa de ser positivo e encorajador para os defensores da reforma da imigração. 
Com a aprovação no Senado, ficava a faltar apenas o "sim" da Câmara dos Representantes - a promulgação da lei por parte de Barack Obama é um dado adquirido. Todavia, e ao contrário do que acontece na câmara alta, são os republicanos (na sua maioria, marcadamente conservadores) que estão na maioria e, aparentemente, pouco dispostos a votar favoravelmente a Border Security, Economic Opportunity and Immigration Modernization Act, o pomposo nome oficial da proposta de lei. 
Mesmo assim, ainda há esperança para a reforma da imigração e figuras proeminentes dos dois partidos estão a trabalhar no sentido de a verem passar na Câmara dos Representantes. No seio do Partido Republicano, cujos representantes decidirão o desfecho final, Marco Rubio, John McCain e até mesmo George W. Bush têm desdobrado esforços com o objectivo de conseguirem os votos suficientes para a passagem da proposta. Entre estes, Rubio é aquele que tem mais a perder, já que apostou muito do seu capital e futuro político na aprovação desta reforma. Se falhar, as suas ambições (inclusive presidenciais) ficarão seriamente comprometidas.
Mas também o Partido Republicano joga muito do seu futuro nesta questão. Como se viu nas últimas eleições presidenciais, o voto hispânico continua a fugir para o lado democrata a um ritmo assustador para os líderes do GOP. Se esta reforma da imigração for rejeitada pelos republicanos, então o bloco eleitoral com maior crescimento demográfico nos Estados Unidos poderá ficar definitivamente nas mãos do Partido Democrata. 
São, por isso, consideráveis e importantes as razões políticas que justificam a aprovação da reforma da imigração. Contudo, as razões morais são ainda mais poderosas, especialmente se tivermos em conta os ideais fundadores da nação norte-americana. Afinal, a Terra das Oportunidades e o Sonho Americano têm de estar acessíveis e a todos e a qualquer um.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Mulheres ao poder

Anunciam-se mexidas de vulto na equipa de Segurança Nacional do Presidente Barack Obama. Após quatro anos como Conselheiro de Segurança Nacional, Tom Donilon prepara-se para abandonar o cargo e a sua sucessor será nada mais nada menos do que Susan Rice, actual Embaixadora dos Estados Unidos na ONU. 
Como seria de esperar, a escolha de Rice para este importante posto na Administração Obama está a levantar fortes protestos por parte dos republicanos. Contudo, desta vez, e ao contrário do que sucedeu quando Susan Rice foi apontada para Secretária de Estado, o GOP não terá como evitar a sua nomeação, já que o cargo de National Security Adviser não carece de confirmação pelo Senado. 
Por sua vez, o lugar deixado vago por Rice deverá ser preenchido por Samantha Power, conhecida pelo seu empenho no activismo contra o gonocídio. Ao contrário do que acontece com a sua antecessora, Power terá de ser confirmada pelo Senado e, mesmo que a sua nomeação venha a ser aprovada, é de esperar uma forte onda de contestação por parte da bancada republicana, ainda que a ira dos senadores do GOP se centre mais em Susan Rice e Hillary Clinton (Benghazi voltará a estar em destaque) do que propriamente na candidata à nomeação para Embaixadora nas Nações Unidas.
Estas escolhas por parte de Barack Obama permitem retirar algumas ilações. Em primeiro lugar, são uma resposta às críticas que eram feitas relativamente à grande prevalência de homens brancos entre as mais recentes nomeações para altos cargos na administração. Depois, representam uma verdadeiro brinde para os liberais, grandes apreciadores de Susan Rice e, presumivelmente, de Samantha Power. Em sentido contrário, o Partido Republicano verá estas escolhas como uma verdadeira afronta por parte de Obama. A nomeação de Rice, em especial, é uma pequena declaração de guerra ao GOP, que já a havia vetado estrondosamente no processo de substituição de Hillary Clinton.  Contudo, com maior ou menor dificuldade, é praticamente certo que Obama levará a sua avante e colocará estas duas mulheres em lugares de destaque na sua equipa de Segurança Nacional.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Nas mãos de Rubio

Ainda que muito lentamente, continuam as negociações entre democratas e republicanos com vista à reforma da imigração no país. Com o apoio da Casa Branca de Barack Obama, é o o chamado Gang of Eight, constituido por oito senadores dos dois partidos, que lidera o processo que deverá levar à apresentação de uma proposta que possa ser aprovada pelo Congresso norte-americano.
Aparentemente, tudo aponta para que a reforma da imigração tenha já os votos suficientes para passar no Senado, mesmo tendo em conta que necessitaria de uma maioria de pelo menos 60 senadores para ultrapassar um eventual bloqueio através de filibuster. Contudo, o Gang of Eight pretende alcançar uma super-maioria, conseguindo o apoio de 70 ou mais dos 100 senadores e uma maioria entre os representantes dos dois partidos. Dessa forma, demonstrando força e consenso, seria bem mais provável que a Câmara dos Representantes, controlada pelos republicanos e cujos membros são bem mais voláteis e polarizados politicamente, aprovasse também esta reforma.
Com os votos democratas garantidos, assim como os de pelo menos quase uma dezena de senadores republicanos mais moderados, falta agora atrair os votos de republicanos relativamente conservadores. Para isso, a chave parece ser Marco Rubio, o senador da Florida e porventura a maior figura do Partido Republicano na actualidade. Filho de pais cubanos que imigraram para os Estados Unidos, Rubio foi um dos proponentes desta reforma que permitirá legalizar milhões de cidadãos ilegais no país e tornou-se o líder do GOP nesta questão. Com o seu apoio inequívoco, muitos dos congressistas republicanos terão maior propensão em aprovar a reforma da imigração. Caso contrário, terão na "desistência" de Rubio um excelente motivo para votarem contra.
Nos últimos tempos, Marco Rubio tem preferido manter um low profile, deixando o destaque para o Gang of Eight que integra. Todavia, é certo que terá sempre um papel determimante para o futuro da reforma da imigração. Ao apostar muito do seu capital político neste tema, Rubio tem também muito a ganhar e a perder. Se a reforma passar tranquilamente e de forma consensual no Congresso, então Rubio terá afirmado a sua liderança e será um concorrente de peso para as eleições presidenciais de 2016. Se, pelo contrário, a reforma falhar, então Rubio terá perdido a batalha que travou o seio do seu próprio partido, ao mesmo tempo que verá o voto hispânico fugir ainda mais dos republicanos, com todas as consequências eleitorais que daí advêm, como tão bem se tem visto nas últimas eleições.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O pior slogan de sempre


O congressista republicano Steve Stockman era, até Sexta-feira passada, um membro praticamente desconhecido da Câmara dos Representantes. Contudo, isso mudou quando, através da sua conta do Twitter, Stockam divulgou um novo slogan para a sua campanha de reeleição do próximo ano. "If babies had guns they wouldn't be aborted" é de um mau gosto tal que até parece retirado de uma peça satírica de um programa do género do The Daily Show.
Todavia, nem mesmo este disparate deve impedir Steve Stockman de ser reeleito, até porque as credenciais anti-aborto e pro-gun  que o congressista pretendia evidenciar com esta frase devem valer-lhe pontos num dos distritos mais conservadores dos Estados Unidos (o 14º do Texas). Ainda assim, os democratas podem utilizar exemplos como este para caracterizar o Partido Republicano como radical e extremista e, dessa forma, melhorar as suas (tímidas) hipóteses de recuperar a Câmara dos Representantes.

domingo, 3 de março de 2013

O sequestro fiscal

Infelizmente, por razões profissionais mas também de saúde, o Máquina Política não tem sido actualizado com a periodicidade do costume. Ainda assim, também é verdade que as últimas semanas não têm sido muito "agitadas", no que à actualidade política dos Estados Unidos da América diz respeito. Entre algumas outras questões, como a confirmação de Chuck Hagel como Secretário da Defesa ou a polémica em torno de alegadas ameaças da Casa Branca ao famoso jornalista Bob Woodward, o principal destaque noticioso tem recaído sobre o polémico "sequestro fiscal".
Importa recordar que, no final do ano passado, foi evitado o tão falado "precipício fiscal", que previa um grande aumento de impostos e brutais cortes na despesa federal de forma a reduzir o défice dos Estados Unidos. Contudo, esse precipício foi mais adiado do que evitado, já que a maioria dos cortes na despesa foram apenas adiados no tempo na esperança que democratas e republicanos chegassem a um entendimento antes que esses cortes entrassem definitivamente em vigor. Acontece que o prazo para um acordo entre os dois lados foi já ultrapassado e, no passado dia 1 de Março, entrou em vigor o tal "sequestro", que implementou uma série de cortes na despesa do Estado federal norte-americano, com especial ênfase em despesas militares.
Agora, com a redução na despesa federal efectivamente em vigor e sem que os dois partidos tenham chegado a um acordo, a principal batalha a decorrer é a da opinião pública. Barack Obama foi lesto a responsabilizar o GOP pelo falhanço negocial. Alertando para as consequências do "sequestro" para a economia americana, prevendo uma quebra do crescimento e um pequeno aumento do desemprego, Obama espera capitalizar com a actual grande impopularidade do Partido Republicano junto do eleitorado. Por seu lado, os republicanos culpam o Presidente pelo azedar das relações bipartidárias e vão dizendo que sempre foram defensores da redução da despesa como melhor forma de combater o défice.
Ainda que subsistam algumas esperanças num acordo tardio entre Barack Obama e John Boehner, o Speaker da Câmara dos Representantes controlado pelos republicanos, o mais provável que o "sequestro fiscal" continue em vigor, pelo menos durante as próximas semanas. Neste momento, a posição de Obama, com boas taxas de popularidade, parece melhor do que a dos republicanos, em baixa nas sondagens. Todavia, este cenário pode mudar rapidamente, especialmente se as consequências negativas do sequestro não forem muito sentidas pela maioria dos norte-americanos. Nesse caso, os republicanos veriam fortalecido o seu argumento da necessidade de reduzir a despesa federal para fazer face ao défice. Assim, o melhor é mesmo esperar para ver quem acabará por ficar refém deste sequestro.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O ocaso de Sarah Palin

O contrato de Sarah Palin com a Fox News, cadeia noticiosa de cariz conservador, terminou na passada Sexta-feira e não foi renovado, alegadamente por vontade da da antiga Governadora do Alasca e candidata vice-presidencial republicana em 2008. Assim sendo, Palin perde o seu meio de maior de exposição pública e de influência na arena política norte-americana. 
Decorridos pouco mais de quatro anos desde a entrada fulgurante em cena de Sarah Palin, que varreu como um furacão o panorama político dos Estados, a sua chama parece estar a apagar-se. De grande esperança e símbolos dos conservadores, Palin é agora uma figura praticamente marginal, mantendo a sua legião de fãs entusiastas, mas tendo uma má imagem junto da maioria dos cidadãos norte-americanos.
Com este passo, Sarah Palin dá a entender que estará pouco interessada em prosseguir a sua carreira pública. Contudo, é ainda muito cedo para decretarmos a morte política do maior fenómeno de massas que o Partido Republicano deu a conhecer aos Estados Unidos nas últimas décadas. Palin é ainda nova e tem tempo de recuperar a sua imagem pública, de forma a tornar viável uma nova candidatura a um cargo público. Aliás, manter-se afastada dos holofotes é até uma boa maneira de o conseguir, alheando-se de polémicas e preparando-se para um eventual comeback.
Seja como for, só a própria Sarah Palin saberá ao certo o que vai na sua cabeça. Nós, que vemos de forma, apenas podemos especular e desejar que este não seja o fim da carreira política da running mate  de John McCain. Até porque uma coisa é certa: goste-se ou não de Palin, a verdade é que ela não deixa ninguém indiferente.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O precipício fiscal aproxima-se

O Máquina Política está de volta, após um curto interregno, em que não tive muito tempo para escrever, devido, particularmente, à preparação da defesa da minha tese de mestrado e a um consequente período de descanso, mas também para evitar uma overdose de política norte-americana provocada pela sobreposição das eleições presidenciais de 6 de Novembro e da conclusão minha tese sobre o sistema eleitoral dos Estados Unidos.
Com o país do Tio Sam ainda em ressaca pós-eleitoral e em período de holidays, a actividade política do outro lado do Atlântico não é muito substancial. Nos últimos dias, a sucessão de Hillary Clinton e o fiscal cliff têm sido os assuntos dominantes na agenda política norte-americana. Em relação ao primeiro tema, tudo indica que Barack Obama estará cada vez mais inclinado a escolher Susan Rice, actual Embaixadora dos Estados Unidos na ONU como a Secretária de Estado para o seu segundo mandato na Casa Branca. Apesar de várias críticas que Rice tem recebido devido à sua reacção aos atentados de Benghazi por parte do Partido Republicano, em especial de proeminentes senadores do GOP, como John McCain ou Lindsey Graham, o Presidente tem feito questão de repetidamente a elogiar e defender, o que dá a entender que Obama já escolheu a sua nova responsável pela diplomacia norte-americana.
No que diz respeito ao fiscal cliff, a incerteza é maior e aproxima-se o precipício fiscal que chegará com o final de 2012, quando expirarem os cortes fiscais da era Bush e entrarem em vigor grandes reduções nas despesas federais. Ora, sem um acordo entre os dois partidos que permita prolongar esses cortes de impostos e minimizar os cortes na despesa, a economia norte-americana corre sérios riscos de entrar em recessão, com todas as consequências que isso acarreta para milhões de pessoas.
Após a vitória democrata nas últimas eleições, o partido de Obama sente agora que tem maior legitimidade para fazer valer a sua vontade. Por isso, a posição dos democratas tem-se concentrado na extensão dos cortes fiscais, excepto para os cidadãos com maiores rendimentos e no corte em despesas militares. Contudo, o GOP, apesar de já ter dado alguns sinais de abertura, continua pouco disposto a fazer grandes cedências, nomeadamente no que diz respeito ao aumento de impostos. Há mesmo, no seio do Partido Republicano, quem fale em não ceder um milímetro para os democratas e deixar que se ultrapasse o fiscal cliff. Todavia, há vozes mais sensatas no GOP e que pretendem chegar a um acordo, até porque compreendem que seriam os republicanos os mais responsabilizados pelos cidadãos americanos no caso de uma ruptura nas negociações.
Assim sendo, o mês de Dezembro será dominado pelas negociações entre os dois partidos que terão de chegar a um acordo que evite o fiscal cliff, mas que não aumente de forma substancial a dívida externa norte-americana. Como se percebe, este é um frágil equilíbrio que não será facilmente alcançável, especialmente porque a actual polarização política nos Estados Unidos não favorece acordos bipartidários.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A batalha pelo Congresso

Em ano de eleições presidenciais é normal que a corrida pela Casa Branca domine os destaques noticiosos e desvie muita da atenção das eleições para o Congresso. Este ano, com a disputa pela Presidência a ser mais renhida do que nunca, o relativo esquecimento das corridas para o Congresso e para cargos  estaduais é ainda mais notória. Assim, aproveitando esta espécie de pausa na campanha presidencial causada pelo Sandy, vale a pena fazer uma breve análise ao estado da corrida pelo Senado e pela Câmara dos Representantes.
Em relação à câmara baixa, já se sabia que, depois dos enormes ganhos do GOP nas eleições intercalares de 2010, em que os republicanos arrebataram a maioria na Câmara dos Representantes, seria muito difícil para os democratas, em apenas dois anos, estarem em posição de conseguir inverter a situação e voltarem a dominar a House. Para os democratas, a situação ficou ainda mais complicada, após o processo de redistricting que foi dominado, na maioria dos Estados, por legislaturas republicanas (consequência, também, das vitórias do GOP, em 2010) que souberam "trabalhar" o mapa dos congressional districts de forma a maximizar as suas hipóteses em eleições para a Câmara dos Representantes. Não obstante, é expectável que os democratas "roubem" alguns lugares ao Partido Republicano, ainda que esses ganhos não venham a ser suficientes para que Nancy Pelosi volte a ocupar o lugar de Speaker.
No Senado, a situação é muito semelhante. Actualmente, o Partido Democrata conta com uma maioria de 53 senadores, face aos 47 do lado republicano. Até há alguns meses atrás, a perda da maioria por parte dos democratas era um dado praticamente adquirido. Contudo, alguns erros de casting por parte dos eleitores republicanos nas primárias (à semelhança do que sucedeu em 2010) e gaffes monumentais por parte dos próprios candidatos do GOP (Todd Akin, no Missouri, e Richard Mourdock foram os casos mais gritantes, com os seus "estranhos" comentários acerca da questão do aborto em situações de violação). Assim, tudo indica que os democratas serão capazes de manter o controlo da câmara alta, não sendo totalmente impossível que consigam mesmo aumentar a sua maioria. Na minha opinião, o figurino do Senado não deverá sofrer grandes modificações e os democratas deverão ficar, após as eleições, com  uma representação entre os 52 e os 54 senadores.
Em conclusão, percebe-se que as eleições legislativas deste ano não devem trazer grandes novidades no que diz respeito à composição do Congresso norte-americano. Também por isso se entende que, neste ciclo eleitoral, as centenas de corridas por cargos na Câmara dos Representantes e no Senado não estejam a suscitar um grande interesse por parte dos media, que se interessam mais por verdadeiras horse races. Nesse aspecto, a corrida pela Casa Branca deste ano, totalmente em aberto, é imbatível.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A estranha estratégia de Mitt Romney

É agora praticamente consensual (mesmo no seio do Partido Republicano) que Mitt Romney está à frente de uma campanha medíocre, que tem cometido muitos e significativos erros de palmatória na corrida pela Casa Branca. Erros esses que estão a comprometer seriamente as aspirações presidenciais de Romney. As falhas tácticas têm-se repetido a grande ritmo, como a incapacidade da campanha se manter na mensagem centrada na economia (os democratas têm conseguido mudar o assunto em destaque por várias vezes), ou as declarações menos conseguidas do próprio candidato. Contudo, parece-me que o principal problema da campanha republicana é de ordem estratégica.
Mitt Romney foi um Governador republicano num dos Estados mais democratas da União, o Massachusetts. Por isso, sempre pensei que, durante a campanha pela eleição geral, Romney utilizasse esse ponto do seu currículo como argumento fundamental para apresentar o seu caso aos norte-americanos. Numa altura em que os Estados Unidos estão mais polarizados politicamente do que nunca, isso podia ser um ponto forte da sua candidatura, especialmente se fosse sublinhado pela referência ao falhanço total de Barack Obama em reduzir a crispação política em Washignton, que foi, afinal, uma das suas grandes promessas eleitorais, em 2008.
Todavia, as referências ao seu passado como líder do governo estadual do Massachusetts estão praticamente ausentes do discurso de Mitt Romney, que prefere passar uma esponja por cima desse período da sua vida e virar de forma pronunciada à Direita. Provavelmente, Romney teme alienar parte da base republicana, ao lembrar que, em tempos, se assumiu como um republicano moderado, capaz de chegar a acordo com a larga maioria democrata na legislatura estadual do Massachusetts e que implementou mesmo um sistema de saúde no Estado muito semelhante ao agora vilipendiado Obamacare
De facto, é possível que as alas mais à Direita no GOP não ficassem muito agradados com a possibilidade de elegerem um Presidente republicano que governasse ao centro. Porém, se Romney definisse claramente a escolha dos eleitores norte-americanos como uma decisão entre um republicano moderado, que conseguiu ser eleito no liberal Massachusetts, e um democrata liberal, que, no Senado, teve um historial de votos claramente à Esquerda, alargaria, quase de certeza, o número de eleitores que seria capaz de alcançar. Além disso, ao romper definitivamente com o seu passado no Massachusetts, Romney fortaleceu a sua imagem de flip-flopper e de alguém que diz o que for preciso para ser eleito.
É verdade que Romney permaneceu bem ancorado à Direita, depois de umas primárias republicanas em que foi obrigado a manter um discurso mais conservador do que provavelmente gostaria. Muito mérito tem também de ser atribuído à campanha de Obama, que, desde 2011, ciente de que ia ser Romney o nomeado do GOP, conseguiu caracterizar o eventual nomeado republicano como um candidato muito conservador, incrivelmente rico e completamente desfasado da realidade do cidadão norte-americano comum. 
Contudo, parece-me evidente que a campanha de Romney tomou várias decisões erradas e escolheu uma estratégia que, para já, não está a dar frutos e que pode custar a Casa Branca ao Partido Republicano.

domingo, 16 de setembro de 2012

A corrida muda de figura

As últimas semanas trouxeram, sem dúvida, muita actividade e uma nova dinâmica à corrida presidencial norte-americana. As convenções nacionais, o discurso de Bill Clinton e a crise no Médio Oriente transformaram a campanha eleitoral e alteraram o cenário da disputa pela Casa Branca, numa altura em que estamos a menos de dois meses da grande noite eleitoral.
Em primeiro lugar, as convenções dos dois partidos tiveram um forte impacto na campanha, com clara vantagem para os democratas. De facto, Barack Obama viu os seus números nas sondagens subirem significativamente depois da Convenção Nacional Democrata, e isto apesar de o seu discurso não ter sido empolgante nem brilhante. Contudo, até deverá ter sido essa a intenção de Obama, a querer assumir-se como Presidente, apostando numa postura sóbria e realista, em contraste com a imagem idealista e sonhadora da sua campanha de há quatro anos. 
Assim, da convenção democrata, sobressaiu especialmente o discurso de Bill Clinton, que foi o primeiro democrata a conseguir defender de forma efectiva o primeiro mandato de Obama na Casa Branca. No fundo, os democratas foram capazes de responder à pergunta que teimava em assombrar a campanha de Obama: estão os norte-americanos melhor agora do que há quatro anos? A julgar pela subida do Presidente nas sondagens, parece que Clinton conseguiu convencer a maioria dos cidadãos norte-americanos que a resposta a esta pergunta é sim.
Mais recentemente, surgiu a inesperada crise no Médio Oriente, com um ridículo filme amador divulgado no Youtube a incendiar os ânimos do mundo muçulmano, que se vingou, em muitos países, nas embaixadas dos Estados Unidos, levando mesmo à morte de cinco americanos, entre os quais o Embaixador na Líbia. No despoletar da crise, Mitt Romney foi rápido a criticar a resposta do Departamento de Estado, em especial uma nota da Embaixada norte-americana no Cairo divulgada antes dos ataques e que simpatizava com os protestos da comunidade islâmica e criticava o filme em questão. Todavia, o tiro de Romney saiu-lhe pela culatra, com os media a condenarem a campanha do nomeado republicano por tentar retirar dividendos políticos numa altura que deveria ser de união nacional. 
A posição da campanha republicana foi, a meu ver, precipitada. Terão visto nesta crise uma oportunidade para desafiarem a primazia de Obama num tema, a política externa, que, até há pouco tempo, "pertencia" aos republicanos. Acontece, porém, que o ataque político não teve o timing devido, já que é norma nos Estados Unidos que, aquando de um ataque externo, todos os agentes políticos se coloquem por detrás do Commander-in-Chief. Se as críticas de Mitt Romney tivessem vindo num momento posterior, talvez tivessem algum efeito. Assim, o que o candidato do GOP conseguiu foi minar ainda mais a sua imagem no campo da política externa, em contraste com a postural presidencial adoptada por Obama.
Todavia, não deixa de ser compreensível a precipitação da campanha republicana, que, após o bounce de Obama nas sondagens, após as convenções, necessitava urgentemente de algo que pudesse inverter o rumo dos acontecimentos. A jogada, ao que parece, não correu bem, o que veio sublinhar ainda mais a mudança do status quo da campanha pela presidência. Agora, e apesar da vitória estar ainda ao alcance de qualquer um dos candidatos, temos um claro frontrunner: Barack Obama.